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LEONISMOS

LEONISMOS

15
Jun16

Eu sou gay


Leonardo Rodrigues

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Estamos em 2016, isto deveria significar que progressos civilizacionais aconteceram. Li e reli notícias, escrevi uma, vi vídeos, li crónicas e comentários, mas ainda não sei bem o que penso do que aconteceu em Orlando, do que está a acontecer no mundo, connosco. Desta coisa de matar porque alguém é, age, pensa e sente diferente de nós. Não sei porque não percebo. Já tentei fazer o exercício de me colocar nos pés de um agressor, não fez sentido.

Hoje não me cruzei com ninguém igual a mim na rua, no autocarro nem no trabalho. Ouso arriscar que tínhamos todos pensamentos, tons de pele, roupas e, quem sabe, impressões digitais diferentes. Não senti que tinha de violar o espaço de ninguém, apontar um dedo, e dizer "essa cor de pele não serve, fica-te melhor o tom acima". Não me diz respeito. Não tive nada que ver com o facto ter olhos castanhos, quanto mais com os olhos do vizinho. A maior parte das nossas caraterísticas transcendem-nos. Sim, tomamos decisões aqui e ali, mas para nós, não temos de o fazer pelos outros. Quanto mais apontar uma arma! Puxar o gatilho! Tirar uma vida que não é nossa!

De tudo para o que olhei, há algo que me persegue continuamente, ver os SMS que alguém no clube Pulse trocou com a mãe, depois de lhe dizer que a amava, para lhe dizer que ia morrer. Nem teve a oportunidade de se despedir. A imagem que me vem à cabeça é poderosa, mais forte do que o miúdo que apareceu morto na costa de Kos. Arrepia-me. Neste lugar consigo colocar-me. Ver-me obrigado a abandonar a vida, o que amo e quem amo porque alguém prefere odiar, sem dizer adeus. Dos medos que me restam, esse é um.

Disse que era Charlie, mas não era, era apenas pela liberdade de expressão. Hoje escrevo que, para além de "ser" olhos castanhos, sou gay - sou mesmo. Ser gay, para alguns é algo de aberrante, mas é só gostar de pessoas mais parecidas comigo. Também demorei a aceitar a simplicidade disto. Para além do que prefiro, sou tantas mais coisas e quero sê-las todas, sem volta e meia sentir necessidade de dizer que as sou porque mataram alguém por ser. Não quero amanhã dizer que sou Lisboa. Quero que sejam e deixem ser tudo, desde que isso não interfira com o bem estar e a Vida de outros.

Não têm de dizer que são gays, não têm de ser nada para além do que são, mas a verdade é que, hoje, manter uma hashtag nos trending topics é manter um assunto a ser discutido. Já que o massacre não foi mais importante do que futebol nas capas dos jornais que, pelo menos, seja debatido. 

04
Fev16

Para refletir: Queimada Viva, de Souad


Leonardo Rodrigues

 

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Quem leu o post do passatempo De Mão em Mão, para o qual ainda vão a tempo, sabe que resgatei o livro "Burned Alive" - "Queimada Viva", em português - daquele pequeno tesouro recheado de livros que encontrei na rua.

 

Li-o num ápice. Acho que este foi o primeiro livro que tive coragem de ler na totalidade em inglês, porque embora o fale com fluência, prefiro ler na minha própria língua. A escrita é acessível, o que é difícil é ler coisas que chocam na totalidade com tudo o que nós ocidentais, arrisco, civilizados, acreditamos.

 

"Queimada viva" é o relato arrepiante da vida de Souad, nome fictício, uma das muitas milhares de mulheres que vivem em regimes onde as leis são feitas de homens para homens. Na sua aldeia, algures na Cisjordânia, uma mulher não pode pensar por si, ter vontades próprias, curiosidade, olhar um homem nos olhos, nem sair à rua sozinha antes do casamento. O casamento, a maior liberdade pela qual uma mulher pode ansear, é apenas uma transferência de propriedade e só lhes libertará da escravatura do pai para que isso passe a ser feito pelo marido, o novo dono, que pagou com ouro para a ter.

 

Dentro destes casamentos, a violência não só se perpetua como a responsabilidade aumenta. Os motivos para a violência já não são só as lides domésticas, o chegar um minuto mais tarde ou apanhar um tomate verde. Passa a haver obrigatoriedade de ter filhos, as filhas são um fardo, têm de ser encaminhadas, distribuídas e, valendo menos que um animal, se começarem a ser muitas, as próprias mães chegam a matá-las, encarando elas próprias isto como natural. Não sabem melhor, não conhecem outra realidade, são vítimas de um sistema. Curiosamente, apercebemo-nos que os homens também o são.

 

Souad foi vítima dos tão falados crimes de honra. Tinha que morrer porque desonrou a família ao se apaixonar, ao ambicionar ser propriedade de alguém que não o seu pai, com uma gravidez fora do casamento. A única forma de ser restabelecida a honra da família era com a sua morte, então atearam-lhe fogo. As mulheres da sua aldeia só o apagaram. No hospital, onde deveria ter recebido cuidados imediatos, tendo em conta que Souad era uma charmuta, arábico para puta, só teve direito a um banho porque cheirava mal. Estava lá para morrer. Se viveu para contar a história foi porque "nós" intervimos. 

 

Já na Europa, dois meses depois, finalmente a receber tratamentos, Souad, ao olhar para as enfermeiras com saias curtas, maquilhagem, a sorrir a conversar com os médicos só pensava que no dia seguinte já não iam estar lá, sentindo um profundo alivio quando as via novamente. As pessoas deveriam poder pura e simplesmente ser.

 

Na simplicidade da obra, porque não precisamos de nos desdobrar em palavras pomposas para transmitir grandes ideias, há tanta força, acorda-nos, humaniza-nos. Leva-nos à reflexão! Pensei muito na minha mãe que me criou sozinha e nunca casou. Numa daquelas terras isso seria inconcebível porque não surgem heroínas, só nascem heróis. 

 

Cá, mesmo com muito pudismo e catolicismo, com toda a sinceridade, podemos fazer o que nos der na real gana, desde que isso não magoe o outro, amar quem amamos, tocar nessas pessoas, com ou sem papel. Começamos a poder explorar as nossas sexualidades cedo, de forma informada, segura, com consciência dos atos. 

 

As mulheres podem ainda não estar em mesmo número nos cargos de topo, na política nem receber tanto, mas têm os mesmos direitos de um homem. Isto constitucionalmente, culturalmente ainda existem certos estigmas que em Lisboa já não vejo, tanto, também porque faço por não me rodear de pessoas tacanhas. 

 

Dito isto, na minha terriola da Madeira, conheço de vista mulheres que sofrem de violência doméstica, mas que nada fazem por medo, por acharem que não há vida para além do marido de há 30 anos. Nem elas, nem quem lhes diz "bom dia, como vai?", levando com a mesma resposta "vai-se andando", como já é tudo tão automático, só respondem "enquanto for assim está bom", e seguem para o café para falar da vida dos outros. Enquanto for assim está bom, mas e quando estas mulheres já não andarem?

 

Ainda estou a ter os primeiros vislumbres daquilo que um blog pode fazer. Não sei bem, mas não custa nada falar destas coisas, apelar à atenção, à prevenção, à denúncia e a uma nova emancipação que está, sobretudo, por acontecer nos meios mais pequenos.

 

Futuramente, e com o propósito de continuar a abordar esta temática, sem que para isso seja necessário ler novamente que mais uma mulher morreu, irei escrever um texto com uma blogger amiga que foi vítima de violência doméstica, na esperança que palavras levem a ações.

 

Este livro, será também passado de Mão em Mão, fiquem atentos ao Facebook

 

 

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