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LEONISMOS

LEONISMOS

21
Ago17

A mulher que está no mesmo sítio há 20 anos


Leonardo Rodrigues

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Cruzamo-nos com as pessoas mais extraordinárias todos os dias. Arrisco-me a congeminar que todas o são, pudéssemos nós ouvir as suas histórias e pensamentos.

Geralmente deixo-me levar pelas histórias que vou construindo, mas é sempre melhor ouvi-las. Não há muito tempo, estávamos a caminhar debaixo do sol ardente de Atenas, quando dei por mim a subir uma rua para entrar numa galeria de arte, algures no bairro de Plaka. 

Era um sítio apetecível para um turista deslumbrado com a Grécia, com pinturas que mostravam o melhor do país e do mundo. Os quadros eram de um único autor, cujo nome tenho num cartão. 

Não demorou muito até começar a conversar com a única pessoa que lá estava. Era uma mulher nos seus quarentas, com imensa vida dentro dela, um olhar taciturno e um sotaque inglês super peculiar. Era a mulher do artista.

Questionei-a, com entusiasmo, o quão maravilhoso era ter visitado aqueles locais todos. Ela disse-me que não viu nenhum, e que está em Atenas há 20 anos, desde que veio da Albânia à procura de uma vida melhor.

Ele pinta, ela vende. Assim é todos os dias da semana, de manhã à noite. Falámos pouco mais, já que entretanto me tinha desencontrado da minha companhia.

Desde então que penso nesta conversa, na forma como as palavras se organizaram e expressão que tinha no rosto.

Nenhuma forma de viver é errada, caso os olhos indiquem que está tudo bem. Poderemos, nós, deixar-nos ficar no mesmo sítio da vida, contra a nossa vontade? Ou melhor, estamos no sítio onde queremos estar?

 

26
Jul17

Lição: "Fui freira, mas aprendi tudo com a televisão"


Leonardo Rodrigues

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Nestas férias, que tanto bem fizeram, voltei ao sítio que chamei de casa durante os meus primeiros 18 anos de vida, após 2 de ausência. 

Tinha tudo para ser o mais desafiante. Era a primeira vez que apresentava a pessoa a que me refiro como "ele" no blog, a toda a gente - gostava de o chamar de moço, mas a Maria fez primeiro. Curiosamente, ao regressar a sítios como a casa onde a família já não vive, a escola, o caminho x e y, senti-me bem, sem nervosismo em lado algum. É, sem dúvida, a melhor fase da minha vida, onde já tudo sarou.

Acho que a linha do horizonte na ilha também se expandiu, senti isso no carinho das caras conhecidas e das suas palavras.  

Houve uma prova em especial, aquando da visita a uma senhora que foi sempre minha vizinha.Tem mais de 70 anos, e desde miúdo que nos tratamos por tu. Já me tinham dito que ela aguardava a minha visita ansiosamente, e veio a correr, mesmo com a segunda perna partida em recuperação, assim que me ouviu. 

Após uma mão cheia de dedos de conversa, lá o viu na estrada e perguntou-me quem era aquele rapaz. Disse-lhe que vivia com ele. Ela olha-me séria e pergunta, ele é teu colega ou parceiro? Respondi-lhe que parceiro, meio receoso e meio curioso com a sua reação.

Os olhos dela enchem-se de amor e diz-me: "Não faz mal, filho. Sabes que fui freira, mas que aprendi tudo com a televisão. Era nova quando fui para lá, e fizeram-me uma lavagem ao cérebro. Só percebi depois de ter ficado doente e regressado a casa". 

Claro que o chamei para serem apresentados. Ela fez apenas questão de frisar que deveríamos cuidar um do outro e sermos fiéis. Garanti-lhe que cumpríamos os requisitos, de coração cheio.

Os dias insistem em passar, mas não há um em que as atitudes ou palavras das pessoas enormes não me surpreendam. 

 

Acompanhem-me através do facebook, aqui

 

22
Abr17

Entrevista a Rúben Santos: "tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena"


Leonardo Rodrigues

Conheci o Rúben pela primeira vez na Feira das Almas. Desde então, fomos por duas vezes colegas de casa. À custa disso, já rimos, choramos e criámos uma das amizades que mais valorizo. Podemos falar, partilhar e teorizar acerca de tudo. Não concordamos com muito, mas não nos censuramos e arranjamos sempre forma de chegar a um consenso. Espero que assim seja sempre. Esta entrevista esteve num ficheiro armazenado na nuvem durante demasiado tempo, porque achava que não saberia fazê-la, mas aqui está o Rúben a partilhar novamente comigo coisas que nem todos sabem, mas que fazem dele quem é. 

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Leonardo Rodrigues: O que respondes a um simples “quem és”?

Rúben Santos: Começa bem. Não terei tão cedo essa resposta. A minha educação moldou-me. Nasci e cresci em Chelas, num bairro social, ao lado havia um bairro de barracas perigoso. Vi muitas coisas e, ao mesmo tempo, tive uma educação bastante libertadora. Saía de casa e só voltava às tantas. Nos fins de semana, só passava as manhãs em casa, voltava para jantar e saía outra vez. Havia alguma supervisão por parte dos meus irmãos. Passava horas a andar de bicicleta, a construir casas em árvores ou em terrenos baldios. Na primária, tive a sorte do ministério da educação implementar um programa educacional experimental, com trabalhos criativos, visitas de estudo quase todas as semanas. Isto levou-me a ter contacto com filmes de Chaplin, por exemplo. Penso que seja daqui que vem a minha veia experimental, de querer ir além. Sou um experimentalista, adoro aprender e estou sempre à procura de algo diferente que me interesse. Acho que isso é procurar-me.

 

LR: Hoje dedicas-te à fotografia em full time, mas antes disso dedicaste 5 anos da tua vida a algo completamente diferente. O que te levou a mudar de rumo?

RS: Sim, antes de estudar e trabalhar em fotografia, estudei 5 anos no IST, de onde saí com um mestrado em Engenharia de Materiais. O sistema de ensino está ultrapassado e, pior que isso, conteve toda a criatividade que foi germinada durante os primeiros anos de vida. Somos obrigados a fazer escolhas com base em nada. Não há contacto com coisas práticas. Os alunos passam horas e horas fechados dentro de salas a consumir informação que alguém escolheu ser importante, quando deviam passar metade desse tempo a fazer algo prático: tirar fotografias, pintar quadros, plantar árvores, construir casas em madeira, um sem número de possibilidades. Ter que escolher uma área, quando se transita do 9º para o 10º não está certo. És muito novo e não fazes a menor ideia de quem és! Podes ser melhor aluno nalgumas disciplinas, mas isso não define quem vais ser. Eu tinha queda para a matemática e físico-química e, portanto, decidi seguir ciências, uma decisão que estava longe do que faço agora. Depois vais para a faculdade e tens que escolher outro curso, com base numa fantasia, porque tens média para o curso ou porque os pais disseram que aquele é o caminho.

 

LR: Porquê a fotografia?

RS: Lembro-me perfeitamente de estar trancado numa cave do IST a polir amostras e começar a chorar. Ainda estava a ultrapassar alguns obstáculos e, se estivesse a fazer alguma coisa que realmente estivesse a gostar, possivelmente isso não teria acontecido. Digo isto porque trabalhei e estudei fotografia ao mesmo tempo, ainda no meio de alguns problemas pessoais, morava praticamente sozinho, pagar o curso e todas as outras despesas e ficava sem dinheiro, mas era feliz, fotografava todos os dias. Ainda hoje não sei se a fotografia será para o resto da minha vida, mas foi uma escolha razoável ter mudado para uma área criativa. Eu pouco conhecia do Rúben criativo. Um dos motivos que me levou a escolher fotografia foi uma experiência de infância. Certa vez, quando o meu pai estava a trabalhar nos Açores, eu e a minha mãe fomos lá ter. Num dos passeios por São Jorge, os meus pais queriam uma fotografia e eu era o único ali. Tirei a minha primeira foto. Tinha uns 5 anos. Penso que essa fotografia ainda existe, tenho que a procurar. Brinquei mais umas vezes com essa máquina e, aos 12 anos, a empresa da minha mãe ofereceu-me a minha primeira máquina analógica! Já não a tenho, mas muito experimentei. Provavelmente foram estes os acontecimentos que me conduziram à fotografia.

 

LR: Muito embora a tua profissão implique que estejas muito tempo atrás da câmara, tu sentes-te igualmente bem do outro lado da lente, frequentemente sem roupa. O que te leva despir para a câmara?

RS: Risos É uma pergunta com a qual ainda me debato. Encontrei, através do facebook, um fotógrafo português que fazia fotografias lindíssimas e, mesmo nesse dia, enviei uma mensagem a pedir-lhe que me fotografasse. Tinha curiosidade. Queria perceber o que era estar sem roupa à frente de uma câmara, queria que o meu corpo se transformasse em algo belo. A primeira vez que realmente reflecti sobre o assunto e escrevi o que me pareceu verdade, foi para a revista Elska. O corpo é o primeiro grande obstáculo para a felicidade e para a liberdade. Ninguém acorda de um dia para o outro a achar que é feio. Alguém to repetiu enquanto crescias, um eco constante em diferentes vozes. Sou gordo. Sou feio. Sou peludo. Há alguém a pendurar adjectivos, como se fossem adereços, e tu aceita-los, talvez de tanto ouvir. O mais irónico é que quando nos referimos ao nosso corpo, usamos um termo possessivo: o meu corpo. Incrível como facilmente desprezamos algo que nos pertence e que conhecemos tão bem. A nudez é o expoente máximo da liberdade. Viver bem com o próprio corpo é o primeiro passo para se viver bem. Por vezes pergunto a amigos se me deixam fotográfa-los. A resposta é negativa e a justificação a mesma, "não me sinto à vontade com o meu corpo". Estar bem comigo, aliado ao meu lado experimental, leva-me a fazer esta série de fotografias.

 

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LR: E isso é sempre bem recebido?

RS: Dei conta de muita desaprovação. Há uns meses atrás senti que fui posto de parte nalgumas ocasiões familiares, um auténtico murro no estômago. Há também quem tenha comentado as fotografias com algo menos positivo e até denunciaram. 

 

LR: Certa vez perguntei-te o que era para ti a arte, e deste-me a resposta mais interessante que ouvi até hoje. Lembras-te?

RS: Sim, lembro-me e é algo que não irei esquecer. Foi num daqueles momentos raros de clarividência em que há um click e tudo faz sentido (a-ha moment). Estava a acabar o curso de fotografia, que foi leccionado por módulos, e aquele era o módulo de fotografia de autor. Foi um dos melhores professores que já tive, notava-se que gostava do que fazia e tinha a preocupação de nos dar bases sólidas para um conhecimento à séria da fotografia como forma de arte. No dia do click, o formador estava a falar de vários fotógrafos, explicando os seus trabalhos e, quando chegou ao artista Todd Hido, percebi tudo. Basicamente, este fotógrafo tinha um fascínio pela linha que separa o que é público do que é privado. É um dos meus fascínios desde miúdo. Recordo-me que todos os sábados à noite, durante o verão, quando regressávamos a pé da casa dos meus tios, às tantas da madrugada, eu olhar para os prédios e ver luzes acessas. Tentava imaginar o que poderia estar a acontecer naquelas casas. Estariam a jogar às cartas? A ver TV? A fazer Sexo? Teriam as luzes sido deixadas acesas sem querer? O fascínio do Todd Hido era o meu fascínio. Eu compreendo-o e não o conheço e tenho a certeza que ele me compreenderia, se me conhecesse.

 

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LR: A vida não tem apenas dessas sensações boas

RS: Infelizmente, não. Pensei que colocar as coisas más em papel fosse mais fácil. Não o é. Perder alguém que te é muito querido é perder uma parte de ti. Nunca se recupera, simplesmente se aprende a viver com menos. A minha mãe faleceu no final de 2007 com cancro. Os meus pais já não viviam juntos. Quando se separaram, eu fiquei com a minha mãe e os meus irmãos mais velhos com o meu pai. A minha vida mudou bastante. Durante três anos morei com a minha irmã, ao fim dos quais decidi ir morar com o meu pai. Morei com ele cerca de quatro meses. Uma noite, a minha madrasta acorda-me aos gritos. Quando cheguei ao quarto dele, ele já não estava. Telefonei ao 112. Não conseguia concentrar-me, chorava compulsivamente, não ouvia nada. A pessoa do outro lado perdeu a calma e gritou: Queres ajudar o teu pai ou não? Disse-me o que fazer para tentar reanimá-lo e desligou o telefone. Eu e o meu pai estávamos sozinhos no quarto, e eu não parava chorar, enquanto pressionava o peito. Não me lembro quando parei, se foi alguém que me parou, se foi à chegada do INEM. Não me lembro.

 

LR: Que perspetiva é que isso te deu da morte?

RS: Da morte não me deu outra perspectiva. Deu-me outra perspectiva da vida. Não sou a mesma pessoa, mudei tanto que já não reconheço a pessoa que fui. A minha mãe tinha um feitio difícil e eu lembro-me de pensar que não queria ser como ela. Era sociável não por querer, dizia o que sentia, sem pensar. Estou cada vez mais parecido com ela, acaba por ser assustador no que me transformei depois dela partir. Não me preocupo muito com o que os outros pensam, também não faço grande reflexão no que digo. Claro que por vezes chego à conclusão que não devia ter feito isto ou dito aquilo, mas afecta-me pouco. Não tenho muito a perder, talvez o meu emprego e algumas pessoas que quero manter perto de mim, mas mesmo isto que referi não posso controlar a 100%. Se perder o emprego, de certeza que haverá outro. Acabei por aceitar-me e viver bem com todas as escolhas que fiz e com todos os percalços do passado.



LR: Nas mudanças profissionais, nos relacionamentos, nas viagens estás sempre à “procura”de alguma coisa. Já sabes o que é isso que tanto procuras?

RS: É bem verdade, mas não sei o que procuro. Sinceramente, começo a compreender que esta busca leva a conhecer-me melhor. Separar aquilo que gosto daquilo que não gosto. Conseguir perceber o que quero fazer e o que não quero fazer. O que realmente faz sentido, do que não faz. Já separo as pessoas também. Felizmente posso escolher com quem me posso dar e estabelecer um relação mais profunda.

 

LR: Algo de que tu falas muito é voltar às origens. Que quer isso dizer?

RS: Acho esta história da cidade um pouco absurda. Cidades gigantes com densidades populacionais enormes não juntaram as pessoas, apenas as estão a afastar (não estou a dizer que o intuito das cidades é juntar as pessoas, mas na minha opinião, seria um benefício). As últimas vezes que tenho tirado férias tem sido para o mais longe e deserto possível. Normalmente, no meio de uma serra ou por aldeias pouco habitadas. Percebi que o contacto com a natureza deixa-me mais optimista, menos ansioso e menos stressado. As pessoas são mais simples, a vida é mais simples, não é preciso muito. Perdeu-se a simplicidade da vida, as pessoas só pensam em comprar uma casa, um carro, ter filhos, criá-los à sua face e mandá-los para a melhor faculdade, ter a casa de férias, trabalhar mais para ganhar mais dinheiro para poder comprar mais coisas. Eu gostava de ver alguém a conseguir colocar essas coisas todas dentro do seu próprio caixão.

 

LR: Fugir da cidade para te dedicares ao teu sonho de voltar às origens. Achas que vai passar de um sonho?

RS: É uma questão que me assombra de vez em quando. Sofro menos quando coloco a hipótese de não ter que ficar para sempre numa cidade. Já pesquisei e há várias formas de conseguir viver numa aldeia ou vila, mas neste momento vou manter-me em cidades.

 

LR: Não gostas de te sentir a envelhecer e só tens 30. Temes a morte?

RS: Sim, tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena.

 

LR: Achas que a fotografia é aquilo que te vai fazer viver, mesmo depois de já cá não estares?

RS: Bom, gostava de acreditar que sim. Deixar algo que faça sentido e que faça os outros crescer. É isso que me leva a continuar e a fazer coisas. Contudo, não sei se é a fotografia. Talvez faça outra mudança em breve, já estou a precisar.

 

Podem encontrar algum do trabalho do Rúben no seu Instagram, aqui.

 

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12
Out16

Ao Encontro do Sul, Parte II - Albufeira


Leonardo Rodrigues

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"A conquista do sul tarda, mas finalmente acontece", foi isto que escrevi numa SMS antes de sequer ter entrado no comboio que me iria levar de Sete Rios a Albufeira.  

Deveria ter percebido que não ia conquistar nada, afinal o comboio atrasou-se e, assim que chegou, levei com um presságio na barriga - na forma de caixa gigante da IKEA. Num outro dia teria entendido a mensagem, mas naquela sexta não deixei, não podia. Só pensei que assim que as carruagens deslizassem pelo caminho de ferro a minha vida em Lisboa entraria em modo de pausa. A primeira pausa, em 3 meses, a mais de 25km de Lisboa. Para agravar, melhorando, seria também o meu primeiro fim de semana fora com aquele que me atura quase diariamente. 

Se por um lado a procura anterior pelo sul se fez contra a corrente, esta fez-se de frente, junto das vistas. Respirei de alívio quando me sentei e senti a capital a ficar para trás.

O lugar da janela, confirmado por duas vezes, era meu. A senhora que me acompanhou não queria o sol e eu queria a vista. Não se omite um sem omitir a outra. Tentámos um meio termo desconfortável que sei que não foi do seu agrado. Então, abdiquei do apoio de braço sem abrir a boca, contando que se apercebesse do meu gesto de tréguas.

Depois, e dizem-me que é assim em mais sítios, as pessoas que pedem na CP são mais sofisticadas, distribuem um papel - há tempo para estas coisas, bem sei - , deixam os passageiros ler e depois passam para recolher o papel e o dinheiro, se nos convencerem. Achei interessante, não invade. No metro temos que ouvir todos. Ainda partilhei com a minha companheira de viagem que seria mais útil um exame, que não poderia comprovar o estado clínico de alguém através de uma folha onde se pode escrever qualquer coisa. Claro que me censurou, mas também não contribuiu.

Já tinha deixado algumas notas sobre a minha perceção da viagem para depois escrever um post, mas tive que interromper a escrita porque começámos a conversar, eu e senhora que queria a cortina fechada. Foi extraordinário e três chapadas na cara para mim.

Embora com mais de 20 anos de diferença, tínhamos tanto em comum e partilhávamos ideais semelhantes. Houve também espaço para discutir a atualidade - daquela semana - , do burkini, passando pelo nudismo nas praias portuguesas - intemporal? - , ao EI. Mas, à parte do Amor, a questão que mais nos apoquentou foi: será que os alentejanos estão conscientes da qualidade de vida que têm? Eu nunca estive consciente da que tinha na Madeira.

Os Montes parecem pincelados de castanho, com manchas verdes e brancas e é preciso treinar o olho para enxergar pessoas.

Ao namorar as pequenas aldeias que avistava senti uma grande vontade de partir a janela e atirar-me para lá, de fazer parte daquilo. Não sei onde era. Crianças disseram adeus da rua, talvez seja fascinante verem um comboio de possibilidades, que transporta pessoas oriundas da capital, não sei. 

Uma vez em Albufeira, acho que poderíamos ter aproveitado o fim de semana de outra forma - scones: check; piscina: check; água do mar aquecida por Neptuno: check.

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Caminho até à praia

 

Como não só de coisas boas se faz check, e tendo em consideração que fui avisado pela caixa do IKEA, o impensável aconteceu, tive de o partilhar durante metade do tempo útil do fim de semana com uns amigos do ex que encontrou na praia. Concordei em fazermos praia com eles, depois dei por mim a jantar num restaurante chamado Ricardo's, escolhido por eles. Não me posso esquecer que também saímos à noite. Agradeço ao vinho a coragem.

 

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O restaurante tem o nome do antecessor. Não acredito em coincidências. Mentiria se dissesse que não simpatizei com os moços. Ri-me bastante e esse é um bom indicador, só me queixo do fim de semana idealizado se ter esfumado.

 

Num próximo encontro com o sul expliquei-lhe que vamos para um sítio deserto, onde a única coisa que pode soar familiar seja o som dos pássaros. Depois, se o tempo deixar, também vos deixo entrar a bordo do próximo encontro.

06
Mar16

Entrevista com "Um Estranho por Dia"


Leonardo Rodrigues

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Parece que descobri o projeto "Um Estranho por Dia" um pouco mais tarde do que o resto de Portugal. Na semana passada, alguém achou por bem partilhar comigo a página dos quatro rapazes que vêem na foto acima. Uma hora depois, lá estava eu ainda a ver imagens de estranhos, que se iam tornando conhecidos à medida que lia as suas histórias. Depois do Você na TV, a Tarde é Sua e aparecerem no Público, Miguel A. Lopes - o fundador do projeto - deu ao Blog Leonismos a conhecer o lado de quem fica atrás das câmaras a imortalizar os anónimos. 

 

Leonardo Rodrigues: Antes de falarmos do projeto, quem são vocês?

Miguel Lopes: Somos quatro fotojornalistas, Miguel A. Lopes, Rui Soares, Rui Miguel Pedrosa e João Porfírio.

 

LR: Por quem e em que circunstâncias surge "Um Estranho por Dia"?

ML: No dia 29 de novembro fotografei o Benjamim. Coloquei um post com a foto no meu Facebook a dizer que iria começar a fotografar uma pessoa estranha por dia. Nos comentários à foto o Rui Soares e o Rui Miguel Pedrosa acharam muita piada e que gostariam de fazer o mesmo. Perguntei-lhes o que achavam de criarmos um projeto, e o nome Um Estranho Por Dia surgiu-me logo na cabeça. Eles concordaram e eu convidei o João Porfírio também a participar. O João foi estagiário na Lusa onde trabalho e achei que ele iria gostar e todos concordámos que sim e criámos nessa noite o projeto.

 

LR: Como é que os vossos 4 destinos se cruzam?

ML: Já conhecia o Rui Soares aqui de Lisboa, cruzávamo-nos em alguns serviços. Da mesma maneira conheci o Rui Miguel Pedrosa, mas penso que em campanhas eleitorais onde andei pelo país, pois o Pedrosa é de Leiria. O João, como disse, foi estagiário na Lusa, onde o fiquei a conhecer melhor.

 

LR: De que forma é que descobrem estas pessoas extraordinárias e as abordam?

ML: Não há fórmula mágica. Os estranhos vão aparecendo, são pessoas comuns com quem nos cruzamos e por alguma razão nos chamam à atenção ou nós a elas.

 

LRTive a oportunidade de reparar que no Você na TV pediram-vos para mostrar a vossa fotografia favorita e explicar o porquê. E agora, ainda permanecem as mesmas?

ML: Acho que há várias histórias que nos marcam, nessa altura tínhamos o projecto há pouco tempo e por questões de tempo fomos obrigados a escolher apenas uma cada um, mas há muitas muitas histórias que nos tocaram. As minhas (cliquem nas imagens para ler as histórias):

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Benjamim

 

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José António

 

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 Marta Félix

 

As do Rui Soares:

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 Patrícia Morgado

 

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Pedro Maria Carneiro

 

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Ana F.

 

As do Rui Miguel Pedrosa:

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António Moreira

 

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Carlos (Tatiana é o nome artístico)

 

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Alcino Oliveira

 

E as do João Porfírio:

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 Daniel S. e Ricardo M.

 

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Maria Rita

 

LRPor vezes o que fazem parece ter uma função terapêutica na vida das pessoas. Como é que isso se tem manifestado?

ML: Sim, talvez haja pessoas que tenham a necessidade de desabafar e muitas vezes sentimos que falam connosco o que não falam com mais ninguém, ou naqueles minutos sentem que alguém as está a ouvir e a dar-lhes atenção.

 

LRÉ frequente emocionarem-se com as histórias que vos contam?

ML: Sim, obviamente que sim. Há histórias que foram autênticos murros no estômago. Histórias fortes de vidas duras ou de acontecimentos muito tristes que marcaram sem dúvida a vida dos nossos estranhos, e a nós também. 

 

LR: Mantêm contacto com os desconhecidos que fotografam?

ML: Sim. Obviamente é impossível manter contacto com todos, mas há estranhos dos quais nos tornamos amigos e quando nos cruzamos falamos sempre.

 

LRO relato que me ficou no pensamento é o do arrumador de carros. Nunca mais poderei olhar para um da mesma forma. Como é saber que este trabalho tem um impacto tão bom em quem o vê? 

ML: É brutal! Acho que isso tem um efeito muito positivo em nós os quatro. Dá-nos força e motivação para continuar cada vez com mais vontade de conhecer estranhos.

 

LR: Para terminar, gostava de entender a vossa perspectiva relativamente ao rumo que a profissão de fotojornalista está a tomar. 

ML: Olhamos todos com muita apreensão e preocupação. Cada vez os jornais vendem menos, falando do papel, muitos têm acabado por fechar e têm levado muitos fotojornalistas para o desemprego e isso é preocupante. Mas há um contra-senso pois o que tem mudado é o formato, com a internet a ser o principal mercado são precisos muito mais conteúdos. Acho que é uma fase de transição e há que encontrar novas formas de financiamento.

 

Obrigado!

 

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03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

22
Dez15

É Natal, é Natal, Não Vai Nascer Jesus


Leonardo Rodrigues

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Em vésperas de Natal, por mais que já tenha sido feito, não se pode deixar de falar da festividade, é o passado a tornar-se novamente notícia, ciclicamente, não fosse assim toda a História.

 

Estamos habituados a celebrar o 25 de dezembro porque é tradição e é difícil resistir-lhe. A sorte é que esta é daquelas tradições que se demarcam pela positiva e que tem a capacidade particular - ainda que caridosamente cedida pelos governos - de, numa época em que ninguém tem tempo para nada, parar relógios, em Portugal e em todo o mundo

 

É certo que nem todos vão na canção de Natal e, cada vez mais, estamos a assistir a uma descrença na data, basta perguntar aos amigos e estar atento às conversas de café: "O natal deveria ser todos os dias"; "A vida corre mal e não se pode festejar por festejar"; "É símbolo máximo do capitalismo, só serve para gastar dinheiro"; "O Natal tem que ver com religião e ateu que se preze não pode compactuar com semelhante coisa".

 

Sim, pessimistas, o capitalismo não se chateia com o Natal e até agradece o empurrão, mas há que relembrar que poucos podem dar constantemente - uma ou outra data para dar (e receber) é a dose anual recomendada para os bolsos. Também, e segundo consta, o Natal nas suas origens não tinha nada que ver com a religião - monoteísta- , que o diga a História, e agora muito menos, que o digam as pessoas.

 

Ouvindo a História, se recuarmos a antes de Jesus Cristo nascer - e morrer -, já era celebrado a 25 de dezembro o nascimento - natalício - de um morto, Nimrode, considerado um messias, e filho do deus sol. A iniciativa de tal festividade veio da sua mãe-esposa, que também decidiu ser da vontade do filho que os presentes fossem colocados junto de uma árvore. Festejar o nascimento de algo, a árvore, e outros tantos elementos vem de costumes pagãos, de tempos em que se acreditava haver mais do que um deus.

 

Algumas pesquisas sugerem, tendo a Bíblia em consideração, que Cristo não poderia ter nascido a 25 de dezembro. Em Lucas 2:8 podemos ler "... havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho". Tal coisa nunca acontecia em dezembro, sendo que em meados de outubro já os rebanhos tinham sido retirados para ficarem protegidos do clima dos meses que se seguiam.

 

No segundo século do nosso tempo, de forma a unir cristãos e pagãos, as datas fundiram-se, prevalecendo, agora, apenas o 25 de dezembro dos cristãos católicos.

 

Quanto às pessoas, constata-se também um distanciamento, relativamente à religião católica. Ao questionar muitas pessoas as suas motivações para praticar o natal poucos responderam de forma elaborada, isto ou porque a pergunta foi lançada numa rede social e ninguém está para arranjar uma tendinite ao desenvolver o pensamento ou porque o Natal é assim tão simples. O que é certo é que ninguém respondeu “religião” - isso parece já só ser válido nas janelas que vemos ao andar pelas ruas de Lisboa doutros tempos em que o natal é sinónimo de menino Jesus.

 

Atualmente, mesmo perdendo a conotação religiosa continua a significar, para a maioria dos questionados, "amor", "alegria, "família", "união" e, sinceramente, “tudo o que quisermos que seja”.

 

O mundo está a encarar o natal como uma data que permite que uma família, aqueles com quem têm laços de sangue e outros com relações que ultrapassam questões de sangue, se sentem em torno de uma mesma mesa, talvez pela primeira vez no ano, para falar, rir e aproveitar o presente do presente.

 

Para alguns, não se trata apenas de reencontrar o irmão perdido, "por vezes é mesmo reconciliar".

 

Das melhores recordações que partilharam, há que salientar estas: "quando em pequena vi o Pai Natal pela primeira vez.”; “Beber cerveja a bordo de um tuk tuk em Changai”. Ninguém respondeu cruzar-se com Jesus, nem como adulto nem como recém nascido, embora em algumas casas se diga às crianças que o senhor está a visitar, ninguém o parece ter visto. Também ninguém relembrou a missa do parto - tradição religiosa de Natal da Ilha da Madeira e do Porto Santo - que lhe transformou a vida.

 

Dos que não mudam de temperatura com o Natal, há quem seja mais prático e vá mais longe: "embora o natal seja alegria, amor e gratidão nem é assim tão importante, o que importa, sim, é o ano novo e as oportunidades que poderão estar para surgir."

 

Por fim, que se faça uma menor correção na canção: É natal, é Natal/Não vai nascer Jesus.

 

E para vós, o que é o natal?

20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

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@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

08
Set15

Call Center, O Monstro


Leonardo Rodrigues

Inicialmente, acho que só tinha coisas negativas para escrever. Agora, numa balança em que de um lado se coloca positivo e do outro negativo, tenho mais para pesar.

 

Não sou muito bom naquilo que faço, nem sei se o quero ser, sê-lo parece-se com desistir. Contudo, sendo eu uma pessoa com azar no amor e sorte no jogo, lá vou vendendo e cumprindo objetivos.

 

No trabalho, de tanto ouvir, já não quero ouvir. Aquele interesse por ouvir e saber mais, que quem me conhece reconhece em mim, como que vai desaparecendo a cada chamada que recebo. Já não quero que me expliquem como é viver em certa localidade, passemos adiante homens e mulheres!

 

A desumanidade atribuída a um operador de call center por quem está do outro lado da linha verifica-se e, confesso, também passei a atribuí-la ao cliente. As vozes têm todas um nome, Cliente. De serem tantas, quase que parecem iguais, apenas umas se fazem ouvir mais alto que outras. As perguntas e as respostas tornam-se automáticas e têm um objetivo comum, a venda.

 

Este é um trabalho digno deste século e, embora preze e use muito do que agora se inventa, não me agrada que toda a interação num trabalho se baseie no contacto com máquinas que dão acesso a uma ficha que, por sua vez, se faz acompanhar de uma voz mais ou menos irritada, com mais ou menos vontade de comprar.

 

Posto estes pensamentos pensados em horas menos boas, o trabalho, por vezes, dá-me vontade de sorrir. Conseguir que um cliente que é também um paciente com cancro solte uma gargalhada, não sendo essa a minha função, faz-me bem. Do outro lado da balança, que se faz sempre pesar, lembra-me que as empresas fazem contratos que asseguram unicamente o seu bem estar, não abrangendo o mau estar do cliente que se faz verifica com cancros, mortes, desemprego, mudanças de casa e afins. Talvez não seja o meu trabalho temporário a não ser humano, as empresas é que cada vez o são menos.

 

É-me difícil fugir do lado negativo, mas vou, novamente, tentar escrever-vos sobre o outro ingrediente. No outro dia emocionei-me, estava a fechar uma venda, mas pelo meio, enquanto o computador decidia se havia de cooperar, fui conversando, mais ouvindo, uma senhora. Esta chamada vai ficar comigo por algum tempo. Ela tratava-me como uma pessoa, eu tratava-a como outra. Começamos a trocar experiências de vida, o porquê não sei. A verdade é que a mesma tecnologia que pode destruir também pode aproximar.

 

A senhora tinha sido abandonada grávida, tal como a minha mãe o foi há 21 anos. Ambas criaram os filhos da melhor forma que sabiam, como podiam, com o apoio da família e de amigos – que chegam a ser mais família que a família. (Confidencio-vos que a minha mãe, para subsistir, chegou a levar-me, ainda bebé, para o nosso terreno e deixava-me num cantinho, muito bem aconchegado em mantas, enquanto lavrava a terra.) A senhora, que não posso revelar o nome, disse-me que deveria dar muito valor à minha mãe, que esta era uma “mãe coragem/guerreira” – ouvir isto deixou-me com uma lágrima no canto do olho. Nunca a tinha pensado assim, com este apelido que me parece tão forte. E, embora na altura a minha mãe não tivesse consciência disso, foi preciso muita coragem disfarçada de instinto.

 

Ao longo desta chamada não estive preocupado em anotar corretamente tudo o que era número, embora também o tivesse feito, mas sim o que ela me ia dizendo, palavra por palavra.

 

A senhora, ao prosseguir com o seu discurso de pessoa que viveu e aprendeu, disse-me que agora é feliz, que agora é realizada, mesmo depois de ter perdido aquele que seria o seu segundo filho. No que à família diz respeito disse-me que, sim, é importante, que é o pai dela “na terra e deus no céu”, mas que esta sua realização maior vem de ter encontrado o amor, um companheiro que a preenche. Afinal de contas a família que criamos – ou que pensamos criar, no meu caso - tem sempre um valor diferente daquela que nos é oferecida quando nascemos. ”Precisamos sempre de alguém, embora estejamos sempre a negá-lo”.

 

Agradeci-lhe as suas tão sábias palavras e disse-lhe que me sentia com sorte de a ter em chamada porque nem todos os clientes são assim e porque por vezes dizem o que dizem, ela respondeu-me da forma mais simples, “Não vale a pena sermos maus nesta vida, temos de entender o outro”. Numa palavra, Respeito!

 

Confidenciou-me, ainda e por fim, que depois de ter dado a luz o filho morto foi criticada por uma mulher qualquer por não ir sempre ao cemitério, à qual respondeu “olhe, se eu quiser chorar choro em casa, chorar na rua não me vai trazer a filho de volta.” Confiro.

 

Ter a oportunidade de desenvolver uma empatia com pessoas que nunca vi e que nunca vou ouvir outra vez não é das únicas coisas boas. Estes primeiros trabalhos, que embora não sejam nada fáceis, têm-me servido para desenvolver um sentido de responsabilidade maior e deixam-me com um grande jogo de cintura noutras esferas da minha vida.

 

Nos dias que correm este é daqueles trabalhos da praxe que grande parte dos jovens se sujeitam à medida que se vão tornando responsáveis pela sua vida, renda, comida, roupa, propinas, livros e cada gota de café que nos perfuma a alma – sim, porque não poder comprar café é uma preocupação que se sobrepõe à minha próxima propina.

 

Ah, e não se preocupem que tenho deixado um belo registo escrito das várias formas que a loucura e estupidez que um cliente pode demonstrar, mas só o irei publicar no blog assim que esta minha experiência acabe. Não posso precisar uma data, até porque os contratos que se vão assinando têm uma duração de quinze dias.

 

Quando era mais novo vivia um monstro debaixo da minha cama, mas não tinha nome. Depois, à medida que fui ganhado segurança e conhecimento do mundo que me rodeava, foi-se embora. O Call Center é apenas mais um que, tal como todos os monstros todos antes deste, só existe em fases de transição e crescimento, que não se demoram muito a ser ultrapassadas. Haverão outros, e que venham eles!

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@gratisografy

 

 

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