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LEONISMOS

LEONISMOS

12
Out16

Ao Encontro do Sul, Parte II - Albufeira


Leonardo Rodrigues

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"A conquista do sul tarda, mas finalmente acontece", foi isto que escrevi numa SMS antes de sequer ter entrado no comboio que me iria levar de Sete Rios a Albufeira.  

Deveria ter percebido que não ia conquistar nada, afinal o comboio atrasou-se e, assim que chegou, levei com um presságio na barriga - na forma de caixa gigante da IKEA. Num outro dia teria entendido a mensagem, mas naquela sexta não deixei, não podia. Só pensei que assim que as carruagens deslizassem pelo caminho de ferro a minha vida em Lisboa entraria em modo de pausa. A primeira pausa, em 3 meses, a mais de 25km de Lisboa. Para agravar, melhorando, seria também o meu primeiro fim de semana fora com aquele que me atura quase diariamente. 

Se por um lado a procura anterior pelo sul se fez contra a corrente, esta fez-se de frente, junto das vistas. Respirei de alívio quando me sentei e senti a capital a ficar para trás.

O lugar da janela, confirmado por duas vezes, era meu. A senhora que me acompanhou não queria o sol e eu queria a vista. Não se omite um sem omitir a outra. Tentámos um meio termo desconfortável que sei que não foi do seu agrado. Então, abdiquei do apoio de braço sem abrir a boca, contando que se apercebesse do meu gesto de tréguas.

Depois, e dizem-me que é assim em mais sítios, as pessoas que pedem na CP são mais sofisticadas, distribuem um papel - há tempo para estas coisas, bem sei - , deixam os passageiros ler e depois passam para recolher o papel e o dinheiro, se nos convencerem. Achei interessante, não invade. No metro temos que ouvir todos. Ainda partilhei com a minha companheira de viagem que seria mais útil um exame, que não poderia comprovar o estado clínico de alguém através de uma folha onde se pode escrever qualquer coisa. Claro que me censurou, mas também não contribuiu.

Já tinha deixado algumas notas sobre a minha perceção da viagem para depois escrever um post, mas tive que interromper a escrita porque começámos a conversar, eu e senhora que queria a cortina fechada. Foi extraordinário e três chapadas na cara para mim.

Embora com mais de 20 anos de diferença, tínhamos tanto em comum e partilhávamos ideais semelhantes. Houve também espaço para discutir a atualidade - daquela semana - , do burkini, passando pelo nudismo nas praias portuguesas - intemporal? - , ao EI. Mas, à parte do Amor, a questão que mais nos apoquentou foi: será que os alentejanos estão conscientes da qualidade de vida que têm? Eu nunca estive consciente da que tinha na Madeira.

Os Montes parecem pincelados de castanho, com manchas verdes e brancas e é preciso treinar o olho para enxergar pessoas.

Ao namorar as pequenas aldeias que avistava senti uma grande vontade de partir a janela e atirar-me para lá, de fazer parte daquilo. Não sei onde era. Crianças disseram adeus da rua, talvez seja fascinante verem um comboio de possibilidades, que transporta pessoas oriundas da capital, não sei. 

Uma vez em Albufeira, acho que poderíamos ter aproveitado o fim de semana de outra forma - scones: check; piscina: check; água do mar aquecida por Neptuno: check.

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Caminho até à praia

 

Como não só de coisas boas se faz check, e tendo em consideração que fui avisado pela caixa do IKEA, o impensável aconteceu, tive de o partilhar durante metade do tempo útil do fim de semana com uns amigos do ex que encontrou na praia. Concordei em fazermos praia com eles, depois dei por mim a jantar num restaurante chamado Ricardo's, escolhido por eles. Não me posso esquecer que também saímos à noite. Agradeço ao vinho a coragem.

 

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O restaurante tem o nome do antecessor. Não acredito em coincidências. Mentiria se dissesse que não simpatizei com os moços. Ri-me bastante e esse é um bom indicador, só me queixo do fim de semana idealizado se ter esfumado.

 

Num próximo encontro com o sul expliquei-lhe que vamos para um sítio deserto, onde a única coisa que pode soar familiar seja o som dos pássaros. Depois, se o tempo deixar, também vos deixo entrar a bordo do próximo encontro.

12
Set16

E passaram 3 anos


Leonardo Rodrigues

Não tenho escrito. Alguns amigos mais próximos sentem falta, e vão-me dizendo. Confesso que, secretamente, desejo que pessoas que não conheço também tenham reparado.

 

Existem posts que me têm parecido a desculpa ideal para regressar, mas nunca tenho coragem para os acabar, parecem-me sempre tão incompletos, sem palavras ou emoções suficientes. Acho que é por estar feliz, ocupado. Quando o tempo abunda e a felicidade escasseia, aí sim, cuspimos todas as palavras que conhecemos num grito.

 

Agora que decidi compreender o meu signo, tenho ainda uma outra justificação: mais do que perfecionismos e leonismos, os carneiros são de desculpas. Vivem muitos momentos intensamente, como se não houvesse amanhã. Depois, adiam a vida como se o fim não estivesse anunciado à priori. Simplificando, com o que me disseram, "os carneiros atiram-se para as coisas e deixam-nas pela metade". Claro que prefiro responsabilizar o signo em vez de a mim, embora me comprometa a contrariá-lo.

 

Agora que me justifiquei, hoje tenho um pretexto e vou colocar um ponto final neste post. O pretexto foi-me oferecido, espero que gratuitamente, pelo Facebook. O dito leva-nos a memória, para ser a nossa memória. Ontem lembrou-me que há extamente três anos, depois de uma viagem que me trouxe para viver na capital, o meu dia começou no Rossio com um muffin e um café - sem que, para meu espanto, houvesse necessidade de o tratar por bica.

 

Fechou-se um ciclo, sinto-o, e, como estou a escrever, sei que começa um outro onde tantas outras coisas vão acontecer. Ainda antes de ontem celebrava dois meses, que se querem mais, de namoro. Em breve, uns bons dois anos de blog. Hoje posso ainda celebrar o meu 70º post. 

 

O saldo, com todas as vicissitudes - palavra cara para pedras no sapato - , é positivo. Mesmo o tempo não parando por nada, levando e trazendo tudo como a corrente, há algo que escrevi há uns tempos no post "Obrigado, Lisboa" que continua a fazer sentido e penso que me será sempre atual: "Obrigado, Lisboa, por me dares amores, desilusões e amigos que são agora família. Obrigado por abalares convicções e por ajudares a sedimentar outras. Obrigado por me ensinares vulnerabilidade e humildade. E, mais importante do que tudo, obrigado por me deixares tratar a bica por café." Como o ponto final que ali está pertence a uma citação e me comprometi a colocar um ponto final a sério escrevo esta frase para esse efeito.

 

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 3 anos depois

 

10
Ago16

A minha Ilha está a arder


Leonardo Rodrigues

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 Foto: Gregório Cunha/Lusa

 

Por uma panóplia de razões tenho estado ausente do blog, mas não há plataforma melhor para manifestar-me perante os eventos mais recentes.

 

Ontem, nas últimas horas do dia -  que decidi que terminava pelas duas da manhã de hoje - não conseguia tirar os olhos da televisão. Tinha companhia, mas também não me apetecia dizer nada. A minha ilha ardia e eu só queria ouvir: a situação está controlada, não existem moradias nem pessoas em risco. À medida que o tempo ia passando apercebi-me que não ia ouvir o que queria: mais moradias ameaçadas, cada vez mais pessoas a serem evacuadas, enquanto outras tantas casas eram galgadas pelo fogo. Até o impensável aconteceu, o fogo passou a estar dentro da cidade, em várias zonas, sem que houvesse meios suficientes para cobrir todos os novos casos.

 

A omnipresença só a deus compete, bem sei, mas não o vi por lá - problemas técnicos, quiçá. Cheirava e sentia-se o inferno, não se via o céu. Os jornalistas diziam e nós viamos: "cenário dantesco", o "fogo maldito".

 

Isto já aconteceu antes. Não com fogo, mas com o elemento oposto, a água, no dia 20 de fevereiro de 2010. Estava no Funchal nesse dia, num centro comercial que acabou por ficar inundado, e vi o desespero de frente. Não perdi nem a vida nem bens, só precisei aguardar pela noite para sair da cidade.

 

Nem todos foram tão afortunados e muitos madeirenses precisaram perder tudo para que finalmente os "senhores lá de cima" começassem a tomar medidas preventivas -  umas mais eficazes que outras, sejamos honestos. Precisámos dessa catástrofe para começar a olhar para as ribeiras de uma outra forma, para perceber que uma ilha com a nossa orografia é mais exigente.

 

Como ouvi a filha do José Saramago dizer ontem, o governo não fez a sua parte. Há muito que o governo e os seus tentáculos na Madeira não fazem a sua parte. Os fogos em 2013 foram um aviso ignorado. Agora, em pleno agosto de 2016, são mais de mil deslocados, dezenas de casas ardidas e três mortos. É esperar que os bombeiros façam o impossível e que, depois, tomem uma atitude preventiva em 2019. A prevenção tem de começar agora, hoje, em todas as zonas suscetíveis. Agosto nem a meio se vai!

 

O primeiro ministro diz, com razão, que os fogos não podem ser apenas combatidos quando já deflagraram, o combate tem de começar antes. Há muito que dizemos isto, mas temos uma ilha e um país a arder. A natureza tem o seu quê de responsabilidade, mas é um "quê" que quase não se ouve - 1%, abutres!

 

Hoje, na RTP, falava-se da condição humana, afinal 99% dos fogos não têm causas naturais - leia-se: há mão de homens, sim, com h minúsculo. No Funchal já foram detidas várias pessoas. Enquanto a cidade ardia, duas pessoas foram apanhadas pela polícia a atear fogo - informação avançada pelo presidente do governo regional na conferência de imprensa desta manhã. É verdade, algumas pessoas numa ação que dura minutos conseguem destruir o que demorou vidas a construir. Para além da prevenção, parece-me que a justiça não consegue impedir que estes seres voltem a cometer tamanha atrocidade.

 

Negativismo de parte, não se esqueçam que há muita solidariedade, entre madeirenses e portugueses no geral. Um exemplo que vi ontem que pode parecer banal para alguns, para mim teve uma força brutal. Enquanto um homem, em entrevista, explicava o que ardia, um jornalista perguntou-lhe se o animal que tinha debaixo do braço era dele, ele disse que não, que encontrou a arara na rua. Estamos unidos, com vontade de ajudar tudo e todos.

 

Sei que a maior parte das pessoas a quem este texto vai chegar sente-se impotente, mas todos podemos fazer alguma coisa, sem correr riscos. Se estão na Madeira, comecem por acolher amigos em necessidade e os animais que andam à solta. Se não podem fazer isto, talvez possam contribuir com bens essencias. Se sim, desloquem-se ao RG3, na Nazaré. Não precisam de criar pânico, só mostrar que estão lá. Aos que, como eu, não estão e querem ajudar, a Caritas reforçou ontem que podem contribuir para o seguinte IBAN: PT50 0035 0697 00597240130 28.

 

27
Jun16

Surreal é a própria vida: próxima exposição de Thomas Mendonça


Leonardo Rodrigues

 

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As imagens têm um poder imediato que a palavra só pode ambicionar. Numa entrevista anterior, Thomas Mendonça falou-me da sua vida, de onde vem a sua estética, os porquês disto e daquilo, mas, só com o visionamento destas fotografias, que remontam ao início, nesta viagem pelas suas memórias, é que tudo fica claro e as peças do puzzle se unem: a mistura do pop com o “sério”, as brincadeiras de género e o surreal - que às tantas é bem real. Cuidadosamente retiradas de uma caixa de lata vermelha e dispostas sobre a sua cama, as fotografias de Thomas revelam uma infância onde se respirou surrealidade. Uma mãe que parece a Lady Di, um pai que só pode ter resultado dum cruzamento entre James Dean e Brad Pitt, o tio que decide ser apropriado vestir-se de mulher no final de ano. É notória uma forte presença de marcas que, já nos anos 90, estavam impregnadas nas nossas mentes como a Barbie, Mickey, Planet Hollywood e, ainda, pessoas vestidas de personagens do nosso imaginário coletivo como o Zorro e Bugs Bunny. É nestas fotografias que o Thomas pega para criar os desenhos da sua próxima exposição, “Surreal é a própria vida”, dando-lhes uma nova vida com contornos que realçam o surreal das mesmas, mantendo-se fiel à sua estética. Para além da visita guiada pelas suas memórias, o Thomas concedeu-me uma entrevista que já podem ler no dezanove, aqui.13530372_1872675279626485_663222540_n.jpg13553362_1872674996293180_446026029_n.jpg13552557_1872675269626486_360597231_n.jpg13553396_1872675276293152_904353251_n.jpg13552529_1872675249626488_1242439143_n.jpg

15
Jun16

Eu sou gay


Leonardo Rodrigues

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Estamos em 2016, isto deveria significar que progressos civilizacionais aconteceram. Li e reli notícias, escrevi uma, vi vídeos, li crónicas e comentários, mas ainda não sei bem o que penso do que aconteceu em Orlando, do que está a acontecer no mundo, connosco. Desta coisa de matar porque alguém é, age, pensa e sente diferente de nós. Não sei porque não percebo. Já tentei fazer o exercício de me colocar nos pés de um agressor, não fez sentido.

Hoje não me cruzei com ninguém igual a mim na rua, no autocarro nem no trabalho. Ouso arriscar que tínhamos todos pensamentos, tons de pele, roupas e, quem sabe, impressões digitais diferentes. Não senti que tinha de violar o espaço de ninguém, apontar um dedo, e dizer "essa cor de pele não serve, fica-te melhor o tom acima". Não me diz respeito. Não tive nada que ver com o facto ter olhos castanhos, quanto mais com os olhos do vizinho. A maior parte das nossas caraterísticas transcendem-nos. Sim, tomamos decisões aqui e ali, mas para nós, não temos de o fazer pelos outros. Quanto mais apontar uma arma! Puxar o gatilho! Tirar uma vida que não é nossa!

De tudo para o que olhei, há algo que me persegue continuamente, ver os SMS que alguém no clube Pulse trocou com a mãe, depois de lhe dizer que a amava, para lhe dizer que ia morrer. Nem teve a oportunidade de se despedir. A imagem que me vem à cabeça é poderosa, mais forte do que o miúdo que apareceu morto na costa de Kos. Arrepia-me. Neste lugar consigo colocar-me. Ver-me obrigado a abandonar a vida, o que amo e quem amo porque alguém prefere odiar, sem dizer adeus. Dos medos que me restam, esse é um.

Disse que era Charlie, mas não era, era apenas pela liberdade de expressão. Hoje escrevo que, para além de "ser" olhos castanhos, sou gay - sou mesmo. Ser gay, para alguns é algo de aberrante, mas é só gostar de pessoas mais parecidas comigo. Também demorei a aceitar a simplicidade disto. Para além do que prefiro, sou tantas mais coisas e quero sê-las todas, sem volta e meia sentir necessidade de dizer que as sou porque mataram alguém por ser. Não quero amanhã dizer que sou Lisboa. Quero que sejam e deixem ser tudo, desde que isso não interfira com o bem estar e a Vida de outros.

Não têm de dizer que são gays, não têm de ser nada para além do que são, mas a verdade é que, hoje, manter uma hashtag nos trending topics é manter um assunto a ser discutido. Já que o massacre não foi mais importante do que futebol nas capas dos jornais que, pelo menos, seja debatido. 

13
Jun16

Insónia pré primeiro dia


Leonardo Rodrigues

Existe uma patologia que, a meu entender, está a ser ignorada: insónia pré primeiro dia. Os primeiros dias, sejam do que for, são, por norma, determinantes. Há a quase obrigatoriedade de realçar o melhor de nós, com o sistema operativo a funcionar em pleno. Isto causa ansiedade. Ontem, não fosse um pré primeiro dia, deu-me esta insónia. Não a tinha desde os tempos de escola. Toda a gente sentiu aquele nervoso miudinho na barriga no domingo que antecedia o primeiro dia de aulas. Eu sentia todos os domingos. Neste dia, tudo parece começar de novo, o nosso telemóvel, penteado, guarda roupa e o amor incondicional pelos colegas com quem não trocámos nem uma SMS durante as férias. Na vida adulta, esta insónia acontece aquando do regresso ao trabalho. Hoje comecei no emprego novo -  isto significa pura e simplesmente não adormecer. Ontem, pelas 20h, ainda não sabia que a minha paranóia com o despertador ia regressar, mas já me sabia nervoso. Lavei loiça, varri tudo, lavei e dobrei roupa. A minha tia passou-me a OCD para curar os nervos. Depois da casa, lembrei-me que também eu tinha imenso que fazer por mim, preparei uma mochila com cadernos onde já sabia não poder escrever e um livro que sabia não vir a abrir. Para complementar, achei por bem colocar a agenda que não uso, 3 canetas da mesma cor e cartões que nunca utilizo, tudo pode falhar. E, para piorar tudo, olhei-me ao espelho e vi que a barba precisava de um jeitinho. O jeitinho transformou-se em: lavagem com champô e condicionador, aparar com o pente no número quinze, depois com o catorze e, como nada me parecia alinhado, fui buscar uma tesoura. Demorei uma hora para não falhar um milímetro. Entretanto chegou a 1 da manhã, aí descobri que a máquina xpto que comprei no meu primeiro ano de faculdade também tem algo para aparar os pêlos do nariz... Depois, as horas pareciam demasiado estreitas para conseguir dormir e havia uma questão que dizia para me manter alerta: será que o despertador vai tocar? O meu telemóvel já me pregou partidas traumatizantes. Não só tocou como estava a olhar para ao telemóvel para desligá-lo por 4 vezes. Mesmo tendo sido feriado municipal e tendo eu apanhando dois autocarros, com transbordo e caminhada por um bairro desconhecido -  O Google Maps traíu-me duas vezes - fui dos primeiros a chegar. Sobrevivi e fui bem recebido. Acontece que não dormir fez-me concordar com tudo e levantar questões às quais obtive respostas que não me lembro. O que me vale é que amanhã o dia nasce outra vez e que, desta vez, serei (re)acordado por dois despertadores humanos.

26
Mai16

Dia do Riso, todos os dias


Leonardo Rodrigues

Ontem um trio maravilha, do qual fazia parte, decidiu sentar-se numa esplanada no Saldanha para beber café e comer um pastel de nata - coisas que um lisboeta tem de fazer para não perder a nacionalidade - , conversar, depois rir e olhar para quem passava. Centenas passaram por nós, de carro e a pé, posso garantir que éramos dos poucos a rir, os únicos conscientes que pode não haver amanhã ou daqui a uma hora. Os restantes caminhavam para alguma coisa, com ar sério, como se o arroz fosse queimar se não andassem cabisbaixo, com cara de poucos amigos, perdidos em pensamentos. Os portugueses estão tristes. Aquele português, com os olhos na Calçada, muitas vezes também sou eu. Há quem não se lembre de como chegou a casa por cansaço, por embriaguez, eu por vezes não me lembro porque vim em piloto automático, perdido em pensamentos. A minha querida professora e companheira de loucura, da esplanada, acenou enquanto ria para algumas pessoas. A maior parte não viu ou não conseguiu entender. Porque haveria alguém de sorrir a um estranho, estaria ela doida? Uma senhora, talvez a pessoa com o olhar mais triste que vimos, parou. A doida disse-lhe, É dia do riso, ria. Primeiro não conseguiu compreender e olhou para toda a gente na mesa, ri para confirmar. Ela riu de volta, acho que até murmurou um agradecimento. Talvez não lhe estivesse a ocorrer porque o dia foi mau, mas, para além de ser linda, tinha um sorriso fabuloso, desenhado exclusivamente para ela. Talvez aqueles segundos lhe tenham servido para perceber que se o arroz queimar, pode fazer massa, que vai bem com tudo. Nem sempre me lembro das opções. Ontem, por exemplo, acordei chateado porque uma entrevista no dia anterior tinha corrido mal, já tinha decidido: sofrer o dia todo. Depois, ainda de manhã, ao beber um café no Miradouro da Portas do Sol, percebi, com ajuda, que independentemente do que estivesse a acontecer na minha vida tinha a liberdade de estar ali, rodeado de gente, enquanto o sol insistia em dar cor aos meus braços e pernas, com um ventinho que passava para atenuar o processo. Até os pássaros cantavam para relembrar a primavera. Para poder apreciar o momento, só tive de retirar uma coisa que já não estava acontecer da equação. Reescrevam também a vossa equação e depois dêem um boa gargalhada - sem café não será a mesma coisa! 

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Prova da maravilhosa manhã de ontem

 

18
Mai16

Dia Nacional Contra a Homofobia e Transfobia: Debate 19


Leonardo Rodrigues

Ontem, dia 17 de maio, em Lisboa, fez-se mais do que hastear a bandeira que celebra a diversidade nos Paços do Concelho da Câmara de Lisboa, para celebrar o Dia Nacional Contra a Homofobia e Transfobia. O portal dezanove, que se tem vindo a afirmar como O Portal de notícias e cultura LGBTI em Portugal, organizou um debate de reflexão sobre a evolução dos direitos LGBTI. Deste debate, que tomou lugar na Casa Independente, fizeram parte deputados da direita à esquerda, foram estes Ângela Guerra (PSD), Heloísa Apolónia ("Os Verdes"), Isabel Moreira (PS), José Soeiro (Bloco de Esquerda) e Paula Santos (PCP). Para se dar início, e depois da recente legislação aprovada, nada melhor que perguntar se há muito mais a fazer. A primeira interveniente, do PSD, considerou que a maior parte do caminho está percorrido e que, neste momento, podemos apenas "promenorizar algumas situações". Isabel Moreira demonstrou uma opinião contrária, admitindo, ainda assim, a grande conquista que foi o 13 de maio, "o dia de nossa senhora, o primeiro caso histórico de PMA" - quis tanto pedir-lhe um autografo naquele momento, mas optei por respirar e deixá-la continuar a intervenção. José Soeiro seguiu a linha de pensamento de Moreira, admitindo os avanços, que são cada vez mais rápidos, e apontou o que falta fazer em três frentes: lei de identidade de género, "que continua dentro do paradigma da patologização", a educação sexual em Portugal "que praticamente não existe" e, em terceiro lugar, a questão da doação de sangue, referindo-se aos grupos de risco como uma noção "ultrapassada", dando foco aos "comportamentos de risco", que, como diz e muito bem, depende de "práticas sexuais concretas", algo que transcende a orientação sexual. Heloísa Apolónia introduziu duas palavras de ordem, "debate e educação", afinal só assim se consegue "formar consciências". "Há muito para além daquilo que a legislação consegue responder". Para servir de suporte a esta ideia, Paula Santos apontou a fiscalização como algo de essencial para que a nossa Constituição possa ser comprida. Sinto que o restante debate, mesmo com a diversidades das questões colocadas, retornou sempre à questão inicial e há de voltar sempre. Já se fez muito, mas o trabalho dificilmente acabará tão cedo, especialmente em matérias trans, como os últimos minutos do debate vieram a comprovar. Nesta hora e meia houve ainda tempo para se falar sobre PrEP, do famoso cartaz do Bloco e do caso da mulher agredida por um taxista no Porto - que, relembro, ainda não foram tomadas ações contra o mesmo. Recomendo vivamente que assistam ao debate e que tirem as vossas próprias conclusões, uma vez ser altamente educativo, mesmo para aqueles que estão dentro destas temáticas. Se não conseguirem assistir até ao final, fiquem também com esta dúvida: será que Isabel Moreira irá conseguir convencer António Costa a participar na Marcha de Orgulho LGBT? 

 

13
Mai16

Cresci na Cozinha


Leonardo Rodrigues

Ainda agora comecei o post e já tenho de me corrigir, Cresci em várias cozinhas, essencialmente em 3. A principal é a lá de casa, na Madeira, uma cozinha que é mais sala do que a própria sala. É a entrada e a saída. Quando lá vivia, funcionava como um género de ponto de encontro, onde comíamos, conversávamos, discutíamos, ríamos e chorávamos. (Não admira que seja um emotional eater, Cresci, mesmo, na Cozinha.) Aqui estavam as caminhas dos cães - um dos problemas para conseguir chegar à escola com a roupa sem manchas, como vos contei aqui. E, era por lá que tinha de passar obrigatoriamente para chegar aos quartos, ao quintal e à casa de banho. Tive de me deixar do lema que afirma que todos os caminhos vão dar a Roma, a minha casa ensinou-me que todos os corredores vão dar à cozinha. Em segundo lugar, está a cozinha da minha avó. Agora que penso nisto, as nossas casas tinham todas plantas bastante estranhas. A sala como que ficava fora de mão, então era na cozinha que liam o jornal, que eu devorava desenhos animados, tentava falar apaixonadamente de coisas que não dominava e que, inevitavelmente, presenciava a minha avó a fazer magia. A magia assumia a forma de bolos que perfumavam as ruas, do milho com couve que tinha de repousar nos pratos, a espetada no forno a lenha, e, por fim, a sopa - escrevi sapo, ando claramente a passar demasiado tempo por estas bandas. Ai a sopa. A sopa que aquela mulher fazia permitiu-me ser daqueles miúdos que nunca fizeram uma birra para comer legumes. Para terminar com isto das minhas 3 cozinhas, temos a a cozinha mais interessante de todas, uma industrial - fascinava-me na altura. Foi aí que a minha mãe, conjuntamente com umas 15 mulheres, tirou 3 cursos de culinária. Se pensam que por isso comi melhor, enganam-se, só mesmo nas provas do final de cada aula. A minha mãe pura e simplesmente não cozinha em casa, essa tarefa ficou para a minha tia.... Sempre gostei de comer e de ajudar na confeção dos pratos, mas, com 15 anos, vi-me na obrigação de também começar a cozinhar só para mim. Isto, porque com esta idade comecei a ter contacto com certo tipo de literatura, como OSHO, algo que me fez optar pelo vegetarianismo. Aí, tornei-me mestre em manipular um certo ingrediente. Porquê contar-vos isto tudo e parar aqui? Porque, meu caros, a Mula mais querida atualmente a habitar este planeta convidou-me a participar numa edição da rubrica "na cozinha com", pelo que esta história acabará por lá. Vou ter uma quarta cozinha na minha vida e, pela primeira vez, fica num curral. Prestem atenção às vossas "Leituras".

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 Fotografia tirada no RDA, pelo Rui - tenho tanto sono que hoje nem edições se me dignei a fazer.

10
Mai16

Scones: ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar


Leonardo Rodrigues

Tenho um problema, quando descubro um prato novo nas minhas experiências culinárias, a minha tendência é continuar a confecioná-lo até estar perfeito, com pouco tempo de intervalo. Quando redescubro algo, a coisa processa-se da mesma forma. Recentemente, redescobri uma das maiores invenções inglesas de sempre: o scone. Onde? Na Gulbenkian, está claro. Acontece que esta situação trouxe dois problemas, para além do só estarem disponíveis depois das 16 - quero scones sempre, não só para acompanhar o Chá das Cinco - começou a ficar dispendioso estar constantemente a comê-los fora. Depois do bolo de bolacha que me ensinaram a fazer em criança e do bolo de Nutella aos 20 anos, tornou-se óbvio que, aos 21, teria de ser auto suficiente em scones. E consegui, à segunda tentativa.

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Eis os ingredientes:

  • 500g farinha
  • 1 colher de chá de sal (colocam mais e a vossa vida será muito triste)
  • 1 colher de sopa de fermento (cheia, bem cheia)
  • 5 colheres de sopa de açúcar (para os que, como eu, guardam os pacotinhos quando vão ao café, são 5 pacotes)
  • 40g de margarina (coloco sempre 60)
  • 1 chávena de leite (um pouco menos se possível)
  • 1 ovo (grande)

Modo de preparação (fotografar comida, nestes casos, não é crime punível nas redes sociais):

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Como todas as receitas que mais gosto, esta não poderia ser mais fácil. Ora, coloca-se a farinha, o sal, o fermento e açúcar num recipiente e mexe-se bem. Abre-se um furo para colocar o ovo e, com as pontas dos dedos, misturamos tudo. O mesmo com a margarina, que deve ser colocada em cubinhos. Para juntar o leite é fazer novo furo na farinha. Depois, é amassar o suficiente até ficarem com uma bola semelhante à da foto - muito pouco, portanto. Chegando a este passo é altura de pôr o forno a trabalhar a 200º e colocar a massa durante 10min no frigorífico. Findos os 10min, podem moldar os scones de três formas: com uma forma, colher de gelados ou com as mãos, escolho a última para lhes dar um ar interessante (ficam mais parecidos com os da Gulbekian). Colocar no forno durante 15min.

 

As quantidades que vos dei servem para fazer entre 12 a 16 scones, dependendo das vossas preferências no tamanho. Isto tudo, na melhor das hipóteses, fica-vos em 1.5€, o preço que pagariam fora de casa só por 1 com um pouco de doce. E, falando em doce, escusado será dizer que uso e abuso de doce quando como estas nuvens amarelas. Os de hoje - na foto -  fizeram-se acompanhar com doce caseiro, "importado" de uma aldeia em Leiria - estou a fazer pressão para conseguir a receita. 

 

Ah, Raquelina, Chic'AnaVânia e A. VenturaS, esta receita podem fazer que não traz remorsos semelhantes aos da Nutella. 

 

 

 

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