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LEONISMOS

LEONISMOS

29
Nov16

A empregada sabotou o dia em que eu conheci os pais


Leonardo Rodrigues

A primeira vez deixa-nos com os nervos à flor da pele, mexe com os intestinos, faz pulsar a veia da testa e, se for o caso, pode doer. Isto para a maioria das primeiras vezes. Quando conheci os pais dele deveria ter sido assim, mas a verdade é que nem tive tempo para pensar na grandiosidade da coisa até estar sentado, primeiro a respirar, depois a jantar. Estive demasiado ocupado a ser eletrocutado pela adrenalina.

Para o aniversário, ele decidiu fazer um jantar com os pais. Eu, enquanto namorado fofo e boa dona de casa, prontamente me propus a cozinhar. Queria, mesmo fora de água, sentir o conforto da cozinha. Quando chegou o dia ainda me tentou com a ideia do restaurante, mas não deixei. Ele ia trabalhar, a Fátima fazia as limpezas semanais e eu tornava o jantar possível. Parecia simples.

Estando de folga, dormi até às quinhentas, iludido pela simplicidade da vida. Levantei-me para ir fazer as compras e, como tinha tempo, decidi que ia comprar, comparar e comprar mais no Lidl, Pingo Doce e, para ter a certeza, Continente. Como estavam todos tão próximos, porque não? Fiquei quatro horas a passear sacos de um lado para outro, sempre com a ideia de que a empregada estava a fazer a sua magia.

Quando regresso a casa vi tudo como deixámos, até o pacote de Tuc se estava à vista de todos na mesa da sala. A Fátima não tinha feito magia. Embora tenha vasculhado a casa para perceber se tinha acontecido alguma coisa à mulher, não precisei de gastar mais neurónios para perceber que estava por minha conta.

Coloquei os calções mais curtos que encontrei, agarrei no aspirador como se a minha vida dependesse de matar o pó, lavei loiça, esterilizei a casa de banho, dobrei roupa e escondi coisas que não têm sítio fixo dentro dos armários.

Ele apanhou-me a 2/3 do desmaio. Com um sorriso na cara, contou-me que a empregada decidiu ir à segurança social e, como aquilo demora, achou melhor passar lá em casa no dia seguinte. 

Cozinhei para as 10 pessoas, as crianças comeram tudo, os adultos elogiaram, rimos muito. Portei-me bem e senti pertença. Mesmo que alguma coisa não seja, temos uma fotografia que vai ficar para sempre e que me faz sorrir.

No que diz respeito à Fátima, arranjei forças para perdoar-lhe porque no dia seguinte ela compensou com uma sopa sublime. Agora que ela vai para Londres de férias, eu vou aperfeiçoar as minhas sopas, assim reduzimos a nossa dependência e, com sorte, ela percebe que não me pode deixar à beira de novo ataque prozac sem aviso.

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 Imagem: A Criada Mal Criada

06
Abr16

O Sexo e a Capital: Amor à Primeira Vista


Leonardo Rodrigues

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Tenho amigos que defendem acerrimamente que deveria ter no blog uma rubrica semelhante ao Sex and the City, uma coisa à Bradshaw. Por dois motivos: conto-lhes tudo, eles contam-me tudo; tentamos chegar a verdades universais sobre o nosso caos amoroso.

 

Não sei se sei escrever sobre isso, mas enquanto pessoa que tem sexo na cidade, quiçá, talvez, tenha qualificações para tal, como milhões de outros citadinos com acesso à internet. Vou chamar a isto O Sexo e a Capital.

 

E como é que se começa? Bem, talvez não esteja a começar, embora os posts que mais leram tenham sido sobre outras temáticas, tenho um post intitulado de "Cio Emocional" e outro de "Estamos a ficar todos mais para o puta?" - sim, O Sexo e a Capital começou há mais tempo, só não tinha nome. Algumas opiniões mantenho, outras não e isso é crescer.

 

Para começar, nada melhor e mais cliché do que o amor à primeira vista. Já disse que não, agora digo que sim, mais ou menos isso.

 

Pensei, na ingenuidade da minha adolescência, que o "amor" só surgisse lá para 3ª vista. E assim deveria ser, pela questão prática de se saber como é a pessoa no dia-a-dia, fora do encontro, sem o vinho que lhe dá conversa, torna interessante e bom na cama.

 

Ao mesmo tempo que, teoricamente, deveria acontecer menos, não fosse a bagagem que uma pessoa acumula, acontece mais. Afinal de contas vamo-nos conhecendo cada vez melhor e nos tornando mais e mais seletivos, sabendo, desta forma, de antemão o que queremos e resulta e o que não. Já ninguém tem tempo a perder, e isto é uma faca de dois gumes.

 

A realidade também, confesso, é que não preciso de muito para me apaixonar. Existem pessoas que conheço, tudo impecável, mas não há faísca e não faço questão de repetir. Sejamos amigos. Outras que, apesar deste e daquele defeito, são tudo e muito mais, e, por algum motivo, fazem-me comprometer emocionalmente. De forma simples, amor à primeira vista, para mim, é quando se conhece alguém e queremos continuar a conhecer, apenas essa pessoa. Não é propriamente à primeira vista, que acho isso um tanto superficial, mas talvez à primeira conversa, ao primeiro toque.

 

O exemplo mais divertido dum destes episódios deu-se quando alguém, durante o nosso primeiro jantar, me decide contar uma história sobre um aranhão a que esteve uma hora a explicar o porquê do mesmo ter de morrer. Estivemos juntos durante 3 meses. Mais recentemente, outro caso, acho que foi ver como não-sei-quem faz a sua cara que dá conta de timidez: uma combinação de respiração contida, movimento de nariz e lábio.

 

Este "amor à primeira vista" é perigoso, complicado, geralmente fugaz. Da última vez que tal me aconteceu o cupido só teve tempo de atirar uma flecha sobre mim, não fosse isso que o gajo faz sempre.

 

Enquanto me deixo de devaneios e volto para a cama para continuar a curar a gripe, contem-me, acreditam na vossa definição de amor à primeira vista?

 

 

P.S. Tenho a agradecer à minha querida Laura Brás por me facultar os olhos para fotografia e por me incentivar, continuamente, a encontrar o amor para além da 1ª vista. 

03
Ago15

Drama!


Leonardo Rodrigues

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Quando não há, inventa-se.

 

Porquê e para quê, perguntam-se e pergunto-me.

 

Chego a uma conclusão, o drama serve para conferir sentido. É a forma que alguns escolhem para dar sentido à vida que, de si, tem pouco ou nenhum. O esforço é mínimo, a irritação do povo que percebe máxima. E isto, diga-se de passagem, é mórbido.

 

Mas, mórbido ou não, o entretenimento egoísta de um dos intervenientes é sempre garantido. Entretem-se reproduzindo uma telenovela que sempre teve e terá o mesmo enredo e onde apenas, com sorte, se varia o nome das personagens.

 

Pois bem, se há coisa que sei é: quando a telenovela começa é hora de mudar o canal.

 

29
Jul15

Obrigado, Lisboa (com fotos)


Leonardo Rodrigues

 

 

Hoje, ao remexer no meu baú de fotografias digital, decidi que ia partilhar convosco um pouco da minha complexa relação com Lisboa e alguns dos sítios que desde o primeiro dia que lhes pisei se tornaram favoritos, que me fizeram sentir pertencer à cidade, que me tornaram mais português, signifique isto o que significar. (Ver galeria abaixo)

 

Há cerca de dois anos, ainda com 18, mudei-me para Lisboa. A primeira impressão não foi a melhor, felizmente não perdurou como a maioria das primeiras impressões. Tinha demasiado medo para desfrutar e para permitir-me contemplar. Estava sozinho e não conhecia nada, tinha de encontrar casa e as aulas começavam dentro de uma semana.

 

Tudo o que era novo e diferente causava-me uma certa desconfiança, agora consigo encarar estes episódios com a curiosidade necessária. Precisei de uma semana numa cidade que me era estranha e que tive de passar a conhecer melhor que palma da minha mão, para entranhar a máxima pessoana, Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

 

Rapidamente entendi que Lisboa não é apenas mais uma capital. Há nesta cidade uma luz que a distingue de todas as outras. Os prédios que outrora foram colocados aqui e ali por acaso e necessidade, por mais que olhe, não parecem fazer sentido doutra forma e, permitam-me, são mais arte do que muita “obra de arte” que por aí anda. Enquanto no resto da Europa todos os caminhos vão dar a Roma, em Lisboa todos os caminhos parecem dar ao Tejo, o rio que aparenta e cheira a mar. Gosto que Lisboa adormeça todas as noites com o lisboetas e com os que cá estão de passagem, de sentir que sou a única pessoa acordada noite dentro, de andar por aí e sentir uma cidade que se tornou fantasma do dia para a noite, onde só há a luz dos postes que iluminam por iluminar.

 

Percebo, agora, talvez não tenha sido eu a escolher a cidade, escolhi um curso, depois escolhemo-nos os dois.

 

Obrigada, Lisboa, por me dares amores, desilusões e amigos que são agora família. Obrigado por abalares convicções e por ajudares a sedimentar outras. Obrigado por me ensinares vulnerabilidade e humildade. E, mais importante do que tudo, obrigado por me deixares tratar a bica por café.

 

 

Podem encontrar mais das minhas fotos aqui.

06
Jul15

O que esperar quando se espera: pouco, provavelmente nada


Leonardo Rodrigues

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Queria muito escrever sobre amor, mas pior do que me faltarem as palavras é faltar-me o amor.

 

E, ainda pior do que me faltar o amor, é não saber se tal coisa realmente existe, se é mais uma das loucuras que a Disney em parceria com os nossos pais nos meteram na cabeça quando éramos mais novos. 

 

Já acreditei várias vezes que tinha encontrado o tal grande amor da minha vida, mas não tinha, ou não me tinham encontrado. Quanto a quem acreditou ter encontrado em mim, não consegui encontrar de volta. Passamos assim uma vida, a imitar retas paralelas que por mais que gostem uma da outra vão estar sempre desencontradas. 

 

Recentemente julgo que tive(mos) a Oportunidade da minha(nossa) vida. Quando temos Oportunidades que se escrevem com letra maiúscula tentamos agarrá-las com tanta força que desaparecem por completo. Os que já se permitiram agarrar a areia, mesmo sem saber porquê, puderam aprender esta lição da natureza.

 

Estas Oportunidades, se estiverem a ser vistas de ambos os lados da mesma forma, vêm com expectativas mútuas - fabulosas, mas que só acontecem nos guiões dos filmes, na vida real é preciso tempo. Este tempo, por mais bonito que seja, para ter rótulo de qualidade, tem de estar livre do pensamento “Isto tem de resultar”. 

 

Algo que supera a loucura das expetativas talvez seja a vontade desmedida de agradar, o medo de se dizer algo de errado, quase que o medo de sermos nós próprios - não vá o outro não gostar de qualquer coisa - , e assim se destrói o que começou naturalmente com um futuro. Não matamos apenas o que era, mas o que é e o que poderia ter sido. 

 

Enfim, meus caros, nada de esperas e uma boa dose de calma. O que tem de acontecer acontece, quando é suposto. Vamos lá ver o que está reservado no próximo fascículo que ainda não foi escrito. 

 

Depois do desabafo que não queria muito desabafado, mudei o meu estado de relacionamento para “à procura de ser encontrado”.

 

 

27
Jun15

O Facebook, o Arco Íris e os Monocromáticos do Restelo


Leonardo Rodrigues

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Ontem, assim que me apercebi que o Facebook estava a celebrar algo que me parece determinante para o curso da Humanidade, claro que decidi fazer parte. Afinal de contas estava a fazer um pequeno contributo para a comunidade LGBT, para a normalização do que sempre foi natural e a ganhar uma foto de perfil nova, cheia de vida e de cor. 

 

Minutos depois, fiz o upload da fotografia mais colorida que alguma vez tive no Instagram. Olhem, em 10 minutos perdi mais de 10 seguidores, acho que isto diz muito. Não me incomodou, se lhes é difícil percepcionar uma paleta de cores variadas prefiro que não me sigam. Não deve ser fácil viver num mundo monocromático, eu percebo-vos e têm todo o meu apoio - para procurar ajuda. 

 

Hoje, enquanto regressava do supermercado - espero mesmo que desta vez a comida dure a semana toda - observava toda a diversidade caraterística de Alcântara. Houve progressos sim senhores, já não se gritam insultos, não se muda para o outro lado da rua, nem se espanca ninguém só por ter uma cor diferente. Até sorrimos uns para os outros, vejam lá. E isto é o que me parece, mas também nunca fui dessas coisas, lembro-me, por exemplo, de me meter em confusões para defender um rapaz negro no secundário. Enfim, por outro lado, se alguém na rua for remotamente identificado como homossexual ainda há um insultosito que se tosse, um escarro que teve de tem de ser cuspido naquele preciso momento e que se acompanha de um olhar reprovador.

 

Vejam lá se as seguintes frases fazem sentido: Concordo com isso de se ser preto, mas se fosse na minha família já não achava muita piada;  Pretos, até podem ser, mas dentro de casa; Não me venham com essas pretalhisses; Preto com branco, onde é que já se viu?; Não percebo porque escolheram ser pretos, o branco não é mais bonito?

 

Não me ocorrem mais disparates. Quem estiver a ler isto pode considerar que não posso comparar o racismo com homofobia. Posso, e sabem porquê? Porque são ambas aversões ao que é natural, ao que não se escolhe. Vou dizer duas coisas básicas: a homossexualidade foi observada em mais de 300 espécies e, tendo em conta toda a descriminação que ainda há, acham mesmo que alguém iria fazer tal escolha? Acho que isto chega para meditar.

 

Sempre houve uma aversão perante que é desconhecido, estranho, diferente. Estas palavras costumam confundem-se com o errado. Quando as pessoas se familiarizam com os assuntos começam a ver as coisas com outros olhos. O Facebook fez a sua parte e eu estou a fazer a minha. 

 

Bom fim de semana!

 

P.S. Se quiserem uma foto mais colorida cliquem aqui.

24
Jun15

E Depois do Adeus?


Leonardo Rodrigues

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Embora tenha algumas novidades para breve, só tenho escrito e publicado coisas duma subjetividade enorme. Reparo que a sociedade incute-nos esta ideia absurda de que temos de nos preocupar com certas coisas só porque sim. Percebo o porquê de algumas inquietações, mas há mais nesta vida do que política, economia e o monte de esterco que daí vem. O que me interessa, sim, são pessoas, lugares, ideias, felicidade. 

 

O importante nem sempre se estuda, procura, tão pouco se encontra, tem por hábito acontecer. A felicidade acontece em palavras, conversas, risos, olhares, toques, a luz que está a bater no prédio de certa maneira enquanto escrevo isto, o pássaro que decidiu cantar para ti durante o almoço do outro dia, pessoas. 

 

Essencialmente pessoas. A nossa vida é feita de, com e para pessoas, não me faz sentido doutra maneira. Os outros fazem tanto parte de nós como nós deles, nem que apenas como mero reflexo (irei desenvolver esta ideia num post mais à frente, com uma entrevista).

 

Saber que existem pessoas que nos servem de porto seguro, que há alguém sempre lá, num lá que é cá, é tão reconfortante. O problema é quando o lá deixa de ser cá. E isto, sem floreados, quer dizer que as pessoas partem e é uma treta, pelo menos de início. 

 

É sabido que uns capítulos têm de encerrar para outros começarem e que quando num livro deixa de haver capítulos é imperativo começar noutro, e só assim se vive. Mas sabemos também que a ressaca literária é muito mais custosa quando se anda a abrir e a fechar fascículos da Vida.

 

Durante este período existem personagens que te vão despertar maravilhas para depois te as tirar, dizendo que "não faz mal”, e o som do que está entre aspas só a mim pertence. Se não fez mal talvez venha a engordar, dizem, não sei, mas engordar também não é lá grande coisa, pode matar - o desgosto matou. 

 

Talvez seja a cidade, o fado, esta coisa de se ser português e ter a nostalgia no sangue. A saudade começa quando ainda cá estão entre nós. Achamos que nunca vamos recuperar e, surpresa, um mês depois já nem nos lembramos muito bem ou pelo menos fomos capazes de reprimir isso bem lá para dentro - não andássemos nós a fazê-lo desde os Descobrimentos. 

 

Aprendi muito cedo que não se deve dizer nunca, talvez também não se deva dizer adeus, o “até já” é bem mais pacífico. Tenho é me esquecido disto.

 

E depois do adeus? Não sei muito bem. No dia em que comecei a escrever este texto não estava contente por ter dito adeus, mas, desde aí, já apaguei e reformulei muita coisa, não estou tão irado. Compreendo melhor, embora a ideia de ausência ainda mexa comigo. Só posso dizer com segurança que umas personagens têm de partir para podermos conhecer e aprender com as outras - muitas vezes já lá estavam mas que não eram vistas. Depois de um ou mais adeuses digam outros tantos ou mais olás, o tempo há de se encarregar do resto.

 

 

 

10
Jun15

Cio Emocional


Leonardo Rodrigues

 

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Há umas semanas teorizei acerca do facto de andarmos todos a ficar para o puta. Talvez não seja bem assim.

 

Não se pode negar que isto de ser humano vem com uma forte componente sexual, com certas necessidades. No entanto o que me tem parecido é que estas necessidades cada vez mais se apresentam como falsas necessidades, parece que é isto, mas afinal é aquilo e, aquilo, às vezes até nem era nada.

 

Permitam-me, então, reformular, não estamos “mais para o puta”, estamos - alguns - apenas com o Cio Emocional. Precisamos de sentir. 

 

A este pseudo conceito, como todos aqueles outros que invento durante o dia - e noite, quando a insónia quer - , cheguei através de uma conversa com amigos. A conversa foi qualquer coisa como: Acho que estou com o cio, Então mas não tiveste sexo há 5 minutos, Sim, Estás com o cio emocional, mas é. Não importa quem estava com o quê ou, melhor, quem achava que estava com o quê.

 

O que importa, sim, é perceber isto do cio das emoções, dos afetos. A primeira definição que me surgiu foi: quando te falta qualquer coisa, achas que é de sexo que se trata ou que isto a pode tratar e, uma vez a “vontade saciada”, o estado persiste. Continua a faltar qualquer coisa. Talvez fosse apenas de um abraço que precisasses, daqueles mais quentes, que duram horas. O melhor que já me disseram foi “Não precisas de uma foda, precisas de um abraço, vem cá” - imaginem tal coisa dita em inglês. 

 

(Talvez até nem se precise de nada, se calhar falo daquilo do querer sempre mais, que não se pode saciar nem com sexo, nem com nada.)

 

No terreno - dating world, sex dating world - percebe-se, duma parte e da outra: Falhou uma vez, Não falhou mas está longe, Nunca encontrei ninguém, nem nunca vou encontrar, Já perdi a esperança. Parou-se de procurar algo mais porque no passado correu mal, porém, e isto deve ser repetido quantas vezes forem necessárias: só o presente importa.

 

E olhem, não há como procurar, mesmo que se magoe aqui e ali, aprende-se. Popularmente há quem diga que quem procura sempre encontra, outros que é quando não se procura que aparece. Que venha o cupido e escolha!

 

A definição que apresentei acima não é, de todo, científica, eu também não o sou. No entanto, para tornar isto o mais abrangente possível, fui perguntar a alguns dos meus amigos, - do estudante ao professor, do homossexual à heterossexual - , o que era isto do cio emocional, se existia, se é igual para ambos os sexos, qual a experiência. As respostas confirmaram a minha teoria, deixo-vos as passagens mais interessantes:

 

“Cio emocional é um frustrante estado de alma, consumado com o despertar da mente, após uma fugaz satisfação sexual. (…) Oferecemo-nos ao outro aos pedaços. Somos inteiros apenas nos momentos de frustração, em que a inquietação sobre o que realmente queremos impera. A superficialidade da rotina, do encontro imediato, da rapidez do toque, não preenche e não basta a quem planeia um pouco mais para si e, eventualmente, para o outro a seu lado.”

P.L., estudante, Lisboa

 

“Não sei em termos de psicologia humana, com certeza que há estudos sobre isso, mas pela experiência que eu tive, achei que tive as duas carências: a física de sexo e prazer físico, é claro, a emocional também... Ou seja, no meu caso não era falsa ilusão de sexo, porque queria a sensação é prazer físico, mas a parte emocional seria a que mais procurava, talvez. Em cada homem que eu pensava em ter sexo, seria sim com o fim de construir algo mais e de me preencher algo emocional.”

C., médica, Porto

 

“Quanto ao Cio Emocional, sem dúvida que existe. Seja mascarado de carência, afectos a transbordar, tesão de alma, ou de entre-pernas, medo de solidão, "achar que desta é que é", lá que existe, isso sem dúvida. E, Leonardo, se se conseguisse disfarçar o (não ter) afecto com o sexo, estávamos todos saciados e apaixonados pela nossa mão direita, à excepção provavelmente dos canhotos.”

M.F., psicólogo 

 

“Cio emocional é quando tu precisas mais de um abraço do que de um orgasmo, mas optas pelo orgasmo porque nos dias  de hoje é mais fácil arranjar quem nos foda do que quem nos abrace. Nos primeiros cinco minutos depois de me vir estou satisfeito. Depois o efeito acaba e volto a me sentir sozinho. Geralmente não procuro compensar o lado emocional/afetivo desta forma, mas há quem o faça. Parecem hamsters sempre a dar voltas no mesmo sitio. Vai chegar o dia em que ja comeram todos e a noite vai ser passada sem companhia. É preciso parar para fazer um balanço.”

L.C, Lisboa

 

“Sei que estou constantemente a precisar de carinho e de sentir que sou amada, e o sexo acaba por ser a forma mais fácil de o conseguir, mesmo sendo uma ilusão e por meros minutos.”

C.P, estudante, Lisboa 

 

“Acho que sim, especialmente numa relação entre dois homens, é de cio emocional que se trata. A maior parte procura afecto e não sabe, pensa que só quer sexo, mas não quer. Quer afecto, mas tem medo dele, das emoções e por isso, depois da queca, adeus adeus

Estão numa eterna busca por alguma coisa até darem conta que já comeram Lisboa inteira. Os amores chegam e vão ainda mais depressa do que chegam. Mas, se conseguires nutrir boas amizades, parte da tua necessidade de afecto fica resolvida. Claro que há sempre uma componente mais íntima em que os amigos não entram. As pessoas esquecem-se que o sexo é, possivelmente, a maior troca energética que dois humanos, ou mais, podem fazer, e nessa troca acontece muita coisa, a outros níveis. É um acto que deve ser feito de forma responsável e não só porque sim.”

S, lisboa 

 

“A mim "cio" nunca me deu, dá-me mais falta é das outras coisas mais básicas de um casal. Por exemplo, no outro dia, com quem estou agora fizemos sexo e depois fomos ver um filme e sinceramente gostei mais do pós-sexo do que o sexo em si, e não estou a dizer que o sexo foi mau. Quando iniciei a minha vida sexual só procurava sexo, depois cheguei a uma fase em que queria mais, mas alguma coisa dentro de mim não deixava que eu gostasse de mim mesmo. Só após arranjar este grupo de amigos, no qual sou abertamente gay, é que consegui aceitá-lo e falar abertamente. Conseguir dizer que sou gay permitiu-me procurar algo mais do que sexo. Agora sim, sinto-me eu.”

F.N, estudante, Porto

 

“Sim, ja acreditei que precisava de ter sexo para estar bem, e acreditei mesmo, pois dava-me energia e tudo isso. Entretanto, sabemos que não precisamos de nada disso, nem do afeto dos outros… Acreditava tanto, que criei dependência disso, loucura absoluta. Isto aconteceu, em período de grande confusão. A ilusão do sexo é de facto grande. De qualquer modo o ter sexo faz parte da nossa condição humana. Para se estar bem, é que já e outra coisa. Eu já acreditei nisso! Mas o mais curioso, é que de um modo geral eu ficava bem, depois disso, a carência, vinha no dia seguinte. Há sempre essa carência!”

L.C, professora, Madeira

 

"Isso tem tudo a ver com carência emocional, com distorção de sentimentos, com afetividade apenas por mero prazer. Cio, ok, cio porque regemo-nos por apetite sexual, pelo desejo do momento e daí que as traições sejam, por vezes, casuais. A questão é: qual a barreira que nos impede de utilizar o nosso corpo, enquanto trunfo pessoal, para o que nos der na gana?"

J, professora, Açores

 

A conclusão razoável a que podemos chegar é que tanto o sexo como o afeto são necessidades a que temos de dar resposta, mas que são complementares. O sexo é como uma droga: ajuda a esquecer, mas apenas temporariamente, nunca é suficiente e traz ressaca. Tudo nesta vida deve ser visto como um todo. Nada do que eu ou os meus amigos escrevemos se pode apresentar como verdade absoluta, pessoas diferentes funcionam de formas diferentes, mas que se reflita sobre as coisas, que vivam felizes para sempre que é isso que se quer. E não se esqueçam do que o nosso argumento de autoridade disse: “se se conseguisse disfarçar o (não ter) afecto com o sexo, estávamos todos saciados e apaixonados pela nossa mão direita, à excepção provavelmente dos canhotos.”

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

28
Abr15

Estamos a ficar todos mais para o "puta"?


Leonardo Rodrigues

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A sério, fomos sempre? Estamos a ser induzidos a sê-lo? 

Passa-se um ano, dois, três, o número aumenta, aumenta, aumenta. Apaixona-se, desapaixona-se. Namoramos, já não sei se namoramos, ah sim namoramos, afinal acabou. Gosto, já não gosto.

Ontem fui lembrado disto por um vulto do passado, que ainda não consigo olhar nos olhos.

Tanta coisa que poderia ter sido, mas não é. Mas não é porquê?

Eu tenho um palpite, acho que muitas coisas não são por medo. Ou então, talvez o conceito de relacionamento tenha mudado tanto que já não serve. Acho que se abriu muito, e isto pode entender-se como parecer melhor.

Resta-nos o quê, o sexo sem compromisso? Mas até que ponto é que isto resulta? Vamos utilizar dating apps até que idade? 50 porque ainda somos novos ou 80 porque dava tempo?

A mim parece-me que vez após vez as coisas se processam assim: o jantar está a ser bom, a noite foi ainda melhor, mas fiz novo match no Tinder, deixa ver se amanhã dá para superar. E parar de procurar?

A minha avó não procurou muito, e o que construiu durou uma vida e sei que ambos foram felizes.

Quanto a todo o speed dating do qual tenho vindo a observar e a fazer parte, acho giro falar sobre coisas que se gosta, conhecer muita gente nova e descobrir umas coisas interessantes.

Mas repetir o mesmo, por muito interessante que seja, cansa, soa a decorado. Parece que deixa de haver conteúdo e que os processos automatizam-se em torno de um único objetivo. Uma outra pessoa muito querida falou-me do conceito de sexo altruísta, na altura fez sentido, agora acho que também já não serve.

Uma vez disseram-me que perseguir um objetivo é mais interessante do que atingi-lo. Biologicamente dizem que assim o é e talvez seja por isso que a caça tenha de continuar.

Antes que me acusem de pudismo exacerbado, contra mim escrevi.

Obrigado Tinder, obrigado Grindr. E um beijo aos Morangos com Açúcar que me ensinaram o que era uma curte.

Ah, e sorriam porque hoje é o dia mundial do sorriso e o amor pode estar apenas a um swipe de distância.

 

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