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LEONISMOS

LEONISMOS

03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

26
Dez15

Resolução para 2016


Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

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20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

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@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

08
Set15

Call Center, O Monstro


Leonardo Rodrigues

Inicialmente, acho que só tinha coisas negativas para escrever. Agora, numa balança em que de um lado se coloca positivo e do outro negativo, tenho mais para pesar.

 

Não sou muito bom naquilo que faço, nem sei se o quero ser, sê-lo parece-se com desistir. Contudo, sendo eu uma pessoa com azar no amor e sorte no jogo, lá vou vendendo e cumprindo objetivos.

 

No trabalho, de tanto ouvir, já não quero ouvir. Aquele interesse por ouvir e saber mais, que quem me conhece reconhece em mim, como que vai desaparecendo a cada chamada que recebo. Já não quero que me expliquem como é viver em certa localidade, passemos adiante homens e mulheres!

 

A desumanidade atribuída a um operador de call center por quem está do outro lado da linha verifica-se e, confesso, também passei a atribuí-la ao cliente. As vozes têm todas um nome, Cliente. De serem tantas, quase que parecem iguais, apenas umas se fazem ouvir mais alto que outras. As perguntas e as respostas tornam-se automáticas e têm um objetivo comum, a venda.

 

Este é um trabalho digno deste século e, embora preze e use muito do que agora se inventa, não me agrada que toda a interação num trabalho se baseie no contacto com máquinas que dão acesso a uma ficha que, por sua vez, se faz acompanhar de uma voz mais ou menos irritada, com mais ou menos vontade de comprar.

 

Posto estes pensamentos pensados em horas menos boas, o trabalho, por vezes, dá-me vontade de sorrir. Conseguir que um cliente que é também um paciente com cancro solte uma gargalhada, não sendo essa a minha função, faz-me bem. Do outro lado da balança, que se faz sempre pesar, lembra-me que as empresas fazem contratos que asseguram unicamente o seu bem estar, não abrangendo o mau estar do cliente que se faz verifica com cancros, mortes, desemprego, mudanças de casa e afins. Talvez não seja o meu trabalho temporário a não ser humano, as empresas é que cada vez o são menos.

 

É-me difícil fugir do lado negativo, mas vou, novamente, tentar escrever-vos sobre o outro ingrediente. No outro dia emocionei-me, estava a fechar uma venda, mas pelo meio, enquanto o computador decidia se havia de cooperar, fui conversando, mais ouvindo, uma senhora. Esta chamada vai ficar comigo por algum tempo. Ela tratava-me como uma pessoa, eu tratava-a como outra. Começamos a trocar experiências de vida, o porquê não sei. A verdade é que a mesma tecnologia que pode destruir também pode aproximar.

 

A senhora tinha sido abandonada grávida, tal como a minha mãe o foi há 21 anos. Ambas criaram os filhos da melhor forma que sabiam, como podiam, com o apoio da família e de amigos – que chegam a ser mais família que a família. (Confidencio-vos que a minha mãe, para subsistir, chegou a levar-me, ainda bebé, para o nosso terreno e deixava-me num cantinho, muito bem aconchegado em mantas, enquanto lavrava a terra.) A senhora, que não posso revelar o nome, disse-me que deveria dar muito valor à minha mãe, que esta era uma “mãe coragem/guerreira” – ouvir isto deixou-me com uma lágrima no canto do olho. Nunca a tinha pensado assim, com este apelido que me parece tão forte. E, embora na altura a minha mãe não tivesse consciência disso, foi preciso muita coragem disfarçada de instinto.

 

Ao longo desta chamada não estive preocupado em anotar corretamente tudo o que era número, embora também o tivesse feito, mas sim o que ela me ia dizendo, palavra por palavra.

 

A senhora, ao prosseguir com o seu discurso de pessoa que viveu e aprendeu, disse-me que agora é feliz, que agora é realizada, mesmo depois de ter perdido aquele que seria o seu segundo filho. No que à família diz respeito disse-me que, sim, é importante, que é o pai dela “na terra e deus no céu”, mas que esta sua realização maior vem de ter encontrado o amor, um companheiro que a preenche. Afinal de contas a família que criamos – ou que pensamos criar, no meu caso - tem sempre um valor diferente daquela que nos é oferecida quando nascemos. ”Precisamos sempre de alguém, embora estejamos sempre a negá-lo”.

 

Agradeci-lhe as suas tão sábias palavras e disse-lhe que me sentia com sorte de a ter em chamada porque nem todos os clientes são assim e porque por vezes dizem o que dizem, ela respondeu-me da forma mais simples, “Não vale a pena sermos maus nesta vida, temos de entender o outro”. Numa palavra, Respeito!

 

Confidenciou-me, ainda e por fim, que depois de ter dado a luz o filho morto foi criticada por uma mulher qualquer por não ir sempre ao cemitério, à qual respondeu “olhe, se eu quiser chorar choro em casa, chorar na rua não me vai trazer a filho de volta.” Confiro.

 

Ter a oportunidade de desenvolver uma empatia com pessoas que nunca vi e que nunca vou ouvir outra vez não é das únicas coisas boas. Estes primeiros trabalhos, que embora não sejam nada fáceis, têm-me servido para desenvolver um sentido de responsabilidade maior e deixam-me com um grande jogo de cintura noutras esferas da minha vida.

 

Nos dias que correm este é daqueles trabalhos da praxe que grande parte dos jovens se sujeitam à medida que se vão tornando responsáveis pela sua vida, renda, comida, roupa, propinas, livros e cada gota de café que nos perfuma a alma – sim, porque não poder comprar café é uma preocupação que se sobrepõe à minha próxima propina.

 

Ah, e não se preocupem que tenho deixado um belo registo escrito das várias formas que a loucura e estupidez que um cliente pode demonstrar, mas só o irei publicar no blog assim que esta minha experiência acabe. Não posso precisar uma data, até porque os contratos que se vão assinando têm uma duração de quinze dias.

 

Quando era mais novo vivia um monstro debaixo da minha cama, mas não tinha nome. Depois, à medida que fui ganhado segurança e conhecimento do mundo que me rodeava, foi-se embora. O Call Center é apenas mais um que, tal como todos os monstros todos antes deste, só existe em fases de transição e crescimento, que não se demoram muito a ser ultrapassadas. Haverão outros, e que venham eles!

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@gratisografy

 

 

22
Ago15

Meditámos


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos @leonismos

 

No outro dia meditei pela primeira vez. Não escrevo primeira vez como se nunca o tivesse tentado fazer, escrevo porque só agora é que foi a sério, só agora senti que era a sério e estas coisas ou sentem-se ou não se sentem, ou são ou não são, senti e foi.

 

Queria-vos ter falado disto antes, quando aconteceu, mas só hoje consegui acabar de traduzir as sensações em palavras.

 

A minha quase ascensão a Buda deu-se quando deixei ficar cá em casa a minha prima, daqueles primos que vivem além mar e que só se vêem quando cai o Buda do templo. Ela estava irreconhecível, psicologicamente. Aquilo sobre o qual lhe falei da teoria há uns anos, e que achou estranho, começou a colocar em prática antes de mim, enquanto eu continuava a falar e a ler sobre a teoria.

 

Juntei-me, então, ao ritual da minha hóspede no terraço, o meu colega de casa também.

 

Vou dizer-vos que a experiência foi quase indescritível. Poderia rotular como indescritível, mas assim nem me estaria a dar oportunidade de tentar passar este episódio para palavras.

 

A meditação era bem simples, como se quer que toda e qualquer meditação seja: um senhor guiava-nos dizendo o mantra que devíamos repetir, com as contas feitas, 104 vezes. Assim o fizemos.

 

Quando finalmente acabámos, as palavras tinham-se esgotado e a mente calado. Nem precisámos de falar, o trio maravilha suspirou, deitou-se e ficou a contemplar o céu onde passavam nuvens e caiam estrelas. Nós e o céu éramos um, como se de repente a cidade, tal como nós, tivesse deixado de existir. Não haviam problemas, não havia trabalho exigente nem contas para pagar. A única coisa de que se podia ter certezas era de que tudo era possível, que tudo aconteceu, acontece e acontecerá na altura certa e que nem o céu é um limite.

15
Ago15

Entrevista a Samuel Pimenta


Leonardo Rodrigues

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Foto de José Lorvão 

 

Demorou, mas finalmente chegou a segunda entrevista de Conversas com Vista.

 

Hoje é a vez de dar voz a um escritor, Samuel Pimenta (25). É Alguém com quem gosto de conversar e que tenho o privilégio de considerar amigo. Nesta conversa temos o Samuel de todos os dias. Percebam, então, porque é que eu, em concordância com a Le Cool, considero-o alguém que têm de conhecer.

 

LR: Eu já te conheço, mais enquanto pessoa do que escritor. O que achas que te define enquanto pessoa, enquanto escritor e enquanto ambos?

SP: O espírito libertário. Penso que é para lá que caminho, para a liberdade, enquanto pessoa e enquanto escritor, que é estranho separar uma coisa e outra. A escrita é um exercício de aprimoramento da pessoa que sou. E escrevo para ser mais livre, para poder desvendar mais da vida, do Universo.

 

LR: Como é que te chegam as coisas que colocas no papel?

SP: Chegam-me através dos meus sentidos e da forma como se relacionam, da minha sensibilidade. É sempre complicado explicar o processo que antecede o momento da escrita, a inspiração. É um momento místico, espiritual, mas também físico, pois faz-se sentir no corpo. Quando tenho uma ideia, o meu coração acelera, tenho de caminhar para organizar a mente.

 

LR: Já tiveste de lidar com a famosa folha em branco? Que fazes quando isso te acontece?

SP: Sim, é por isso que ela é famosa, é comum cruzar-se connosco. Antes preocupava-me, agora não. Não me obrigo a escrever, bem pelo contrário. Quando estou no processo de escrita e tenho algum bloqueio, opto por parar. A criação literária também é física, sai-nos do corpo, é importante repousar, deixar a mente liberta. Costumo dizer que é importante deixar a mente respirar. Ela precisa de ir a outros sítios, ver outras coisas, para regressar com um outro olhar, um olhar que vença a folha em branco. Durante o processo de escrita, estou muito consciente do meu corpo e respeito os tempos que ele me exige. Penso que o facto de praticar meditação desde muito cedo ajuda neste caso.

 

LR: És daqueles que tentam demarcar-se das suas vivências pessoais enquanto escritor? Isso é possível? De que forma é que isso se vê ou não na tua escrita?

SP: A meu ver, isso é uma tarefa impossível, nem penso sobre isso. Toda a criação artística parte de uma vivência pessoal, nem que seja de uma ideia (pois as ideias são coisas muito íntimas, estão guardadas dentro da nossa cabeça, às vezes muito caladas).

 

LR: Há dias falávamos sobre o não haver coisas más, para aqueles que ainda olham esta ideia com estranheza, que nos podes dizer?

SP: Acredito que as coisas podem parecer más à primeira vista, de forma ilusória, mas como sou uma pessoa positiva, sei que, por trás dessa miragem negativa, existem sempre oportunidades, aprendizagens que nos ajudam a construir quem somos, que nos ajudam a evoluir. E como evoluir é bom, acredito que todas as coisas são boas, que têm um bom propósito.

 

LR: Estás bem contigo, tanto se vê como se sente. Embora nunca possa existir apenas um caminho, acho que importa saber qual foi o teu, como se chega ao Samuel de agora?

SP: Com trabalho, perseverança e consciência. Há que ser consciente para fazer escolhas.

 

LR: Qual o valor mais importante que te ensinaram ou que aprendeste?

SP: O Amor. Podemos ter liberdade, podemos ser honrados, podemos ser verdadeiros, podemos ter quase tudo, mas é o Amor que conecta todas as formas de vida e é através dele e da sua vivência que nos aperfeiçoamos enquanto seres.

 

LR: Quem é a tua maior inspiração?

SP: Todas as pessoas que sonham e sonharam viver num mundo melhor, fazendo a sua parte para o conseguir.

 

LR: Fala-me dos teus sonhos.

SP: Mudar o mundo, torná-lo num lugar melhor, desde sempre.

 

LR: O que estás a fazer para realizá-los?

SP: Escrevo. E procuro aperfeiçoar-me enquanto pessoa todos os dias.

 

LR: Somos ambos de terras pequenas, por vezes incutem-nos a ideia que nascemos para ser igualmente pequeninos, que tens a dizer sobre isso?

SP: Que isso é um engano. Não importa o lugar onde se nasce, mas sim as pessoas que vamos encontrando e as escolhas que fazemos. Tive sempre pessoas que me encorajaram a seguir os meus sonhos, assim como pessoas que quiseram fazer-me acreditar que jamais conseguiria. E encontrei essas pessoas tanto em Alcanhões (a vila de onde sou), Santarém (onde estudei) e em Lisboa (onde fiz a Faculdade e iniciei a minha vida activa). Fui eu que escolhi acreditar que seria capaz de realizar os meus sonhos. No fundo, depende sempre de nós.

 

LR: Falta-te alguma coisa?

SP: Tenho tudo o que preciso, trazemos tudo dentro de nós.

 

LR: Constróis coisas desde sempre, agora livros, mas já ajudaste a construir uma casa. Conta-nos a história toda.

SP: Referes-te à minha casa, em Alcanhões. O meu pai é pedreiro, seguiu o ofício do meu avô. A nossa casa, hoje uma casa grande, foi sendo construída ao longo dos anos. Quando eu nasci não tínhamos o que temos. E ajudei algumas vezes o meu pai, confesso que sempre contrariado; ou preferia ficar a ver televisão ou a escrever. Ahahah! Penso que herdei essa apetência construtora dos meus pais: o meu pai constrói casas, a minha mãe é cozinheira. Ambos moldam o mundo com as suas próprias mãos e é assim que se sentem realizados. Eu faço a mesma coisa, mas com palavras.

 

LR: Isso fez-te dar mais valor às coisas?

SP: Acredito que sim. Ter consciência de que um ovo não brota das prateleiras de um supermercado, já embalado, dá-nos maturidade e responsabiliza-nos. Para termos as coisas, há um custo associado (não necessariamente monetário, neste caso). É importante saber que custo é esse. E nos tempos que correm os custos das coisas que consumimos são, mais do que nunca, ocultados.

 

LR: Se tivesses tido logo tudo, serias quem és hoje?

SP: Talvez não valorizasse tanto as coisas simples, mas não sei, nunca saberei.

 

LR: Voltando uma última vez ao lado profissional, o que é que podemos esperar do Samuel-escritor num futuro próximo?

SP: Dois livros, um romance e um livro de poesia. O romance será publicado pela editora Marcador e o livro de poesia pela editora Livros de Ontem. Ambos tratam de assuntos actuais, têm um carácter fortemente interventivo e político, mas cada um com uma linguagem própria. Serão publicados ainda este ano.

 

O Samuel também tem um blog onde publica com regularidade alguns dos seus textos, podem consultar aqui

07
Ago15

Ler +, Viver + e desculpar-se -


Leonardo Rodrigues

 

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Foto sem direitos de autor 

 

Quantos de vós gostariam de ler mais e não o fazem por falta de tempo?

 

Isto de ler nem sempre é fácil à primeira vista, mesmo para quem gosta, especialmente para um trabalhador-estudante que tem de acompanhar mil e uma séries, jantar com os amigos, faltar às aulas para ir até ao Porto, cumprir certas obrigações e fazer sabe-se lá mais o quê.

 

Há quase um ano que não conseguia acabar um livro, excetuando aqueles que se podem ler num dia uma frase, noutro dia outra, acabando tudo por fazer sempre muito sentido.

 

Com aqueles que, para uma compreensão total da obra, se exige uma leitura do princípio, do meio e do fim - mesmo que o autor lá vá trocando a ordem das coisas a seu belo prazer - começava, lia até meio, passava a ter algo de mais importante a fazer e colocava de parte. Eventualmente surgia outro livro que considerava imperativo ler e dava-se uma repetição do ciclo.

 

Esta história que andava a contar da falta de tempo, como muitas das que conto (e que sei que toda a gente conta), parecia-me familiar, há uns tempos tinha uma muito semelhante: não tinha tempo para começar um blog e mantê-lo. Surpresa, não só consegui começar como estou a escrever mais do que nunca e, nos dias e posts de sorte, ainda tendo o privilégio de ser destacado pelo Sapo - algo que agradeço imenso.

 

Agora não falando apenas das leituras, mas falando sempre, fabricamos constantemente histórias que nos impedem de fazer o que gostamos, por vezes destes prazeres tão simples como ler e escrever. Fabricamos não só para não fazer, mas para não viver.

 

Se formos a observar bem, e voltando agora de forma concreta às leituras, até temos tempo. Momentos para ler livros a sério não faltam. As oportunidades estão em todo o lado. Se posso ler tudo o que é notícia, ouvir música, escrever, trabalhar e passear, posso ler a sério. A minha vida está cheia de oportunidades:

 

Ora, temos a viagem de dez minutos de comboio que faço duas vezes por dia, as mil e uma pausas no trabalho, a horita que nos dão porque assim são obrigados e todas as mais que preciosas idas ao café. Ah, e a verdade seja dita, se podemos levar um tablet para a casa de banho e jogar Temple Run, podemos levar um livro.

 

Neste momento estou a ler A filha do Conspirador, de Philippa Gregory. Está a ser uma delícia. Ainda não decidi se vou fazer uma review ou não, maioritariamente porque ainda não decidi se o sei fazer ou não. António Lobo Antunes acha que não se deve falar de livros e talvez use isto como desculpa, até mudar de ideias.

 

Já agora, se quiserem partilhar, adoraria saber o que andam a ler e o que prescrevem para a minha reabilitação literária.

 

 

03
Ago15

Drama!


Leonardo Rodrigues

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Quando não há, inventa-se.

 

Porquê e para quê, perguntam-se e pergunto-me.

 

Chego a uma conclusão, o drama serve para conferir sentido. É a forma que alguns escolhem para dar sentido à vida que, de si, tem pouco ou nenhum. O esforço é mínimo, a irritação do povo que percebe máxima. E isto, diga-se de passagem, é mórbido.

 

Mas, mórbido ou não, o entretenimento egoísta de um dos intervenientes é sempre garantido. Entretem-se reproduzindo uma telenovela que sempre teve e terá o mesmo enredo e onde apenas, com sorte, se varia o nome das personagens.

 

Pois bem, se há coisa que sei é: quando a telenovela começa é hora de mudar o canal.

 

22
Jul15

Entrevista a Paulo Borges


Leonardo Rodrigues

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Foto de Adama 

 

Hoje dou início a uma nova rubrica no blog, Conversas com Vista. Tenho dizer que não poderia ter escolhido melhor Pessoa do que Paulo Borges para começar. Houve aqui espaço para conversar um pouco sobre tudo: da meditação à família, do afastamento do PAN à candidatura a Presidente da República. Que a Conversa fale por si e alargue as Vistas de quem ler.

 

LR:  Quem é Paulo Borges?

 

PB: A designação que as convenções humanas dão a um fluxo de consciência e energia inseparável de todo o cosmos e sem princípio nem fim.

 

LR: “Nós pensamos sempre menos do que aquilo que somos”. Disse isto enquanto falava  acerca de budistas, no 5 Para a Meia Noite. Porque é que estamos constantemente a diminuirmo-nos? 

 

PB: Porque a consciência condicionada pelo pensamento e pela linguagem está sempre vários graus abaixo do nosso ser ou natureza ilimitados e profundos. Mas muitas vezes fazemos exactamente o contrário e vangloriamo-nos disso que em nós é mais estreito e pequenino, pois é com isso que nos identificamos, devido às nossas ilusões, incentivadas pela pressão familiar, educativa e social.

 

LR: Procuramos constantemente a felicidade no exterior, quer seja em coisas ou pessoas - a sociedade assim o ensina. Como é que o Paulo colocou o travão neste sistema de coisas?

 

PB: Eu estou apenas em processo de travagem e de reorientação desse impulso para a descoberta da paz e da felicidade nas coisas simples que nada nem ninguém nos pode dar ou tirar: a alegria de ser, o prazer de respirar, a volúpia de contemplar o mundo, o dom de amar e ser grato... A partir daqui podemos relacionar-nos com os outros e o mundo de outro modo: não centrados na carência e no desejo egocêntrico de ser felizes (que tantas vezes nos levam a instrumentalizar os outros), porque já o somos, mas na correspondência amorosa e compassiva às necessidades reais dos outros seres. Para mim a reflexão e a meditação têm sido o caminho fundamental, após o inevitável e precioso fracasso e dor da frustração da busca da felicidade no exterior.

 

LR: Parar de olhar para o exterior implica olhar para dentro. Contudo, isto por vezes dói, nem toda a gente gosta do que lá está. Há alguma forma simples de se chegar à auto aceitação?

 

PB: Creio que chegamos lá quando vemos que não há alternativa e que não adianta continuarmos a fugir para a frente, inventando histórias cinzentas ou cor-de-rosa acerca de quem somos, pois nunca escapamos à verdade nua e crua do que vamos sendo, tal qual.  No fundo a auto-aceitação não é difícil. Muito mais difícil é querermos ficar apenas com uma parte do que há em nós, suprimindo o resto, ou transformarmo-nos numa versão ideal de quem supostamente deveríamos ser, a nossos olhos ou de acordo com as expectativas alheias, o que só gera conflito, ansiedade e sofrimento. A verdadeira transformação acontece quando aceitamos trabalhar com a matéria-prima da nossa experiência, sensações, emoções e pensamentos, a cada instante. Se entrarmos a fundo na sua natureza poderemos ter a grata surpresa de descobrir que, por mais obscuros, limitadores e negativos que pareçam ser, há lá no íntimo um silêncio, uma paz e uma luz sempre presentes. A meditação é aqui uma vez mais fundamental.  

 

 

LR: Para além de Filosofia, ensina a meditar. Como é que a meditação funciona? De que modo é que esta prática nos possibilita uma mudança no relacionamento que temos connosco, com os outros e com o mundo?

 

PB: A meditação é o treino regular para reencontrar o estado natural da consciência, atenta ao aqui e agora, ao que se passa no corpo, na respiração, na mente e à nossa volta, de modo calmo, descontraído, claro e livre de juízos, apego, aversão, medos e expectativas. Com a mente serena e atenta, começamos a sentir e compreender que não estamos separados do mundo e de nenhum ser vivo. Entramos a pouco e pouco num estado menos dual de consciência onde a empatia amorosa e compassiva se estendem naturalmente a todas as formas de vida, sem discriminações. Claro que, enquanto estamos no caminho, como é o meu caso, não ficamos sempre neste estado, porque ressurgem os hábitos mentais e tendências emocionais dualistas que estão fortemente enraizados, mas temos vislumbres que não nos deixam dúvidas de que o aperfeiçoamento, o despertar e a libertação são possíveis. 

 

LR: Sei que medita duas vezes por dia, no entanto durante o correr do dia muitas são as distrações, muitos os pensamentos. Como é que se pode trazer a atenção para o aqui e agora, em qualquer situação?

 

PB: Treinando-nos a prestar a cada instante atenção ao que estamos a sentir e pensar e ao que está a acontecer. Se caminhamos trazemos a atenção para o contacto dos pés com o solo, se tomamos banho sentimos a água a correr pelo corpo, se comemos sentimos bem o sabor dos alimentos, se conversamos prestamos atenção ao som e ao sentido das palavras, se temos emoções observamo-las, se pensamos contemplamos os pensamentos em vez de nos perdermos neles, se vemos o mundo à nossa volta contemplamos o que vemos sem nos distrair com juízos e interpretações. Podemos usar estratégias como programar um sinal no telemóvel para, de 30 em 30 m ou em períodos mais estreitos, nos recordar para sairmos do piloto automático ou dos devaneios no passado e no futuro e prestarmos atenção ao momento presente. Se nos sentarmos uma, duas ou mais vezes por dia a treinar isto, torna-se mais fácil manter ou reencontrar a atenção plena em todas as situações. A isto chama-se meditação em acção, que não pode dispensar a sua base, a meditação formal sentada, numa almofada ou numa cadeira. Explico isto mais detalhadamente no meu último livro, O Coração da Vida, um guia prático de meditação. Considero a meditação, como alguém disse, a “grande Revolução Silenciosa do século XXI”, que está hoje no centro das atenções das neurociências e a entrar cada vez mais nas escolas, nas empresas, nos hospitais e nos projectos de transformação social e de sensibilização ambiental. 

 

LR: Quando é que se apercebeu que matar para comer não faz sentido?

 

PB: Desde criança que me vinha à mente o pensamento de que os animais que eu comia tiveram de ser mortos e que certamente não o desejaram e tinham sofrido terrivelmente com isso, mas como eram pensamentos incómodos e não via alternativas rejeitava-os e pensava noutra coisa. Até que a consciência despertou para isso ser eticamente inaceitável e haver alternativas muito acessíveis e bem mais saudáveis. Todos ganham com uma dieta vegetariana e de preferência vegana, os animais, os humanos e a Terra, pois o consumo de produtos de origem animal tem um imenso impacto ambiental. 

 

LR: Que lhe ocorre quando pensa a morte?

 

PB: Num sentido uma mudança um pouco mais profunda e imprevisível do que aquela que acontece a cada instante (pois sinto que morro e renasço a cada momento), uma vez que será acompanhada do fim do funcionamento do corpo e da percepção actual do mundo. Noutro sentido, uma transformação na continuidade, pois não me parece possível que o fluxo da consciência se interrompa. Devo dizer que desde criança, muito antes de me reconhecer na visão budista do mundo, sentia claramente que tinha existido antes do nascimento e que continuaria a existir depois.

 

LR: Muitas vezes ao lê-lo e ouvi-lo noto uma certa descrença face aos sistemas e aos partidos para dar resposta aos problemas do mundo. É esta descrença que o leva a abandonar o PAN?

 

PB: Sinto essa descrença desde a adolescência, apoiada em tudo o que vi durante e após o 25 de Abril de 1974 e na leitura que faço da história política da humanidade. Desde muito cedo que adquiri uma consciência libertária e me tornei convicto de que a luta pelo poder e a posse do poder corrompem o que há de melhor no ser humano. Fiz todavia um esforço por contrariar essa descrença ao ver surgir e abraçar um projecto como o do PAN, que me pareceu tão solidamente alicerçado em bases éticas e altruístas que poderia efectivamente ser um partido diferente, ou seja, como no slogan que propus e foi aceite, “um partido inteiro, pelo bem de tudo e de todos”. Infelizmente constatei a minha ingenuidade e confirmei, por tudo o que vi e acompanhei tão de perto, que um partido político atrai por natureza pessoas ávidas de protagonismo, carreirismo e poder e estimula o que há de pior no ser humano (não me excluo, de modo algum). Os partidos políticos e a democracia representativa a meu ver promovem inevitavelmente o carreirismo dos dirigentes e a desresponsabilização dos eleitores, que acham que a cidadania se cumpre com a participação num acto eleitoral de vez em quando. Por tudo isto saí do PAN para abraçar o novo projecto de que falo mais à frente.

 

LR: No seu website lê-se que à semelhança de outras grandes personalidades anseia pela “criação de uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, políticas e religiosas”. Estamos no caminho certo? Será tal coisa possível?

 

PB: Creio ser possível tudo aquilo que os seres humanos desejarem com suficiente energia e empenho. Tudo depende de acharmos ou não que isso seria o melhor para todos e para o planeta. Quando falo nessa comunidade ético-espiritual mundial que superasse as diferenças religiosas, culturais, nacionais e ideológicas, não quero dizer que as anulasse, mas que as integrasse numa harmonia superior, onde pudessem coexistir e conviver num diálogo pacífico, compreensivo e harmonioso. Creio que há cada vez mais seres humanos que se encaminham nesse sentido, embora haja também muitos movimentos e fenómenos de sinal contrário, como os fundamentalismos de todos os tipos. Acredito todavia que esse é o melhor caminho para a paz exterior e interior na Terra.

 

LR: Algo que sempre me incomodou, desde muito novo, é não ter a certeza se o conceito de verdade existe. O que é que o Professor Paulo Borges diria a um dos seus alunos perante tal inquietação?

 

PB: Bom, creio ser inegável que existem diversos conceitos acerca do que é a verdade, por sinal muito distintos entre si. O que podemos duvidar é se há realmente uma verdade para além dos distintos conceitos ou interpretações acerca do que é a verdade. Tendo a pensar, também baseado na experiência meditativa, que essa verdade existe, no sentido de uma natureza ou essência profunda do real, de todas as coisas e de todos os seres, infinita e ilimitada, mas que é por isso mesmo completamente impensável, inconceptualizável, indizível e inimaginável, pois transcende completamente os limites dos nossos conceitos, palavras e imagens, que por natureza só nos permitem expressar coisas e objectos definidos pelos sentidos e pela mente. Mas o facto de ser informulável e não poder ser jamais captada numa doutrina ou teoria – seja científica, filosófica ou religiosa – ou numa representação imagética, não significa que a ciência, a filosofia, a religião e a arte não nos possam dar vislumbres dela e que não se possa de todo experimentar de forma directa, por exemplo no silêncio ou em experiências de abertura da consciência, quando abandonamos tudo o que julgamos ser ou saber. Isso acontece, como dão conta inúmeros testemunhos desde há milénios até aos dias de hoje, em todo o tipo de estados diferenciados de consciência: na meditação e na contemplação, na oração, na dança, no yoga, na exacerbação do movimento físico, no arrebatamento erótico ou amoroso, na plenitude do acto sexual, na fruição estética, no êxtase criador, na comunhão com a natureza, etc., etc. 

 

LR: Do seu mais que vasto currículo e bibliografia, qual considera ser o maior feito?

 

PB: O que nunca fiz nem farei. O infinito que jamais se faz e antes nos desfaz, a nós e a tudo o que fazemos, dizemos e pensamos. É isso que me move e inspira em tudo o que penso, digo e faço. 

 

LR: Colocando de parte a vertente profissional, de que é que se orgulha? O que faz de si uma pessoa realizada?

 

PB: Nos meus melhores momentos, o não me orgulhar de nada e nem sequer sentir que existo como alguém ou algo, distinto dos outros e do mundo. 

 

LR: Em que pilares assenta a sua família?

 

PB: Sinto que herdei da minha mãe e da minha avó materna o amor pelos animais e do meu pai e avô paterno o amor pela justiça social. Do meu pai recebi também o gosto pela espiritualidade, pela filosofia e pela busca de conhecer as leis fundamentais da vida. Tenho a alegria de ter hoje uma família alargada, com a minha companheira, filhos, irmã, cunhado e sobrinhos onde o amor por todas as formas de vida e uma ética da não-violência são princípios e valores sólidos. 

 

LR: Tem alguma novidade para breve que queira partilhar? 

 

PB: Sim, que sou candidato à presidência da República em 2016 e que esta candidatura é simultaneamente o lançamento de um movimento cívico apartidário que visa criar um dinamismo social permanente para o Bem comum dos humanos, dos animais e da Terra fora da política convencional. A candidatura / movimento chama-se Outro Portugal Existe e pretende constituir uma plataforma de pensamento e acção que desenvolva e promova tudo o que já se faz em Portugal, em sintonia com iniciativas semelhantes em todo o mundo, de ético, saudável e sustentável, nos mais diversos domínios. Procuramos consciencializar esses diferentes grupos, iniciativas e pessoas de que já convergem para um paradigma cultural e civilizacional alternativo ao que hoje entra em crise e morre. Se todos nos unirmos, mais facilmente poderemos ser desde já a diferença que queremos ver no mundo e relativizar o Portugal institucional, do Estado, dos governos e dos partidos, a um papel marginal e cada vez mais insignificante na nossa vida colectiva. 

Para a candidatura seguir em frente necessitamos de 7500 assinaturas e se desejarem ajudar a recolhê-las podem escrever para amigos@outroportugalexiste.pt

 

LR: Ficou algo por ser dito?

 

PB: Tudo está sempre por ser dito, mas menos com palavras e mais com a Vida.

 

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