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LEONISMOS

LEONISMOS

20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

08
Set15

Call Center, O Monstro


Leonardo Rodrigues

Inicialmente, acho que só tinha coisas negativas para escrever. Agora, numa balança em que de um lado se coloca positivo e do outro negativo, tenho mais para pesar.

 

Não sou muito bom naquilo que faço, nem sei se o quero ser, sê-lo parece-se com desistir. Contudo, sendo eu uma pessoa com azar no amor e sorte no jogo, lá vou vendendo e cumprindo objetivos.

 

No trabalho, de tanto ouvir, já não quero ouvir. Aquele interesse por ouvir e saber mais, que quem me conhece reconhece em mim, como que vai desaparecendo a cada chamada que recebo. Já não quero que me expliquem como é viver em certa localidade, passemos adiante homens e mulheres!

 

A desumanidade atribuída a um operador de call center por quem está do outro lado da linha verifica-se e, confesso, também passei a atribuí-la ao cliente. As vozes têm todas um nome, Cliente. De serem tantas, quase que parecem iguais, apenas umas se fazem ouvir mais alto que outras. As perguntas e as respostas tornam-se automáticas e têm um objetivo comum, a venda.

 

Este é um trabalho digno deste século e, embora preze e use muito do que agora se inventa, não me agrada que toda a interação num trabalho se baseie no contacto com máquinas que dão acesso a uma ficha que, por sua vez, se faz acompanhar de uma voz mais ou menos irritada, com mais ou menos vontade de comprar.

 

Posto estes pensamentos pensados em horas menos boas, o trabalho, por vezes, dá-me vontade de sorrir. Conseguir que um cliente que é também um paciente com cancro solte uma gargalhada, não sendo essa a minha função, faz-me bem. Do outro lado da balança, que se faz sempre pesar, lembra-me que as empresas fazem contratos que asseguram unicamente o seu bem estar, não abrangendo o mau estar do cliente que se faz verifica com cancros, mortes, desemprego, mudanças de casa e afins. Talvez não seja o meu trabalho temporário a não ser humano, as empresas é que cada vez o são menos.

 

É-me difícil fugir do lado negativo, mas vou, novamente, tentar escrever-vos sobre o outro ingrediente. No outro dia emocionei-me, estava a fechar uma venda, mas pelo meio, enquanto o computador decidia se havia de cooperar, fui conversando, mais ouvindo, uma senhora. Esta chamada vai ficar comigo por algum tempo. Ela tratava-me como uma pessoa, eu tratava-a como outra. Começamos a trocar experiências de vida, o porquê não sei. A verdade é que a mesma tecnologia que pode destruir também pode aproximar.

 

A senhora tinha sido abandonada grávida, tal como a minha mãe o foi há 21 anos. Ambas criaram os filhos da melhor forma que sabiam, como podiam, com o apoio da família e de amigos – que chegam a ser mais família que a família. (Confidencio-vos que a minha mãe, para subsistir, chegou a levar-me, ainda bebé, para o nosso terreno e deixava-me num cantinho, muito bem aconchegado em mantas, enquanto lavrava a terra.) A senhora, que não posso revelar o nome, disse-me que deveria dar muito valor à minha mãe, que esta era uma “mãe coragem/guerreira” – ouvir isto deixou-me com uma lágrima no canto do olho. Nunca a tinha pensado assim, com este apelido que me parece tão forte. E, embora na altura a minha mãe não tivesse consciência disso, foi preciso muita coragem disfarçada de instinto.

 

Ao longo desta chamada não estive preocupado em anotar corretamente tudo o que era número, embora também o tivesse feito, mas sim o que ela me ia dizendo, palavra por palavra.

 

A senhora, ao prosseguir com o seu discurso de pessoa que viveu e aprendeu, disse-me que agora é feliz, que agora é realizada, mesmo depois de ter perdido aquele que seria o seu segundo filho. No que à família diz respeito disse-me que, sim, é importante, que é o pai dela “na terra e deus no céu”, mas que esta sua realização maior vem de ter encontrado o amor, um companheiro que a preenche. Afinal de contas a família que criamos – ou que pensamos criar, no meu caso - tem sempre um valor diferente daquela que nos é oferecida quando nascemos. ”Precisamos sempre de alguém, embora estejamos sempre a negá-lo”.

 

Agradeci-lhe as suas tão sábias palavras e disse-lhe que me sentia com sorte de a ter em chamada porque nem todos os clientes são assim e porque por vezes dizem o que dizem, ela respondeu-me da forma mais simples, “Não vale a pena sermos maus nesta vida, temos de entender o outro”. Numa palavra, Respeito!

 

Confidenciou-me, ainda e por fim, que depois de ter dado a luz o filho morto foi criticada por uma mulher qualquer por não ir sempre ao cemitério, à qual respondeu “olhe, se eu quiser chorar choro em casa, chorar na rua não me vai trazer a filho de volta.” Confiro.

 

Ter a oportunidade de desenvolver uma empatia com pessoas que nunca vi e que nunca vou ouvir outra vez não é das únicas coisas boas. Estes primeiros trabalhos, que embora não sejam nada fáceis, têm-me servido para desenvolver um sentido de responsabilidade maior e deixam-me com um grande jogo de cintura noutras esferas da minha vida.

 

Nos dias que correm este é daqueles trabalhos da praxe que grande parte dos jovens se sujeitam à medida que se vão tornando responsáveis pela sua vida, renda, comida, roupa, propinas, livros e cada gota de café que nos perfuma a alma – sim, porque não poder comprar café é uma preocupação que se sobrepõe à minha próxima propina.

 

Ah, e não se preocupem que tenho deixado um belo registo escrito das várias formas que a loucura e estupidez que um cliente pode demonstrar, mas só o irei publicar no blog assim que esta minha experiência acabe. Não posso precisar uma data, até porque os contratos que se vão assinando têm uma duração de quinze dias.

 

Quando era mais novo vivia um monstro debaixo da minha cama, mas não tinha nome. Depois, à medida que fui ganhado segurança e conhecimento do mundo que me rodeava, foi-se embora. O Call Center é apenas mais um que, tal como todos os monstros todos antes deste, só existe em fases de transição e crescimento, que não se demoram muito a ser ultrapassadas. Haverão outros, e que venham eles!

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@gratisografy

 

 

15
Ago15

Entrevista a Samuel Pimenta


Leonardo Rodrigues

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Foto de José Lorvão 

 

Demorou, mas finalmente chegou a segunda entrevista de Conversas com Vista.

 

Hoje é a vez de dar voz a um escritor, Samuel Pimenta (25). É Alguém com quem gosto de conversar e que tenho o privilégio de considerar amigo. Nesta conversa temos o Samuel de todos os dias. Percebam, então, porque é que eu, em concordância com a Le Cool, considero-o alguém que têm de conhecer.

 

LR: Eu já te conheço, mais enquanto pessoa do que escritor. O que achas que te define enquanto pessoa, enquanto escritor e enquanto ambos?

SP: O espírito libertário. Penso que é para lá que caminho, para a liberdade, enquanto pessoa e enquanto escritor, que é estranho separar uma coisa e outra. A escrita é um exercício de aprimoramento da pessoa que sou. E escrevo para ser mais livre, para poder desvendar mais da vida, do Universo.

 

LR: Como é que te chegam as coisas que colocas no papel?

SP: Chegam-me através dos meus sentidos e da forma como se relacionam, da minha sensibilidade. É sempre complicado explicar o processo que antecede o momento da escrita, a inspiração. É um momento místico, espiritual, mas também físico, pois faz-se sentir no corpo. Quando tenho uma ideia, o meu coração acelera, tenho de caminhar para organizar a mente.

 

LR: Já tiveste de lidar com a famosa folha em branco? Que fazes quando isso te acontece?

SP: Sim, é por isso que ela é famosa, é comum cruzar-se connosco. Antes preocupava-me, agora não. Não me obrigo a escrever, bem pelo contrário. Quando estou no processo de escrita e tenho algum bloqueio, opto por parar. A criação literária também é física, sai-nos do corpo, é importante repousar, deixar a mente liberta. Costumo dizer que é importante deixar a mente respirar. Ela precisa de ir a outros sítios, ver outras coisas, para regressar com um outro olhar, um olhar que vença a folha em branco. Durante o processo de escrita, estou muito consciente do meu corpo e respeito os tempos que ele me exige. Penso que o facto de praticar meditação desde muito cedo ajuda neste caso.

 

LR: És daqueles que tentam demarcar-se das suas vivências pessoais enquanto escritor? Isso é possível? De que forma é que isso se vê ou não na tua escrita?

SP: A meu ver, isso é uma tarefa impossível, nem penso sobre isso. Toda a criação artística parte de uma vivência pessoal, nem que seja de uma ideia (pois as ideias são coisas muito íntimas, estão guardadas dentro da nossa cabeça, às vezes muito caladas).

 

LR: Há dias falávamos sobre o não haver coisas más, para aqueles que ainda olham esta ideia com estranheza, que nos podes dizer?

SP: Acredito que as coisas podem parecer más à primeira vista, de forma ilusória, mas como sou uma pessoa positiva, sei que, por trás dessa miragem negativa, existem sempre oportunidades, aprendizagens que nos ajudam a construir quem somos, que nos ajudam a evoluir. E como evoluir é bom, acredito que todas as coisas são boas, que têm um bom propósito.

 

LR: Estás bem contigo, tanto se vê como se sente. Embora nunca possa existir apenas um caminho, acho que importa saber qual foi o teu, como se chega ao Samuel de agora?

SP: Com trabalho, perseverança e consciência. Há que ser consciente para fazer escolhas.

 

LR: Qual o valor mais importante que te ensinaram ou que aprendeste?

SP: O Amor. Podemos ter liberdade, podemos ser honrados, podemos ser verdadeiros, podemos ter quase tudo, mas é o Amor que conecta todas as formas de vida e é através dele e da sua vivência que nos aperfeiçoamos enquanto seres.

 

LR: Quem é a tua maior inspiração?

SP: Todas as pessoas que sonham e sonharam viver num mundo melhor, fazendo a sua parte para o conseguir.

 

LR: Fala-me dos teus sonhos.

SP: Mudar o mundo, torná-lo num lugar melhor, desde sempre.

 

LR: O que estás a fazer para realizá-los?

SP: Escrevo. E procuro aperfeiçoar-me enquanto pessoa todos os dias.

 

LR: Somos ambos de terras pequenas, por vezes incutem-nos a ideia que nascemos para ser igualmente pequeninos, que tens a dizer sobre isso?

SP: Que isso é um engano. Não importa o lugar onde se nasce, mas sim as pessoas que vamos encontrando e as escolhas que fazemos. Tive sempre pessoas que me encorajaram a seguir os meus sonhos, assim como pessoas que quiseram fazer-me acreditar que jamais conseguiria. E encontrei essas pessoas tanto em Alcanhões (a vila de onde sou), Santarém (onde estudei) e em Lisboa (onde fiz a Faculdade e iniciei a minha vida activa). Fui eu que escolhi acreditar que seria capaz de realizar os meus sonhos. No fundo, depende sempre de nós.

 

LR: Falta-te alguma coisa?

SP: Tenho tudo o que preciso, trazemos tudo dentro de nós.

 

LR: Constróis coisas desde sempre, agora livros, mas já ajudaste a construir uma casa. Conta-nos a história toda.

SP: Referes-te à minha casa, em Alcanhões. O meu pai é pedreiro, seguiu o ofício do meu avô. A nossa casa, hoje uma casa grande, foi sendo construída ao longo dos anos. Quando eu nasci não tínhamos o que temos. E ajudei algumas vezes o meu pai, confesso que sempre contrariado; ou preferia ficar a ver televisão ou a escrever. Ahahah! Penso que herdei essa apetência construtora dos meus pais: o meu pai constrói casas, a minha mãe é cozinheira. Ambos moldam o mundo com as suas próprias mãos e é assim que se sentem realizados. Eu faço a mesma coisa, mas com palavras.

 

LR: Isso fez-te dar mais valor às coisas?

SP: Acredito que sim. Ter consciência de que um ovo não brota das prateleiras de um supermercado, já embalado, dá-nos maturidade e responsabiliza-nos. Para termos as coisas, há um custo associado (não necessariamente monetário, neste caso). É importante saber que custo é esse. E nos tempos que correm os custos das coisas que consumimos são, mais do que nunca, ocultados.

 

LR: Se tivesses tido logo tudo, serias quem és hoje?

SP: Talvez não valorizasse tanto as coisas simples, mas não sei, nunca saberei.

 

LR: Voltando uma última vez ao lado profissional, o que é que podemos esperar do Samuel-escritor num futuro próximo?

SP: Dois livros, um romance e um livro de poesia. O romance será publicado pela editora Marcador e o livro de poesia pela editora Livros de Ontem. Ambos tratam de assuntos actuais, têm um carácter fortemente interventivo e político, mas cada um com uma linguagem própria. Serão publicados ainda este ano.

 

O Samuel também tem um blog onde publica com regularidade alguns dos seus textos, podem consultar aqui

07
Ago15

Ler +, Viver + e desculpar-se -


Leonardo Rodrigues

 

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Foto sem direitos de autor 

 

Quantos de vós gostariam de ler mais e não o fazem por falta de tempo?

 

Isto de ler nem sempre é fácil à primeira vista, mesmo para quem gosta, especialmente para um trabalhador-estudante que tem de acompanhar mil e uma séries, jantar com os amigos, faltar às aulas para ir até ao Porto, cumprir certas obrigações e fazer sabe-se lá mais o quê.

 

Há quase um ano que não conseguia acabar um livro, excetuando aqueles que se podem ler num dia uma frase, noutro dia outra, acabando tudo por fazer sempre muito sentido.

 

Com aqueles que, para uma compreensão total da obra, se exige uma leitura do princípio, do meio e do fim - mesmo que o autor lá vá trocando a ordem das coisas a seu belo prazer - começava, lia até meio, passava a ter algo de mais importante a fazer e colocava de parte. Eventualmente surgia outro livro que considerava imperativo ler e dava-se uma repetição do ciclo.

 

Esta história que andava a contar da falta de tempo, como muitas das que conto (e que sei que toda a gente conta), parecia-me familiar, há uns tempos tinha uma muito semelhante: não tinha tempo para começar um blog e mantê-lo. Surpresa, não só consegui começar como estou a escrever mais do que nunca e, nos dias e posts de sorte, ainda tendo o privilégio de ser destacado pelo Sapo - algo que agradeço imenso.

 

Agora não falando apenas das leituras, mas falando sempre, fabricamos constantemente histórias que nos impedem de fazer o que gostamos, por vezes destes prazeres tão simples como ler e escrever. Fabricamos não só para não fazer, mas para não viver.

 

Se formos a observar bem, e voltando agora de forma concreta às leituras, até temos tempo. Momentos para ler livros a sério não faltam. As oportunidades estão em todo o lado. Se posso ler tudo o que é notícia, ouvir música, escrever, trabalhar e passear, posso ler a sério. A minha vida está cheia de oportunidades:

 

Ora, temos a viagem de dez minutos de comboio que faço duas vezes por dia, as mil e uma pausas no trabalho, a horita que nos dão porque assim são obrigados e todas as mais que preciosas idas ao café. Ah, e a verdade seja dita, se podemos levar um tablet para a casa de banho e jogar Temple Run, podemos levar um livro.

 

Neste momento estou a ler A filha do Conspirador, de Philippa Gregory. Está a ser uma delícia. Ainda não decidi se vou fazer uma review ou não, maioritariamente porque ainda não decidi se o sei fazer ou não. António Lobo Antunes acha que não se deve falar de livros e talvez use isto como desculpa, até mudar de ideias.

 

Já agora, se quiserem partilhar, adoraria saber o que andam a ler e o que prescrevem para a minha reabilitação literária.

 

 

03
Ago15

Drama!


Leonardo Rodrigues

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Quando não há, inventa-se.

 

Porquê e para quê, perguntam-se e pergunto-me.

 

Chego a uma conclusão, o drama serve para conferir sentido. É a forma que alguns escolhem para dar sentido à vida que, de si, tem pouco ou nenhum. O esforço é mínimo, a irritação do povo que percebe máxima. E isto, diga-se de passagem, é mórbido.

 

Mas, mórbido ou não, o entretenimento egoísta de um dos intervenientes é sempre garantido. Entretem-se reproduzindo uma telenovela que sempre teve e terá o mesmo enredo e onde apenas, com sorte, se varia o nome das personagens.

 

Pois bem, se há coisa que sei é: quando a telenovela começa é hora de mudar o canal.

 

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

22
Abr15

Finalmente!


Leonardo Rodrigues

Pronto, é desta.

Há já 3 anos que digo que vou começar um blog, para falar disto e daquilo, entrevistar Aquele e Aquela, com as intenções mais nobres do que as do papa e mudar qualquer coisa. Nunca o fiz. Dava muito trabalho.

Não tinha tempo, ora era o estudar para a frequência - para a qual acabei por não estudar nem comparecer - , ora era ver a Oprah a entrevistar as Kardashians - que afinal também são Jenner. Tive também a oportunidade de ver 3 vezes as 10 temporadas de Friends - os episódios eram curtos e iriam permitir-me ser produtivo mais rapidamente, dar o empurrãozinho que o português que sou precisa, acreditei eu. Na véspera de algo de importante lembrei-me de ficar uma noite a ler sobre procrastinação crónica, a minha hipocondria prontamente me diagnosticou com essa patologia. 

Talvez isto tudo seja porque não tenho nada para dizer, talvez não tenha boas intenções nenhumas ou se calhar porque não vou mudar nada. Não sei.

Ainda tenho muito que aprender ou desaprender, não tive tempo para decidir, mas quando cá passarem vão ter que levar com aquilo a que pretensiosamente chamei de Leonismos. Se não escrever mais nada é porque esta não é uma boa ideologia, voltem a ser católicos capitalistas. 

 

 

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