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LEONISMOS

LEONISMOS

15
Set17

Alzheimer: viver sem a memória de quem somos


Leonardo Rodrigues

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Ter Alzheimer é o mesmo do que viver sem termos bem consciência de quem somos, apenas do que fomos.

Foi isso que senti ao ver a senhora a quem aprendi a chamar de avó, embora não o fosse biologicamente, na minha última visita a casa. Vi-a, sem exagerar, quase diariamente durante 18 anos.

Antes de me mudar, presenciei um momento inicial da sua perda de lucidez, ainda não tinha feito noventa. Estávamos a contar dinheiro e ela encontrou uma moeda estrangeira, fazendo questão de o referir com entusiasmo. Depois, voltámos a contar o dinheiro e, assim que chegámos à tal moeda, aconteceu novamente. Aconteceu uma terceira vez. Coloquei a moeda de lado, e fizemos uma última contagem.

É avassalador ver a nossa avó assim. A senhora que tomou conta de nós, que nos via à distância, que nos contava histórias - que não tivessem de ser censuradas - com tamanha lucidez e detalhe que era o mesmo que recuarmos a outra época, e ver a nossa terra quando tudo era diferente. 

Agora é muito isso que resta, o passado. Estivemos a ver dois dos meus álbuns, mesmo sem que ela tivesse bem a consciência de quem era. Por vezes dizia, este é o Leonardo. Outras, este és tu, não és? E, olha, esta sou eu, verdade? Com uma inocência e doçura nos seus lindos olhos azuis. O seu cabelo cinzento e olhos azuis são coisas que nunca mudaram.

Em vez de estar a reconhecer uma moeda diferente, ela estava a fazer um esforço para conhecer caras que viu durante 50, 20, 30 anos.

E depois lembrei-me que, quando estava no 10º ano, pensei que seria bom escrever um livro sobre a vida daquela Mulher. Mas isso foi impossível, ela não conseguia falar na presença de um gravador ou de um bloco de notas e caneta. E eu nunca tive a memória dela. 

Mas há uma história que, para mim, merece ser partilhada. Quando ela era mais nova, as escolas dos meninos e das meninas eram separadas por alguns quilómetros, naquela terra. E não é que eles não tivessem um olho apurado, tinham mais ainda. Sempre que passavam ao lado da escola, começavam a gritar "Maria Isabel vai casar com o doutor Abel", todos os dias, deixando a minha avó corada. E isso aconteceu. Ela esperou que ele regressasse da tropa, tiveram vários filhos e sempre acolheram toda a gente que por aquela casa passasse. Só a morte os conseguiu separar.

Depois de cuidar de tanta gente, eu inclusive, chegou à altura de cuidarem dela, mesmo que nem sempre saiba o que acontece. Ainda faz ponto cruz, sabe a tabuada, canta as músicas que louvam Salazar e continua a querer ir à missa. Sempre que é fim de semana, e a filha diz que vão à terrinha, vai logo fazer a mala.

E eu despeço-me, sempre consciente de que ela já não sabe quem sou, com memórias que cheiram a bolos, milho e vindimas. 

 

 

08
Set17

Objetos onde vivem histórias


Leonardo Rodrigues

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Quando era mais novo, pensava que o mundo possuía mais magia do que agora. Acreditava, entre muitas coisas que lá descobri não serem verdade, que os meus peluches, embora não me respondessem, eram dotados da capacidade de ouvir e sentir.

Justificava o facto de não se mexerem, nem produzirem som com o processo de fabrico. Mas claro que o coelho azul que me fazia companhia tinha, de alguma forma, o sopro da vida lá dentro. Claro que lhe podia confidenciar o que me inquietava, num mundo que nunca chegaria a perceber. Ainda mais natural era pedir desculpa quando tinha sido injusto, não havia culpa nele. O mesmo para as árvores, e assim por diante.

Por algum motivo, comecei a lembrar-me disto ontem, quando finalmente consegui instalar este candeeiro turco que comprámos em Istambul. Vê-lo aceso trouxe-me de volta à loja, que se encontrava numa rua ladeada por árvores bem verdes. Lá quase só se vendiam candeeiros e sabonetes artesanais. Que raio de combinação, pensei eu!

Mas não é apenas isso, o rapaz que nos vendeu o candeeiro, quase à hora do sol se pôr, era sírio. Falava um inglês que se aprendia ao ritmo lento do turco, mas que fora suficiente para termos uma conversa que vou guardar para sempre. Disse-me que a vida no país que ama acabou e que, embora a família ainda lá esteja, sente-se otimista com o novo começo, num país cheio de cor e vida. Prova disso foi ter-me dito baixinho, como se fosse para Alá não ouvir, que tinha fumado, embora não tivesse violado o jejum da comida - mandatório durante o Ramadão. Claro que não percebi esta escolha, mas não me cabia a mim questioná-la. Como me disse, era a vontade inquestionável de Alá.

Neste candeeiro que agora vai ser aceso todos os dias guardo a viagem, as pessoas e as emoções que tudo me trouxe. Por isso acumulamos coisas. Afinal os objetos realmente têm vida, mas que depende de nós e das histórias e emoções que neles depositamos.  É tudo sempre nosso.

21
Ago17

A mulher que está no mesmo sítio há 20 anos


Leonardo Rodrigues

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Cruzamo-nos com as pessoas mais extraordinárias todos os dias. Arrisco-me a congeminar que todas o são, pudéssemos nós ouvir as suas histórias e pensamentos.

Geralmente deixo-me levar pelas histórias que vou construindo, mas é sempre melhor ouvi-las. Não há muito tempo, estávamos a caminhar debaixo do sol ardente de Atenas, quando dei por mim a subir uma rua para entrar numa galeria de arte, algures no bairro de Plaka. 

Era um sítio apetecível para um turista deslumbrado com a Grécia, com pinturas que mostravam o melhor do país e do mundo. Os quadros eram de um único autor, cujo nome tenho num cartão. 

Não demorou muito até começar a conversar com a única pessoa que lá estava. Era uma mulher nos seus quarentas, com imensa vida dentro dela, um olhar taciturno e um sotaque inglês super peculiar. Era a mulher do artista.

Questionei-a, com entusiasmo, o quão maravilhoso era ter visitado aqueles locais todos. Ela disse-me que não viu nenhum, e que está em Atenas há 20 anos, desde que veio da Albânia à procura de uma vida melhor.

Ele pinta, ela vende. Assim é todos os dias da semana, de manhã à noite. Falámos pouco mais, já que entretanto me tinha desencontrado da minha companhia.

Desde então que penso nesta conversa, na forma como as palavras se organizaram e expressão que tinha no rosto.

Nenhuma forma de viver é errada, caso os olhos indiquem que está tudo bem. Poderemos, nós, deixar-nos ficar no mesmo sítio da vida, contra a nossa vontade? Ou melhor, estamos no sítio onde queremos estar?

 

26
Jul17

Lição: "Fui freira, mas aprendi tudo com a televisão"


Leonardo Rodrigues

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Nestas férias, que tanto bem fizeram, voltei ao sítio que chamei de casa durante os meus primeiros 18 anos de vida, após 2 de ausência. 

Tinha tudo para ser o mais desafiante. Era a primeira vez que apresentava a pessoa a que me refiro como "ele" no blog, a toda a gente - gostava de o chamar de moço, mas a Maria fez primeiro. Curiosamente, ao regressar a sítios como a casa onde a família já não vive, a escola, o caminho x e y, senti-me bem, sem nervosismo em lado algum. É, sem dúvida, a melhor fase da minha vida, onde já tudo sarou.

Acho que a linha do horizonte na ilha também se expandiu, senti isso no carinho das caras conhecidas e das suas palavras.  

Houve uma prova em especial, aquando da visita a uma senhora que foi sempre minha vizinha.Tem mais de 70 anos, e desde miúdo que nos tratamos por tu. Já me tinham dito que ela aguardava a minha visita ansiosamente, e veio a correr, mesmo com a segunda perna partida em recuperação, assim que me ouviu. 

Após uma mão cheia de dedos de conversa, lá o viu na estrada e perguntou-me quem era aquele rapaz. Disse-lhe que vivia com ele. Ela olha-me séria e pergunta, ele é teu colega ou parceiro? Respondi-lhe que parceiro, meio receoso e meio curioso com a sua reação.

Os olhos dela enchem-se de amor e diz-me: "Não faz mal, filho. Sabes que fui freira, mas que aprendi tudo com a televisão. Era nova quando fui para lá, e fizeram-me uma lavagem ao cérebro. Só percebi depois de ter ficado doente e regressado a casa". 

Claro que o chamei para serem apresentados. Ela fez apenas questão de frisar que deveríamos cuidar um do outro e sermos fiéis. Garanti-lhe que cumpríamos os requisitos, de coração cheio.

Os dias insistem em passar, mas não há um em que as atitudes ou palavras das pessoas enormes não me surpreendam. 

 

Acompanhem-me através do facebook, aqui

 

26
Mai17

Ser Pai (e Mãe) não é fácil


Leonardo Rodrigues

Podem dizer que tenho uma cadela e não uma filha, podem dizer tudo e mais um par de botas velhas. Como diria a minha mãe, só sabe quem passa. Quem vive a experiência. 

Ao longo da minha vida tive muitos animais de estimação, mas tinha-os na minha casa da Madeira. Estava sempre tudo bem, podiam escolher onde dormir, quando ir à casa de banho, comiam de tudo e tinham um sem fim de espaço. A Madeira é efetivamente um jardim com imensas possibilidades. Parecia que se criavam sozinhos com comida e amor. 

Isto é porque estes animais eram um género de sobrinhos. Eu ajudava com isto e aquilo, mas estava mais presente para a brincadeira e os afetos. Agora estou eu e ele na linha da frente, responsáveis por uma vida chamada Dóris. Não é uma sobrinha, é mesmo filha. 

Boletim de vacinas em dia, desparasitação, registo, comida boa, tempo para passear e brincar tudo check. Ontem, mesmo com tudo em check, algo estava errado, acordámos com a sala vomitada e a cozinha com cocó. Ela tentou fazê-lo em dois extremos da casa, pelo que não era uma desobediência, mas uma necessidade enquanto os papás dormiam. 

O passeio da manhã fez-se com diarreia. Quando regressei depois do almoço estava a vomitar água e claramente não tinha comido. Levei-a à rua, mais diarreia. Não queria voltar a entrar no prédio. Quando entrou, pouco tempo depois, começou a ganir e ir para o pé da porta. Lá fui eu de meias e chinelos correr com ela até ao jardim mais próximo. Disse à vizinha que já falava com ela. Isto repetiu-se por mais 3 vezes. 

Entretanto já tinha ligado ao veterinário e enviado fotografias do cocó, o que se revelou tranquilizante. Isto podia estar a acontecer por uma série de motivos. Era muito cedo para alarmismos. Para ajudá-la, deveria apenas moderar o consumo de água e fazer arroz com frango, sem sal. 

Eu não como carne, mas ontem à noite fui comprar peito de frango e lá fiz um prato diferente para cada um, para mim, ele e Dóris. A Dóris foi a única sem apetite. Custou-me imenso ver o cão mais afetuoso e energético que conheço assim. Embrulhei-a numa mantinha e tive a dizer-lhe que estava tudo bem sem saber. 

Hoje acordámos e a taça da "comida da panela" estava vazia. Acabaram-se os cocós moles e estava novamente elétrica. O que ingeriu e que fez mal já está fora dela. Agora vamos continuar atentos, mas isto foi, para mim, um valente susto. Ser pai não é fácil. 

 

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20
Mai17

As paredes agora são nossas


Leonardo Rodrigues

A cadela que entrou nas nossas vidas, para ser a nossa versão de filho adotivo, finalmente adormeceu, o que significa que me posso deitar no sofá. Assim foi ontem. Deitei e olhei em frente, e é impossível não reparar no poster emoldurado de um concerto do Rufus Wainwright, algo que me trouxe flashbacks. Claro que não são flashbacks do Rufus, afinal só o vamos ver no fim do mês. São flashbacks da minha vida, tudo o que aconteceu, a um ritmo cada vez mais rápido, até ao momento de agora. Faz-me pensar numa canção triste e melancólica, por vezes poética, que não sei qual é, mas que chega ao refrão e ganha vida, atinge o clímax e está tudo bem. Sinto-me no refrão da minha canção. Existem tantas coisas que desenhei na minha cabeça e que ainda não se materializaram, mas estou, ao fim de muita tentativa e erro, a partilhar a vida com um ele sólido, nas paredes que passaram a ser nossas. Ponderei bem, tinha dúvidas e queria escrever que ainda as tenho, mas tudo parece certo e natural. Nosso. Como se esta canção já estivesse escrita para legendar o meu desenho. 

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17
Abr17

A Perfeição Existe?


Leonardo Rodrigues

A questão não é nova, mas intemporal, e surge em muitas mesas. 

Foi na semana passada. O jantar ia tão avançado que, no máximo, ainda havia um pouco de gelado por comer. Isto é o mesmo que dizer que as mãos deixaram de segurar talheres para segurar telemóveis. Não é preciso muito para que, se ainda houver conversa, a mesma ter como base o que o visor está a mostrar.

A linha entre evolução do sentido estético, graças ao Instagram, e os rapazes e raparigas que cortam a respiração é ténue. Se a pessoa estiver com menos roupa, mais fácil se torna. 

Não são pessoas quaisquer, têm, além de um estilo de vida fabuloso, um corpo, uma pele e sorrisos que toda a gente parece querer ter. São representações de conceitos de beleza estabelecidos muito exigentes, distantes da maioria das pessoas, mesmo das que cuidam de si. Aí começa a comparação. Comparação com pessoas que talvez não sejam exatamente assim.

E continuamos a alimentar estas ideias diariamente, através da nossa dieta visual, nos media tradicionais, redes sociais, pornografia e publicidade.

Impomos-nos estes padrões, que levam a uma baixa autoestima, indo por vezes a extremos como a anorexia.  Por outro lado, impomos os nossos padrões aos outros, fazendo-os sentirem-se menores, ou maiores. Insatisfação de dois gumes. Nada é suficiente.

O que é feito de se gostar dos je ne sais quoi das pessoas?

Não quero dizer com isto que devemos deixar de ter preferências, cruzar os braços, engordar a ponto de ter problemas de saúde. Não cuidar da nossa higiene, e os piores cenários que vos surgirem. Mas acho que temos de parar de viver para fantasias colocadas em pedestais. Talvez 50% das vezes não tenhamos realmente de Mudar, podemos apenas cuidar mais de nós. 

Certo dia, um amigo disse-me o seguinte, Se estivesses sozinho numa ilha como saberias que o teu pior defeito é um defeito? Talvez nem defeito se tivesse. Tiveram mesmo que mo dizer, Leonardo, o teu nariz é torto. Neste momento é uma situação mais distante. 

Claro que gosto de cuidar de mim e de ter as minhas vaidades. É bom oferecer-me certas coisas. Se alguém reparar é um ponto extra e não tem de ser mais do que isso.

Já ouvi que "demasiado perfeito não existe", com um sorriso matreiro. A realidade é que não pode, para isso era necessário que a perfeição existisse em primeiro lugar.

 

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11
Mar17

Quando foi comigo, o paneleiro


Leonardo Rodrigues

 

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Existem dias em que com muita esperança, talvez presunção, penso "já passou", que, enquanto adulto, está tudo bem, que não voltarei a sentir isolamento, que não vou olhar o mundo e pensar que está contra mim e que já fiz o percurso que tinha de ser feito. Está mais perto, mas sair do armário, como lhe chamam, faz apenas parte do início da caminhada.

 

Há muito que queria escrever este post e dizia-me não ter as palavras certas, quando na realidade não existem palavras certas para dizer que enquanto crescia, algumas pessoas, motivadas pelo que outras lhes incutiram como sendo certo, me fizeram sentir errado, sujo, mau, feio, vergonha. Sem que ainda soubesse àquilo a que se referiam ou quem era.

 

Amigos que se mantêm próximos não têm memória. Quem me infligiu dor física e psicológica talvez também não. Eu sim, e agora estou em condições de partilhá-la. É um exercício duro deixar-me guiar pelas memórias que não quero lembrar e sentimentos que não quero sentir, mas é isso que faço convosco hoje. Porque este blog é sobre mim, as coisas boas e más, e o que aprendo com elas. Porque este blog, seja de que forma for, é para outros lerem.

 

O bullying começou na mesma altura em que me apercebi que era diferente, tinha eu uns oito anos. Diferente, aos oito, era tudo o que sabia. Não conhecia palavras para associar à diferença. Não sabia que parte da minha família e comunidade me viam como algo de mau, a precisar de tratamento ou de morrer, como cheguei a ouvir.

 

Antes de sequer ousar expor o que pulsava cá dentro tudo mudou. O meu melhor amigo passou a chamar-me várias coisas menos Leonardo. Paneleiro e "escabaçado" - seja lá isto o que for - eram as mais constantes. Não sabia o que era, mas já mo apontavam, pejorativamente. Ser isso, "padecer" disso, era mau. Essa palavra, nova no meu vocabulário, tinha muito poder - para todos menos para mim: fazia com que me batessem nos intervalos, com que não pudesse usar o computador nas aulas de informática e que cascas de fruta voassem para a minha sopa. 

 

Lembro-me dum episódio em particular, estávamos no intervalo, enquanto um colega me agarrava, outro apertava o pescoço e outro dava pontapés. Gritei o mais alto que pude olhando para alguém responsável, que me devolvia o olhar sem nada fazer. Talvez porque "éramos só crianças a brincar". Aí entendi que quem me poderia proteger não o ia fazer, que estava por minha conta e passei a ter medo do que era o meu lugar favorito, a escola. 

 

A vergonha e o medo manifestavam-se, além das lágrimas, numa dor de cabeça, acompanhada de um formigueiro. Não tinha apetite e implorava que me deixassem ficar em casa. A minha mãe esforçou-se para entender. Como é que alguém que sempre quis estar na fila da frente, com excelentes a tudo e amigos de repente não quer sair de casa? Também ao psicólogo senti que precisava mentir. Quando contei parte do que acontecia foi pior. Mentir deu-me um conceito ridículo de proteção: calar para apanhar menos.

 

Éramos, sim, crianças. Mas há algo que todos precisamos compreender: as crianças são uma tábua rasa. Se o que lá for escrito for mau, elas irão agir de acordo com isso. Se lhes ensinam violência elas vão perpetuá-la. Se lhes ensinam a odiar é ódio que vão sentir. Da mesma forma que, quando envolvidas em amor e respeito, o reproduzem infinitamente, da forma bonita como só elas sabem.

 

No 5º ano, como íamos para escolas diferentes, achei que tudo ia mudar. Os primeiros meses foram fantásticos, conhecimentos e amigos novos, vida nova. Mas claro que "isto" me iria sempre apanhar, fosse como fosse. Uma professora para me mandar calar, a mim e a um amigo, disse para pararmos de estar aos beijinhos. Ainda hoje não entendo. Só beijei um rapaz pela primeira vez aos 18. Num meio pequeno, numa escola, não importa que não fosse verdade. Comentou-se fora da sala e tudo mudou novamente, durante anos. Estava marcado por uma suposta demonstração de afeto. 

 

Achei que a história se iria embora, como as notícias vão, mas não. Os dias de medo regressaram, mas agora ia lidar com muitos mais, de todas as idades, numa escola grande, onde achavam por bem bater e insultar por algo que ainda não compreendia. As dores de cabeça e o formigueiro voltaram. Tomei as medidas possíveis: sentar-me no início do autocarro - os machos curiosamente preferem a parte de trás; deixei de entrar na escola pela entrada principal e ia sempre por detrás dos pavilhões. Havia menos pessoas, parecia mais seguro. Parei de comer na cantina, situações menos boas ocorriam lá. Isso não foi suficiente. Durante anos que não foi. 

 

Na escola faziam sempre festas no final do período e ocasiões especiais. Numa dessas, atiraram-me papéis durante todo o evento. Deixei de ir às festas. Num dos cortejos de carnaval atiraram-me pedras. Deixei de estar presente. Os intervalos eram oportunos para essas coisas, então comecei a ficar dentro dos pavilhões.

 

Comecei também a riscar os dias num calendário que guardava na carteira. Contava as faltas que podia dar, os dias piores, os feriados, os fins de semana. Sozinho.

 

Acho que até aos 12 todas as manhãs acordava na expetactiva de ter mudado, mas bastava-me chegar à escola para olhar para um rapaz e saber que era um olhar diferente. Achei que não podia ser amado se fosse assim. Cheguei ao ponto de rezar para que se fosse embora, mesmo já não acreditando num deus que cria alguém de uma forma e depois castiga. Não foi embora, não podia, nem tinha.

 

Há um outro episódio antes do secundário que me marcou. Abriu um bar na terriola e fui sair à noite pela primeira vez com os meus amigos. Um rapaz "popular" agarrou-me, apalpou-me e disse-me coisas terríveis. Hoje, embora racionalmente saiba que está tudo bem, sair à noite e pensar em sair causam-me ansiedade.

 

As aulas de educação física eram as piores. É cliché, mas era péssimo em futebol. Os rapazes tinham que jogar futebol. Um rapaz que preferisse jogar volley não podia, uma rapariga que quisesse jogar futebol podia. O professor que tive durante anos, assumidamente homofóbico, tinha uma metodologia de ensino peculiar: "joguem futebol"; beliscar as raparigas, olhar-lhes para o rabo e conversar com os favoritos. Havia uma certa discriminação na avaliação. Estudava e sabia as matérias, tanto para história como para educação física. Curiosamente, a história tinha 19 e a educação física chegar à positiva era complicado. Na parte prática, uma rapariga pior tinha 15, eu nunca mais do que 14.

 

Aos 18 anos, a fazer algo que de forma simples se chama terapia disse pela primeira vez que era gay. A sessão demorou 3 horas porque só após chorar durante este tempo, depois de me ter sido servido um gin e um whiskey - sim isto aconteceu mesmo - é que consegui abanar a cabeça. Demorei tanto tempo porque achava que me iria querer suicidar, que não aguentaria a vergonha se alguém soubesse. Em vez disso fui recebido com um sorriso e um abraço. 

 

Não sei bem o que tem de ser feito, mas o problema é muito profundo. As "vítimas" nem sempre denunciam, e por vezes suicidam-se. Na ausência de uma denúncia por parte da vítima, poderiam ser os colegas. Os colegas por vezes "não vêem", não têm de ser homofóbicos, racistas e afins, podem só ter medo. É difícil ir contra os estabelecido. Resta-nos os professores, mas esses conseguem ser piores. Parece popularucho ou demasiado português dizer isto, mas é verdade. 
 
Quando via pessoas na minha situação e não conseguia fazer nada, sentia-me impotente. Por vezes até tentava gozar, acho que era homofóbico. Falei há uns tempos com um colega que passou algo semelhante na escola e lamentei não ter sido capaz de intervir. Ele disse que não importava e até me confessou que fui das primeiras "crushes" dele. Saber isso foi emocionante para mim. Numa altura em que eu tinha repulsa de mim, havia alguém que reparava. Há sempre alguém. 

 

Nem sempre estive consciente, mas hoje sei que gosto muito de mim. As feridas são quase cicatrizes porque tenho vindo a entender que não seria quem sou sem um passado. E, ser gay não faz de mim menos homem nem é tudo o que sou. Até as emoções menos boas levaram-me a olhar as coisas com outros olhos e aguçou-me o sentido de humor. A honestidade só trouxe vantagens. Não só me permitiu manter as minhas amizades, como possibilitou que as mesmas se fortalecessem e multiplicassem. Permitiu-me amar e ser amado, construir algo com alguém. Permitiu-me ser livre.

 

A vida é cada vez mais plena porque tenho deixado que permaneça em mim um  "e se?", porque me deixei guiar pela imaginação, por curiosidade relativamente a outras vidas. Espero que quem leia, independentemente da vida, cor, peso, ou orientação sexual, se pergunte, com vista ao futuro "e se?" e veja todas as combinações possíveis. 

 

 

02
Fev17

Temos de desligar!


Leonardo Rodrigues

 

 

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Vivo numa relação de amor ódio com ficar sem bateria. Se houver algo que não pode esperar, é um pesadelo. Se não, é uma dádiva e acordarmos para coisas que nunca reparámos, como ver que o nome da estação Roma, refletida num dos vidros da carruagem é amoR.

Os tempos são insustentáveis. Deixar passar os reflexos da luz que dizem amoR não é grave, mas já deixar passar o Amor porque um retângulo convenceu-nos que a nossa vida está toda lá dentro, pode ser.

Os nossos telemóveis tornaram-se o centro, até dos jantares. Supostamente está lá tudo: as várias contas de email, o Facebook, o Messenger, o Snapchat, o Instagram, as aplicações onde se encontra o sexo e amor, as noticias, as memórias fotográficas, as notas, a agenda, o despertador, os mapas. Tudo, porra. E as notificações não nos largam, fazendo com que o trabalho, os colegas, os amigos, as estrelas e as desgraças se deitem connosco.

Sabem o que não está no telemóvel, nem mesmo no computador? As pessoas, de carne e osso, as conversas olhos nos olhos, o toque e os tiques, os cheiros dos lugares. O que vemos nos ecrãs são as representações disso. Temos de optar: representações ou os que temos ao nosso lado, à mesa e na cama?

Sinto que a ilusão de aproximação serve apenas para que a concretude das coisas se deteriore. O que sobra de nós, pode ser insuficiente.

Não proponho uma abolição de algo que melhora a vida moderna em muitos aspetos. Proponho, sim, que por vezes se deixe o telemóvel desligar ou usar o modo de voo. Desta forma conseguímos ouvir melhor quem está ao nosso lado e ver as nuvens sem photoshop que estão no céu.

 

26
Jan17

Cura para o mau humor: Friends


Leonardo Rodrigues

Há muitos anos que encontrei um medicamento que cura qualquer estado de espírito menos bom. Chama-se Friends, vem sob a forma de episódios e é administrado via visual e auditiva. Não é o mais refinado dos humores, ainda assim é tão genial que nunca desilude e as piadas da série permanecem intemporais. São 10 as temporadas e iniciei o meu quarto tratamento esta semana. Isto é: voltar a ver duzentos e tal episódios. Não dá para evitar, a serotonina reproduz-se a um ritmo alucinante com com camaradagem deste grupo funcional de tão disfuncional - a estupidez do Joey, o sarcasmo do Chandler, a futilidade da Rachel, a OCD da Monica, a intelectualidade do Ross e, acima de tudo, a genialidade da Phoebe. Se estão a ter um dia ou uma semana assim-assim, o melhor mesmo é pegar numa manta, café e tratarem-se com uns quantos episódios. Queria escolher um meme que ilustrasse bem este post, mas, com as minhas dificuldades de decisão, tive de escolher aleatoriamente. 

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