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LEONISMOS

LEONISMOS

15
Fev17

Dizer amo-te


Leonardo Rodrigues

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Já tinha este post nos rascunhos há uns dias e hoje, após o dia que encheu o meu refeitório de corações, parece-me boa ideia concluir.

Há quem diga e julgue que os gestos falam mais alto do que as palavras. Como se alguma coisa pudesse significar mais do que palavras, do que uma palavra. Isso só é válido quando se banalizam as palavras, especialmente uma que, em tão poucas letras, pode significar tanto: amo-te. 

Por vezes agimos de uma forma que não queremos, da mesma forma que dizemos coisas que não sentimos. Agir contra a nossa natureza custa. Curiosamente, proferir o que realmente pensamos e sentimos também, sente-se uma pequena dorzinha.

Dizer amo-te, saíndo bem lá do fundo, é cirúrgico. Para mim, é quase como se sentisse que o meu peito se rasga para sair de lá dentro algo muito intimo. É sincero. Por outro lado, quando me é dito continua a acontecer algo de extraordinário em mim. Num episódio recente foram as lágrimas que começaram a cair apenas por o ouvir. Sem soluços, só um calor imenso. Afinal, o quão valioso é amar reciprocamente?

Pareceu-me que, à minha volta, de tanto se ouvir e dizer palavras como esta, retira-se o som das mesmas e, por consequência, perdem o seu significado e efeito. Criar um dia que manipule a economia das palavras e dos gestos deixa-me a pensar.

Olhem, sou por dizer menos e significar mais. Que se demonstre tudo, mas sem gastar a grandiosidade das palavras e das emoções. 

 

 

 

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

22
Dez15

É Natal, é Natal, Não Vai Nascer Jesus


Leonardo Rodrigues

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Em vésperas de Natal, por mais que já tenha sido feito, não se pode deixar de falar da festividade, é o passado a tornar-se novamente notícia, ciclicamente, não fosse assim toda a História.

 

Estamos habituados a celebrar o 25 de dezembro porque é tradição e é difícil resistir-lhe. A sorte é que esta é daquelas tradições que se demarcam pela positiva e que tem a capacidade particular - ainda que caridosamente cedida pelos governos - de, numa época em que ninguém tem tempo para nada, parar relógios, em Portugal e em todo o mundo

 

É certo que nem todos vão na canção de Natal e, cada vez mais, estamos a assistir a uma descrença na data, basta perguntar aos amigos e estar atento às conversas de café: "O natal deveria ser todos os dias"; "A vida corre mal e não se pode festejar por festejar"; "É símbolo máximo do capitalismo, só serve para gastar dinheiro"; "O Natal tem que ver com religião e ateu que se preze não pode compactuar com semelhante coisa".

 

Sim, pessimistas, o capitalismo não se chateia com o Natal e até agradece o empurrão, mas há que relembrar que poucos podem dar constantemente - uma ou outra data para dar (e receber) é a dose anual recomendada para os bolsos. Também, e segundo consta, o Natal nas suas origens não tinha nada que ver com a religião - monoteísta- , que o diga a História, e agora muito menos, que o digam as pessoas.

 

Ouvindo a História, se recuarmos a antes de Jesus Cristo nascer - e morrer -, já era celebrado a 25 de dezembro o nascimento - natalício - de um morto, Nimrode, considerado um messias, e filho do deus sol. A iniciativa de tal festividade veio da sua mãe-esposa, que também decidiu ser da vontade do filho que os presentes fossem colocados junto de uma árvore. Festejar o nascimento de algo, a árvore, e outros tantos elementos vem de costumes pagãos, de tempos em que se acreditava haver mais do que um deus.

 

Algumas pesquisas sugerem, tendo a Bíblia em consideração, que Cristo não poderia ter nascido a 25 de dezembro. Em Lucas 2:8 podemos ler "... havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho". Tal coisa nunca acontecia em dezembro, sendo que em meados de outubro já os rebanhos tinham sido retirados para ficarem protegidos do clima dos meses que se seguiam.

 

No segundo século do nosso tempo, de forma a unir cristãos e pagãos, as datas fundiram-se, prevalecendo, agora, apenas o 25 de dezembro dos cristãos católicos.

 

Quanto às pessoas, constata-se também um distanciamento, relativamente à religião católica. Ao questionar muitas pessoas as suas motivações para praticar o natal poucos responderam de forma elaborada, isto ou porque a pergunta foi lançada numa rede social e ninguém está para arranjar uma tendinite ao desenvolver o pensamento ou porque o Natal é assim tão simples. O que é certo é que ninguém respondeu “religião” - isso parece já só ser válido nas janelas que vemos ao andar pelas ruas de Lisboa doutros tempos em que o natal é sinónimo de menino Jesus.

 

Atualmente, mesmo perdendo a conotação religiosa continua a significar, para a maioria dos questionados, "amor", "alegria, "família", "união" e, sinceramente, “tudo o que quisermos que seja”.

 

O mundo está a encarar o natal como uma data que permite que uma família, aqueles com quem têm laços de sangue e outros com relações que ultrapassam questões de sangue, se sentem em torno de uma mesma mesa, talvez pela primeira vez no ano, para falar, rir e aproveitar o presente do presente.

 

Para alguns, não se trata apenas de reencontrar o irmão perdido, "por vezes é mesmo reconciliar".

 

Das melhores recordações que partilharam, há que salientar estas: "quando em pequena vi o Pai Natal pela primeira vez.”; “Beber cerveja a bordo de um tuk tuk em Changai”. Ninguém respondeu cruzar-se com Jesus, nem como adulto nem como recém nascido, embora em algumas casas se diga às crianças que o senhor está a visitar, ninguém o parece ter visto. Também ninguém relembrou a missa do parto - tradição religiosa de Natal da Ilha da Madeira e do Porto Santo - que lhe transformou a vida.

 

Dos que não mudam de temperatura com o Natal, há quem seja mais prático e vá mais longe: "embora o natal seja alegria, amor e gratidão nem é assim tão importante, o que importa, sim, é o ano novo e as oportunidades que poderão estar para surgir."

 

Por fim, que se faça uma menor correção na canção: É natal, é Natal/Não vai nascer Jesus.

 

E para vós, o que é o natal?

07
Dez15

À deriva


Leonardo Rodrigues

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 @leonismos

 

Comecei a escrever este post antes, mas, como que por artes mágicas, apagou-se. Então, vou fazê-lo outra vez.

 

Ao que parece não tenho escrito, pelo menos é o que me dizem. O que não tenho feito é publicar e, como não partilho e não torno público, acham que não existe.

 

Até que existe, mas apenas listas com afazeres e pensamentos que surgem tão rápido quanto desaparecem em notas no meu telemóvel, acontece que juntos não fariam um texto coeso. Podia, claro, pegar em cada um deles, trabalhar as ideias, passá-las a parágrafos que amontoados haviam de formar um texto e, por fim, partilhar, para existir para os outros. Isto faz-me pensar, e serei redundante, que pensar já não chega para existir. A máxima, mesmo sem blogues e "facebuques", deveria ter sido sempre Partilho logo existo. Que Descartes me perdoe a heresia. Não o tenho feito.

 

Os motivos concretos para a minha ausência de existência online deixo para mais tarde - talvez sob a forma de conto que ainda não sei se pode ter essa designação.

 

Posso, e porque me apetece, dizer que estive à deriva. O Facebook não tem este estado e talvez por isso eu não soubesse, teve que me o dizer o Samuel Pimenta, que vocês já devem conhecer e que vou citar não tarda.

 

Estar à deriva, apercebi-me logo, é estar por aí a ver onde é que a corrente nos leva, mas sempre com muito medo dos Adamastores da vida.

 

O Samuel acha que tem que ver com a cidade, Lisboa, que "é uma serpente: hipnotiza-nos com a luz dourada para depois nos engolir."

 

Isto, segundo parece, tem tudo que ver com questões geoespirituais - se a palavra não existia, aqui têm uma nova. Percebam o que quero dizer com o mito que me foi contado: "Quando Ulisses passou pelo nosso território, Portugal era conhecido como o reino de Ofiússa, o reino das serpentes. Em Lisboa, governava a rainha das serpentes, uma mulher-cobra que hipnotizava todos os homens que dessem ao cais, dormia com eles e devorava-os depois. Acontece que, quando Ulisses atracou em Lisboa, fingiu-se enamorado pela rainha, passaram a noite juntos e na madrugada seguinte, antes de ela acordar, fugiu. Dizem que as 7 colinas de Lisboa são o que resta dos espasmos da rainha-serpente quando saiu rumo ao oceano, atrás de Ulisses."

 

Enquanto lisboetas e recém lisboetas, não temos de lidar apenas com a maldita da saudade, também temos de lidar com fúria de uma cobra mais letal que todas as outras, Ofiússa .

  

A conclusão a que chego, sendo eu duma geografia cercada de mar, tal como Ulisses, é que preciso de desenvolver a minha relação com o rio que quer muito ser mar, o nosso Tejo, na esperança que também me permita salvar dos (des) encantamentos dos monstros da cidade e da vida.

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