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LEONISMOS

LEONISMOS

03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

27
Jan16

E o Mercado da Figueira?


Leonardo Rodrigues

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Mercado da Ribeira para aqui, Mercado de Campo de Ourique para acolá, e o Mercado da Figueira?

 

Há uns tempos, numa das minhas caminhadas, que me continuam a permitir encontrar sempre uma ruela nova, qual não foi a minha surpresa quando encontrei, não uma rua, mas um mercado novo. Curiosamente, o achado deu-se numa das praças mais importantes de Lisboa, por onde passo quase semanalmente, a Praça da Figueira.

 

Imaginem só se, com o meu passo acelerado de quem já só quer ir beber um último café e atirar-se num sofá, não tivesse olhado de relance para o lado esquerdo e encontrado aquela porta tão discreta que diz Mercado da Figueira. Se a minha surpresa com este mercado parecer desmedida, justifico-a com o facto de ser da Madeira e isto serve-me para justificar tudo.

 

Ainda assim, para ter a certeza e não refugiar-me na minha isularidade para justificar este post, perguntei a vários lisboetas, com já trinta anos disto, se conheciam o Mercado da Figueira. Sei que três não é uma amostra significativa, mas responderam-me que não, daí a quase obrigatoriedade deste post.

 

Depois de pesquisas feitas, tornou-se um conhecido. Este mercado nasceu duma iniciativa de feirantes, em 1755, naquilo que eram meras ruínas do Hospital de Todos os Santos - destruído no mesmo ano pelo terramoto que devastou a cidade. Tal foi o sucesso que em 1855 é construído um mercado coberto que, infelizmente, foi deitado abaixo nos anos 50, devido a uma catastrofe pior, Salazar, ups, Duarte Pacheco.

 

Enquanto os mercados da moda apostam num estilo chique industrial, este renasce pelas mãos da VARN, que decide manter muitos dos contornos originais, mais tradicionais, onde se fez apenas as adapatações necessárias para estar à altura das necessidades e exigências dos nossos dias.

 

À entrada, antes de chegarmos ao mercado prorpiamente dito, percorremos um corredor ladeado por garrafas, com o que de melhor se faz nos lagares portugueses. Corredor corrido, temos duas opções, a cafetaria à esquerda e o mercado, convenientemente adaptado a supermercado, à direita. O primeiro apelo é o visual, afinal quem vê caras não vê corações, primeiro vê-se a cara e só depois o coração. É um coração português, com produtos portugueses, cheios de qualidade, da fruta ao peixe.

 

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Cansado, muito passou-me ao lado, mas, na cafetaria, senti uma enorme tentação por me tornar diabético. Embora houvesse pão fresco e muitas sandes, foram os bolos que falaram comigo. Tudo tinha um ar acabado de fazer, quente, cheiroso, doce, e, quase mais importante que os adjetivos anteriores, barato. Vejam só que um menu com sandes, sumo natural e café fica a 1.95€. É de salientar que os sumos naturais, feitos com a fruta das bancas, vendem-se a 1€ e, podem, tal como eu, pedir para levar e continuar o passeio pela nossa belissima capital.

 

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Depois de comprar o meu caril no Martim Moniz hei de passar por lá muitas mais vezes, nem que seja para uma frutose fresquinha que me permita seguir calçada.

 

Em tempos em que poupar é palavra de ordem, porque não fazê-lo com qualidade?

26
Dez15

Resolução para 2016


Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

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22
Dez15

É Natal, é Natal, Não Vai Nascer Jesus


Leonardo Rodrigues

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Em vésperas de Natal, por mais que já tenha sido feito, não se pode deixar de falar da festividade, é o passado a tornar-se novamente notícia, ciclicamente, não fosse assim toda a História.

 

Estamos habituados a celebrar o 25 de dezembro porque é tradição e é difícil resistir-lhe. A sorte é que esta é daquelas tradições que se demarcam pela positiva e que tem a capacidade particular - ainda que caridosamente cedida pelos governos - de, numa época em que ninguém tem tempo para nada, parar relógios, em Portugal e em todo o mundo

 

É certo que nem todos vão na canção de Natal e, cada vez mais, estamos a assistir a uma descrença na data, basta perguntar aos amigos e estar atento às conversas de café: "O natal deveria ser todos os dias"; "A vida corre mal e não se pode festejar por festejar"; "É símbolo máximo do capitalismo, só serve para gastar dinheiro"; "O Natal tem que ver com religião e ateu que se preze não pode compactuar com semelhante coisa".

 

Sim, pessimistas, o capitalismo não se chateia com o Natal e até agradece o empurrão, mas há que relembrar que poucos podem dar constantemente - uma ou outra data para dar (e receber) é a dose anual recomendada para os bolsos. Também, e segundo consta, o Natal nas suas origens não tinha nada que ver com a religião - monoteísta- , que o diga a História, e agora muito menos, que o digam as pessoas.

 

Ouvindo a História, se recuarmos a antes de Jesus Cristo nascer - e morrer -, já era celebrado a 25 de dezembro o nascimento - natalício - de um morto, Nimrode, considerado um messias, e filho do deus sol. A iniciativa de tal festividade veio da sua mãe-esposa, que também decidiu ser da vontade do filho que os presentes fossem colocados junto de uma árvore. Festejar o nascimento de algo, a árvore, e outros tantos elementos vem de costumes pagãos, de tempos em que se acreditava haver mais do que um deus.

 

Algumas pesquisas sugerem, tendo a Bíblia em consideração, que Cristo não poderia ter nascido a 25 de dezembro. Em Lucas 2:8 podemos ler "... havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho". Tal coisa nunca acontecia em dezembro, sendo que em meados de outubro já os rebanhos tinham sido retirados para ficarem protegidos do clima dos meses que se seguiam.

 

No segundo século do nosso tempo, de forma a unir cristãos e pagãos, as datas fundiram-se, prevalecendo, agora, apenas o 25 de dezembro dos cristãos católicos.

 

Quanto às pessoas, constata-se também um distanciamento, relativamente à religião católica. Ao questionar muitas pessoas as suas motivações para praticar o natal poucos responderam de forma elaborada, isto ou porque a pergunta foi lançada numa rede social e ninguém está para arranjar uma tendinite ao desenvolver o pensamento ou porque o Natal é assim tão simples. O que é certo é que ninguém respondeu “religião” - isso parece já só ser válido nas janelas que vemos ao andar pelas ruas de Lisboa doutros tempos em que o natal é sinónimo de menino Jesus.

 

Atualmente, mesmo perdendo a conotação religiosa continua a significar, para a maioria dos questionados, "amor", "alegria, "família", "união" e, sinceramente, “tudo o que quisermos que seja”.

 

O mundo está a encarar o natal como uma data que permite que uma família, aqueles com quem têm laços de sangue e outros com relações que ultrapassam questões de sangue, se sentem em torno de uma mesma mesa, talvez pela primeira vez no ano, para falar, rir e aproveitar o presente do presente.

 

Para alguns, não se trata apenas de reencontrar o irmão perdido, "por vezes é mesmo reconciliar".

 

Das melhores recordações que partilharam, há que salientar estas: "quando em pequena vi o Pai Natal pela primeira vez.”; “Beber cerveja a bordo de um tuk tuk em Changai”. Ninguém respondeu cruzar-se com Jesus, nem como adulto nem como recém nascido, embora em algumas casas se diga às crianças que o senhor está a visitar, ninguém o parece ter visto. Também ninguém relembrou a missa do parto - tradição religiosa de Natal da Ilha da Madeira e do Porto Santo - que lhe transformou a vida.

 

Dos que não mudam de temperatura com o Natal, há quem seja mais prático e vá mais longe: "embora o natal seja alegria, amor e gratidão nem é assim tão importante, o que importa, sim, é o ano novo e as oportunidades que poderão estar para surgir."

 

Por fim, que se faça uma menor correção na canção: É natal, é Natal/Não vai nascer Jesus.

 

E para vós, o que é o natal?

20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

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@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

08
Set15

Call Center, O Monstro


Leonardo Rodrigues

Inicialmente, acho que só tinha coisas negativas para escrever. Agora, numa balança em que de um lado se coloca positivo e do outro negativo, tenho mais para pesar.

 

Não sou muito bom naquilo que faço, nem sei se o quero ser, sê-lo parece-se com desistir. Contudo, sendo eu uma pessoa com azar no amor e sorte no jogo, lá vou vendendo e cumprindo objetivos.

 

No trabalho, de tanto ouvir, já não quero ouvir. Aquele interesse por ouvir e saber mais, que quem me conhece reconhece em mim, como que vai desaparecendo a cada chamada que recebo. Já não quero que me expliquem como é viver em certa localidade, passemos adiante homens e mulheres!

 

A desumanidade atribuída a um operador de call center por quem está do outro lado da linha verifica-se e, confesso, também passei a atribuí-la ao cliente. As vozes têm todas um nome, Cliente. De serem tantas, quase que parecem iguais, apenas umas se fazem ouvir mais alto que outras. As perguntas e as respostas tornam-se automáticas e têm um objetivo comum, a venda.

 

Este é um trabalho digno deste século e, embora preze e use muito do que agora se inventa, não me agrada que toda a interação num trabalho se baseie no contacto com máquinas que dão acesso a uma ficha que, por sua vez, se faz acompanhar de uma voz mais ou menos irritada, com mais ou menos vontade de comprar.

 

Posto estes pensamentos pensados em horas menos boas, o trabalho, por vezes, dá-me vontade de sorrir. Conseguir que um cliente que é também um paciente com cancro solte uma gargalhada, não sendo essa a minha função, faz-me bem. Do outro lado da balança, que se faz sempre pesar, lembra-me que as empresas fazem contratos que asseguram unicamente o seu bem estar, não abrangendo o mau estar do cliente que se faz verifica com cancros, mortes, desemprego, mudanças de casa e afins. Talvez não seja o meu trabalho temporário a não ser humano, as empresas é que cada vez o são menos.

 

É-me difícil fugir do lado negativo, mas vou, novamente, tentar escrever-vos sobre o outro ingrediente. No outro dia emocionei-me, estava a fechar uma venda, mas pelo meio, enquanto o computador decidia se havia de cooperar, fui conversando, mais ouvindo, uma senhora. Esta chamada vai ficar comigo por algum tempo. Ela tratava-me como uma pessoa, eu tratava-a como outra. Começamos a trocar experiências de vida, o porquê não sei. A verdade é que a mesma tecnologia que pode destruir também pode aproximar.

 

A senhora tinha sido abandonada grávida, tal como a minha mãe o foi há 21 anos. Ambas criaram os filhos da melhor forma que sabiam, como podiam, com o apoio da família e de amigos – que chegam a ser mais família que a família. (Confidencio-vos que a minha mãe, para subsistir, chegou a levar-me, ainda bebé, para o nosso terreno e deixava-me num cantinho, muito bem aconchegado em mantas, enquanto lavrava a terra.) A senhora, que não posso revelar o nome, disse-me que deveria dar muito valor à minha mãe, que esta era uma “mãe coragem/guerreira” – ouvir isto deixou-me com uma lágrima no canto do olho. Nunca a tinha pensado assim, com este apelido que me parece tão forte. E, embora na altura a minha mãe não tivesse consciência disso, foi preciso muita coragem disfarçada de instinto.

 

Ao longo desta chamada não estive preocupado em anotar corretamente tudo o que era número, embora também o tivesse feito, mas sim o que ela me ia dizendo, palavra por palavra.

 

A senhora, ao prosseguir com o seu discurso de pessoa que viveu e aprendeu, disse-me que agora é feliz, que agora é realizada, mesmo depois de ter perdido aquele que seria o seu segundo filho. No que à família diz respeito disse-me que, sim, é importante, que é o pai dela “na terra e deus no céu”, mas que esta sua realização maior vem de ter encontrado o amor, um companheiro que a preenche. Afinal de contas a família que criamos – ou que pensamos criar, no meu caso - tem sempre um valor diferente daquela que nos é oferecida quando nascemos. ”Precisamos sempre de alguém, embora estejamos sempre a negá-lo”.

 

Agradeci-lhe as suas tão sábias palavras e disse-lhe que me sentia com sorte de a ter em chamada porque nem todos os clientes são assim e porque por vezes dizem o que dizem, ela respondeu-me da forma mais simples, “Não vale a pena sermos maus nesta vida, temos de entender o outro”. Numa palavra, Respeito!

 

Confidenciou-me, ainda e por fim, que depois de ter dado a luz o filho morto foi criticada por uma mulher qualquer por não ir sempre ao cemitério, à qual respondeu “olhe, se eu quiser chorar choro em casa, chorar na rua não me vai trazer a filho de volta.” Confiro.

 

Ter a oportunidade de desenvolver uma empatia com pessoas que nunca vi e que nunca vou ouvir outra vez não é das únicas coisas boas. Estes primeiros trabalhos, que embora não sejam nada fáceis, têm-me servido para desenvolver um sentido de responsabilidade maior e deixam-me com um grande jogo de cintura noutras esferas da minha vida.

 

Nos dias que correm este é daqueles trabalhos da praxe que grande parte dos jovens se sujeitam à medida que se vão tornando responsáveis pela sua vida, renda, comida, roupa, propinas, livros e cada gota de café que nos perfuma a alma – sim, porque não poder comprar café é uma preocupação que se sobrepõe à minha próxima propina.

 

Ah, e não se preocupem que tenho deixado um belo registo escrito das várias formas que a loucura e estupidez que um cliente pode demonstrar, mas só o irei publicar no blog assim que esta minha experiência acabe. Não posso precisar uma data, até porque os contratos que se vão assinando têm uma duração de quinze dias.

 

Quando era mais novo vivia um monstro debaixo da minha cama, mas não tinha nome. Depois, à medida que fui ganhado segurança e conhecimento do mundo que me rodeava, foi-se embora. O Call Center é apenas mais um que, tal como todos os monstros todos antes deste, só existe em fases de transição e crescimento, que não se demoram muito a ser ultrapassadas. Haverão outros, e que venham eles!

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@gratisografy

 

 

28
Ago15

Sintra


Leonardo Rodrigues

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 Foto: Ruben Santos

 

Todos os fins de semana eu e o meu colega de casa procuramos fazer algo de novo, que seja tão divertido como relaxante, mas sempre em Lisboa. Não é mau, até já disse "Obrigado, Lisboa", no entanto, neste, tínhamos forçosamente de sair da cidade e afastar-nos de tudo o que de negativo viver numa cidade implica.

 

Foi um dia que serviu tanto para fazer uma desintoxicação citadina como tecnológica, o destino, como o título do post provavelmente indicará, foi Sintra. Sem telemóveis e apenas munidos de uma máquina fotográfica, não fosse não conseguirmos congelar momentos, lá fomos nós de comboio rumo a norte.

 

A viagem de comboio foi agradável, apenas mais curta do que estávamos à espera. Uma vez lá, o passo um foi almoçar na berma da estrada, por baixo da única árvore que nos conseguia proporcionar sombra àquela bem-dita hora do dia. O passo dois foi pedir um mapa, que acabou por não ser necessário, pois os melhores sítios, como viemos a comprovar, não constam nos mapas, acham-se uma vez no local.

 

Já me tinha deslocado para aqueles lados duas vezes anteriormente. Na primeira e na segunda com o coração a sofrer de uma patologia sem terapêutica disponível atualmente, o amor - achava eu. Desta vez, já livre destes males que só se curam com o tempo, desfrutei.

 

Depois de tão deliciosamente subir, com um silêncio a que já não estou habituado, demos com o Castelo dos Mouros. Entre o silêncio, o ar puro e o verde estonteante, abri espaço para pensar nas batalhas que lá tiveram lugar, em como os que estavam em cima detinham sempre uma considerável vantagem estratégica e, com maior inquietação, perguntei-me: será que aquela gente tinha consciência do quão mágico é Sintra?

 

Nós sim, tínhamos, mas era-nos imposto pagar e pagar nada tem de mágico. Então, como bons portugueses que somos, lembrando-se o meu colega de que alguém já lá tinha conseguido entrar sem pagar, decidimos nós também fazer um pequeno desvio.

 

O caminho parecia não ter sido antes caminhado e, se navegado, só por água. Uns arranhões, mosquitos e sustos depois, lá demos nós com um sítio que dinheiro nenhum pode comprar e que não está incluído no preço absurdo do bilhete. Parecia nunca ter sido tocado pelo Homem, não havia ruído, nem lixo. Até o mar se avistava!

 

No castelo, pago, suponho que os visitantes tivessem, quanto muito, a oportunidade de se sentarem em bancos de madeira, enquanto nós, gratuitamente, ficamos deitados em pedras gigantes, que pareciam suspensas no ar.

 

Não estávamos a travar uma guerra como os que deste sítio precisaram antes de nós, mas a sensação de segurança devia ser a mesma. Estávamos protegidos da vida que temos lá em baixo, na terra, e que não queremos. Nada nem ninguém nos podia tocar, corrigir ou perturbar de algum modo. Estávamos acima de todas as coisas e tínhamos o controle total das nossas vidas. Ali não lutávamos por ser alguém, afinal tínhamos  o  privilégio de ser ninguém. No meu último dia acho que as coisas vão ser assim, as luzes desligam-se e deixa de haver luta e finalmente terei descanso, do eterno - que há de saber tão bem se disso houver consciência.

 

Depois de tanta sensação maravilhosa experienciada e com coragem ganha para deixar o descanso eterno temporário, lá seguimos caminho para o nosso próximo destino, o Palácio da Pena. Surpresa, era preciso pagar mais. Então, nós, mais uma vez, tivemos que ir por por vales e montanhas - como canta mais ou menos o hino da RAM. E olhem, entramos e não me lembro de ter pago, nem o fotógrafo de serviço.

 

Já de noite, aconteceu o que todo o dia prometeu, chuva. Não consigo conceber melhor forma de terminar um dia destes do que uma viagem de comboio de noite, com um livro no colo e a chuva a cair do outro lado da janela, que me protegia do delicioso espectáculo da natureza. No livro, tal como na viagem de ida, lia sobre reis e rainhas, e, permitam-me, durante este dia eu fui rei e no meu reino não houveram cá lutas pelo trono, apenas pela melhor pedra, que foi pacificamente partilhada.

 

Antes de concluir com o parágrafo seguinte, deixo-vos com uma dica: prefiram sempre um bilhete de comboio com ida para Sanidade e volta com Sanidade em detrimento do Xanax, Prozac e primos, que não sei o nome. Fica mais barato e tem efeitos duradouros.

 

Sendo que as experiências são sempre melhores quando partilhadas, e, tendo-me excedido nas palavras, deixo-vos com mais algumas fotografias tiradas por Ruben Santos - dizem que cada uma vale mais do que mil palavras.

 

 

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Podem ver mais do trabalho do Ruben no Behance aqui e no Instagram aqui.

22
Ago15

Meditámos


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos @leonismos

 

No outro dia meditei pela primeira vez. Não escrevo primeira vez como se nunca o tivesse tentado fazer, escrevo porque só agora é que foi a sério, só agora senti que era a sério e estas coisas ou sentem-se ou não se sentem, ou são ou não são, senti e foi.

 

Queria-vos ter falado disto antes, quando aconteceu, mas só hoje consegui acabar de traduzir as sensações em palavras.

 

A minha quase ascensão a Buda deu-se quando deixei ficar cá em casa a minha prima, daqueles primos que vivem além mar e que só se vêem quando cai o Buda do templo. Ela estava irreconhecível, psicologicamente. Aquilo sobre o qual lhe falei da teoria há uns anos, e que achou estranho, começou a colocar em prática antes de mim, enquanto eu continuava a falar e a ler sobre a teoria.

 

Juntei-me, então, ao ritual da minha hóspede no terraço, o meu colega de casa também.

 

Vou dizer-vos que a experiência foi quase indescritível. Poderia rotular como indescritível, mas assim nem me estaria a dar oportunidade de tentar passar este episódio para palavras.

 

A meditação era bem simples, como se quer que toda e qualquer meditação seja: um senhor guiava-nos dizendo o mantra que devíamos repetir, com as contas feitas, 104 vezes. Assim o fizemos.

 

Quando finalmente acabámos, as palavras tinham-se esgotado e a mente calado. Nem precisámos de falar, o trio maravilha suspirou, deitou-se e ficou a contemplar o céu onde passavam nuvens e caiam estrelas. Nós e o céu éramos um, como se de repente a cidade, tal como nós, tivesse deixado de existir. Não haviam problemas, não havia trabalho exigente nem contas para pagar. A única coisa de que se podia ter certezas era de que tudo era possível, que tudo aconteceu, acontece e acontecerá na altura certa e que nem o céu é um limite.

15
Ago15

Entrevista a Samuel Pimenta


Leonardo Rodrigues

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Foto de José Lorvão 

 

Demorou, mas finalmente chegou a segunda entrevista de Conversas com Vista.

 

Hoje é a vez de dar voz a um escritor, Samuel Pimenta (25). É Alguém com quem gosto de conversar e que tenho o privilégio de considerar amigo. Nesta conversa temos o Samuel de todos os dias. Percebam, então, porque é que eu, em concordância com a Le Cool, considero-o alguém que têm de conhecer.

 

LR: Eu já te conheço, mais enquanto pessoa do que escritor. O que achas que te define enquanto pessoa, enquanto escritor e enquanto ambos?

SP: O espírito libertário. Penso que é para lá que caminho, para a liberdade, enquanto pessoa e enquanto escritor, que é estranho separar uma coisa e outra. A escrita é um exercício de aprimoramento da pessoa que sou. E escrevo para ser mais livre, para poder desvendar mais da vida, do Universo.

 

LR: Como é que te chegam as coisas que colocas no papel?

SP: Chegam-me através dos meus sentidos e da forma como se relacionam, da minha sensibilidade. É sempre complicado explicar o processo que antecede o momento da escrita, a inspiração. É um momento místico, espiritual, mas também físico, pois faz-se sentir no corpo. Quando tenho uma ideia, o meu coração acelera, tenho de caminhar para organizar a mente.

 

LR: Já tiveste de lidar com a famosa folha em branco? Que fazes quando isso te acontece?

SP: Sim, é por isso que ela é famosa, é comum cruzar-se connosco. Antes preocupava-me, agora não. Não me obrigo a escrever, bem pelo contrário. Quando estou no processo de escrita e tenho algum bloqueio, opto por parar. A criação literária também é física, sai-nos do corpo, é importante repousar, deixar a mente liberta. Costumo dizer que é importante deixar a mente respirar. Ela precisa de ir a outros sítios, ver outras coisas, para regressar com um outro olhar, um olhar que vença a folha em branco. Durante o processo de escrita, estou muito consciente do meu corpo e respeito os tempos que ele me exige. Penso que o facto de praticar meditação desde muito cedo ajuda neste caso.

 

LR: És daqueles que tentam demarcar-se das suas vivências pessoais enquanto escritor? Isso é possível? De que forma é que isso se vê ou não na tua escrita?

SP: A meu ver, isso é uma tarefa impossível, nem penso sobre isso. Toda a criação artística parte de uma vivência pessoal, nem que seja de uma ideia (pois as ideias são coisas muito íntimas, estão guardadas dentro da nossa cabeça, às vezes muito caladas).

 

LR: Há dias falávamos sobre o não haver coisas más, para aqueles que ainda olham esta ideia com estranheza, que nos podes dizer?

SP: Acredito que as coisas podem parecer más à primeira vista, de forma ilusória, mas como sou uma pessoa positiva, sei que, por trás dessa miragem negativa, existem sempre oportunidades, aprendizagens que nos ajudam a construir quem somos, que nos ajudam a evoluir. E como evoluir é bom, acredito que todas as coisas são boas, que têm um bom propósito.

 

LR: Estás bem contigo, tanto se vê como se sente. Embora nunca possa existir apenas um caminho, acho que importa saber qual foi o teu, como se chega ao Samuel de agora?

SP: Com trabalho, perseverança e consciência. Há que ser consciente para fazer escolhas.

 

LR: Qual o valor mais importante que te ensinaram ou que aprendeste?

SP: O Amor. Podemos ter liberdade, podemos ser honrados, podemos ser verdadeiros, podemos ter quase tudo, mas é o Amor que conecta todas as formas de vida e é através dele e da sua vivência que nos aperfeiçoamos enquanto seres.

 

LR: Quem é a tua maior inspiração?

SP: Todas as pessoas que sonham e sonharam viver num mundo melhor, fazendo a sua parte para o conseguir.

 

LR: Fala-me dos teus sonhos.

SP: Mudar o mundo, torná-lo num lugar melhor, desde sempre.

 

LR: O que estás a fazer para realizá-los?

SP: Escrevo. E procuro aperfeiçoar-me enquanto pessoa todos os dias.

 

LR: Somos ambos de terras pequenas, por vezes incutem-nos a ideia que nascemos para ser igualmente pequeninos, que tens a dizer sobre isso?

SP: Que isso é um engano. Não importa o lugar onde se nasce, mas sim as pessoas que vamos encontrando e as escolhas que fazemos. Tive sempre pessoas que me encorajaram a seguir os meus sonhos, assim como pessoas que quiseram fazer-me acreditar que jamais conseguiria. E encontrei essas pessoas tanto em Alcanhões (a vila de onde sou), Santarém (onde estudei) e em Lisboa (onde fiz a Faculdade e iniciei a minha vida activa). Fui eu que escolhi acreditar que seria capaz de realizar os meus sonhos. No fundo, depende sempre de nós.

 

LR: Falta-te alguma coisa?

SP: Tenho tudo o que preciso, trazemos tudo dentro de nós.

 

LR: Constróis coisas desde sempre, agora livros, mas já ajudaste a construir uma casa. Conta-nos a história toda.

SP: Referes-te à minha casa, em Alcanhões. O meu pai é pedreiro, seguiu o ofício do meu avô. A nossa casa, hoje uma casa grande, foi sendo construída ao longo dos anos. Quando eu nasci não tínhamos o que temos. E ajudei algumas vezes o meu pai, confesso que sempre contrariado; ou preferia ficar a ver televisão ou a escrever. Ahahah! Penso que herdei essa apetência construtora dos meus pais: o meu pai constrói casas, a minha mãe é cozinheira. Ambos moldam o mundo com as suas próprias mãos e é assim que se sentem realizados. Eu faço a mesma coisa, mas com palavras.

 

LR: Isso fez-te dar mais valor às coisas?

SP: Acredito que sim. Ter consciência de que um ovo não brota das prateleiras de um supermercado, já embalado, dá-nos maturidade e responsabiliza-nos. Para termos as coisas, há um custo associado (não necessariamente monetário, neste caso). É importante saber que custo é esse. E nos tempos que correm os custos das coisas que consumimos são, mais do que nunca, ocultados.

 

LR: Se tivesses tido logo tudo, serias quem és hoje?

SP: Talvez não valorizasse tanto as coisas simples, mas não sei, nunca saberei.

 

LR: Voltando uma última vez ao lado profissional, o que é que podemos esperar do Samuel-escritor num futuro próximo?

SP: Dois livros, um romance e um livro de poesia. O romance será publicado pela editora Marcador e o livro de poesia pela editora Livros de Ontem. Ambos tratam de assuntos actuais, têm um carácter fortemente interventivo e político, mas cada um com uma linguagem própria. Serão publicados ainda este ano.

 

O Samuel também tem um blog onde publica com regularidade alguns dos seus textos, podem consultar aqui

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