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LEONISMOS

LEONISMOS

15
Fev17

Dizer amo-te


Leonardo Rodrigues

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Já tinha este post nos rascunhos há uns dias e hoje, após o dia que encheu o meu refeitório de corações, parece-me boa ideia concluir.

Há quem diga e julgue que os gestos falam mais alto do que as palavras. Como se alguma coisa pudesse significar mais do que palavras, do que uma palavra. Isso só é válido quando se banalizam as palavras, especialmente uma que, em tão poucas letras, pode significar tanto: amo-te. 

Por vezes agimos de uma forma que não queremos, da mesma forma que dizemos coisas que não sentimos. Agir contra a nossa natureza custa. Curiosamente, proferir o que realmente pensamos e sentimos também, sente-se uma pequena dorzinha.

Dizer amo-te, saíndo bem lá do fundo, é cirúrgico. Para mim, é quase como se sentisse que o meu peito se rasga para sair de lá dentro algo muito intimo. É sincero. Por outro lado, quando me é dito continua a acontecer algo de extraordinário em mim. Num episódio recente foram as lágrimas que começaram a cair apenas por o ouvir. Sem soluços, só um calor imenso. Afinal, o quão valioso é amar reciprocamente?

Pareceu-me que, à minha volta, de tanto se ouvir e dizer palavras como esta, retira-se o som das mesmas e, por consequência, perdem o seu significado e efeito. Criar um dia que manipule a economia das palavras e dos gestos deixa-me a pensar.

Olhem, sou por dizer menos e significar mais. Que se demonstre tudo, mas sem gastar a grandiosidade das palavras e das emoções. 

 

 

 

02
Fev17

Temos de desligar!


Leonardo Rodrigues

 

 

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Vivo numa relação de amor ódio com ficar sem bateria. Se houver algo que não pode esperar, é um pesadelo. Se não, é uma dádiva e acordarmos para coisas que nunca reparámos, como ver que o nome da estação Roma, refletida num dos vidros da carruagem é amoR.

Os tempos são insustentáveis. Deixar passar os reflexos da luz que dizem amoR não é grave, mas já deixar passar o Amor porque um retângulo convenceu-nos que a nossa vida está toda lá dentro, pode ser.

Os nossos telemóveis tornaram-se o centro, até dos jantares. Supostamente está lá tudo: as várias contas de email, o Facebook, o Messenger, o Snapchat, o Instagram, as aplicações onde se encontra o sexo e amor, as noticias, as memórias fotográficas, as notas, a agenda, o despertador, os mapas. Tudo, porra. E as notificações não nos largam, fazendo com que o trabalho, os colegas, os amigos, as estrelas e as desgraças se deitem connosco.

Sabem o que não está no telemóvel, nem mesmo no computador? As pessoas, de carne e osso, as conversas olhos nos olhos, o toque e os tiques, os cheiros dos lugares. O que vemos nos ecrãs são as representações disso. Temos de optar: representações ou os que temos ao nosso lado, à mesa e na cama?

Sinto que a ilusão de aproximação serve apenas para que a concretude das coisas se deteriore. O que sobra de nós, pode ser insuficiente.

Não proponho uma abolição de algo que melhora a vida moderna em muitos aspetos. Proponho, sim, que por vezes se deixe o telemóvel desligar ou usar o modo de voo. Desta forma conseguímos ouvir melhor quem está ao nosso lado e ver as nuvens sem photoshop que estão no céu.

 

19
Jan17

Não volto para o armário, deitei-o fora


Leonardo Rodrigues

Recentemente colocou-se a hipótese de irmos passar as nossas férias à minha ilha. Após a última conversa que tive com um membro da família, decidimos manter o plano inicial e rumar para norte.

Recuando no tempo, assim que tomei consciência de quem era, mesmo que não tivesse um conceito de antemão, passei também a ter um segredo. O ambiente à minha volta exercia uma influência castradora. E, no fundo, eu próprio também não queria ser quem era.

Os tempos mudaram, assisti a uma transformação das pessoas e das mentalidades à minha volta. Mas, mais do que os progressos dos outros, orgulho-me do meu percurso. Nem no emprego necessito fingir ser quem não sou. Saí e deitei o famoso armário fora para viver a minha vida.

Fruto disto, e porque a vida assim quis, no ano passado passei a ter a meu lado alguém que considero digno de apresentar a toda a família. Ontem uma pessoa, que surpreendentemente não foi a mãe, pediu-me para nos comportarmos como amigos - impôs esta condição - , isto porque não queria ter de dar explicações à filha.

Há uma ideia em que insisto há muito: as crianças são uma tábua rasa. Se a elas forem transmitidos bons valores e conhecimentos, mais fácil será de não perpetuar preconceitos. Não me cabe a mim educar filhos que não são meus. Ainda assim, pergunto-me, que educação é aquela que não assume que existe mais do que o preto e o branco, escondendo os lindos tons de cinzento que os separam?

Algo que é fundamental compreender por todos é que os casais gays não pretendem fazer em público, em família, mais do que os heteros fazem. Não há cá tratamentos especiais. O escárnio de algumas pessoas está em fazermos o mesmo, como tocar numa mão, agarrá-la, fazer uma carícia na cara ou dar um beijo. O afeto não pode ser um tabu.

E, com isto, não posso compactuar, mesmo que amenizem dizendo que "aceitam o meu modo de vida, mas que...". E são muitos os "mas que" que só servem para andarmos mais devagar. 
Enquanto casal homossexual, não temos, nem vamos, agir de forma diferente da um casal heterossexual. Desculpem, mas já não andamos com nenhuma cruz às costas.

29
Nov16

A empregada sabotou o dia em que eu conheci os pais


Leonardo Rodrigues

A primeira vez deixa-nos com os nervos à flor da pele, mexe com os intestinos, faz pulsar a veia da testa e, se for o caso, pode doer. Isto para a maioria das primeiras vezes. Quando conheci os pais dele deveria ter sido assim, mas a verdade é que nem tive tempo para pensar na grandiosidade da coisa até estar sentado, primeiro a respirar, depois a jantar. Estive demasiado ocupado a ser eletrocutado pela adrenalina.

Para o aniversário, ele decidiu fazer um jantar com os pais. Eu, enquanto namorado fofo e boa dona de casa, prontamente me propus a cozinhar. Queria, mesmo fora de água, sentir o conforto da cozinha. Quando chegou o dia ainda me tentou com a ideia do restaurante, mas não deixei. Ele ia trabalhar, a Fátima fazia as limpezas semanais e eu tornava o jantar possível. Parecia simples.

Estando de folga, dormi até às quinhentas, iludido pela simplicidade da vida. Levantei-me para ir fazer as compras e, como tinha tempo, decidi que ia comprar, comparar e comprar mais no Lidl, Pingo Doce e, para ter a certeza, Continente. Como estavam todos tão próximos, porque não? Fiquei quatro horas a passear sacos de um lado para outro, sempre com a ideia de que a empregada estava a fazer a sua magia.

Quando regresso a casa vi tudo como deixámos, até o pacote de Tuc se estava à vista de todos na mesa da sala. A Fátima não tinha feito magia. Embora tenha vasculhado a casa para perceber se tinha acontecido alguma coisa à mulher, não precisei de gastar mais neurónios para perceber que estava por minha conta.

Coloquei os calções mais curtos que encontrei, agarrei no aspirador como se a minha vida dependesse de matar o pó, lavei loiça, esterilizei a casa de banho, dobrei roupa e escondi coisas que não têm sítio fixo dentro dos armários.

Ele apanhou-me a 2/3 do desmaio. Com um sorriso na cara, contou-me que a empregada decidiu ir à segurança social e, como aquilo demora, achou melhor passar lá em casa no dia seguinte. 

Cozinhei para as 10 pessoas, as crianças comeram tudo, os adultos elogiaram, rimos muito. Portei-me bem e senti pertença. Mesmo que alguma coisa não seja, temos uma fotografia que vai ficar para sempre e que me faz sorrir.

No que diz respeito à Fátima, arranjei forças para perdoar-lhe porque no dia seguinte ela compensou com uma sopa sublime. Agora que ela vai para Londres de férias, eu vou aperfeiçoar as minhas sopas, assim reduzimos a nossa dependência e, com sorte, ela percebe que não me pode deixar à beira de novo ataque prozac sem aviso.

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 Imagem: A Criada Mal Criada

15
Nov16

Hoje não sei


Leonardo Rodrigues

Uns dias temos motivos, outros simplesmente os estados de espírito surgem sem qualquer razão aparente. A carapuça assenta tanto aos bons como aos maus. Com os bons é mais fácil, só temos de vivê-los, saborear sem a consciência de que aqueles momentos nem sempre perduram. Com os maus há uma vontade enorme de exorcizar as emoções e de sufocar os pensamentos. Lá parece que conseguimos, temporariamente, depois o pensamento volta a entrar na nossa cabeça e adquire contornos mais fortes, de quase loucura. Aí está o diabo. Há vários anos aprendi que não os podemos deixar na cabeça. Verbalizar e deixar no ar também não serve. Temos de os colocar numa folha, física ou digital. Depois perdem a força, podem ser questionados e novas sensações surgem. Hoje ao tentar fazer pensamento-pergunta-resposta só me deparei com não sei, não sei e não sei. Hoje, que tudo parece ter de ser questionado, eu não sei. Escrevo na esperança de saber.

15
Mai16

Hoje volto ao Caderno e à Caneta


Leonardo Rodrigues

É assustador o quanto dependemos das novas tecnologias. Sei que as uso muito, constantemente, mas raramente as penso como uma dependência por mais de cinco segundos. Afinal, se quero ver um filme ou uma série estou a uma pesquisa de distância. Com a música, sem a qual não sei viver, o mesmo. Se, ao andar por aí, vejo algo que considere digno de moldura, basta-me deslizar o dedo para cima num ecrã bloqueado e imortalizar o que quer que seja. Em frações de segundo posso fazer um segundo durar para sempre. É sedutor. Se estou a ter um pensamento digno de best seller internacional basta-me abrir as notas do telemóvel e anotar. Achava eu. A maior parte dos meus posts começam com pensamentos muito desconexos oriundos das notas do meu telemóvel, muitas menos vezes do meu caderno que se fecha a elástico. Para nele escrever, tenho de o ter comigo juntamente com uma caneta. Um smartphone está sempre comigo, na mão, no bolso ou na cabeceira. Tudo parece jogar a favor da tecnologia. Até nos faz acreditar que melhora a nossa relação com o mundo. Isto, claro, até o dia em que nos falha. Hoje falhou-me. Apagou todas as minhas estimadas notas. Estavam lá às centenas. Centenas de coisas que considerei, literalmente, dignas de nota pura e simplesmente desapareceram. Antes, confesso, fotografava mais do que escrevia, agora escrevo mais do fotografo, porque isto permite-me guardar o que vai cá dentro, em vez do que vai lá fora. Esta manhã, senti-me a perder parte do meu dentro. Pensar que nunca mais vou pensar ou escrever o que perdi exatamente da mesma forma assusta-me. Senti-me um drogado sem droga. Fiquei mais meia hora na cama a adiar o meu primeiro café. Depois lembrei-me que em tempos ouvi que o suporte mais durável era o papel - pensem num papiro. Na altura, ri-me, qual papel quando temos CD's, pens e discos eternos? Hoje, para além de me apetecer substituir uma maçã de dois anos pela amora com seis, decidi que as coisas dignas de nota, daqui para a frente, têm de ser Anotadas em Papel, com Caneta. Pode ser que assim durem vidas.

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Na Gulbekian

20
Abr16

Escrever um blog?


Leonardo Rodrigues

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Mais frequentemente do que gostaria, estou em conflito com alguma coisa. Nesses dias, que são os de eleição para o deita abaixo, surgem questões para tudo. Ontem: Leonardo Rodrigues, mas porque raio tens um blog se tens tão pouco tempo para o escrever?

 

Hoje, depois de beber um café bem tirado, chegaram-me várias respostas - afinal quem me lê e conhece sabe que só funciono porque há café neste mundo. Vou tentar - só tentar - resumi-las em cinco.

 

Primeiramente, queria escrever mais e melhor. Agora que passou um ano, sei que é que aqui que reside toda a essência. Antes dos comentários e emails dos que (ainda) são desconhecidos e palavras dos amigos, está um texto construído por mim, em privado, que não poderia sair da cabeça (e mãos) de outra pessoa. São as minhas ideias e vida a adquirirem a forma de um texto, que se organiza cada vez melhor. Escrever primeiro para mim, depois para os outros, dá imenso gozo.

 

Outro dos motivos, que acaba por pesar de igual forma, é acreditar em partilhar. Por algum motivo, acredito que nasci para partilhar coisas com pessoas que transcendem o meu círculo de amigos. Nada, nada, neste mundo vale a pena se não puder ser partilhado com alguém. Gosto de partilhar histórias, as que são minhas minhas e as dos que se cruzam comigo. Gosto de partilhar as descobertas que faço sozinho e, na maior parte dos casos, com os outros. Que melhor forma para o fazer do que na internet, num blog, onde cá estamos (quase) todos?

 

Pequeno ou grande, destacado ou não, mesmo que não seja esse o objetivo, um blog acaba por tocar vidas. E isto, meninos e meninas, senhoras e senhores, é uma responsabilidade. Não é só um post sobre temáticas como a eutanásia que mexe no interior de alguém. Quando decidi começar a partilhar os meus livros com outros, com o passatempo De Mão em Mão, estava também a fazê-lo. Uma das vencedoras agradeceu-me por estar a partilhar com ela "bocadinhos de alma". Não se referia apenas ao livro, como ao blog e à mensagem que deixei no interior do livro. Tocar em alguém sem tocar literalmente, mais do que uma responsabilidade, é um privilégio. 

 

O blog tem-me servido de terapeuta, como se de um diário se tratasse. Ao contrário dos diários que querem ser escritos todos os dias e que só consigo na primeira semana, o blog dá-me liberdade. Muitas das realidades e ficções que passam pela minha cabeça deixo num caderno, sem compromisso, fechado a elástico. Nas vezes em que passei para o blog o que me incomodava, senti-me melhor. Quem leu, e deu feedback, também. São nas coisas "más" que pego para escrever muitos posts, mas os dedos acabam por transformar as palavras e, em três tempos, aprendo uma lição e clico em "publicar".  Com todo o negativismo que por aí há, porque não partilhar aquilo que aprendemos após as experiências negativas? Embora tudo tenha lugar, deixemos o papel de mensageiros da desgraça para os jornalistas.

 

Para terminar, um blog também pode aumentar a confiança, em nós e nas nossas ideias. Acredito que me tornei mais seguro após começar o Leonismos. Vou-vos confidenciar algo. Os primeiros posts que aqui fiz deixaram-me nervoso e a transpirar - como quando tive de fazer a minha primeira apresentação num auditório da faculdade. Tinha medo que houvessem erros e que me julgassem fosse de que forma fosse. Quando o Sapo me destacou um post pela primeira vez, "O que esperar quando se espera: pouco, provavelmente nada.", não sabia o que sentir. Agora não se trata de não me importar com o que os outros pensam, porque isso há de importar sempre, mas já não há medo, estou recetivo ao diálogo e sei que não se pode perder tempo ou energia com a  Senhora Dona Casmurrice.

 

Por agora são estas a coisas que me mantêm a escrever o blog, amanhã podem ser outras ou já nenhuma fazer sentido. Contudo, espero que os que lerem este post, caso já tenham um blog, se sintam incentivados a escrever mais, ou, na falta de um, que comecem. Pronto, por hoje já chega de Leonismos. 

06
Abr16

O Sexo e a Capital: Amor à Primeira Vista


Leonardo Rodrigues

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Tenho amigos que defendem acerrimamente que deveria ter no blog uma rubrica semelhante ao Sex and the City, uma coisa à Bradshaw. Por dois motivos: conto-lhes tudo, eles contam-me tudo; tentamos chegar a verdades universais sobre o nosso caos amoroso.

 

Não sei se sei escrever sobre isso, mas enquanto pessoa que tem sexo na cidade, quiçá, talvez, tenha qualificações para tal, como milhões de outros citadinos com acesso à internet. Vou chamar a isto O Sexo e a Capital.

 

E como é que se começa? Bem, talvez não esteja a começar, embora os posts que mais leram tenham sido sobre outras temáticas, tenho um post intitulado de "Cio Emocional" e outro de "Estamos a ficar todos mais para o puta?" - sim, O Sexo e a Capital começou há mais tempo, só não tinha nome. Algumas opiniões mantenho, outras não e isso é crescer.

 

Para começar, nada melhor e mais cliché do que o amor à primeira vista. Já disse que não, agora digo que sim, mais ou menos isso.

 

Pensei, na ingenuidade da minha adolescência, que o "amor" só surgisse lá para 3ª vista. E assim deveria ser, pela questão prática de se saber como é a pessoa no dia-a-dia, fora do encontro, sem o vinho que lhe dá conversa, torna interessante e bom na cama.

 

Ao mesmo tempo que, teoricamente, deveria acontecer menos, não fosse a bagagem que uma pessoa acumula, acontece mais. Afinal de contas vamo-nos conhecendo cada vez melhor e nos tornando mais e mais seletivos, sabendo, desta forma, de antemão o que queremos e resulta e o que não. Já ninguém tem tempo a perder, e isto é uma faca de dois gumes.

 

A realidade também, confesso, é que não preciso de muito para me apaixonar. Existem pessoas que conheço, tudo impecável, mas não há faísca e não faço questão de repetir. Sejamos amigos. Outras que, apesar deste e daquele defeito, são tudo e muito mais, e, por algum motivo, fazem-me comprometer emocionalmente. De forma simples, amor à primeira vista, para mim, é quando se conhece alguém e queremos continuar a conhecer, apenas essa pessoa. Não é propriamente à primeira vista, que acho isso um tanto superficial, mas talvez à primeira conversa, ao primeiro toque.

 

O exemplo mais divertido dum destes episódios deu-se quando alguém, durante o nosso primeiro jantar, me decide contar uma história sobre um aranhão a que esteve uma hora a explicar o porquê do mesmo ter de morrer. Estivemos juntos durante 3 meses. Mais recentemente, outro caso, acho que foi ver como não-sei-quem faz a sua cara que dá conta de timidez: uma combinação de respiração contida, movimento de nariz e lábio.

 

Este "amor à primeira vista" é perigoso, complicado, geralmente fugaz. Da última vez que tal me aconteceu o cupido só teve tempo de atirar uma flecha sobre mim, não fosse isso que o gajo faz sempre.

 

Enquanto me deixo de devaneios e volto para a cama para continuar a curar a gripe, contem-me, acreditam na vossa definição de amor à primeira vista?

 

 

P.S. Tenho a agradecer à minha querida Laura Brás por me facultar os olhos para fotografia e por me incentivar, continuamente, a encontrar o amor para além da 1ª vista. 

11
Mar16

O Egoísmo da Eutanásia


Leonardo Rodrigues

Estava no sítio mais mundano de todos quando, depois de um café, decido abrir o Facebook e deparo-me com a carta de um médico.

 

Talvez também a tenham lido, saiu na revista Sábado, intitulava-se de "Sim, matei quatro pessoas e defendo a eutanásia". Com tudo o que se passa(ou) nas nossas vidas e no mundo, nem tudo tem a capacidade de nos aterrar e, quando tem, geralmente faz surgir emoções/opiniões contraditórias. Esta carta não, deixou-me tudo mais claro e sedimentou as minhas convicções relativamente à eutanásia.

 

Resumidamente, este médico realizou 4 eutanásias - uma amiga de infância, o melhor amigo, uma tia e um doente. Assistir a morte não foi algo que se banalizou com o tempo. Este entende que é preferível uma pessoa ser morta de forma digna, sem dor, pelas mãos de outro, desde que, claro, já não haja vida com a qualidade que toda a gente fala. Agora é ele numa fase terminal a querer que lhe assistam a morte.

 

Julgo ter percebido algo com esta carta: a eutanásia não vai contra o tal juramento, nem é contra a Vida, pelo contrário. Estes médicos juram defender Vidas, quem recorre à eutanásia já não tem uma. Apenas porque os pulmões lá vão enviando oxigénio para o sangue e o coração o distribui pelo corpo, não quer dizer que haja vida.

 

Um paciente nunca chega a esta decisão de ânimo leve. Quando o corpo, para alguns a cabeça, nos falhar e estivermos numa contagem decrescente oficial até à cova, de que nos adianta o sangue a correr nas veias? Se depois de feitas todas as tentativas estivermos pior e só restar agonia? E se a vontade de morrer for superior à de viver, estaremos nós a viver? Pois. 

 

Um médico, que luta pela vida diariamente, também não mata à toa. Matar ou deixar morrer, em agonia? Matar ou deixar que façam um tentativa de suicídio dolorosa? Será errado um médico por fim ao que é apenas sofrimento? Pois.

 

Estaremos a respeitar o outro com leis que perpetuam o seu sofrimento? Nada nem ninguém deveria condicionar a liberdade, especialmente quando é uma liberdade que não só não causa dor, como representa o seu termo. Com direitos para a vida consolidados, falta-nos o direito à morte medicamente assistida.

 

Tal como eufonia, à letra, dá conta de um bom som, eutanásia representa uma boa morte. Uma morte que respeita a vida que acabou antes do corpo a falhar.

 

Para terminar, e para quem vê este ato como sendo egoísta, continuo a perguntar-me e perguntar-vos: onde reside o egoísmo, em quem quer acabar de sofrer para finalmente poder descansar ou em quem insiste em condicionar a liberdade do outro, deixando-o à espera que a Morte lhe venha ceifar a vida?

24
Jan16

Bons livros


Leonardo Rodrigues

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Sei que hoje, para muitos, é apenas dia de eleições, mas ao ver as notas do meu telemóvel, lembrei-me do post que comecei há coisa de semana e meia, então hoje passou a ser também dia de acabar posts.

 

Queria partilhar convosco que li o meu primeiro livro de 2016. Confesso-vos que quando acabei, caiu-me tudo figuradamente e, fisicamente, umas lágrimas. O livro em questão é "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares. Não me apeteceu chorar com o final nem por ter acabado - embora tenha tido um susto quando ao virar a página 607 vi a Nota do Autor - , apeteceu-me chorar pelo livro ter sido tão bom e por todas as emoções que fez surgir em mim.

 

O que é que torna um romance bom? Em primeiro lugar lê-se sem esforço, e com isto não digo que não exija pensar, refletir, pesquisar até, mas fazemo-lo com naturalidade. Os livros, a literatura, toda a arte enquanto arte, têm de fazer sentir. Se um livro não for capaz de me sentar à mesa com as personagens e me permitir escutá-las, olhá-las nos olhos, sentir a dor que deveria ser só delas, não é nada. Um livro mede-se, para mim e agora, pelas emoções que desperta e pelos desejos que acorda.

 

O "Rio das Flores" faz isto tudo, mas não quero aqui despi-lo completamente porque acho que as páginas de um livro têm de ser percorridas com uma sensação de novidade, como se de um corpo de um novo amante, ao ser percorrido pela primeira vez, se tratasse - embora já haja suspeitas relativamente ao conteúdo.

 

Escrever isto, recorda-me de uma entrevista de António Lobo Antunes, que vi há uns anos, ele dizia não entender bem o porquê de se falar de livros, achava que isso simplesmente não se deveria fazer. Na altura acabei por concordar, final de contas, por mais que me desdobre em elogios ou críticas, aquele paralelepípedo de papel só será alguma coisa cada vez que for desbravado e cada leitor vai sentir algo de singular, de acordo com as suas vivências e ideias, que me transcende.

 

Mesmo me transcendendo, vou partilhar o que o Rio das Flores me reassegurou: para além das aparências, nada é sólido; ideias e pessoas mudam, sempre; algumas coisas acabam porque outras melhores, mais acertadas, estão para começar; e, principalmente, que os Homens, bem, são apenas homens.

 

Como o período de luto ou de ressaca literária já acabou, iniciei outro, "O Retrato de Dorian Grey" de Oscar Wilde. Talvez com esse escreva uma crítica a sério, talvez não escreva nada. Votem bem!

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