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LEONISMOS

LEONISMOS

17
Out17

As árvores vivem de pé


Leonardo Rodrigues

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A vida real não é um espetáculo de grandes planos e de música cinematográfica. Sinto, vez após vez, que os cenários que se descrevem como dantescos se apresentam assim perante nós. 

Pior, as pessoas que elegemos, sucessivamente, fazem o mesmo. Querem pareceres, relatórios, análises e, se ainda houver dinheiro, um desenho. Depois do frenesim mediático, tudo morre, ano após ano. E com a morte mediática, vem a morte da floresta e das gentes. 

Não temos de ir muito longe nesta curta linha de tempo, a Câmara de Leiria sabia que o pinhal necessitava de limpeza. Creio que tinham deixado para 2018. Agora que sobrou um bocadinho de pinhal, talvez mandem fazer um museu em 2020 - desde que, claro, não disturbe o OE.

A culpa não é exclusivamente da inoperância de quem tem meios e autoridade para atuar. É também das empresas com sede de lucro, de quem não faz nem deixa fazer com os terrenos, de quem não limpa, de quem suja, de quem não quer saber, e de quem acha por bem queimar centenas de anos. Como a mãe de uma amiga diz, "quando a lei é branda o homem é mau".

O eucalipto não tinha de ser um inimigo a abater, se não fosse a espécie predominante. É muito bonito termos meio milhão de proprietários florestais, mas corre mal quando temos menos de 16% de floresta pública. Sabemos que o sobreiro - embora existam espécies melhores - serve de "tampão", por causa da cortiça, mas o pinheiro e eucalipto ganham a discussão económica. 

Não tenho dúvidas de que vamos conseguir replantar, que temos conhecimento que chegue para recuperar, mas tem de haver uma completa reestruturação deste sistema. Não chegam palavras de ação sem a ação. Tal como as doenças, a solução mais eficaz, e barata, é prevenir. Além de ser tempo de punir, é de dar o exemplo. Temos de ir para a rua mostrar descontentamento, é verdade, mas também de sair para cuidar.

E, embora a lei tenha de ser dura lex sed lex, serve apenas de relações públicas, se a consciência de um povo não a acompanhar. Precisamos de uma mudança de consciência, precisamos que Portugal perceba que não comemos graças ao dinheiro dos 2% que a floresta alimenta, mas que 100% respira graças às árvores que, vivendo em pé, sem dias de folga, tornam o nosso ar respirável. 

 

 

25
Set17

Entrevista a Ricardo Robles, candidato à CML


Leonardo Rodrigues

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Foto: Paulete Matos

 

Numa altura em que a geringonça política provou ser uma máquina que funciona, as eleições autárquicas ganham nova vida. E, por consequência, a mensagem torna-se mais difícil de distinguir, especialmente quando a Assunção troca as roupas de designer e o Mercedes, para se misturar com o povo de calças de ganga e bicicleta. São também lançadas ideias que vão além das 20 estações, por exemplo segregação nas carruagens do metro. Coisas de outros tempos. 

Numa procura por coerência, e por ser o primeiro ano em que vivo as eleições em Lisboa, decidi entrevistar o candidato que apoio, Ricardo Robles, do BE. Nesta entrevista, que pretende ser esclarecedora, o candidato dá-nos a conhecer a visão que tem para a cidade de Lisboa, percorrendo tópicos que são bandeira de campanha: habitação, transportes, precariedade e transparência. Houve ainda tempo para conversarmos sobre direitos, tanto de pessoas como de animais. 

 

Leonardo Rodrigues: Quem é Ricardo Robles, e porque podem os lisboetas confiar em ti?

Ricardo Robles: Nasci em Almada, sou Engenheiro Civil de profissão - especialista em reabilitação e eficiência energética -, activista, estive na fundação do Bloco de Esquerda. Nos últimos quatro anos fui líder da bancada do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Lisboa. O nosso mandato na Assembleia Municipal provou que o Bloco faz falta também na Câmara, e temos propostas que melhorarão a vida de quem cá vive e de quem cá quer viver. Creio que estes são os principais motivos pelos quais os lisboetas nos devem confiar os seus votos, seja na lista que  encabeço à Câmara Municipal de Lisboa, seja na lista à Assembleia Municipal, seja ainda nas listas de todas as freguesias de Lisboa. 

 

LR: Que rotinas tens, individualmente e em família, quando não estás em campanha para a maior Câmara do país?

RR: As rotinas são semelhantes às da maioria dos lisboetas: trabalho, família, amigos, lazer. Sempre que posso gosto de praticar desporto, sobretudo futebol com os amigos. Na fase da campanha algumas destas coisas ficam adiadas. 

 

LR: Enquanto lisboeta, a vida tem vindo a mudar para melhor ou pior?

RR: Haverá certamente aspetos em que a vida de quem vive em Lisboa - e de quem nos visita, já agora - melhorou, e outros em que piorou. Todos os que, como nós, gostam da democratização do turismo,  de ter uma cidade cosmopolita e aberta ao mundo, sentem que isso foi algo de muito bom para Lisboa. Faltou, no entanto, estar precavido para a outra face da moeda. A vida de quem cá vive piorou bastante no acesso à habitação, pois a procura de Lisboa, conjugada com a política dos Vistos Gold, provocou um aumento dos preços na habitação que, literalmente, expulsa os lisboetas de locais onde antigamente habitavam. A este respeito, não temos como não nos lembrar da Lei dos Despejos, lei essa que tem em Assunção Cristas a sua autora.  A mobilidade em Lisboa, nomeadamente a qualidade dos transportes, está também muito pior. O Governo PSD/CDS desinvestiu no Metro e na Carris para desvalorizar estas empresas públicas, preparando-as para uma entrega a privados. Este desinvestimento - que se deu ao nível de motoristas, comboios/autocarros/ elétricos, nas oficinas etc... - teve um impacto brutal que todos nós sentimos: aumento dos tempos de espera, carruagens e autocarros cheios e uma experiência terrível que todos sentimos no dia-a-dia.

 

LR: No teu entender, qual deverá ser o foco da CML no próximo mandato?

RR: As nossas prioridades estão bem definidas: habitação, transportes, luta contra a precariedade, e, por fim, mas muito importante, transparência. Acrescentando algo ao que já disse sobre habitação e transportes diria o seguinte: na habitação é necessário estancar a venda de património municipal, para que este possa ser colocado no mercado a preços acessíveis. Se tal for feito, não só temos habitação disponível a preços acessíveis, como o mercado poderá ver-se obrigado a baixar os preços que atualmente estão a ser praticados. Quanto aos transportes, bater-nos-emos contra a ideia da linha circular que Fernando Medina quer criar no Metro. Ao invés, a nossa proposta vai no sentido de estender a linha de Metro a zonas que não o têm, e falo da zona ocidental (Campolide, Campo de Ourique, Alcântara, Ajuda e Belém). Queremos tornar ainda Lisboa na cidade precariedade zero, pois não é admissível que a CML não valorize e não dignifique o trabalho. Os falsos recibos verdes têm de terminar, e a CML tem de privilegiar parceiros que respeitem a lei laboral. Quanto à transparência, e assim tenhamos força para tal, iremos pugnar por uma informação completa e exaustiva de todos os negócios que envolvam a CML. O BE, nestes últimos 4 anos, esteve na linha da frente da denúncia de uma série de decisões que nos levantaram dúvidas como p. ex. a adjudicação dos terrenos denominados como triângulo dourado, o conhecido processo do Hospital da Luz. Estas são algumas linhas gerais do nosso programa.

 

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LR: O que pode o Bloco de Esquerda fazer por Lisboa, e que o PS apenas prometeu? 

RR: Esta é uma questão muito importante. O PS está na CML há 10 anos - 8 com maioria absoluta - e há uma série de promessas adiadas. Há exemplos recorrentes, como corredor bus na A5, que todos os actos eleitorais vem à tona, mas que nunca foi cumprido; há exemplos que mostram a incapacidade do PS, como o de terem - e bem - levado a cabo um estudo para ver quantas creches eram necessárias e, depois desse levantamento ter sido feito, apenas terem criado 12 das 60 creches prometidas. Em conclusão, o PS assume-se nestas eleições com um discurso do "agora é que é", mas os lisboetas sabem que se 8 anos de maioria absoluta não tornaram as promessas realidade, não serão mais 4 que o farão. Esta é a prova que as maiorias absolutas, nas Câmaras como no País, não são benéficas para a população.

 

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LR: Antevês uma solução para o caos que diariamente os lisboetas enfrentam com a Carris e o Metro?

RR: Isso dependerá do resultado eleitoral. Se a escolha for dar força ao BE, cremos que é possível voltar a dar dignidade à Carris e ao Metro. Em ambos os casos, será necessário investir e tomar medidas que favoreçam a população. Aproveito para acrescentar mais duas propostas do BE que passam por baixar os preços dos bilhetes, para que seja possível recuperar os 59 milhões de passageiros que os transportes perderam;  e aumentar a frequência dos comboios e das carreiras - neste caso, estudando novas rotas – que é essencial para que as pessoas possam optar por não usar carro. 

 

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LR: O custo no acesso à habituação no concelho de Lisboa continua a ficar mais elevado, quer através do arrendamento quer através da compra. Como se devolve a cidade a quem já não a pode pagar? 

RR: A habitação é um dos maiores problemas em Lisboa. Já tive oportunidade de vos responder a algumas questões quanto a este problema, mas há mais a dizer. A CML tem direito de preferência sobre todas as transações sobre imóveis que sejam realizadas no Município. Este direito tem de ser exercido, para que, posteriormente, a CML possa colocar estas casas no mercado a preços acessíveis. Outra medida que é essencial passa por tornar obrigatório que quando um prédio em propriedade horizontal vai ser construído ou reabilitado, o construtor saiba que tem de deixar uma percentagem de fogos para habitação a custos controlados. Nós defendemos que seja pelo menos de 25%. Exemplificando, se se constrói um prédio com 100 fogos, 25 destes terão de ser reservados para habitação a custos controlados pela CML. Só assim é possível combater os desequilíbrios que temos sentido.

 

LR: O turismo, que tanto contribuí para os bons números da economia, está a mudar as nossas vidas, nem sempre para melhor. Temos de receber menos pessoas ou criar melhores condições para as receber, sem comprometer as de quem pertence à cidade? 

RR: O turismo é bom para a cidade de Lisboa, é bom para os lisboetas e, claro, é bom para quem nos visita pois tem acesso a uma cidade com uma riqueza ímpar, a todos os níveis. O tempo tem dado razão ao BE nesta questão, já que há 4 anos tínhamos a cobrança da taxa turística que é agora cobrada. O problema é que Fernando Medina entregou às entidades que exploram o turismo a gestão da verba que o Município cobra, isto é, tira com uma mão para dar com a outra. A grande diferença é que o BE propõe que a taxa turística sirva para minorar os efeitos do turismo, desde logo servindo para financiar a já referida habitação que será colocada no mercado a preços acessíveis. Propomos ainda que esta taxa turística seja aumentada para 2 euros por noite. 

 

LRMuitos jardins e espaços verdes em Lisboa, fora do sítios que inglês vê, estão entregues à sua sorte. Pode a câmara cuidar de todos?

RR: Pode e deve. É uma obrigação da CML zelar pela sua propriedade. A manutenção de alguns dos espaços verdes passaram para a responsabilidade das juntas de freguesia. Em ambos os casos a manutenção deve ser uma prioridade para que os lisboetas possam usufruir destes espaços.

Fugindo aqui ao âmbito da pergunta, mas uma vez que é colocada a função do Município como zelador do património municipal, queria referir o estado lastimável em que se encontram a esmagadora maioria dos bairros municipais. Temos conhecimento de muitos elevadores que não funcionam - deixando as pessoas de mobilidade reduzida presas em casa ou dependentes de familiares -, pequenos reparos que ficam por fazer, a limpeza nestes bairros é descurada. A CML não pode ser o pior dos senhorios. No outro dia, em visita a um destes bairros, uma senhora contou-me que foi à Gebalis pedir para que esta assumisse a pintura de uma zona da sua casa que estava degradada e aquela empresa disse-lhe que levasse ela as tintas e pintasse. É um caso, como tantos outros, que revela que algo tem de mudar. 

 

LR: Com uma câmara liderada pelo BE, continuaria o Terreiro do Paço a ser cedido à ILGA para o Arraial Pride, nos atuais moldes? 

RR: O Bloco de Esquerda estará, como sempre esteve, na linha da frente no apoio aos direitos LGBTI. Como tal, o BE valoriza todas formas que sirvam para cristalizar estes direitos na nossa sociedade. O Arraial Pride continuará a realizar-se - podendo a CML aprofundar a forma de colaboração, garantindo, p.ex., um protocolo de cedência do espaço por 5 anos -, mantendo-se, igualmente, o Festival Queer, a Marcha do Orgulho LGBTI sendo que, também nestes casos, o caminho é aprofundar formas de colaboração. É importante garantir o apoio da CML às associações que se envolvem na preparação e realização destes eventos.

Todas as formas de combate à descriminação, onde se inclui também, por exemplo,  Festival da Diversidade, contarão com o apoio do Bloco de Esquerda, afinal, esta é uma das nossas matrizes identitárias.

 

LR: Continuam a existir na cidade situações em que grupos LGBTI são vítimas de algum tipo de violência. Pode também uma câmara educar, para promover igualdade entre todos e combater o bullying?

RR: Claro que sim. Sabemos bem que as alterações legislativas são importantes, mas não são suficientes. Há um caminho que começou a ser percorrido, mas que ainda tem estrada para andar. Esperando que todos os tipos de violência sejam julgados e condenados, a CML tem de fazer o que lhe compete para promover a igualdade e os direitos LGBTI. O Bloco de Esquerda defende a abertura de um Centro Municipal de Acolhimento e Cidadania LGBT+. Um espaço que defenda e promova os direitos humanos e que ajude  e albergue vítimas de discriminação e violência, preste apoio social e psicológico e disponibilize aconselhamento jurídico.

 

LR: Em 2017, têm as touradas lugar numa cidade como Lisboa?

RR: Não. Uma CML liderada pelo BE não apoiará qualquer atividade tauromáquica. No nosso programa assumimos explicitamente um compromisso de não autorização de espetáculos com animais. A associação de Turismo de Lisboa, que é presidida pelo presidente da Câmara Municipal, não deve associar-se a espetáculos com animais nem participar na publicitação dos mesmos.

 

LR: Para terminar, com tópico dos animais, a atual câmara parece impotente no que diz respeito a animais sem lar. Que sugeres para melhorar a qualidade destes coabitantes?

RR: Nesta campanha, já tive oportunidade de visitar a Casa dos Animais, o LxCRAS e de intervir em vários debates sobre os direitos dos animais. A Casa dos Animais de Lisboa (CAL), o centro de recolha oficial, é responsabilidade direta da Câmara Municipal. Nos últimos anos estas instalações melhoraram com algumas obras, fruto da pressão cidadã, mas continuam a ser insuficientes para garantir o bem-estar dos animais da nossa cidade. A Casa dos Animais está sobre lotada e fecha as portas quando os munícipes pedem ajuda para que acolha e trate animais. Tal não pode acontecer, pelo que a CAL tem de estar aberta 24 horas por dias, sete dias por semana.

Iremos igualmente lutar por campanhas de esterilização e adopção, sendo que só assim poderemos garantir o bem estar animal, bem como ir diminuindo o número de animais errantes.

Uma palavra final para a figura do/a provedor/a dos animais. Este papel terá de se assumir como verdadeiramente independente e com meios que lhe permitam exercer a sua função. Defendemos também que o/a provedor/a não seja encontrado/a por meio de nomeação política, mas sim através de uma eleição. 

LR: Obrigado!

 

Seja qual for a vossa cor política, votem sempre!

 

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13
Set17

E se o seu filho quiser experimentar um vestido?


Leonardo Rodrigues

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A resposta mais simples de todas é: pode ser que, noutra vida, tenha sido escocês. 

Porquê é que eu me lembrei de escrever tal coisa? Ora, uns pais no Reino Unido retiraram o seu filho da escola porque outro aluno, com 6 anos, foi autorizado a usar vestido. Acham que a escola os deveria ter consultado, acerca da vida de alguém que não está a seu cargo.

Muitas crianças, por todo o mundo, sentem que nasceram num corpo errado. Isto não tem nada que ver com orientação sexual. Por exemplo, pode haver alguém no corpo de uma rapariga, que sinta que é um homem, e que goste de mulheres. Aqui, mesmo necessitado de uma mudança, é heterossexual. 

E, por muito que nos custe a perceber, pode não ter nada que ver com isso. Pode simplesmente preferir usar um vestido, sem isto carecer de psicanálise. Realmente, e não me acusem de politicamente correto, se uma mulher pode usar calças, porque não pode o homem usar um vestido ou saia, se assim entender?

Quando era mais novo, lembro-me de dois dias em que experimentei coisas de senhora. Vesti um vestido, calcei uns saltos e pintei-me, ou borrei-me, de maquilhagem. Noutro, depilei tudo, até as sobrancelhas. Não tinha esta referência da minha mãe, ela apenas tinha os sapatos de salto guardados, nunca usou a bendita maquilhagem, com muita pena minha. Eventualmente, começou a pedir-me que lhe tratasse da manicura e, isso sim, foi um tiro pela culatra. 

A verdade é que quando vi o resultado não gostei, continuava a identificar-me com as roupas de sempre. Se tivesse sido doutra forma, acho que não haveria ninguém capaz de lidar com isso à minha volta, o que teria tornado tudo ainda mais complicado. 

Será que temos mesmo de ensinar a complicar a vida dos outros? Quando digo complicar, não estou a colocar em pé de igualdade o sentido crítico. Devemos questionar o que nos rodeia, e procurar saber mais. Nunca escolher isolar-nos a nós, ou outros, de uma questão que merece ser compreendida. Desconstruir, desconstruir, desconstruir. 

Para responder, pelo menos hoje, a uma questão que coloco aos outros, se o seu filho quiser experimentar um vestido, tem que agir com a naturalidade com que o deixa brincar com um carro, ou permite que leve a camisola azul para a escola novamente. Ninguém fez nada errado, apenas vamos todos crescer para ser o que sempre fomos, e é mais fácil se houver sempre apoio.

 

Deixo-vos a entrevista com os pais, à BBC:

 

 

 

28
Ago17

Cães que não me importava de adotar: Pérsia


Leonardo Rodrigues

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De jantares e viagens de carro surgem boas ideias. Há uns tempos, vieram duas amigas jantar cá a casa. Uma delas faz voluntariado na AZP - Associação Zoófila Portuguesa, tratando dos cães abandonados que esta instituição acolhe. 

Ela, ao cruzar-se com a brincalhona da nossa Dóris, decidiu que precisávamos da Pérsia, cadela acolhida, para lhe fazer companhia. Expliquei-lhe que de momento não iríamos acolher outra cadela, mas que poderíamos ir visitá-la. Mais tarde, ao ler a Sónia, do Cocó na Fralda, que adoro, pensei se existe uma rubrica "Casas onde a cocó não se importava de morar", a blogosfera pode precisar de "Cães que não me importava de adotar". Dito e feito. 

Fui, então, conhecer a AZP, com uma outra amiga minha. Embora, no seu âmago, não sejam uma instituição de acolhimento, têm uma sala onde estão 5 cães sem teto permanente. 

As condições estão longe de ser ideais, mas estão acolhidos, têm água, comida, longos passeios com quem se voluntaria, e amor. Embora seja o indispensável, não chega. Estes animais que foram entregues à sorte da cidade, também merecem um sistema de apoio mais estável, num lar que tenha melhores condições, com uma família fixa. 

A Pérsia, é uma cadelinha arraçada de podengo, muito parecida com a Dóris, que foi abandonada na IC16, correndo risco de atropelamento. Uma pessoa bem intencionada trouxe-a para esta associação, onde está já há 9 meses.image1.jpeg

É uma cadelinha muito querida, cheia de energia e adora pessoas. Neste momento, devido ao contacto com um cão mais empolgado, está a perder a capacidade de socializar com cães, pelo que é importante que encontre um lar rapidamente. 

Quando a deixámos de volta ao seu abrigo, notou-se a tristeza, algo a que não foi possível ficar indiferente. Espero que este post possa encontrar alguém merecedor daquela cadela. Em caso de interesse, podem enviar-me um email para leonismos@sapo.pt.

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25
Ago17

Um livro educativo não é um artigo de opinião


Leonardo Rodrigues

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Ontem ao jantar, porque a televisão trouxe novamente o assunto para dentro da sala, discutia-se os tais livros da Porto Editora. 

Em vez de ser criado um livro de atividades para x idades, criaram-se dois, separados por sexo. O mesmo faz-se com o gel de banho, com ao desodorizante, entre outros exemplos. Acontece que, nestes, mesmo mudando o rótulo a qualidade não fica comprometida. E, claro, está comprovado que esta estratégia de marketing consegue impulsionar mais vendas do que versões familiares - iguais. 

Sendo sempre o objetivo o lucro, segmentar os livros em termos de idade é compreensível, acompanha o desenvolvimento das crianças e torna o livro mais leve. Não sei se entendo uma segmentação em termos de sexo, mas mesmo dividindo desta forma, o mesmo não deveria ter um nível de complexidade diferente.

No livro da Porto Editora, além daquele labirinto simplificado, temos exercícios com menos opções para as raparigas e representações de tarefas tradicionalmente associadas à mulher e outras aos homens. 

Li, em vários sítios, comentários em que sentia masculinidades afetadas, outros consideravam o fim da liberdade de expressão. 

Tradicionalmente, e reavivando a memória, as mulheres ficavam em casa, não estudavam nem votavam. Mudar isto não for ser policamente correto, apenas correto.

Como o conhecimento não é desodorizante, deve ser igual. A nossa formação começa numa idade tenra. Não é justo uma menina ter de ambicionar casar e ter filhos, enquanto o rapaz ambiciona ser astronauta.  

Por uma série de fatores, cada humano terá as suas diferenças, quererá interessar-se por isto ou por aquilo, mas, no que à educação académica diz respeito, tem de lhe ser dado acesso ao mesmo. As oportunidades não se devem excluir. Um livro educativo não é um artigo de opinião. 

 

 

 

21
Ago17

A mulher que está no mesmo sítio há 20 anos


Leonardo Rodrigues

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Cruzamo-nos com as pessoas mais extraordinárias todos os dias. Arrisco-me a congeminar que todas o são, pudéssemos nós ouvir as suas histórias e pensamentos.

Geralmente deixo-me levar pelas histórias que vou construindo, mas é sempre melhor ouvi-las. Não há muito tempo, estávamos a caminhar debaixo do sol ardente de Atenas, quando dei por mim a subir uma rua para entrar numa galeria de arte, algures no bairro de Plaka. 

Era um sítio apetecível para um turista deslumbrado com a Grécia, com pinturas que mostravam o melhor do país e do mundo. Os quadros eram de um único autor, cujo nome tenho num cartão. 

Não demorou muito até começar a conversar com a única pessoa que lá estava. Era uma mulher nos seus quarentas, com imensa vida dentro dela, um olhar taciturno e um sotaque inglês super peculiar. Era a mulher do artista.

Questionei-a, com entusiasmo, o quão maravilhoso era ter visitado aqueles locais todos. Ela disse-me que não viu nenhum, e que está em Atenas há 20 anos, desde que veio da Albânia à procura de uma vida melhor.

Ele pinta, ela vende. Assim é todos os dias da semana, de manhã à noite. Falámos pouco mais, já que entretanto me tinha desencontrado da minha companhia.

Desde então que penso nesta conversa, na forma como as palavras se organizaram e expressão que tinha no rosto.

Nenhuma forma de viver é errada, caso os olhos indiquem que está tudo bem. Poderemos, nós, deixar-nos ficar no mesmo sítio da vida, contra a nossa vontade? Ou melhor, estamos no sítio onde queremos estar?

 

05
Ago17

In a Hearbeat - E se dois meninos se amarem?


Leonardo Rodrigues

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Há um novo vídeo a correr a Internet de uma ponta à outra. É da autoria de Beth David, e chama-se, traduzido por mim, Numa Pulsação. Cá em casa vimos esta curta ontem, por duas vezes, e não deu para conter a comoção. Este sucesso mostra, de forma simples e inocente, a possibilidade de amor entre dois meninos. Acho que o faz da forma certa, sem chocar, tornando mais fácil explicar o amor a todos. E, prova, novamente, que o amor não escolhe um sexo, por mais que os olhares possam não estar habituados. Por vezes, quando o nosso coração escolhe, somos julgados. Mas, para amar, lá está, há coisas que não podem importar, como o sexo, a cor, a idade e as opiniões dos outros. Como ouvi no outro dia, amor é amor. Se o coração falar mais alto, o amor não tem remédio senão vencer, sempre. Além de mexer convosco, acho que, em 4 minutos, estarão com um sorriso no rosto.

 

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31
Jul17

Istambul, 3 dias no centro do mundo


Leonardo Rodrigues

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Vou poder dizer, enquanto viver, que estive na Turquia antes de abolirem o ensino da teoria da evolução nas suas escolas. Comecei por onde se tem de começar, a mítica cidade de Istambul. É, para mim, o centro do mundo, onde as coisas do Oriente e do Ocidente se juntam para se separarem. 

A cidade é imensa, não fosse o lar de quase quinze milhões de pessoas. Surpreende pelos contrastes, que vão além de arranha céus e prédios de madeira. As mesquitas avistam-se mais alto que tudo. Tem um sofisticado sistema de transportes, e um aparelho turístico irrepreensível. Na cidade dos rooftops, pode-se comer bem e barato, apenas se não cedermos à pressão do comerciantes.

Tínhamos três dias e, graças à localização privilegiada do nosso Airbnb, junto da praça de Sultanahmet, fizemos tudo o que é obrigatório.

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Começámos pela Mesquita Azul. Embora na prática não sejam colocados entraves aos homens com calções, o correto são calças para os homens, e as mulheres devem estar o mais cobertas possível, com ênfase para a cabeça e os ombros, porque Alá assim disse. Os sapatos não são permitidos, ficam à porta ou facultam-nos um saco. As mulheres muçulmanas oram dentro de umas salas recônditas, uma vez que não se devem expor na dianteira, com os homens. O seu interior é muito trabalhado, é mágica e, de tão imensa, não me espantaria se tocasse realmente no céu - embora não seja maior do que a Hagia Sophia.

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Sinónimo da imponência de Constantinopla, em tempos de Constantino II, Haghia Sophia foi inicialmente uma basílica, a Magna Ecclesia. Com as mudanças de poder, acabou por se tornar numa mesquita. Hoje em dia é um museu dos mais visitados do mundo, graças à iniciativa de Ataturk, o presidente que aproximou a cidade do Ocidente e promoveu uma clara separação do Estado e religião. A entrada custa 10 euros e vale cada cêntimo.  Ficámos horas a contemplar os imensos pormenores. 

 

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Ainda naquela parte da cidade, a Basílica Cisterna, uma maravilha romana onde poderiam estar milhares de litros de água, que abasteciam a cidade, é outro must. Curiosamente, devido à renovação dos povos de Constantinopla, a Basílica como que se perdeu. Quando os habitantes começaram a conseguir pescar peixes com baldes das suas caves, lá descobriram a construção milenar. É arrepiante estar dentro da cisterna, mais ainda se pensarmos que uma construção daquela magnitude mobilizou milhares de escravos. Acredita-se que o "pilar das lágrimas" foi lá colocado em homenagem aos que morreram. Espero que sim. 

 

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Para se almoçar bem e barato ali perto, nada como ir comer até ao telhado do Doy Doy, um maravilhoso restaurante de cozinha tradicional turca, a preços e vistas bem apetecíveis.

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O Grand Bazaar é outra paragem obrigatória. Pensemos neste como um centro comercial tradicional, térreo, que se estende por vários quilómetros. Não tenham ilusões, vão perder-se nas milhentas ruas. Enquanto se perdem e encontram uma das muitas saídas, lembrem-se de regatear sempre o preço. Na primeira tentativa de lá entrar - domingo - estava fechado. Nos dias de semana fecha pelas 19.

 

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Para reabastecer na rua, e que podem comprar com apenas 8 liras turcas, ou dois euros, é a sandes de peixe. Esta é vendida do lado ocidental da cidade, mesmo junto ao mar do estreito do Bosforo. Tentei saber qual a mistura de especiarias que lá se colocava, mas ninguém me conseguiu explicar. Nas lojas, encaminharam-me sempre para a fish spice, que era diferente da que me deram a provar...

 

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Por falar em fish spice, tenho de falar em especiarias. Embora não estivéssemos conscientes, passámos pelo bazar das especiarias, que também estava na nossa lista. Acontece que naquele momento estávamos de mau humor, e só nos queríamos afastar do Grand Bazaar. Minutos antes, fomos abordados por dois engraxadores, que nos tentaram cobrar 90 liras turcas por conversa fiada e por nos terem molhado as sapatilhas. Não me pareceu que assaltos fossem frequentes, mas sim os esquemas para enganar turistas. De qualquer modo, rumávamos ao lado moderno, onde se avista a grandiosa torre. 

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É na torre de Galata, do lado ocidental, que se tem a melhor vista da cidade, para ambas as margens do Golden Horn e para o lado Asiático. É das atrações mais caras e não esperem descontos, se não tiverem cidadania turca. 

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Por estas paragens, existe algo muito frequente em Istambul, prédios inteiros convertidos em restaurante. Encontrámos um que se chamava Galata Konak Café. Além de doçaria irrepreensível no piso térreo, tinham uma vista muito semelhante à da torre de Galata, no último andar, mas gratuita.         

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Porque uma caminhada assim o quis, fomos ter à estação aonde chegava e donde saía o icónico expresso do Oriente. Outrora, foi o comboio mais luxuoso do mundo, e ligava metade da Europa ao Oriente. Transportou grandes vultos, da realeza às estrelas. Embora não conseguisse conter o entusiasmo, foi fácil entender que os tempos áureos dos caminhos de ferro acabaram.  

 

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Ir a Istambul sem ir aos banhos turcos é como ir a Roma e não ver o papa. É uma experiência cara, mas vale a pena. Os banhos turcos chamam-se Hamam e experimentámos a Çemberlitas Hamami. Dão-nos uma chave para a cabine, onde indicam para ficar apenas de toalha e chinelos. A chave fica no pulso. Depois é altura de rumar a uma sala quente onde a temperatura é superior a 40 graus. Quando já não aguentamos a humidade, chega uma pessoa que nos manda deitar, estala as costas e esfrega-nos vigorosamente com uma luva. O passo seguinte é o banho frio. Embora seja tudo muito rápido, e bem pago, há uma grande insistência na gorjeta.

 

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Andámos durante estes dias, em média, 12 horas, mas nem assim conseguímos ter tempo para ir além do exterior do Palácio de Topkapı nem visitar a Ásia. Ficará para a próxima viagem.

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Acho que é normal não saber o que esperar desta cidade. Começamos com receio do que se ouve e lê, mas acabamos por perceber que é mais segura do que a nossa e que as pessoas são muito afetuosas. Contudo, existem diferenças culturais estranhas à vista e aos ouvidos. Cinco vezes por dia entoam-se passagens do Alcorão para toda a cidade, anunciando os momentos de oração. Curiosamente, ou não, o livro sagrado do Islão está disponível gratuitamente nas mesquitas, em muitas línguas. Trouxe a minha cópia, para ter a certeza do que diz.

Istambul poderia ser uma cidade europeia, apenas ainda mais limpa e cuidada. Recomenda-se com muita nostalgia, e memórias que já não cabem num post que vai longo. 

 

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Caso tenham alguma dúvida enviem email para leonismos@sapo.pt, e acompanhem sempre o blog através do Facebook e Instagram.

26
Jul17

Lição: "Fui freira, mas aprendi tudo com a televisão"


Leonardo Rodrigues

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Nestas férias, que tanto bem fizeram, voltei ao sítio que chamei de casa durante os meus primeiros 18 anos de vida, após 2 de ausência. 

Tinha tudo para ser o mais desafiante. Era a primeira vez que apresentava a pessoa a que me refiro como "ele" no blog, a toda a gente - gostava de o chamar de moço, mas a Maria fez primeiro. Curiosamente, ao regressar a sítios como a casa onde a família já não vive, a escola, o caminho x e y, senti-me bem, sem nervosismo em lado algum. É, sem dúvida, a melhor fase da minha vida, onde já tudo sarou.

Acho que a linha do horizonte na ilha também se expandiu, senti isso no carinho das caras conhecidas e das suas palavras.  

Houve uma prova em especial, aquando da visita a uma senhora que foi sempre minha vizinha.Tem mais de 70 anos, e desde miúdo que nos tratamos por tu. Já me tinham dito que ela aguardava a minha visita ansiosamente, e veio a correr, mesmo com a segunda perna partida em recuperação, assim que me ouviu. 

Após uma mão cheia de dedos de conversa, lá o viu na estrada e perguntou-me quem era aquele rapaz. Disse-lhe que vivia com ele. Ela olha-me séria e pergunta, ele é teu colega ou parceiro? Respondi-lhe que parceiro, meio receoso e meio curioso com a sua reação.

Os olhos dela enchem-se de amor e diz-me: "Não faz mal, filho. Sabes que fui freira, mas que aprendi tudo com a televisão. Era nova quando fui para lá, e fizeram-me uma lavagem ao cérebro. Só percebi depois de ter ficado doente e regressado a casa". 

Claro que o chamei para serem apresentados. Ela fez apenas questão de frisar que deveríamos cuidar um do outro e sermos fiéis. Garanti-lhe que cumpríamos os requisitos, de coração cheio.

Os dias insistem em passar, mas não há um em que as atitudes ou palavras das pessoas enormes não me surpreendam. 

 

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27
Jun17

Estuda, para não acabares assim


Leonardo Rodrigues

Esta frase foi proferida, de mãe para filha, enquanto apontava para uma colega minha, numa conhecida loja de roupa. A rapariga é minha colega porque tem de trabalhar em dois sítios, já que um trabalho apenas não chega. E não, isto nada tem que ver com o facto de ela não ter estudado, estudou e muito. Seguiu a sua paixão e licenciou-se em terapia da fala. Poderia ter ficado calada, mas escolheu dar mais informação. Explicou que além de não ser a única licenciada na loja, a outra colega estava a terminar a licenciatura em arquitetura, e que o rapaz nos provadores era advogado. A filha não teve remédio senão rir-se da hipocrisia da mãe. Sabem, as profissões e os canudos não nos definem, se é que algum dia o fizeram. Existem aqueles que, devido a um mercado de trabalho não ideal, não podem exercer o que acham ter nascido para fazer. Há quem estude um curso só porque sim, quem não o possa terminar e quem considere que aquilo não é para eles. Os nossos caminhos são todos diferentes. Não têm de ser julgadas por uma profissão, nem pelos números que caem na conta todos os meses. Apenas pelo seu caráter e ações. 

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