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LEONISMOS

LEONISMOS

26
Dez15

Resolução para 2016


Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

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28
Ago15

Sintra


Leonardo Rodrigues

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 Foto: Ruben Santos

 

Todos os fins de semana eu e o meu colega de casa procuramos fazer algo de novo, que seja tão divertido como relaxante, mas sempre em Lisboa. Não é mau, até já disse "Obrigado, Lisboa", no entanto, neste, tínhamos forçosamente de sair da cidade e afastar-nos de tudo o que de negativo viver numa cidade implica.

 

Foi um dia que serviu tanto para fazer uma desintoxicação citadina como tecnológica, o destino, como o título do post provavelmente indicará, foi Sintra. Sem telemóveis e apenas munidos de uma máquina fotográfica, não fosse não conseguirmos congelar momentos, lá fomos nós de comboio rumo a norte.

 

A viagem de comboio foi agradável, apenas mais curta do que estávamos à espera. Uma vez lá, o passo um foi almoçar na berma da estrada, por baixo da única árvore que nos conseguia proporcionar sombra àquela bem-dita hora do dia. O passo dois foi pedir um mapa, que acabou por não ser necessário, pois os melhores sítios, como viemos a comprovar, não constam nos mapas, acham-se uma vez no local.

 

Já me tinha deslocado para aqueles lados duas vezes anteriormente. Na primeira e na segunda com o coração a sofrer de uma patologia sem terapêutica disponível atualmente, o amor - achava eu. Desta vez, já livre destes males que só se curam com o tempo, desfrutei.

 

Depois de tão deliciosamente subir, com um silêncio a que já não estou habituado, demos com o Castelo dos Mouros. Entre o silêncio, o ar puro e o verde estonteante, abri espaço para pensar nas batalhas que lá tiveram lugar, em como os que estavam em cima detinham sempre uma considerável vantagem estratégica e, com maior inquietação, perguntei-me: será que aquela gente tinha consciência do quão mágico é Sintra?

 

Nós sim, tínhamos, mas era-nos imposto pagar e pagar nada tem de mágico. Então, como bons portugueses que somos, lembrando-se o meu colega de que alguém já lá tinha conseguido entrar sem pagar, decidimos nós também fazer um pequeno desvio.

 

O caminho parecia não ter sido antes caminhado e, se navegado, só por água. Uns arranhões, mosquitos e sustos depois, lá demos nós com um sítio que dinheiro nenhum pode comprar e que não está incluído no preço absurdo do bilhete. Parecia nunca ter sido tocado pelo Homem, não havia ruído, nem lixo. Até o mar se avistava!

 

No castelo, pago, suponho que os visitantes tivessem, quanto muito, a oportunidade de se sentarem em bancos de madeira, enquanto nós, gratuitamente, ficamos deitados em pedras gigantes, que pareciam suspensas no ar.

 

Não estávamos a travar uma guerra como os que deste sítio precisaram antes de nós, mas a sensação de segurança devia ser a mesma. Estávamos protegidos da vida que temos lá em baixo, na terra, e que não queremos. Nada nem ninguém nos podia tocar, corrigir ou perturbar de algum modo. Estávamos acima de todas as coisas e tínhamos o controle total das nossas vidas. Ali não lutávamos por ser alguém, afinal tínhamos  o  privilégio de ser ninguém. No meu último dia acho que as coisas vão ser assim, as luzes desligam-se e deixa de haver luta e finalmente terei descanso, do eterno - que há de saber tão bem se disso houver consciência.

 

Depois de tanta sensação maravilhosa experienciada e com coragem ganha para deixar o descanso eterno temporário, lá seguimos caminho para o nosso próximo destino, o Palácio da Pena. Surpresa, era preciso pagar mais. Então, nós, mais uma vez, tivemos que ir por por vales e montanhas - como canta mais ou menos o hino da RAM. E olhem, entramos e não me lembro de ter pago, nem o fotógrafo de serviço.

 

Já de noite, aconteceu o que todo o dia prometeu, chuva. Não consigo conceber melhor forma de terminar um dia destes do que uma viagem de comboio de noite, com um livro no colo e a chuva a cair do outro lado da janela, que me protegia do delicioso espectáculo da natureza. No livro, tal como na viagem de ida, lia sobre reis e rainhas, e, permitam-me, durante este dia eu fui rei e no meu reino não houveram cá lutas pelo trono, apenas pela melhor pedra, que foi pacificamente partilhada.

 

Antes de concluir com o parágrafo seguinte, deixo-vos com uma dica: prefiram sempre um bilhete de comboio com ida para Sanidade e volta com Sanidade em detrimento do Xanax, Prozac e primos, que não sei o nome. Fica mais barato e tem efeitos duradouros.

 

Sendo que as experiências são sempre melhores quando partilhadas, e, tendo-me excedido nas palavras, deixo-vos com mais algumas fotografias tiradas por Ruben Santos - dizem que cada uma vale mais do que mil palavras.

 

 

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Podem ver mais do trabalho do Ruben no Behance aqui e no Instagram aqui.

07
Ago15

Ler +, Viver + e desculpar-se -


Leonardo Rodrigues

 

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Foto sem direitos de autor 

 

Quantos de vós gostariam de ler mais e não o fazem por falta de tempo?

 

Isto de ler nem sempre é fácil à primeira vista, mesmo para quem gosta, especialmente para um trabalhador-estudante que tem de acompanhar mil e uma séries, jantar com os amigos, faltar às aulas para ir até ao Porto, cumprir certas obrigações e fazer sabe-se lá mais o quê.

 

Há quase um ano que não conseguia acabar um livro, excetuando aqueles que se podem ler num dia uma frase, noutro dia outra, acabando tudo por fazer sempre muito sentido.

 

Com aqueles que, para uma compreensão total da obra, se exige uma leitura do princípio, do meio e do fim - mesmo que o autor lá vá trocando a ordem das coisas a seu belo prazer - começava, lia até meio, passava a ter algo de mais importante a fazer e colocava de parte. Eventualmente surgia outro livro que considerava imperativo ler e dava-se uma repetição do ciclo.

 

Esta história que andava a contar da falta de tempo, como muitas das que conto (e que sei que toda a gente conta), parecia-me familiar, há uns tempos tinha uma muito semelhante: não tinha tempo para começar um blog e mantê-lo. Surpresa, não só consegui começar como estou a escrever mais do que nunca e, nos dias e posts de sorte, ainda tendo o privilégio de ser destacado pelo Sapo - algo que agradeço imenso.

 

Agora não falando apenas das leituras, mas falando sempre, fabricamos constantemente histórias que nos impedem de fazer o que gostamos, por vezes destes prazeres tão simples como ler e escrever. Fabricamos não só para não fazer, mas para não viver.

 

Se formos a observar bem, e voltando agora de forma concreta às leituras, até temos tempo. Momentos para ler livros a sério não faltam. As oportunidades estão em todo o lado. Se posso ler tudo o que é notícia, ouvir música, escrever, trabalhar e passear, posso ler a sério. A minha vida está cheia de oportunidades:

 

Ora, temos a viagem de dez minutos de comboio que faço duas vezes por dia, as mil e uma pausas no trabalho, a horita que nos dão porque assim são obrigados e todas as mais que preciosas idas ao café. Ah, e a verdade seja dita, se podemos levar um tablet para a casa de banho e jogar Temple Run, podemos levar um livro.

 

Neste momento estou a ler A filha do Conspirador, de Philippa Gregory. Está a ser uma delícia. Ainda não decidi se vou fazer uma review ou não, maioritariamente porque ainda não decidi se o sei fazer ou não. António Lobo Antunes acha que não se deve falar de livros e talvez use isto como desculpa, até mudar de ideias.

 

Já agora, se quiserem partilhar, adoraria saber o que andam a ler e o que prescrevem para a minha reabilitação literária.

 

 

22
Jul15

Entrevista a Paulo Borges


Leonardo Rodrigues

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Foto de Adama 

 

Hoje dou início a uma nova rubrica no blog, Conversas com Vista. Tenho dizer que não poderia ter escolhido melhor Pessoa do que Paulo Borges para começar. Houve aqui espaço para conversar um pouco sobre tudo: da meditação à família, do afastamento do PAN à candidatura a Presidente da República. Que a Conversa fale por si e alargue as Vistas de quem ler.

 

LR:  Quem é Paulo Borges?

 

PB: A designação que as convenções humanas dão a um fluxo de consciência e energia inseparável de todo o cosmos e sem princípio nem fim.

 

LR: “Nós pensamos sempre menos do que aquilo que somos”. Disse isto enquanto falava  acerca de budistas, no 5 Para a Meia Noite. Porque é que estamos constantemente a diminuirmo-nos? 

 

PB: Porque a consciência condicionada pelo pensamento e pela linguagem está sempre vários graus abaixo do nosso ser ou natureza ilimitados e profundos. Mas muitas vezes fazemos exactamente o contrário e vangloriamo-nos disso que em nós é mais estreito e pequenino, pois é com isso que nos identificamos, devido às nossas ilusões, incentivadas pela pressão familiar, educativa e social.

 

LR: Procuramos constantemente a felicidade no exterior, quer seja em coisas ou pessoas - a sociedade assim o ensina. Como é que o Paulo colocou o travão neste sistema de coisas?

 

PB: Eu estou apenas em processo de travagem e de reorientação desse impulso para a descoberta da paz e da felicidade nas coisas simples que nada nem ninguém nos pode dar ou tirar: a alegria de ser, o prazer de respirar, a volúpia de contemplar o mundo, o dom de amar e ser grato... A partir daqui podemos relacionar-nos com os outros e o mundo de outro modo: não centrados na carência e no desejo egocêntrico de ser felizes (que tantas vezes nos levam a instrumentalizar os outros), porque já o somos, mas na correspondência amorosa e compassiva às necessidades reais dos outros seres. Para mim a reflexão e a meditação têm sido o caminho fundamental, após o inevitável e precioso fracasso e dor da frustração da busca da felicidade no exterior.

 

LR: Parar de olhar para o exterior implica olhar para dentro. Contudo, isto por vezes dói, nem toda a gente gosta do que lá está. Há alguma forma simples de se chegar à auto aceitação?

 

PB: Creio que chegamos lá quando vemos que não há alternativa e que não adianta continuarmos a fugir para a frente, inventando histórias cinzentas ou cor-de-rosa acerca de quem somos, pois nunca escapamos à verdade nua e crua do que vamos sendo, tal qual.  No fundo a auto-aceitação não é difícil. Muito mais difícil é querermos ficar apenas com uma parte do que há em nós, suprimindo o resto, ou transformarmo-nos numa versão ideal de quem supostamente deveríamos ser, a nossos olhos ou de acordo com as expectativas alheias, o que só gera conflito, ansiedade e sofrimento. A verdadeira transformação acontece quando aceitamos trabalhar com a matéria-prima da nossa experiência, sensações, emoções e pensamentos, a cada instante. Se entrarmos a fundo na sua natureza poderemos ter a grata surpresa de descobrir que, por mais obscuros, limitadores e negativos que pareçam ser, há lá no íntimo um silêncio, uma paz e uma luz sempre presentes. A meditação é aqui uma vez mais fundamental.  

 

 

LR: Para além de Filosofia, ensina a meditar. Como é que a meditação funciona? De que modo é que esta prática nos possibilita uma mudança no relacionamento que temos connosco, com os outros e com o mundo?

 

PB: A meditação é o treino regular para reencontrar o estado natural da consciência, atenta ao aqui e agora, ao que se passa no corpo, na respiração, na mente e à nossa volta, de modo calmo, descontraído, claro e livre de juízos, apego, aversão, medos e expectativas. Com a mente serena e atenta, começamos a sentir e compreender que não estamos separados do mundo e de nenhum ser vivo. Entramos a pouco e pouco num estado menos dual de consciência onde a empatia amorosa e compassiva se estendem naturalmente a todas as formas de vida, sem discriminações. Claro que, enquanto estamos no caminho, como é o meu caso, não ficamos sempre neste estado, porque ressurgem os hábitos mentais e tendências emocionais dualistas que estão fortemente enraizados, mas temos vislumbres que não nos deixam dúvidas de que o aperfeiçoamento, o despertar e a libertação são possíveis. 

 

LR: Sei que medita duas vezes por dia, no entanto durante o correr do dia muitas são as distrações, muitos os pensamentos. Como é que se pode trazer a atenção para o aqui e agora, em qualquer situação?

 

PB: Treinando-nos a prestar a cada instante atenção ao que estamos a sentir e pensar e ao que está a acontecer. Se caminhamos trazemos a atenção para o contacto dos pés com o solo, se tomamos banho sentimos a água a correr pelo corpo, se comemos sentimos bem o sabor dos alimentos, se conversamos prestamos atenção ao som e ao sentido das palavras, se temos emoções observamo-las, se pensamos contemplamos os pensamentos em vez de nos perdermos neles, se vemos o mundo à nossa volta contemplamos o que vemos sem nos distrair com juízos e interpretações. Podemos usar estratégias como programar um sinal no telemóvel para, de 30 em 30 m ou em períodos mais estreitos, nos recordar para sairmos do piloto automático ou dos devaneios no passado e no futuro e prestarmos atenção ao momento presente. Se nos sentarmos uma, duas ou mais vezes por dia a treinar isto, torna-se mais fácil manter ou reencontrar a atenção plena em todas as situações. A isto chama-se meditação em acção, que não pode dispensar a sua base, a meditação formal sentada, numa almofada ou numa cadeira. Explico isto mais detalhadamente no meu último livro, O Coração da Vida, um guia prático de meditação. Considero a meditação, como alguém disse, a “grande Revolução Silenciosa do século XXI”, que está hoje no centro das atenções das neurociências e a entrar cada vez mais nas escolas, nas empresas, nos hospitais e nos projectos de transformação social e de sensibilização ambiental. 

 

LR: Quando é que se apercebeu que matar para comer não faz sentido?

 

PB: Desde criança que me vinha à mente o pensamento de que os animais que eu comia tiveram de ser mortos e que certamente não o desejaram e tinham sofrido terrivelmente com isso, mas como eram pensamentos incómodos e não via alternativas rejeitava-os e pensava noutra coisa. Até que a consciência despertou para isso ser eticamente inaceitável e haver alternativas muito acessíveis e bem mais saudáveis. Todos ganham com uma dieta vegetariana e de preferência vegana, os animais, os humanos e a Terra, pois o consumo de produtos de origem animal tem um imenso impacto ambiental. 

 

LR: Que lhe ocorre quando pensa a morte?

 

PB: Num sentido uma mudança um pouco mais profunda e imprevisível do que aquela que acontece a cada instante (pois sinto que morro e renasço a cada momento), uma vez que será acompanhada do fim do funcionamento do corpo e da percepção actual do mundo. Noutro sentido, uma transformação na continuidade, pois não me parece possível que o fluxo da consciência se interrompa. Devo dizer que desde criança, muito antes de me reconhecer na visão budista do mundo, sentia claramente que tinha existido antes do nascimento e que continuaria a existir depois.

 

LR: Muitas vezes ao lê-lo e ouvi-lo noto uma certa descrença face aos sistemas e aos partidos para dar resposta aos problemas do mundo. É esta descrença que o leva a abandonar o PAN?

 

PB: Sinto essa descrença desde a adolescência, apoiada em tudo o que vi durante e após o 25 de Abril de 1974 e na leitura que faço da história política da humanidade. Desde muito cedo que adquiri uma consciência libertária e me tornei convicto de que a luta pelo poder e a posse do poder corrompem o que há de melhor no ser humano. Fiz todavia um esforço por contrariar essa descrença ao ver surgir e abraçar um projecto como o do PAN, que me pareceu tão solidamente alicerçado em bases éticas e altruístas que poderia efectivamente ser um partido diferente, ou seja, como no slogan que propus e foi aceite, “um partido inteiro, pelo bem de tudo e de todos”. Infelizmente constatei a minha ingenuidade e confirmei, por tudo o que vi e acompanhei tão de perto, que um partido político atrai por natureza pessoas ávidas de protagonismo, carreirismo e poder e estimula o que há de pior no ser humano (não me excluo, de modo algum). Os partidos políticos e a democracia representativa a meu ver promovem inevitavelmente o carreirismo dos dirigentes e a desresponsabilização dos eleitores, que acham que a cidadania se cumpre com a participação num acto eleitoral de vez em quando. Por tudo isto saí do PAN para abraçar o novo projecto de que falo mais à frente.

 

LR: No seu website lê-se que à semelhança de outras grandes personalidades anseia pela “criação de uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, políticas e religiosas”. Estamos no caminho certo? Será tal coisa possível?

 

PB: Creio ser possível tudo aquilo que os seres humanos desejarem com suficiente energia e empenho. Tudo depende de acharmos ou não que isso seria o melhor para todos e para o planeta. Quando falo nessa comunidade ético-espiritual mundial que superasse as diferenças religiosas, culturais, nacionais e ideológicas, não quero dizer que as anulasse, mas que as integrasse numa harmonia superior, onde pudessem coexistir e conviver num diálogo pacífico, compreensivo e harmonioso. Creio que há cada vez mais seres humanos que se encaminham nesse sentido, embora haja também muitos movimentos e fenómenos de sinal contrário, como os fundamentalismos de todos os tipos. Acredito todavia que esse é o melhor caminho para a paz exterior e interior na Terra.

 

LR: Algo que sempre me incomodou, desde muito novo, é não ter a certeza se o conceito de verdade existe. O que é que o Professor Paulo Borges diria a um dos seus alunos perante tal inquietação?

 

PB: Bom, creio ser inegável que existem diversos conceitos acerca do que é a verdade, por sinal muito distintos entre si. O que podemos duvidar é se há realmente uma verdade para além dos distintos conceitos ou interpretações acerca do que é a verdade. Tendo a pensar, também baseado na experiência meditativa, que essa verdade existe, no sentido de uma natureza ou essência profunda do real, de todas as coisas e de todos os seres, infinita e ilimitada, mas que é por isso mesmo completamente impensável, inconceptualizável, indizível e inimaginável, pois transcende completamente os limites dos nossos conceitos, palavras e imagens, que por natureza só nos permitem expressar coisas e objectos definidos pelos sentidos e pela mente. Mas o facto de ser informulável e não poder ser jamais captada numa doutrina ou teoria – seja científica, filosófica ou religiosa – ou numa representação imagética, não significa que a ciência, a filosofia, a religião e a arte não nos possam dar vislumbres dela e que não se possa de todo experimentar de forma directa, por exemplo no silêncio ou em experiências de abertura da consciência, quando abandonamos tudo o que julgamos ser ou saber. Isso acontece, como dão conta inúmeros testemunhos desde há milénios até aos dias de hoje, em todo o tipo de estados diferenciados de consciência: na meditação e na contemplação, na oração, na dança, no yoga, na exacerbação do movimento físico, no arrebatamento erótico ou amoroso, na plenitude do acto sexual, na fruição estética, no êxtase criador, na comunhão com a natureza, etc., etc. 

 

LR: Do seu mais que vasto currículo e bibliografia, qual considera ser o maior feito?

 

PB: O que nunca fiz nem farei. O infinito que jamais se faz e antes nos desfaz, a nós e a tudo o que fazemos, dizemos e pensamos. É isso que me move e inspira em tudo o que penso, digo e faço. 

 

LR: Colocando de parte a vertente profissional, de que é que se orgulha? O que faz de si uma pessoa realizada?

 

PB: Nos meus melhores momentos, o não me orgulhar de nada e nem sequer sentir que existo como alguém ou algo, distinto dos outros e do mundo. 

 

LR: Em que pilares assenta a sua família?

 

PB: Sinto que herdei da minha mãe e da minha avó materna o amor pelos animais e do meu pai e avô paterno o amor pela justiça social. Do meu pai recebi também o gosto pela espiritualidade, pela filosofia e pela busca de conhecer as leis fundamentais da vida. Tenho a alegria de ter hoje uma família alargada, com a minha companheira, filhos, irmã, cunhado e sobrinhos onde o amor por todas as formas de vida e uma ética da não-violência são princípios e valores sólidos. 

 

LR: Tem alguma novidade para breve que queira partilhar? 

 

PB: Sim, que sou candidato à presidência da República em 2016 e que esta candidatura é simultaneamente o lançamento de um movimento cívico apartidário que visa criar um dinamismo social permanente para o Bem comum dos humanos, dos animais e da Terra fora da política convencional. A candidatura / movimento chama-se Outro Portugal Existe e pretende constituir uma plataforma de pensamento e acção que desenvolva e promova tudo o que já se faz em Portugal, em sintonia com iniciativas semelhantes em todo o mundo, de ético, saudável e sustentável, nos mais diversos domínios. Procuramos consciencializar esses diferentes grupos, iniciativas e pessoas de que já convergem para um paradigma cultural e civilizacional alternativo ao que hoje entra em crise e morre. Se todos nos unirmos, mais facilmente poderemos ser desde já a diferença que queremos ver no mundo e relativizar o Portugal institucional, do Estado, dos governos e dos partidos, a um papel marginal e cada vez mais insignificante na nossa vida colectiva. 

Para a candidatura seguir em frente necessitamos de 7500 assinaturas e se desejarem ajudar a recolhê-las podem escrever para amigos@outroportugalexiste.pt

 

LR: Ficou algo por ser dito?

 

PB: Tudo está sempre por ser dito, mas menos com palavras e mais com a Vida.

 

27
Jun15

O Facebook, o Arco Íris e os Monocromáticos do Restelo


Leonardo Rodrigues

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Ontem, assim que me apercebi que o Facebook estava a celebrar algo que me parece determinante para o curso da Humanidade, claro que decidi fazer parte. Afinal de contas estava a fazer um pequeno contributo para a comunidade LGBT, para a normalização do que sempre foi natural e a ganhar uma foto de perfil nova, cheia de vida e de cor. 

 

Minutos depois, fiz o upload da fotografia mais colorida que alguma vez tive no Instagram. Olhem, em 10 minutos perdi mais de 10 seguidores, acho que isto diz muito. Não me incomodou, se lhes é difícil percepcionar uma paleta de cores variadas prefiro que não me sigam. Não deve ser fácil viver num mundo monocromático, eu percebo-vos e têm todo o meu apoio - para procurar ajuda. 

 

Hoje, enquanto regressava do supermercado - espero mesmo que desta vez a comida dure a semana toda - observava toda a diversidade caraterística de Alcântara. Houve progressos sim senhores, já não se gritam insultos, não se muda para o outro lado da rua, nem se espanca ninguém só por ter uma cor diferente. Até sorrimos uns para os outros, vejam lá. E isto é o que me parece, mas também nunca fui dessas coisas, lembro-me, por exemplo, de me meter em confusões para defender um rapaz negro no secundário. Enfim, por outro lado, se alguém na rua for remotamente identificado como homossexual ainda há um insultosito que se tosse, um escarro que teve de tem de ser cuspido naquele preciso momento e que se acompanha de um olhar reprovador.

 

Vejam lá se as seguintes frases fazem sentido: Concordo com isso de se ser preto, mas se fosse na minha família já não achava muita piada;  Pretos, até podem ser, mas dentro de casa; Não me venham com essas pretalhisses; Preto com branco, onde é que já se viu?; Não percebo porque escolheram ser pretos, o branco não é mais bonito?

 

Não me ocorrem mais disparates. Quem estiver a ler isto pode considerar que não posso comparar o racismo com homofobia. Posso, e sabem porquê? Porque são ambas aversões ao que é natural, ao que não se escolhe. Vou dizer duas coisas básicas: a homossexualidade foi observada em mais de 300 espécies e, tendo em conta toda a descriminação que ainda há, acham mesmo que alguém iria fazer tal escolha? Acho que isto chega para meditar.

 

Sempre houve uma aversão perante que é desconhecido, estranho, diferente. Estas palavras costumam confundem-se com o errado. Quando as pessoas se familiarizam com os assuntos começam a ver as coisas com outros olhos. O Facebook fez a sua parte e eu estou a fazer a minha. 

 

Bom fim de semana!

 

P.S. Se quiserem uma foto mais colorida cliquem aqui.

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

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