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LEONISMOS

LEONISMOS

11
Mar16

O Egoísmo da Eutanásia


Leonardo Rodrigues

Estava no sítio mais mundano de todos quando, depois de um café, decido abrir o Facebook e deparo-me com a carta de um médico.

 

Talvez também a tenham lido, saiu na revista Sábado, intitulava-se de "Sim, matei quatro pessoas e defendo a eutanásia". Com tudo o que se passa(ou) nas nossas vidas e no mundo, nem tudo tem a capacidade de nos aterrar e, quando tem, geralmente faz surgir emoções/opiniões contraditórias. Esta carta não, deixou-me tudo mais claro e sedimentou as minhas convicções relativamente à eutanásia.

 

Resumidamente, este médico realizou 4 eutanásias - uma amiga de infância, o melhor amigo, uma tia e um doente. Assistir a morte não foi algo que se banalizou com o tempo. Este entende que é preferível uma pessoa ser morta de forma digna, sem dor, pelas mãos de outro, desde que, claro, já não haja vida com a qualidade que toda a gente fala. Agora é ele numa fase terminal a querer que lhe assistam a morte.

 

Julgo ter percebido algo com esta carta: a eutanásia não vai contra o tal juramento, nem é contra a Vida, pelo contrário. Estes médicos juram defender Vidas, quem recorre à eutanásia já não tem uma. Apenas porque os pulmões lá vão enviando oxigénio para o sangue e o coração o distribui pelo corpo, não quer dizer que haja vida.

 

Um paciente nunca chega a esta decisão de ânimo leve. Quando o corpo, para alguns a cabeça, nos falhar e estivermos numa contagem decrescente oficial até à cova, de que nos adianta o sangue a correr nas veias? Se depois de feitas todas as tentativas estivermos pior e só restar agonia? E se a vontade de morrer for superior à de viver, estaremos nós a viver? Pois. 

 

Um médico, que luta pela vida diariamente, também não mata à toa. Matar ou deixar morrer, em agonia? Matar ou deixar que façam um tentativa de suicídio dolorosa? Será errado um médico por fim ao que é apenas sofrimento? Pois.

 

Estaremos a respeitar o outro com leis que perpetuam o seu sofrimento? Nada nem ninguém deveria condicionar a liberdade, especialmente quando é uma liberdade que não só não causa dor, como representa o seu termo. Com direitos para a vida consolidados, falta-nos o direito à morte medicamente assistida.

 

Tal como eufonia, à letra, dá conta de um bom som, eutanásia representa uma boa morte. Uma morte que respeita a vida que acabou antes do corpo a falhar.

 

Para terminar, e para quem vê este ato como sendo egoísta, continuo a perguntar-me e perguntar-vos: onde reside o egoísmo, em quem quer acabar de sofrer para finalmente poder descansar ou em quem insiste em condicionar a liberdade do outro, deixando-o à espera que a Morte lhe venha ceifar a vida?

11
Out15

Entrevista a Saramago, das artes visuais


Leonardo Rodrigues

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Tal como recentemente prometido no Meet the blogger, cá está a entrevista que tive o gosto de fazer a João Saramago. 

 

O João, para além de ser quem desenhou a chávena de onde bebo café todos os dias, concebeu o logo do meu blog e é, para mim, outro Saramago, mas das artes visuais. Não me vou estender mais com uma introdução desnecessária quando há uma conversa que quer falar por si.

 

LR: Para quem não te conhece, qual a melhor descrição de quem és, enquanto pessoa e artista - se é que estes se separam?

JS: Um tipo calado, gosto de preservar o meu espaço e isolação e, ao mesmo tempo, atraem-me os contrastes, as multidões e o caos. Não sei sinceramente se existe alguma separação, penso essencialmente que somos ou estamos a ser qualquer coisa em qualquer momento em qualquer sítio, mutáveis.

  

LR: Abandonaste o ensino superior para seguir uma carreira. Ainda achas que essa foi uma boa decisão?

JS: Por vezes debato-me se tirasse um curso de ilustração ou pintura que o meu rumo seria diferente por estar dentro de um circuito e de ter mais oportunidades de carreira, porque conheces o amigo do amigo que te põe a ilustrar para um jornal. Mas pagar para ter atenção é uma acção desesperada. Enquanto a minha intenção não for aprender novas linguagens, meios e técnicas, prefiro não o fazer. É desonesto e uma perda de energia e também não me interessa decorar o currículo em prol de validação ou credibilidade. Tomei a decisão de abandonar a licenciatura por três motivos: dinheiro, desinteresse e tempo. Até hoje, a aprendizagem é constante, pois tens que ter disciplina e foco e fazer a manutenção dessas coisas, porque nem todos os dias te apetece desenhar. E quando tens um emprego, tens que "criar" tempo para trabalhar naquilo para que nasceste ser.

 

LR: A vida tem sido fácil com aquilo que te reservou?

JS: Não, tem sido desafiante. Não vivo da pintura nem da ilustração como gostaria. Trabalho num restaurante, pinto e desenho todos os dias. Contudo, estou feliz neste momento. Sei que as coisas levam o seu tempo e que só tenho que me manter focado e fazer. "Fazer" é importante.

 

LR: Qual o maior obstáculo que encontraste até hoje no percurso da tua carreira?

JS: Gostava de conseguir trabalhar mais rápido. Por vezes fico ansioso quando estou a pintar por olhar para o papel e ver que ainda falta bastante. Os meus trabalhos são demorados e reflexivos. Queria conseguir executar mais, mas é exaustivo. Creio ser um obstáculo diário fazer a gestão e manutenção de um estado produtivo e ainda encontrar a diversão nisso, pois nem sempre é divertido pintar, por vezes é extremamente exaustivo. Mas, quando o trabalho está terminado, não encontro sensação semelhante, é uma grande satisfação.

 

LR: Quando te contratam é fácil manteres a tua identidade num trabalho?

JS: Creio que sim, embora a identidade seja o eterno conflito. Dou por mim muitas vezes a pensar o que é que vou fazer, o que é que vou acrescentar de novo, e ao fazer pesquisa encontro trabalhos que por vezes me deixam frustrado mas, volto a mim e faço as perguntas de outra forma, o que é que me dá mais gozo fazer? Rapidamente apercebo-me do meu estilo e decido vou aperfeiçoar isto. Esta é a minha identidade. Gosto de trabalhar com esferográfica, depois de estar feita a pintura, de realçar os pormenores e criar formas elásticas e entrelaçadas, de encher a folha. Gosto do exagero e de encontrar beleza nisso. Ultimamente tenho estado obcecado por desenhar formas derretidas, vem-me sempre à cabeça as camadas de cera derretida, gosto disso.

 

LR: Parte do teu trabalho é duma natureza mais abstrata, do tal exagero que encontra a beleza. Mas há mais do que isto no teu trabalho, muitas das linhas assumem formas mais concretas, de rostos, figuras públicas e prédios, alguns parecem gritar. Que pretendes tu realmente gritar com o que produzes?

JS: Não sei. Não racionalizo enquanto pinto, nem tão pouco parto de algum conceito. Parto sempre da emoção. Quando tenho material suficiente para parar, gosto de ficar a pensar e é quando os conceitos brotam. E aí sim, posso desenvolver a coleção e a mensagem. Acho que todo o meu trabalho reunido é um ensaio para qualquer coisa senão uma coisa só.

 

LR: Os social media assumem cada vez mais um papel de relevo nas nossa vidas. Como é que estes se relevam para ti, enquanto freelancer?

JS: As redes sociais são um mais uma forma de divulgação. Por vezes pode ser um pouco intrusiva e perigosa até. Costumo ter uma postura muito clínica e fria no sentido em que não me deixo afectar pela relação de quantos mais likes, mais credível e aprovado estás. Elaboro estratégias e experimento fórmulas para comunicar e aproximar-me das pessoas. A intenção é mostrar o trabalho, não obter validação.

 

LR: Em que é que estás trabalhar neste momento?

JS: Recentemente, fiz alguns desenhos que nasceram de uma necessidade de disciplina e método e reuni-os numa coleção. Essas pinturas tornaram-se exercícios de meditação, cujo objectivo principal era o foco. Depois, calhou ser chamado pelo Gerador para participar na 2ª edição do Trampolim e pintar o tema "voar com os pés assentes no chão". Senti de imediato a ligação com o tema, pois fui apanhado numa fase em que estava - e continuo a estar - interessado nos significados de expansão e dispersão, que brotaram desses desenhos. Achei que tudo fazia sentido. Então, estou neste momento a finalizar a pintura de uma sala num palacete no príncipe real e, vai estar aberto ao público gratuitamente no dia 10 de outubro, este sábado.

 

O João já tem a sua loja online disponível, visitem aqui

 

Podem também ler as outras Conversas com Vista, clicando nos nomes abaixo:

 

Paulo Borges, Professor

Samuel Pimenta, Escritor 

 

 

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

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