Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

LEONISMOS

LEONISMOS

08
Set17

Objetos onde vivem histórias


Leonardo Rodrigues

image1 (1).jpeg

Quando era mais novo, pensava que o mundo possuía mais magia do que agora. Acreditava, entre muitas coisas que lá descobri não serem verdade, que os meus peluches, embora não me respondessem, eram dotados da capacidade de ouvir e sentir.

Justificava o facto de não se mexerem, nem produzirem som com o processo de fabrico. Mas claro que o coelho azul que me fazia companhia tinha, de alguma forma, o sopro da vida lá dentro. Claro que lhe podia confidenciar o que me inquietava, num mundo que nunca chegaria a perceber. Ainda mais natural era pedir desculpa quando tinha sido injusto, não havia culpa nele. O mesmo para as árvores, e assim por diante.

Por algum motivo, comecei a lembrar-me disto ontem, quando finalmente consegui instalar este candeeiro turco que comprámos em Istambul. Vê-lo aceso trouxe-me de volta à loja, que se encontrava numa rua ladeada por árvores bem verdes. Lá quase só se vendiam candeeiros e sabonetes artesanais. Que raio de combinação, pensei eu!

Mas não é apenas isso, o rapaz que nos vendeu o candeeiro, quase à hora do sol se pôr, era sírio. Falava um inglês que se aprendia ao ritmo lento do turco, mas que fora suficiente para termos uma conversa que vou guardar para sempre. Disse-me que a vida no país que ama acabou e que, embora a família ainda lá esteja, sente-se otimista com o novo começo, num país cheio de cor e vida. Prova disso foi ter-me dito baixinho, como se fosse para Alá não ouvir, que tinha fumado, embora não tivesse violado o jejum da comida - mandatório durante o Ramadão. Claro que não percebi esta escolha, mas não me cabia a mim questioná-la. Como me disse, era a vontade inquestionável de Alá.

Neste candeeiro que agora vai ser aceso todos os dias guardo a viagem, as pessoas e as emoções que tudo me trouxe. Por isso acumulamos coisas. Afinal os objetos realmente têm vida, mas que depende de nós e das histórias e emoções que neles depositamos.  É tudo sempre nosso.

03
Ago17

As praias mais exclusivas da Madeira


Leonardo Rodrigues

IMG_0187.JPG

A Madeira, além de um jardim, é também um fantástico destino de praia. Aliás, a Pérola do Atlântico, é um destino para tudo e para todos, bem como o seu microclima. 

Há quem pense que as pedras, em vez da areia, podem ser um incómodo maior do que realmente é. Mas, até mesmo para esses visitantes, há solução. Importámos areia da ilha vizinha, o Porto Santo, e agora também temos praias de areia amarela. Além destas "artificiais", e as de pedra, pode-se escolher entre areia escura, piscinas naturais, as dos hotéis e mais umas quantas praias pagas. 

Mas não é de nenhuma destas que vos quero falar hoje. Quero falar-vos de duas praias apenas descobertas, por mim, agora. Fazem parte do mesmo trilho e chamam-se Baía D'Abra e, um pouco depois, o Cais do Sardinha.

Há necessidade de se deslocarem a um dos extremos da ilha de carro, ou autocarro, pertencente ao Caniçal, a Ponta de São Lourenço. 

Sendo que têm muito que caminhar, uma vez no ponto de partida, se não levaram mantimentos, podem comprar na food truck que se encontra junto ao início deste percurso, até a um dos extremos da ilhas. Felizmente, ele lembrou-se de comprar água ou teríamos todos ficado lá em baixo com a desidratação.     

20184908_443848329319680_9036021822486740992_n.jpg

Há necessidade de caminhar sensivelmente uma hora, ou mais, caso seja impossível não parar de contemplar as paisagens sublimes que só a natureza quase intocada pode proporcionar. 

20479138_108070199869577_4943246073360547840_n.jpg

É um percurso exigente, mas bem sinalizado. Como tem apenas uma faixa, garanto que não há como errar.

Embora um grupo tenha conseguido construir um aldeamento turístico com marina, a Ponta de São Lourenço é uma área protegida. Além das vistas estonteantes, para os amantes da natureza, terão a oportunidade de conviver pacificamente com mais de duzentas espécies que povoam a zona. 

Depois da espera muito aguardada, chegam às águas mais límpidas e cristalinas que a maravilhosa Ilha da Madeira pode oferecer. Primeiro na Baía D'Abra, depois no Cais do Sardinha.

Graças a uma ótima temperatura da água de verão, é só entrar, e continuar a desfrutar de um ótimo dia de família. Sem som, ondas ou pessoas. Só vocês e as pessoas que importaram o suficiente para fazerem tal caminhada juntos. 

20479079_1190470641098609_777312230726172672_n.jpg

 

20589594_139206183335948_6023699208962310144_n.jpg

 Lembrem-se de acompanhar o blog através do Facebook.

 

 

24
Jul17

difficultJet, um filme easyJet e Portway


Leonardo Rodrigues

DSC00293.jpg

Antes de relatar a minha experiência recente, quero dizer que gosto de viajar com a easyJet, mesmo que um copo de vinho custe 6 euros. Gosto, mas apenas quando corre tudo bem. Quando corre mal, comprovei que a empresa não tem como acompanhar os passageiros. Assenta numa virtualidade, em inglês.

Sexta feira, dia 7 de julho, fui trabalhar cheio de entusiasmo, afinal na parte da tarde iria para a Madeira, visitar a família que não via há 2 anos. Mais próximo do voo, segundo a aplicação, as minhas férias estavam atrasadas 3 horas. Liguei para o aeroporto, não sabiam de nada. Liguei para a easyJet que, de forma concisa, disse que teria de lá estar à hora inicial, caso o atraso fosse revertido não esperariam e que devo estar atento à aplicação, não telefonar. Lá fomos nós.

Uma vez ultrapassado o controlo de segurança, sentámos no chão à espera da porta de embarque. É um terminal para sardinhas. A hora do voo mudou diversas vezes, para melhor e pior. Quando recebemos a notificação a dizer que, mais uma vez, tinham saído a horas, no ecrã lia-se "cancelado". 

Ok, o passo seguinte era uma fila em que estariam 2 funcionários da Portway a atender mais de 100 passageiros. Remarcámos, através de um sms, o voo para dois dias depois - vaga mais próxima disponível. Um funcionário que falou com todos nós garantiu que se permanecêssemos na fila teríamos lugar no "voo extra do dia seguinte". Parecia risonho. Éramos dos primeiros, por isso "conseguimos" chegar ao balcão 1 hora depois para ouvir que só haveria voo terça, ou seja, após 4 dias. 

Lá podiam pedir um hotel ou remarcar o voo. Não têm acordos com outras companhias e, se quiseremos o voo com outra companhia pagamos nós - se for mais caro, não devolvem a diferença. Caso quiséssemos o hotel, teríamos de concluir o pedido através de um link enviado por sms. Testámos a possibilidade de hotel, a confirmação só chegou perto da meia noite. Imaginem quem foi atendido 3 horas depois.

De qualquer modo, fomos assegurados de que existiria uma indemnização de 250 euros, ao abrigo das diretrizes EC261/2004. O pedido tinha, novamente, de ser formalizado online, tal como outras despesas. Tudo coisas simples para os idosos que nos acompanhavam.

Para recuperámos as malas, tivemos de regressar ao outro terminal, ligar do telefone do segurança para pedir várias vezes à Portway que nos levasse ao tapete. Quando se dignaram a sair, foi para entregar um objeto perdido - solicitado após o nosso pedido. Tive quase de suplicar que nos deixasse levantar as malas de um voo sem avião. Assim passaram 5 horas no aeroporto de Lisboa.  

Ao nosso pedido de indemnização, a easyJet respondeu dizendo que não pagaria, uma vez que se tratava de uma situação extraordinária, devido a condições meteorológicas, mas que nos dariam um vale através do chat - penso que só conseguem aceder se houver o link no email.

Expressei o meu descontentamento por ter perdido 5 horas no aeroporto e dois dias de férias, mas garantiram-me que nos dariam um vale, por email, no mesmo valor da indemnização, então decidimos aceitar. Afinal, era apenas 1 vale para ambos no valor de 150 libras, ou seja, 170 euros. Distante dos 500 euros.

Lá voltei novamente, após muito refresh à página, e tentei explicar que não é aceitável prestarem informações erradas, mas nunca responderam diretamente a nada. Fiquei na mesma.

Sou capaz de entender as condições meteorológicas em Madrid, só não percebo que me façam perder tempo. A postura de uma empresa evidencia-se quando algo corre mal. É uma low cost, sim, mas isso não tem de se refletir no atendimento. Pelo contrário, fazem imenso dinheiro com a sua "eficiência". Assim sendo, há que investir mais num atendimento fidedigno e personalizado.

18
Jul17

Não nos vimos gregos em Atenas, uma espécie de guia


Leonardo Rodrigues

18947842_1313805972072639_1459974789681643520_n.jp

 

Chegar a uma cidade nova causa estranheza, quer seja mais nossa ou mais de outros, muito pelas nossas ideias acerca do que vamos encontrar. Atenas não é exceção. Já só restam vestígios de uma grandeza de outros tempos, sem a glória que lhe atribuem os livros de História. A história agora é outra. Está suja, muitas lojas estão fechadas, os postes de luz acendem-se com espaço de dois apagados e as putas, que vão para a rua antes dos postes acenderem, estão rua sim, rua não. Ah, e o deus Dionísio também parece já não querer saber dos gregos.

Este é um retrato cru, que poderia bem ser nosso. Foi apenas o que vi numa primeira hora, a pensar nas palavras do taxista que dizia que a única Atenas que podia ser contemplada resumia-se à Acrópole e aos bairros que a circundam, Plaka e Monastiraki, e que o resto é uma paisagem de betão e graffitis.

Ele, cansado como a maioria dos gregos, tem a sua razão, ainda assim a cidade tem uma energia muito própria, carregada de uma personalidade plural. Para a sentirmos temos de sair para a rua, tocar, subir e descer, olhar e olhar novamente, e perceber até como o transito e as árvores se comportam.

18947943_1343521272361776_7969792656496656384_n.jp

 

Na manhã seguinte, decidido a dar uma oportunidade à cidade, comecei a minha caminhada do hotel - Novotel -  em direção a Plaka. A cidade grita. Os motociclos, que empestam o ar,  são o transporte de eleição. Escasseiam os prédios sem a tal arte que irrita muita gente, e raras são as ruas em que as árvores não parecem cansadas. 

 

O Mercado é uma paragem importante. Conscientes da ausência de cozinha num hotel de 4 estrelas, comprámos apenas fruta e uns frutos secos, embora tudo gritasse para ser comprado em grego, e a bom preço, da carne ao peixe. Foi aqui que, na companhia melhor das companhias, ocorreu-me que poderíamos ser felizes em Atenas. Mais tempo. 

18889106_640923759431087_8236558005873672192_n.jpg

 

Só ao chegar a Plaka, antes da Acrópole, é que a cidade parece voltar a ter cor, as flores e árvores ganham vida e os pássaros cantam de novo. O café com gelo é a solução incontornável que gregos e todos os que lá foram parar, numa onda de multiculturalidade intoxicante, usam para conseguir andar debaixo das altas temperaturas.

18947719_462324137446988_2831936070151569408_n.jpg

 

A lei diz para primeiro nos deixarmos perder por estas ruas maravilhosas, cheias de cafés, restaurantes e lojas. Só depois é que chega hora de visitar as atrações arqueológicas.

 

A tentação de visitar igrejas no verão é especialmente tentadora. Ou muito me enganei, ou as igrejas nestes bairros mais pitorescos são todas ortodoxas. Mesmo que façam o contributo que divinamente vos permite acender uma vela, pelos desejos e pecados, caso entrem de calções serão escorraçados da igreja por um fiel ou por um padre.

18947727_1462732700455743_745840823504994304_n.jpg

 

IMG_0532.JPG

 A falar com um gato

 

Devo dizer-vos que há um mito em relação à fila que se encontra na incontornável Acrópole. Está lá, mas pode ser completamente ultrapassada se já tivermos um bilhete combinado que custa 30 euros, comprado num outro local. E sim, vale a pena, sendo que são seis as atrações incluídas e que a Acrópole por si só custa 20 euros. Algo ainda mais extraordinário é que um estudante da união europeia não paga nada. O meu cartão universitário continua a aparentar válido... 

18888994_847767125389424_3748043948619202560_n.jpg

Caso não sejam muito de andar, embora tenham de o fazer, é na Acrópole que se tem uma das melhores vistas para a cidade, não fosse à letra significar "ponto mais alto". A paisagem mudou, é certo, mas foi daquele chão que pessoas que ajudaram a definir o que somos hoje olharam a cidade. O imenso mar de betão branco, ladeado por montanhas, é arrebatador. Não apetece arredar pé.

 

Não é obrigatório, mas jantar ao pé de milhares de anos de história, num local bastante turístico, após horas de caminhada faz parte da praxe. 20 euros por uma garrafa de vinho assim assim, também. 

18949781_783486198468504_9154516607223988224_n.jpg

 

Como toda a gente sabe, embora goste mais de gratuito, a palavra barato também tem o seu quê de risonho. Durante estes três dias em Atenas fomos a um sítio que encontrámos logo na primeira noite umas quatro vezes. Têm as melhores pitas que alguma vez comi, de falafel - feito à nossa frente -  e beringela. Não demorou até que começassem a oferecer-nos falafel, dizendo "here my friend". Eu animado com a perspetiva de conseguir comunicar em inglês tentei perceber como faziam aquilo. Deixei um senhor atrapalhado e fiquei na grego. 

 

19120672_449820128727713_2478964087124393984_n (1)

 

Devido à confusão, poluição e tudo o que é inerente à capital de um país em dificuldades, a escolha de hotel de ser muito bem ponderada. O Novotel realmente não poderia ter sido melhor. Tranquilidade, pequeno almoço soberbo, piscina no terraço com vista para a Acrópole, e café com pátio, são a melhor forma de resumir o mesmo. Ah, e o por do sol lá de cima não era nada de se deitar fora. 

19121900_140691756492871_3027440838276808704_n.jpg

A moderna rede de metro com 3 linhas é a melhor forma de circular pela cidade. Até ao final do ano as máquinas que suportam bilhetes eletrónicos irão começar a funcionar.

 

Porque o post vai longo e é apenas uma espécie de guia, lembro-vos ainda que passeiem pela Syntagma com a noção que os militares não vos permitiram tocar nos degraus, visitem o museu da Acrópole que infelizmente não tivemos tempo e, acima de tudo, façam sempre por se sentirem gregos em Atenas. Um grande ευχαριστώ πολύ/efcharistó polý à cidade.

 

Sigam o blog também no Facebook e Instagram

22
Mar17

Dia em que vi algodão a cair do céu pela primeira vez


Leonardo Rodrigues

fotografia.JPG

 

Foi no mês que passou. Tínhamos acabado a nossa visita à belíssima cidade do Sabugal, onde o ponto alto é mesmo o ponto mais alto, o topo do Castelo das Cinco Quinas, com vistas sobre o Côa. 

Ainda no castelo, depois de uma quase escalada às escuras para chegar ao cimo, começou a chover, o ar ficou mais rápido e frio, e o pensamento de que poderia nevar construiu-se na minha cabeça.

Só verbalizei este meu desejo íntimo de, por uma vez na vida, ver a neve a cair em vez de gelo no chão, quando cheguei ao museu. Era uma ideia que nos deixava a ambos sorridentes. O rapaz que lá trabalhava prontamente nos fechou a boca, explicando que, no Fundão, terra onde se localizava a nossa próxima "casa", a Cerca Design House, não nevava há quase dez anos. Não sei se é necessário deixar por escrito que não gostei deste museu. 

No caminho que se apresentava de condução difícil para o meu ele, entre Google Maps, troca de cabos para carregar as nossas baterias que duram cada vez menos e muito Carpool Karaoke, começámos a ver a chuva a ficar cada vez mais branca, grossa e leve.

Não demorou muito para que sentíssemos a necessidade de encostar. Fui o primeiro a ir para a rua. Sentia e não sentia o frio. É verdadeiramente mágico ver aquilo que é água sólida, tingida de branco, a cair de forma tão leve e graciosa. Ao mais pequeno toque, naquela fase, volta ao seu estado liquido.

Ele filmou e não há margem para dúvidas, de que estava feliz e que, mediante justificação plausível na minha cabeça, faço uma cena, umas mais felizes que outras. 

Ficámos nisto um bom tempo, totalmente alheios aos acidentes e às estradas cortadas, na companhia um do outro, com os nossos momentos de profunda lamechice registados numa dezena de selfies. A ele surgiam memórias de uma Nova Iorque que lhe foi próxima e em mim surgiam emoções por afinidade.

Como o amor e neve não enchem barriga, seguimos viagem meia hora depois. Descongelar foi tão fácil porque no hotel, que se cobria novamente de neve, esperavam-nos com chávenas de chá quente e, por causa da neve, partilhavam o mesmo ar de surpresa.

 

 

08
Mar17

Come-se bem na Cova de uma Loba


Leonardo Rodrigues

cova da loba.jpg

 

Recôndito, ali estava o único restaurante de Linhares da Beira, a fazer jus ao seu nome, Cova da Loba.

Nada é por acaso. Diz que,  e eu sei que se diz muita coisa, que noutros tempos distantes uma tal de Dona Lopa expulsou de casa de Santo António uma criada que não era mais do que o Demo disfarçado, à caça de almas para a sua causa. O Santo devido à semelhança nome-espécie, como agradecimento, transformou-a em loba, com grande longevidade.

Esta vida continuará longa com a condição de trazer a Linhares os melhores frutos do bosque.

No meu entendimento gastronómico e de enólogo, parece-me que o animal à Cova da Loba conseguiu que chegasse o melhor de tudo, frutos do bosque, cogumelos, queijos da serra, vinho, Portugal e a criatividade.

É só com muita criatividade que se consegue pegar no que é nosso, melhorar e apresentar um Portugal novo. Os pratos têm as raízes de sempre, mas satisfazem o olhar fresco e os paladares modernos.

Ele comeu um imponente polvo com uma redução de balsâmico e eu um sublime risotto com cogumelos selvagens e queijo da serra. Os olhos não enganaram e fomos arrebatados pela explosão de sabores inteligentemente combinada e apresentada. 

image (10).jpeg

 

image (11).jpeg

 

Como a loba está de folga às quartas a sua Cova não abre. De resto, é sempre boa altura para visitar, mesmo que neve lá fora há uma lareira dentro. 

 

Não perca pitada do blog, siga-me no Facebook e Instagram

 

06
Mar17

Mértola, para sempre


Leonardo Rodrigues

Há uns tempos dei continuidade ao meu projeto de descoberta do sul. O objetivo era novamente Albufeira, mas, desta vez, com um twist. Este twist traduziu-se em muitas novas estradas e localidades com nomes difíceis de memorizar. Por questões práticas, motivados pelo acaso e pelo cansaço, sentimos necessidade de pernoitar em Mértola.

Este nome, como tantos outros, devido à minha insularidade, não me disse nada. Chegámos pela noite com o objetivo de todo o viajante após horas de estrada, comer. O único restaurante disponível para nos receber àquela hora foi o restaurante Muralha. Com pão, sopa, prato principal e o jarro de vinho que acompanha estas andanças, os 5 maravilhosos conseguiram jantar bem por 10 euros cada. 

Eu digo que quando bem se come, bem se deita, mas no nosso caso foi apenas escolher onde deitar. Tínhamos duas opções viáveis: Beira Rio e Hotel Museu. Porque o segundo era mais novo e quente que o primeiro e como ele sofre com o frio, a escolha estava feita. O nome cumpre-se apenas na medida em que existe uma ruína romana no seu interior devidamente preservada. Recordo-me de ter feito uma cena pacífica na receção, que era mais um pedido desesperado, para garantir que o nosso quarto tinha uma vista igual à das fotografias.

De malas desfeitas, saímos para a noite de Mértola que se resumia ao bar Lancelot. O bar descreve-se numa palavra: hipster. As luzes são coloridas e as paredes pintadas com arte. Ali, essencialmente, conversa-se sem consciência das horas, com a companhia de álcool e baralhos de cartas enormes. Escolhemos o UNO e eu tentei resgatar as regras inventadas na adolescência que me tornaram o inequívoco vencedor.

Durante a noite a vila não nos disse muito, até riscámos o carro devido à estreiteza das ruas.

Para mim o mais impactante de Mértola, e daí o para sempre, foi lá acordar. Acordar naquele quarto em específico do Hotel Museu, onde bastou-me meter a cabeça fora da janela para estar no calmo Guadiana, assim, sem por nem tirar. A vista persegue-me desde então, a água que reflete as margens estreitas, a névoa lá ao fundo, as canoas coloridas. O silêncio imenso. Tudo coisas que fazem o rural que há em mim pensar em não regressar a Lisboa, desde que pudesse manter a mesma companhia. 

mértola.jpg

Enquanto primeiro a acordar, coube-me ir explorar a vila sozinho. Prescindi do pequeno almoço no hotel, embora só custasse 6 euros, para descobrir o que lá havia. Afinal, após ter aberto a janela senti-me logo motivado a sair para fotografar e, claro, beber o café que me mantém vivo. Como em todas as viagens para fora, compreendi que o meu dinheiro vale mais do que em Lisboa. A moeda é a mesma, mas os preços têm bom senso.

 

mértola 2.jpg 

 

 

Depois de inspirarmos o ar puro tivémos de seguir viagem, com direito a paragens por Alcoutim e Cacela Velha, até Albufeira. Mas é Mértola e a suas vistas que continuam a insistir voltar à memória.

 

Acompanhem o blog Leonismos através do Facebook e do Instagram

 

 

15
Fev17

Férias cá dentro: até à Casa Grande de Juncais


Leonardo Rodrigues

Este mês, após uns tempos intensos, posso dizer que estive totalmente de férias.  Aproveitei para fazer 14 dias seguidos. Na primeira semana deixei-me ficar por Lisboa para fazer absolutamente nada. E, porque agora a vida é bondosa a esse ponto, fiz coincidir a segunda semana com quem diz ser a cara metade. 

 

Escolhemos ficar por Portugal, afinal há sempre muito para descobrir no nosso país. Cá dentro também se expandem horizontes e há regalos para todos os sentidos: paisagens de cortar a respiração, iguarias que provocam salivação, ar tão puro que faz desmaiar e silêncio para os nossos ouvidos. Para aguçar ainda mais o apetite, todas as nossas terras estão repletas de História e histórias.

 

 

O nosso destino final era Juncais, mas, de férias, tem de haver tempo para desvios. Até Juncais, o desvio digno de nota foi Belver, concelho do Gavião. Inicialmente o objetivo era vermos o castelo do século XII, mas depressa abandonámos a ideia para contemplar as vistas maravilhosas para o Tejo. Quanto mais se sobe, mais bonito fica o rio. O silêncio, momentaneamente interrompido pelos pássaros, oficializou o início das férias - segunda parte para mim. 

 

O tempo, entre espantos, selfies e lamechices, foi passando. E, com isso, a nossa hora limite para check in na Casa Grande de Juncais. O Turismo Rural não tem facilitismos de 24horas. Ainda assim, a Isabel, quem ajuda a gerir este solar de granito do século XVI, arranjou-nos uma solução: o Sr. Carlos.

 

Chegamos pelas 20h a Juncais, onde fomos simpaticamente recebidos pela nossa solução. O Sr. Carlos entregou as chaves, fez-nos uma explicação geral de onde se encontrava tudo e explicou que de manhã nos deixaria um cesto com pão fresco na cozinha.

 

Quando abrimos a porta do nosso estúdio, humildemente apelidado de Paraíso 2, deixou de se sentir o frio da serra. Estava quentinho, graças ao aquecimento central e ao meu objetivo de vida: uma salamandra cheia de lenha acesa. Uma welcome drink acompanhada de chocolates e caramelos também estavam à nossa espera, o que foi a cereja no topo do bolo. 

 

Por falar em bolo, o nosso pequeno almoço também aguardava pacientemente na cozinha: bolo caseiro, laranjas da zona para sumo, queijo, manteiga e fiambre. O pão, já sabem, todas as manhãs antes de acordar já lá está.

 

Sendo que a viagem tinha sido longa e que os restaurantes ficam a uns bons minutos, utilizamos a nossa kitchenette equipadíssima para fazer o jantar. Depois, foi caminhada à chuva para conhecer a aldeia, xixi e cama, numa senhora cama, num senhor quarto.

Quarto Juncais.jpg

Quarto Juncais2.jpg

 

Se ficaram curiosos para saber como a restante viagem se seguiu sigam-me no Facebook e vejam umas deixas no Instagram. O próximo capítulo vai até o segundo ponto mais alto de Portugal, na Serra da Estrela. 

 

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

12224447_876756695754025_299389605_n.jpg

 

Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

11017604_1390170534633330_92295482_n.jpg

@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Copyrighted.com Registered & Protected 
HMLF-E7YY-MGTC-ZU7E

Lugares

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D