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LEONISMOS

LEONISMOS

22
Ago15

Meditámos


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos @leonismos

 

No outro dia meditei pela primeira vez. Não escrevo primeira vez como se nunca o tivesse tentado fazer, escrevo porque só agora é que foi a sério, só agora senti que era a sério e estas coisas ou sentem-se ou não se sentem, ou são ou não são, senti e foi.

 

Queria-vos ter falado disto antes, quando aconteceu, mas só hoje consegui acabar de traduzir as sensações em palavras.

 

A minha quase ascensão a Buda deu-se quando deixei ficar cá em casa a minha prima, daqueles primos que vivem além mar e que só se vêem quando cai o Buda do templo. Ela estava irreconhecível, psicologicamente. Aquilo sobre o qual lhe falei da teoria há uns anos, e que achou estranho, começou a colocar em prática antes de mim, enquanto eu continuava a falar e a ler sobre a teoria.

 

Juntei-me, então, ao ritual da minha hóspede no terraço, o meu colega de casa também.

 

Vou dizer-vos que a experiência foi quase indescritível. Poderia rotular como indescritível, mas assim nem me estaria a dar oportunidade de tentar passar este episódio para palavras.

 

A meditação era bem simples, como se quer que toda e qualquer meditação seja: um senhor guiava-nos dizendo o mantra que devíamos repetir, com as contas feitas, 104 vezes. Assim o fizemos.

 

Quando finalmente acabámos, as palavras tinham-se esgotado e a mente calado. Nem precisámos de falar, o trio maravilha suspirou, deitou-se e ficou a contemplar o céu onde passavam nuvens e caiam estrelas. Nós e o céu éramos um, como se de repente a cidade, tal como nós, tivesse deixado de existir. Não haviam problemas, não havia trabalho exigente nem contas para pagar. A única coisa de que se podia ter certezas era de que tudo era possível, que tudo aconteceu, acontece e acontecerá na altura certa e que nem o céu é um limite.

07
Ago15

Ler +, Viver + e desculpar-se -


Leonardo Rodrigues

 

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Foto sem direitos de autor 

 

Quantos de vós gostariam de ler mais e não o fazem por falta de tempo?

 

Isto de ler nem sempre é fácil à primeira vista, mesmo para quem gosta, especialmente para um trabalhador-estudante que tem de acompanhar mil e uma séries, jantar com os amigos, faltar às aulas para ir até ao Porto, cumprir certas obrigações e fazer sabe-se lá mais o quê.

 

Há quase um ano que não conseguia acabar um livro, excetuando aqueles que se podem ler num dia uma frase, noutro dia outra, acabando tudo por fazer sempre muito sentido.

 

Com aqueles que, para uma compreensão total da obra, se exige uma leitura do princípio, do meio e do fim - mesmo que o autor lá vá trocando a ordem das coisas a seu belo prazer - começava, lia até meio, passava a ter algo de mais importante a fazer e colocava de parte. Eventualmente surgia outro livro que considerava imperativo ler e dava-se uma repetição do ciclo.

 

Esta história que andava a contar da falta de tempo, como muitas das que conto (e que sei que toda a gente conta), parecia-me familiar, há uns tempos tinha uma muito semelhante: não tinha tempo para começar um blog e mantê-lo. Surpresa, não só consegui começar como estou a escrever mais do que nunca e, nos dias e posts de sorte, ainda tendo o privilégio de ser destacado pelo Sapo - algo que agradeço imenso.

 

Agora não falando apenas das leituras, mas falando sempre, fabricamos constantemente histórias que nos impedem de fazer o que gostamos, por vezes destes prazeres tão simples como ler e escrever. Fabricamos não só para não fazer, mas para não viver.

 

Se formos a observar bem, e voltando agora de forma concreta às leituras, até temos tempo. Momentos para ler livros a sério não faltam. As oportunidades estão em todo o lado. Se posso ler tudo o que é notícia, ouvir música, escrever, trabalhar e passear, posso ler a sério. A minha vida está cheia de oportunidades:

 

Ora, temos a viagem de dez minutos de comboio que faço duas vezes por dia, as mil e uma pausas no trabalho, a horita que nos dão porque assim são obrigados e todas as mais que preciosas idas ao café. Ah, e a verdade seja dita, se podemos levar um tablet para a casa de banho e jogar Temple Run, podemos levar um livro.

 

Neste momento estou a ler A filha do Conspirador, de Philippa Gregory. Está a ser uma delícia. Ainda não decidi se vou fazer uma review ou não, maioritariamente porque ainda não decidi se o sei fazer ou não. António Lobo Antunes acha que não se deve falar de livros e talvez use isto como desculpa, até mudar de ideias.

 

Já agora, se quiserem partilhar, adoraria saber o que andam a ler e o que prescrevem para a minha reabilitação literária.

 

 

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

24
Abr15

30


Leonardo Rodrigues

 

Fonte: U.S. Antarctic Program Photo Library

 

Trinta foram os minutos que disse que iria escrever por dia, não a mim, mas a quem perguntou.

Uma alma caridosa gravou-me um áudio que dizia "Escreve meia hora Leonardo", três vezes, e ouvia-se também um piano.

Esta noite voltei a ouvir o piano, mas em imagens.

Bastaram-me trinta segundos de um documentário sobre a Antártida (Antarctica: A Year on Ice) para saber que a dada altura da minha vida quero afastar-me de tudo, experimentar silêncio, solidão, paz de forma absoluta – mesmo que por um dia.

É pouco provável que me deixem experimentar estes clichés todos lá. Ainda assim, há algo a passar-se por aquelas terras geladas que não acontece em mais lado nenhum, que eu nem sabia que o homem é capaz de fazer: NÃO INTERFERIR.

Isto do não interferir não vem de uma passividade mórbida, mas de um respeito absoluto pela natureza e pelo que é. Lá deixam que as coisas tomem o seu curso. Uma das imagens que mais me chocou foi ver uma foca que se desviou do caminho morrer. Se não estivessem a observar, as coisas iriam processar-se exatamente da mesma maneira. A foca iria perder-se, morrer, congelar, descongelar e servir de alimento a uma ave qualquer.

Naquela morte vi uma certa beleza, sabia que não fazia mal, é o que é suposto acontecer e, garantidamente, vai acontecer com tudo e todos.

No mundinho em que vivemos interfere-se. Cortam-se milhões de árvores que estão ali porque sim e plantam-se algumas para ladear as avenidas que impermiabilizaram quilometros de terra. Pegam-se em animais inocentes, alimentamos com comida geneticamente modificada e depois matamos. Deus nos livre  de deixar uma cadeia de fast-food abrir falência.

Não me apetece dar mais exemplos, mas tal como me disse muitas vezes a minha mãe, "às vezes mais vale tar quiete".

Se têm mais de 30 ou não, não importa, estarão sempre em idade de se manterem quietos e observarem.

Podem, quiçá, só precisar de 30 segundos.

 

Fica aqui o trailer do documentário para quem quiser ver:

 

 

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