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LEONISMOS

LEONISMOS

06
Abr16

O Sexo e a Capital: Amor à Primeira Vista


Leonardo Rodrigues

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Tenho amigos que defendem acerrimamente que deveria ter no blog uma rubrica semelhante ao Sex and the City, uma coisa à Bradshaw. Por dois motivos: conto-lhes tudo, eles contam-me tudo; tentamos chegar a verdades universais sobre o nosso caos amoroso.

 

Não sei se sei escrever sobre isso, mas enquanto pessoa que tem sexo na cidade, quiçá, talvez, tenha qualificações para tal, como milhões de outros citadinos com acesso à internet. Vou chamar a isto O Sexo e a Capital.

 

E como é que se começa? Bem, talvez não esteja a começar, embora os posts que mais leram tenham sido sobre outras temáticas, tenho um post intitulado de "Cio Emocional" e outro de "Estamos a ficar todos mais para o puta?" - sim, O Sexo e a Capital começou há mais tempo, só não tinha nome. Algumas opiniões mantenho, outras não e isso é crescer.

 

Para começar, nada melhor e mais cliché do que o amor à primeira vista. Já disse que não, agora digo que sim, mais ou menos isso.

 

Pensei, na ingenuidade da minha adolescência, que o "amor" só surgisse lá para 3ª vista. E assim deveria ser, pela questão prática de se saber como é a pessoa no dia-a-dia, fora do encontro, sem o vinho que lhe dá conversa, torna interessante e bom na cama.

 

Ao mesmo tempo que, teoricamente, deveria acontecer menos, não fosse a bagagem que uma pessoa acumula, acontece mais. Afinal de contas vamo-nos conhecendo cada vez melhor e nos tornando mais e mais seletivos, sabendo, desta forma, de antemão o que queremos e resulta e o que não. Já ninguém tem tempo a perder, e isto é uma faca de dois gumes.

 

A realidade também, confesso, é que não preciso de muito para me apaixonar. Existem pessoas que conheço, tudo impecável, mas não há faísca e não faço questão de repetir. Sejamos amigos. Outras que, apesar deste e daquele defeito, são tudo e muito mais, e, por algum motivo, fazem-me comprometer emocionalmente. De forma simples, amor à primeira vista, para mim, é quando se conhece alguém e queremos continuar a conhecer, apenas essa pessoa. Não é propriamente à primeira vista, que acho isso um tanto superficial, mas talvez à primeira conversa, ao primeiro toque.

 

O exemplo mais divertido dum destes episódios deu-se quando alguém, durante o nosso primeiro jantar, me decide contar uma história sobre um aranhão a que esteve uma hora a explicar o porquê do mesmo ter de morrer. Estivemos juntos durante 3 meses. Mais recentemente, outro caso, acho que foi ver como não-sei-quem faz a sua cara que dá conta de timidez: uma combinação de respiração contida, movimento de nariz e lábio.

 

Este "amor à primeira vista" é perigoso, complicado, geralmente fugaz. Da última vez que tal me aconteceu o cupido só teve tempo de atirar uma flecha sobre mim, não fosse isso que o gajo faz sempre.

 

Enquanto me deixo de devaneios e volto para a cama para continuar a curar a gripe, contem-me, acreditam na vossa definição de amor à primeira vista?

 

 

P.S. Tenho a agradecer à minha querida Laura Brás por me facultar os olhos para fotografia e por me incentivar, continuamente, a encontrar o amor para além da 1ª vista. 

06
Jul15

O que esperar quando se espera: pouco, provavelmente nada


Leonardo Rodrigues

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Queria muito escrever sobre amor, mas pior do que me faltarem as palavras é faltar-me o amor.

 

E, ainda pior do que me faltar o amor, é não saber se tal coisa realmente existe, se é mais uma das loucuras que a Disney em parceria com os nossos pais nos meteram na cabeça quando éramos mais novos. 

 

Já acreditei várias vezes que tinha encontrado o tal grande amor da minha vida, mas não tinha, ou não me tinham encontrado. Quanto a quem acreditou ter encontrado em mim, não consegui encontrar de volta. Passamos assim uma vida, a imitar retas paralelas que por mais que gostem uma da outra vão estar sempre desencontradas. 

 

Recentemente julgo que tive(mos) a Oportunidade da minha(nossa) vida. Quando temos Oportunidades que se escrevem com letra maiúscula tentamos agarrá-las com tanta força que desaparecem por completo. Os que já se permitiram agarrar a areia, mesmo sem saber porquê, puderam aprender esta lição da natureza.

 

Estas Oportunidades, se estiverem a ser vistas de ambos os lados da mesma forma, vêm com expectativas mútuas - fabulosas, mas que só acontecem nos guiões dos filmes, na vida real é preciso tempo. Este tempo, por mais bonito que seja, para ter rótulo de qualidade, tem de estar livre do pensamento “Isto tem de resultar”. 

 

Algo que supera a loucura das expetativas talvez seja a vontade desmedida de agradar, o medo de se dizer algo de errado, quase que o medo de sermos nós próprios - não vá o outro não gostar de qualquer coisa - , e assim se destrói o que começou naturalmente com um futuro. Não matamos apenas o que era, mas o que é e o que poderia ter sido. 

 

Enfim, meus caros, nada de esperas e uma boa dose de calma. O que tem de acontecer acontece, quando é suposto. Vamos lá ver o que está reservado no próximo fascículo que ainda não foi escrito. 

 

Depois do desabafo que não queria muito desabafado, mudei o meu estado de relacionamento para “à procura de ser encontrado”.

 

 

24
Jun15

E Depois do Adeus?


Leonardo Rodrigues

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Embora tenha algumas novidades para breve, só tenho escrito e publicado coisas duma subjetividade enorme. Reparo que a sociedade incute-nos esta ideia absurda de que temos de nos preocupar com certas coisas só porque sim. Percebo o porquê de algumas inquietações, mas há mais nesta vida do que política, economia e o monte de esterco que daí vem. O que me interessa, sim, são pessoas, lugares, ideias, felicidade. 

 

O importante nem sempre se estuda, procura, tão pouco se encontra, tem por hábito acontecer. A felicidade acontece em palavras, conversas, risos, olhares, toques, a luz que está a bater no prédio de certa maneira enquanto escrevo isto, o pássaro que decidiu cantar para ti durante o almoço do outro dia, pessoas. 

 

Essencialmente pessoas. A nossa vida é feita de, com e para pessoas, não me faz sentido doutra maneira. Os outros fazem tanto parte de nós como nós deles, nem que apenas como mero reflexo (irei desenvolver esta ideia num post mais à frente, com uma entrevista).

 

Saber que existem pessoas que nos servem de porto seguro, que há alguém sempre lá, num lá que é cá, é tão reconfortante. O problema é quando o lá deixa de ser cá. E isto, sem floreados, quer dizer que as pessoas partem e é uma treta, pelo menos de início. 

 

É sabido que uns capítulos têm de encerrar para outros começarem e que quando num livro deixa de haver capítulos é imperativo começar noutro, e só assim se vive. Mas sabemos também que a ressaca literária é muito mais custosa quando se anda a abrir e a fechar fascículos da Vida.

 

Durante este período existem personagens que te vão despertar maravilhas para depois te as tirar, dizendo que "não faz mal”, e o som do que está entre aspas só a mim pertence. Se não fez mal talvez venha a engordar, dizem, não sei, mas engordar também não é lá grande coisa, pode matar - o desgosto matou. 

 

Talvez seja a cidade, o fado, esta coisa de se ser português e ter a nostalgia no sangue. A saudade começa quando ainda cá estão entre nós. Achamos que nunca vamos recuperar e, surpresa, um mês depois já nem nos lembramos muito bem ou pelo menos fomos capazes de reprimir isso bem lá para dentro - não andássemos nós a fazê-lo desde os Descobrimentos. 

 

Aprendi muito cedo que não se deve dizer nunca, talvez também não se deva dizer adeus, o “até já” é bem mais pacífico. Tenho é me esquecido disto.

 

E depois do adeus? Não sei muito bem. No dia em que comecei a escrever este texto não estava contente por ter dito adeus, mas, desde aí, já apaguei e reformulei muita coisa, não estou tão irado. Compreendo melhor, embora a ideia de ausência ainda mexa comigo. Só posso dizer com segurança que umas personagens têm de partir para podermos conhecer e aprender com as outras - muitas vezes já lá estavam mas que não eram vistas. Depois de um ou mais adeuses digam outros tantos ou mais olás, o tempo há de se encarregar do resto.

 

 

 

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

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