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LEONISMOS

LEONISMOS

09
Mai16

Pertenço oficialmente ao bairro


Leonardo Rodrigues

É verdade, uns meses depois de regressar àquele que foi o meu primeiro bairro lisboeta, só agora sei que faço novamente parte do mesmo. Isto não tem nada que ver com mudanças oficiais de morada, de centro de saúde, com poder dar indicações de olhos fechados, muito menos com receber a correspondência nesta nova casa. São pequenas coisas que ocorrem, como sorrir para alguém que vemos todas as manhãs na rua ou a senhora da padaria sentir que pode desabafar connosco sobre o seu dia. Várias pequenas grandes coisas destas fazem-me sentir confortável, enquadrado, mas há uma que me toca especialmente: chegar ao café e ver alguém a se dirigir para a máquina sem eu ter que abrir a boca. Gosto de que o bom dia seja dado quando me estão a colocar o café à frente, só aí é que os meus grandes olhos castanhos se abrem. Para além disto há mais um detalhe que gosto particularmente, só quando já estou a beber o café, depois de o ter mexido, é que me dão o pacote de açúcar a que tenho direito. Sabem que não bebo café com açúcar, mas que o levo para casa. Eles reparam, eu também. 

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Esta fotografia foi tirada no Café da Garagem. Infelizmente ainda não consegui encontrar a casa ideal para estes lados da cidade.

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

26
Dez15

Resolução para 2016


Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

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15
Dez15

Abrigo dos Sem Abrigo


Leonardo Rodrigues

Este é um post diferente dos que tenho feito até agora, o que vos vou mostrar de seguida é o meu trabalho final para a cadeira de fotojornalismo, onde as imagens tem de ser mais fortes do que as palavras.

 

Inicialmente pensei em fazer um portfólio que consistia em fotografar desconhecidos, que via com frequência, e fantasiar acerca das suas histórias, mas a realidade acabou por se impor sobre a ficção.

 

Há uns dias, após regressar ao meu primeiro bairro em Lisboa, passei por um sem abrigo que já não via há um ano. Notei que ele agora fazia algo pelos trocos que pedia, pintava. Não eram coisas tristes e sem cor, ou só com duas cores, os desenhos eram alegres, cheios de vida, com mais cores do que as do arco-íris. Isto agora fez-me lembrar o trecho dum dos meus poemas favoritos de Pessoa, "E canta como se tivesse/Mais razões pra cantar que a vida."

 

Fiquei contente, claro, mas segui caminho, afinal de contas é o que toda a gente faz, mesmo em vésperas de natal.

 

No dia após o meu reparo, quando acordei sentia um conforto tremendo ao estar quentinho na cama e a ouvir o bonito som da chuva, que não me podia tocar. Depois, como é costume, comecei a percorrer o bairro mentalmente, árvores e carros em frente, bom dia ao senhor do café à direita, esperar pelo verde à esquerda e lá estava ele, o sem abrigo pintor.

 

Acontece que não era um dia como os outros que têm contrariado as leis do inverno, chovia e muito. Onde é que ele se estava a abrigar, perguntei-me, e como? Sei que existem sítios onde podem passar a noite, mas nem todos o fazem.

 

O sítio onde este passa as noites não sei se encontrei, mas no meu percurso desde Sete Rios até aos Restauradores capturei vários "abrigos" que metem dó a qualquer um, então na Avenida da Liberdade não há quem os esconda, embora todos o tentem ignorar.

 

Abaixo estão alguns dos abrigos dos que não têm abrigo. Feliz natal e, em época de agradecer coisas, agradeçam-se o presente de terem um teto e uma cama.

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03
Ago15

Drama!


Leonardo Rodrigues

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Quando não há, inventa-se.

 

Porquê e para quê, perguntam-se e pergunto-me.

 

Chego a uma conclusão, o drama serve para conferir sentido. É a forma que alguns escolhem para dar sentido à vida que, de si, tem pouco ou nenhum. O esforço é mínimo, a irritação do povo que percebe máxima. E isto, diga-se de passagem, é mórbido.

 

Mas, mórbido ou não, o entretenimento egoísta de um dos intervenientes é sempre garantido. Entretem-se reproduzindo uma telenovela que sempre teve e terá o mesmo enredo e onde apenas, com sorte, se varia o nome das personagens.

 

Pois bem, se há coisa que sei é: quando a telenovela começa é hora de mudar o canal.

 

22
Jul15

Entrevista a Paulo Borges


Leonardo Rodrigues

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Foto de Adama 

 

Hoje dou início a uma nova rubrica no blog, Conversas com Vista. Tenho dizer que não poderia ter escolhido melhor Pessoa do que Paulo Borges para começar. Houve aqui espaço para conversar um pouco sobre tudo: da meditação à família, do afastamento do PAN à candidatura a Presidente da República. Que a Conversa fale por si e alargue as Vistas de quem ler.

 

LR:  Quem é Paulo Borges?

 

PB: A designação que as convenções humanas dão a um fluxo de consciência e energia inseparável de todo o cosmos e sem princípio nem fim.

 

LR: “Nós pensamos sempre menos do que aquilo que somos”. Disse isto enquanto falava  acerca de budistas, no 5 Para a Meia Noite. Porque é que estamos constantemente a diminuirmo-nos? 

 

PB: Porque a consciência condicionada pelo pensamento e pela linguagem está sempre vários graus abaixo do nosso ser ou natureza ilimitados e profundos. Mas muitas vezes fazemos exactamente o contrário e vangloriamo-nos disso que em nós é mais estreito e pequenino, pois é com isso que nos identificamos, devido às nossas ilusões, incentivadas pela pressão familiar, educativa e social.

 

LR: Procuramos constantemente a felicidade no exterior, quer seja em coisas ou pessoas - a sociedade assim o ensina. Como é que o Paulo colocou o travão neste sistema de coisas?

 

PB: Eu estou apenas em processo de travagem e de reorientação desse impulso para a descoberta da paz e da felicidade nas coisas simples que nada nem ninguém nos pode dar ou tirar: a alegria de ser, o prazer de respirar, a volúpia de contemplar o mundo, o dom de amar e ser grato... A partir daqui podemos relacionar-nos com os outros e o mundo de outro modo: não centrados na carência e no desejo egocêntrico de ser felizes (que tantas vezes nos levam a instrumentalizar os outros), porque já o somos, mas na correspondência amorosa e compassiva às necessidades reais dos outros seres. Para mim a reflexão e a meditação têm sido o caminho fundamental, após o inevitável e precioso fracasso e dor da frustração da busca da felicidade no exterior.

 

LR: Parar de olhar para o exterior implica olhar para dentro. Contudo, isto por vezes dói, nem toda a gente gosta do que lá está. Há alguma forma simples de se chegar à auto aceitação?

 

PB: Creio que chegamos lá quando vemos que não há alternativa e que não adianta continuarmos a fugir para a frente, inventando histórias cinzentas ou cor-de-rosa acerca de quem somos, pois nunca escapamos à verdade nua e crua do que vamos sendo, tal qual.  No fundo a auto-aceitação não é difícil. Muito mais difícil é querermos ficar apenas com uma parte do que há em nós, suprimindo o resto, ou transformarmo-nos numa versão ideal de quem supostamente deveríamos ser, a nossos olhos ou de acordo com as expectativas alheias, o que só gera conflito, ansiedade e sofrimento. A verdadeira transformação acontece quando aceitamos trabalhar com a matéria-prima da nossa experiência, sensações, emoções e pensamentos, a cada instante. Se entrarmos a fundo na sua natureza poderemos ter a grata surpresa de descobrir que, por mais obscuros, limitadores e negativos que pareçam ser, há lá no íntimo um silêncio, uma paz e uma luz sempre presentes. A meditação é aqui uma vez mais fundamental.  

 

 

LR: Para além de Filosofia, ensina a meditar. Como é que a meditação funciona? De que modo é que esta prática nos possibilita uma mudança no relacionamento que temos connosco, com os outros e com o mundo?

 

PB: A meditação é o treino regular para reencontrar o estado natural da consciência, atenta ao aqui e agora, ao que se passa no corpo, na respiração, na mente e à nossa volta, de modo calmo, descontraído, claro e livre de juízos, apego, aversão, medos e expectativas. Com a mente serena e atenta, começamos a sentir e compreender que não estamos separados do mundo e de nenhum ser vivo. Entramos a pouco e pouco num estado menos dual de consciência onde a empatia amorosa e compassiva se estendem naturalmente a todas as formas de vida, sem discriminações. Claro que, enquanto estamos no caminho, como é o meu caso, não ficamos sempre neste estado, porque ressurgem os hábitos mentais e tendências emocionais dualistas que estão fortemente enraizados, mas temos vislumbres que não nos deixam dúvidas de que o aperfeiçoamento, o despertar e a libertação são possíveis. 

 

LR: Sei que medita duas vezes por dia, no entanto durante o correr do dia muitas são as distrações, muitos os pensamentos. Como é que se pode trazer a atenção para o aqui e agora, em qualquer situação?

 

PB: Treinando-nos a prestar a cada instante atenção ao que estamos a sentir e pensar e ao que está a acontecer. Se caminhamos trazemos a atenção para o contacto dos pés com o solo, se tomamos banho sentimos a água a correr pelo corpo, se comemos sentimos bem o sabor dos alimentos, se conversamos prestamos atenção ao som e ao sentido das palavras, se temos emoções observamo-las, se pensamos contemplamos os pensamentos em vez de nos perdermos neles, se vemos o mundo à nossa volta contemplamos o que vemos sem nos distrair com juízos e interpretações. Podemos usar estratégias como programar um sinal no telemóvel para, de 30 em 30 m ou em períodos mais estreitos, nos recordar para sairmos do piloto automático ou dos devaneios no passado e no futuro e prestarmos atenção ao momento presente. Se nos sentarmos uma, duas ou mais vezes por dia a treinar isto, torna-se mais fácil manter ou reencontrar a atenção plena em todas as situações. A isto chama-se meditação em acção, que não pode dispensar a sua base, a meditação formal sentada, numa almofada ou numa cadeira. Explico isto mais detalhadamente no meu último livro, O Coração da Vida, um guia prático de meditação. Considero a meditação, como alguém disse, a “grande Revolução Silenciosa do século XXI”, que está hoje no centro das atenções das neurociências e a entrar cada vez mais nas escolas, nas empresas, nos hospitais e nos projectos de transformação social e de sensibilização ambiental. 

 

LR: Quando é que se apercebeu que matar para comer não faz sentido?

 

PB: Desde criança que me vinha à mente o pensamento de que os animais que eu comia tiveram de ser mortos e que certamente não o desejaram e tinham sofrido terrivelmente com isso, mas como eram pensamentos incómodos e não via alternativas rejeitava-os e pensava noutra coisa. Até que a consciência despertou para isso ser eticamente inaceitável e haver alternativas muito acessíveis e bem mais saudáveis. Todos ganham com uma dieta vegetariana e de preferência vegana, os animais, os humanos e a Terra, pois o consumo de produtos de origem animal tem um imenso impacto ambiental. 

 

LR: Que lhe ocorre quando pensa a morte?

 

PB: Num sentido uma mudança um pouco mais profunda e imprevisível do que aquela que acontece a cada instante (pois sinto que morro e renasço a cada momento), uma vez que será acompanhada do fim do funcionamento do corpo e da percepção actual do mundo. Noutro sentido, uma transformação na continuidade, pois não me parece possível que o fluxo da consciência se interrompa. Devo dizer que desde criança, muito antes de me reconhecer na visão budista do mundo, sentia claramente que tinha existido antes do nascimento e que continuaria a existir depois.

 

LR: Muitas vezes ao lê-lo e ouvi-lo noto uma certa descrença face aos sistemas e aos partidos para dar resposta aos problemas do mundo. É esta descrença que o leva a abandonar o PAN?

 

PB: Sinto essa descrença desde a adolescência, apoiada em tudo o que vi durante e após o 25 de Abril de 1974 e na leitura que faço da história política da humanidade. Desde muito cedo que adquiri uma consciência libertária e me tornei convicto de que a luta pelo poder e a posse do poder corrompem o que há de melhor no ser humano. Fiz todavia um esforço por contrariar essa descrença ao ver surgir e abraçar um projecto como o do PAN, que me pareceu tão solidamente alicerçado em bases éticas e altruístas que poderia efectivamente ser um partido diferente, ou seja, como no slogan que propus e foi aceite, “um partido inteiro, pelo bem de tudo e de todos”. Infelizmente constatei a minha ingenuidade e confirmei, por tudo o que vi e acompanhei tão de perto, que um partido político atrai por natureza pessoas ávidas de protagonismo, carreirismo e poder e estimula o que há de pior no ser humano (não me excluo, de modo algum). Os partidos políticos e a democracia representativa a meu ver promovem inevitavelmente o carreirismo dos dirigentes e a desresponsabilização dos eleitores, que acham que a cidadania se cumpre com a participação num acto eleitoral de vez em quando. Por tudo isto saí do PAN para abraçar o novo projecto de que falo mais à frente.

 

LR: No seu website lê-se que à semelhança de outras grandes personalidades anseia pela “criação de uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, políticas e religiosas”. Estamos no caminho certo? Será tal coisa possível?

 

PB: Creio ser possível tudo aquilo que os seres humanos desejarem com suficiente energia e empenho. Tudo depende de acharmos ou não que isso seria o melhor para todos e para o planeta. Quando falo nessa comunidade ético-espiritual mundial que superasse as diferenças religiosas, culturais, nacionais e ideológicas, não quero dizer que as anulasse, mas que as integrasse numa harmonia superior, onde pudessem coexistir e conviver num diálogo pacífico, compreensivo e harmonioso. Creio que há cada vez mais seres humanos que se encaminham nesse sentido, embora haja também muitos movimentos e fenómenos de sinal contrário, como os fundamentalismos de todos os tipos. Acredito todavia que esse é o melhor caminho para a paz exterior e interior na Terra.

 

LR: Algo que sempre me incomodou, desde muito novo, é não ter a certeza se o conceito de verdade existe. O que é que o Professor Paulo Borges diria a um dos seus alunos perante tal inquietação?

 

PB: Bom, creio ser inegável que existem diversos conceitos acerca do que é a verdade, por sinal muito distintos entre si. O que podemos duvidar é se há realmente uma verdade para além dos distintos conceitos ou interpretações acerca do que é a verdade. Tendo a pensar, também baseado na experiência meditativa, que essa verdade existe, no sentido de uma natureza ou essência profunda do real, de todas as coisas e de todos os seres, infinita e ilimitada, mas que é por isso mesmo completamente impensável, inconceptualizável, indizível e inimaginável, pois transcende completamente os limites dos nossos conceitos, palavras e imagens, que por natureza só nos permitem expressar coisas e objectos definidos pelos sentidos e pela mente. Mas o facto de ser informulável e não poder ser jamais captada numa doutrina ou teoria – seja científica, filosófica ou religiosa – ou numa representação imagética, não significa que a ciência, a filosofia, a religião e a arte não nos possam dar vislumbres dela e que não se possa de todo experimentar de forma directa, por exemplo no silêncio ou em experiências de abertura da consciência, quando abandonamos tudo o que julgamos ser ou saber. Isso acontece, como dão conta inúmeros testemunhos desde há milénios até aos dias de hoje, em todo o tipo de estados diferenciados de consciência: na meditação e na contemplação, na oração, na dança, no yoga, na exacerbação do movimento físico, no arrebatamento erótico ou amoroso, na plenitude do acto sexual, na fruição estética, no êxtase criador, na comunhão com a natureza, etc., etc. 

 

LR: Do seu mais que vasto currículo e bibliografia, qual considera ser o maior feito?

 

PB: O que nunca fiz nem farei. O infinito que jamais se faz e antes nos desfaz, a nós e a tudo o que fazemos, dizemos e pensamos. É isso que me move e inspira em tudo o que penso, digo e faço. 

 

LR: Colocando de parte a vertente profissional, de que é que se orgulha? O que faz de si uma pessoa realizada?

 

PB: Nos meus melhores momentos, o não me orgulhar de nada e nem sequer sentir que existo como alguém ou algo, distinto dos outros e do mundo. 

 

LR: Em que pilares assenta a sua família?

 

PB: Sinto que herdei da minha mãe e da minha avó materna o amor pelos animais e do meu pai e avô paterno o amor pela justiça social. Do meu pai recebi também o gosto pela espiritualidade, pela filosofia e pela busca de conhecer as leis fundamentais da vida. Tenho a alegria de ter hoje uma família alargada, com a minha companheira, filhos, irmã, cunhado e sobrinhos onde o amor por todas as formas de vida e uma ética da não-violência são princípios e valores sólidos. 

 

LR: Tem alguma novidade para breve que queira partilhar? 

 

PB: Sim, que sou candidato à presidência da República em 2016 e que esta candidatura é simultaneamente o lançamento de um movimento cívico apartidário que visa criar um dinamismo social permanente para o Bem comum dos humanos, dos animais e da Terra fora da política convencional. A candidatura / movimento chama-se Outro Portugal Existe e pretende constituir uma plataforma de pensamento e acção que desenvolva e promova tudo o que já se faz em Portugal, em sintonia com iniciativas semelhantes em todo o mundo, de ético, saudável e sustentável, nos mais diversos domínios. Procuramos consciencializar esses diferentes grupos, iniciativas e pessoas de que já convergem para um paradigma cultural e civilizacional alternativo ao que hoje entra em crise e morre. Se todos nos unirmos, mais facilmente poderemos ser desde já a diferença que queremos ver no mundo e relativizar o Portugal institucional, do Estado, dos governos e dos partidos, a um papel marginal e cada vez mais insignificante na nossa vida colectiva. 

Para a candidatura seguir em frente necessitamos de 7500 assinaturas e se desejarem ajudar a recolhê-las podem escrever para amigos@outroportugalexiste.pt

 

LR: Ficou algo por ser dito?

 

PB: Tudo está sempre por ser dito, mas menos com palavras e mais com a Vida.

 

06
Jul15

O que esperar quando se espera: pouco, provavelmente nada


Leonardo Rodrigues

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Queria muito escrever sobre amor, mas pior do que me faltarem as palavras é faltar-me o amor.

 

E, ainda pior do que me faltar o amor, é não saber se tal coisa realmente existe, se é mais uma das loucuras que a Disney em parceria com os nossos pais nos meteram na cabeça quando éramos mais novos. 

 

Já acreditei várias vezes que tinha encontrado o tal grande amor da minha vida, mas não tinha, ou não me tinham encontrado. Quanto a quem acreditou ter encontrado em mim, não consegui encontrar de volta. Passamos assim uma vida, a imitar retas paralelas que por mais que gostem uma da outra vão estar sempre desencontradas. 

 

Recentemente julgo que tive(mos) a Oportunidade da minha(nossa) vida. Quando temos Oportunidades que se escrevem com letra maiúscula tentamos agarrá-las com tanta força que desaparecem por completo. Os que já se permitiram agarrar a areia, mesmo sem saber porquê, puderam aprender esta lição da natureza.

 

Estas Oportunidades, se estiverem a ser vistas de ambos os lados da mesma forma, vêm com expectativas mútuas - fabulosas, mas que só acontecem nos guiões dos filmes, na vida real é preciso tempo. Este tempo, por mais bonito que seja, para ter rótulo de qualidade, tem de estar livre do pensamento “Isto tem de resultar”. 

 

Algo que supera a loucura das expetativas talvez seja a vontade desmedida de agradar, o medo de se dizer algo de errado, quase que o medo de sermos nós próprios - não vá o outro não gostar de qualquer coisa - , e assim se destrói o que começou naturalmente com um futuro. Não matamos apenas o que era, mas o que é e o que poderia ter sido. 

 

Enfim, meus caros, nada de esperas e uma boa dose de calma. O que tem de acontecer acontece, quando é suposto. Vamos lá ver o que está reservado no próximo fascículo que ainda não foi escrito. 

 

Depois do desabafo que não queria muito desabafado, mudei o meu estado de relacionamento para “à procura de ser encontrado”.

 

 

20
Jun15

“Não, obrigado"


Leonardo Rodrigues

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"Não, obrigado".

 

Foi isto que ouvi hoje por parte de um sem abrigo a quem tentei oferecer algum dinheiro.

 

Costumo ver este senhor, quase todos os dias, a comer à porta de um prédio para o qual a minha janela tem vista.

 

Sempre o vi com comida e nunca senti necessidade de ajudar. Não sabia era de onde vinha essa comida. 

 

Há umas horas vi-o a vasculhar os caixotes de lixo de todos os prédios da rua. Acabei o meu vinho, agarrei em todo o troco que tinha em casa e desci as escadas a correr, continuei a correr rua abaixo feito herói - afinal de contas ia conseguir pagar um jantar, achava eu, a quem claramente precisava.

 

Com toda a dignidade que o senhor merece, dei-lhe boa tarde, disse que o tinha visto - não havia necessidade de dizer a fazer o quê, afinal estava a remexer o fundo de um caixote - e expliquei que lhe queria dar algum dinheiro. A isto ele respondeu-me com um simples “Não, obrigado”. Eu, sem perceber muito bem, insisti. Na segunda tentativa ouvi “Não, obrigado, eu não preciso”. Novamente, ignorei o que me tinha sido dito e, porque à terceira é de vez, perguntei se aceitava comida, ele repetiu o mesmo “Não, obrigado” inicial, só que desta vez olhou-me nos olhos e eu quase que percebi. Desejei-lhe um bom dia e voltei para casa na mesma velocidade com que o tentei ajudar.

 

Não sei bem se não aceitou por não querer ser ajudado ou por não se achar digno de ser ajudado, orgulho não deveria ser. Espero é que o facto de não o ter tratado como algo de invisível lhe tenha servido de alguma coisa, quiçá isto se revele mais valioso do que um jantar. Por vezes, saber que há alguém a querer ajudar é mais importante do que a ajuda em si. E, a verdade seja dita, ninguém me pediu nada, vou tentar ficar mais atento aos que me pedem, há sempre alguém a precisar de um herói.

 

A fotografia foi retirada de festivaldc.com 

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

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