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LEONISMOS

LEONISMOS

18
Mai17

Desculpem-me não ser turco e ter escolhido Lisboa para morar


Leonardo Rodrigues

Com o verão a chegar e muitos dias de férias para gastar, chega a hora de começar a marcar coisas que transcendem o meu orçamento. Um dos pensamentos que mais me dá cabo do orçamento é visitar a família, a casa. Ora, para lá ir não me posso meter num Alfa, nem num Intercidades ou no caos da Rede Expressos. "Casa" é a Madeira e, como tal, preciso de me meter num avião para fazer uma viagem que, comercialmente, não ascende uma hora e meia.  Curiosamente, e com muita sorte, tenho andado a ver viagens para outros destinos e a realidade repete-se. É muitas vezes mais barato, por metade do preço, fazer uma viagem de 5 horas para o Oriente, numa companhia que nos deixa levar bagagem de porão e serve uma refeição quente, do que ir à Madeira, com uma bagagem de mão calculada ao milímetro. Desculpem-me não ser turco e ter escolhido Lisboa para morar. Prometo não o repetir na próxima reencarnação.

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29
Abr17

o Alentejo mata


Leonardo Rodrigues

Hoje, porque estou novamente no sul, entendi os porquês das gentes destas terras. Ao ver as paisagens e ao saborear as iguarias, sempre me interroguei, sem compreender, acerca da quantidade de suicídios que existem no Alentejo. O canto mais favorecido de Portugal. Se formos para uma zona onde o alcatrão dá lugar a terra batida, apenas com a natureza a ladear-nos, fica mais claro, e escuro. Tudo começa e acaba com o nosso estado de espírito, está certo. Esta terra é como erva, amplifica as emoções, não discriminando entre bom, mau e sórdido. Há uma profunda solidão na paisagem, especialmente nos pedaços de pedra que abundam, anónimos, por aí. Apenas uma parte dos seus corpos espreita o sol. Estando, cada um, desde o começo dos tempos, à espera que as chuvas de inverno deixem os seus tons vários visíveis. Na esperança que, se alguém ali passar, as veja, toque e, com muita sorte, lhes faça confidências. Nesta terra é fácil de percebemos que estamos tão sozinhos e invisíveis como as pedras, por melhores que sejam. Quando estamos sozinhos e transparentes, estamos realmente connosco, o que dói. Sentimos tudo sem compaixão. Apenas as nossas ideias e nós. Nós e as nossas ideias. Nós, as pedras e os sons que falam uma língua estranha. Os caminhos que vão dar aos mesmos sítios e as árvores que não vão a sítio algum. Uma pedra invisível.

22
Mar17

Dia em que vi algodão a cair do céu pela primeira vez


Leonardo Rodrigues

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Foi no mês que passou. Tínhamos acabado a nossa visita à belíssima cidade do Sabugal, onde o ponto alto é mesmo o ponto mais alto, o topo do Castelo das Cinco Quinas, com vistas sobre o Côa. 

Ainda no castelo, depois de uma quase escalada às escuras para chegar ao cimo, começou a chover, o ar ficou mais rápido e frio, e o pensamento de que poderia nevar construiu-se na minha cabeça.

Só verbalizei este meu desejo íntimo de, por uma vez na vida, ver a neve a cair em vez de gelo no chão, quando cheguei ao museu. Era uma ideia que nos deixava a ambos sorridentes. O rapaz que lá trabalhava prontamente nos fechou a boca, explicando que, no Fundão, terra onde se localizava a nossa próxima "casa", a Cerca Design House, não nevava há quase dez anos. Não sei se é necessário deixar por escrito que não gostei deste museu. 

No caminho que se apresentava de condução difícil para o meu ele, entre Google Maps, troca de cabos para carregar as nossas baterias que duram cada vez menos e muito Carpool Karaoke, começámos a ver a chuva a ficar cada vez mais branca, grossa e leve.

Não demorou muito para que sentíssemos a necessidade de encostar. Fui o primeiro a ir para a rua. Sentia e não sentia o frio. É verdadeiramente mágico ver aquilo que é água sólida, tingida de branco, a cair de forma tão leve e graciosa. Ao mais pequeno toque, naquela fase, volta ao seu estado liquido.

Ele filmou e não há margem para dúvidas, de que estava feliz e que, mediante justificação plausível na minha cabeça, faço uma cena, umas mais felizes que outras. 

Ficámos nisto um bom tempo, totalmente alheios aos acidentes e às estradas cortadas, na companhia um do outro, com os nossos momentos de profunda lamechice registados numa dezena de selfies. A ele surgiam memórias de uma Nova Iorque que lhe foi próxima e em mim surgiam emoções por afinidade.

Como o amor e neve não enchem barriga, seguimos viagem meia hora depois. Descongelar foi tão fácil porque no hotel, que se cobria novamente de neve, esperavam-nos com chávenas de chá quente e, por causa da neve, partilhavam o mesmo ar de surpresa.

 

 

06
Mar17

Mértola, para sempre


Leonardo Rodrigues

Há uns tempos dei continuidade ao meu projeto de descoberta do sul. O objetivo era novamente Albufeira, mas, desta vez, com um twist. Este twist traduziu-se em muitas novas estradas e localidades com nomes difíceis de memorizar. Por questões práticas, motivados pelo acaso e pelo cansaço, sentimos necessidade de pernoitar em Mértola.

Este nome, como tantos outros, devido à minha insularidade, não me disse nada. Chegámos pela noite com o objetivo de todo o viajante após horas de estrada, comer. O único restaurante disponível para nos receber àquela hora foi o restaurante Muralha. Com pão, sopa, prato principal e o jarro de vinho que acompanha estas andanças, os 5 maravilhosos conseguiram jantar bem por 10 euros cada. 

Eu digo que quando bem se come, bem se deita, mas no nosso caso foi apenas escolher onde deitar. Tínhamos duas opções viáveis: Beira Rio e Hotel Museu. Porque o segundo era mais novo e quente que o primeiro e como ele sofre com o frio, a escolha estava feita. O nome cumpre-se apenas na medida em que existe uma ruína romana no seu interior devidamente preservada. Recordo-me de ter feito uma cena pacífica na receção, que era mais um pedido desesperado, para garantir que o nosso quarto tinha uma vista igual à das fotografias.

De malas desfeitas, saímos para a noite de Mértola que se resumia ao bar Lancelot. O bar descreve-se numa palavra: hipster. As luzes são coloridas e as paredes pintadas com arte. Ali, essencialmente, conversa-se sem consciência das horas, com a companhia de álcool e baralhos de cartas enormes. Escolhemos o UNO e eu tentei resgatar as regras inventadas na adolescência que me tornaram o inequívoco vencedor.

Durante a noite a vila não nos disse muito, até riscámos o carro devido à estreiteza das ruas.

Para mim o mais impactante de Mértola, e daí o para sempre, foi lá acordar. Acordar naquele quarto em específico do Hotel Museu, onde bastou-me meter a cabeça fora da janela para estar no calmo Guadiana, assim, sem por nem tirar. A vista persegue-me desde então, a água que reflete as margens estreitas, a névoa lá ao fundo, as canoas coloridas. O silêncio imenso. Tudo coisas que fazem o rural que há em mim pensar em não regressar a Lisboa, desde que pudesse manter a mesma companhia. 

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Enquanto primeiro a acordar, coube-me ir explorar a vila sozinho. Prescindi do pequeno almoço no hotel, embora só custasse 6 euros, para descobrir o que lá havia. Afinal, após ter aberto a janela senti-me logo motivado a sair para fotografar e, claro, beber o café que me mantém vivo. Como em todas as viagens para fora, compreendi que o meu dinheiro vale mais do que em Lisboa. A moeda é a mesma, mas os preços têm bom senso.

 

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Depois de inspirarmos o ar puro tivémos de seguir viagem, com direito a paragens por Alcoutim e Cacela Velha, até Albufeira. Mas é Mértola e a suas vistas que continuam a insistir voltar à memória.

 

Acompanhem o blog Leonismos através do Facebook e do Instagram

 

 

23
Fev17

Descobrir as Origens em Foz Côa


Leonardo Rodrigues

Estar a uma hora de Foz Côa sem lá ir parece mal. Tanto que parecia que fomos, quase movidos apenas por vitamina C e cafeína. 

Se há algo que não me canso de dizer é que as nossas auto estradas e estradas são lindas. Especialmente a que nos leva a Vila Nova de Foz Côa. Não me refiro ao alcatrão, que por vezes falha, mas às vistas, claro está. 

Embora o caminho nos parecesse belíssimo, pelo verde, pelas casas que íamos avistando aqui e ali, pelas bermas feitas de pedra, nada nos poderia preparar para o que veríamos uma vez no museu. Veríamos o que a seguinte fotografia, que não me permiti editar, captou. Sem pôr nem tirar. 

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E com esta vista ficámos durante muitos minutos, alternados entre contemplação profunda, gratidão por estarmos os dois ali e fotografias, muitas fotografias, não vá a cabeça esquecer.

O museu realmente está muito bem enquadrado na paisagem - tanto que no regresso tive de esforçar as vistas para conseguir ver. O que o típico turista não reflete é que lá, além de artefactos correspondentes a várias épocas, só temos representações das gravauras. Essas permanecem, muito respeituosamente, na rua, nas rochas onde foram encontradas. 

 

Como a sorte esteve sempre do nosso lado, chegámos a tempo de ver ver o museu e de comprar os dois últimos lugares para a última visita guiada às gravuras existentes em Penascosa. Recomendamos que façam ambas sendo que o valor combinado é de 12 euros. Temos apenas de assegurar o transporte do Museu até Castelo Melhor - uns 30 km - , o ponto de partida para vermos o que resta da arte rupestre em Penascosa.

Uma vez na aldeia pitoresca, é hora de descer aos confins e começar a recuar na História, num todo o terreno, por um caminho de terra batida. O caminho fez-se com dificuldade, mas, como qualquer dificuldade em férias, ultrapassou-se graças à boa companhia e, sem me querer repetir, às vistas. De um lado as vinhas, do outro as oliveiras. As montanhas pareciam não terminar, mas as casas sim e as pessoas com estas.

É um privilégio estar cá em baixo. Sente-se um misto de emoções que me fizeram sentir tão grande e tão insignificante em simultâneo. Ouvi com alguma atenção o que a guia automatizada nos disse, mas não conseguia evitar em dispersar-me do pequeno grupo para contemplar o que me envolvia. Duas margens do Côa, num local remoto, intocado, a anos luz de ser tão pisado como o Terreiro do Paço. Com a distância certa era possível ouvir apenas os pássaros e a água, tão perto, tão calma. Faz-nos sentir perto de quem fomos, pensar ao que vamos e, como um amigo meu costuma dizer, regressar às origens.

 

 

Claro que a mente divaga, após as aulas de História destas viagens dentro do país é fácil ver os nossos antepassados que nos deixaram, sob a forma de arte - acredita-se realmente que as gravuras foram feitas por artistas - a preencher as montanhas e a caçar. É também interessante pensar na responsabilidade da arte que carrega as nossas inquietações desde muito cedo, primeiro a caça, depois a religião e agora tudo. Somos muito mais.

De volta a Castelo Melhor, não conseguimos resistir aos encantamentos de uma vendedora - novamente, eu sei - e comprámos um licor biológico de vinho do Porto que só pode ser comprado ali, um vinho e amêndoas caramelizadas com açúcar e canela. 26 euros bem empregues. Já só resta o licor. 

Ela deu-nos uma dica para a nossa próxima e última paragem antes do regresso a Juncais, a Capela de S. Gabriel. Posso escrever apenas que apetece mais do que voltar à origens lá de cima, apetece não partir nunca e as fotos têm voz própria.

 

 

 

Novamente em "casa", Fornos de Algodres, comemos muito bem - e barato -  num restaurante chamado A Praça. Lá em cima é tudo em grande, duas doses gigantes, garrafa de vinho e sobremesa por menos de 20 euros.

A noite, antes de voltarmos ao calor da nossa salamandra, acabou junto ao Mondego a contemplar as estrelas e a lua, que lá em cima se avistam melhor.

 

Fiquem atentos aos próximo capítulos do Leonismos e sigam a página no Facebook e no Instagram - onde têm um sem fim de sítios maravilhosos à dsiposição dos olhos. 

20
Fev17

Até ao ponto mais alto de Portugal Continental


Leonardo Rodrigues

Post anterior.

 

Acordar naturalmente em Juncais para ouvir o som dos pássaros e sinos das ovelhas é indescritível, mas melhor é a realização de que o pão fresco apareceu mesmo na cozinha antes de acordarmos e que há café suficiente para duas famílias. Quanto à salamandra, continua lá, a tornar a manhã na serra mais quente e mágica.

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Após o pequeno almoço, sabendo que Casa Grande de Juncais disponibiliza bicicletas, decidimos que assim andaríamos até ao almoço. Enquanto a Isabel foi preparar um meio de transporte mais verde, fomos espreitar o Café Central - mais ou menos o único de Juncais. Sem surpresas, foi fácil  meter conversa com quem lá estava, pareciam entusiasmados por sermos da capital e por estarmos na famosa "casa grande". Passados uns minutos, estávamos reunidos na praça com a dona do café e a amiga, um senhor que em vez de café bebe um vinho - apurámos que os elementos da Junta de Freguesia fazem o mesmo às 9:30 -  e o Max, o cão mais popular, seguido da Pipoca. É agora das minhas memórias sorridentes.

 

 

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Após a receção maravilhosa, com as bicicletas já à porta e com muito por explorar, fomos conhecer melhor a aldeia. Aquando de um dos meus estacionamentos, junto da fonte que também é um miradouro, rompi as calças. Perdi a elegância, mas não me espalhei. Confirmo que andar de bicicleta não se esquece mesmo.

 

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Convictos das nossas capacidades, a ambição levou-nos a descer até ao rio Mondego - 6 km. Foi uma viagem magnífica, não fossem todos os santos ajudarem a descer, com vistas de cortar a respiração e uma sensação de liberdade tremenda. Cá em baixo, havia a ponte, o rio - como prometido pelo mapa - , uma casa de pedra e muito verde. Ele descreveu o ambiente como "bucólico", acompanhando-se de uma cara que liberta serotonina só de pensar. Esta memória está tão viva que também cheira ao alecrim que crescia na ponte para Juncais. Regressar para almoçar causou-me dores no rabo que dificultaram os dias seguintes.

 

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Foto: Dele

 

Durante a tarde o nosso objetivo era alcançar o ponto mais alto de Portugal Continental, na Serra da Estrela. Dito e feito. O percurso fez-se pela belíssima e alta Seia, dona da fantástica freguesia do Sabugueiro. As vistas até lá cima só conseguiam ficar melhores e eu, à medida que a bateria carregava, lá ia disparando fotos compulsivamente. Com muita pena minha, a fraca luz nem sempre permite ao telemóvel fazer jus aos lugares, daí a partilha não ser igualmente compulsiva.

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Lá em cima, além da típica selfie que tiramos como se fosse uma bandeira, não deu para fazer muito. O vento era tanto que tínhamos um pássaro a voar em contra mão - é verdade, pensei em trazê-lo - , a neve era só gelo e havia nevoeiro. O nosso instinto foi procurar abrigo na versão de centro comercial da Serra. Devido ao chamamento, degustação de muito queijo, e uma vendedora muito persuasiva, gastei um balúrdio num único queijo. Acho que no fundo paguei tanto porque ela também me explicou um truque para o queijo durar para sempre, limpar os fungos aka bolor com um esfregão. Relembro que o queijo e enchidos - para quem está para aí virado - é mais barato nas aldeias que, por pouco, ainda não são polos de turismo. 

 

Até ao jantar, devido ao demorado e perigoso caminho de regresso - por Manteigas e afins - , com direito às paisagens mais estonteantes, quase que declarávamos o distrito da Guarda o melhor de Portugal. É mais prudente e razoável tomar a posição pública de que são todos lindos, de férias exagera-se tudo.  

 

Das opções não tão variadas que tínhamos para jantar, escolhemos um restaurante em Fornos de Algodres chamado de O Pote. Luxos, modernices e cortesias não tinham. Aqui vai-se quando se quer comer bem e barato. Ora, a entrada era composta por pão, queijo local e chouriço. As belas doses industriais, um jarro de vinho, sobremesa e café custaram-nos menos de 14 euros. Bem alimentados, bem nos deitámos.

 

O dia seguinte tem um nome: Penascosa - lá vão ver-se as famosas gravuras de Foz Côa. Fiquem atentos à próxima aventura pelo Facebook e pelo Instagram.

 

 

 

15
Fev17

Férias cá dentro: até à Casa Grande de Juncais


Leonardo Rodrigues

Este mês, após uns tempos intensos, posso dizer que estive totalmente de férias.  Aproveitei para fazer 14 dias seguidos. Na primeira semana deixei-me ficar por Lisboa para fazer absolutamente nada. E, porque agora a vida é bondosa a esse ponto, fiz coincidir a segunda semana com quem diz ser a cara metade. 

 

Escolhemos ficar por Portugal, afinal há sempre muito para descobrir no nosso país. Cá dentro também se expandem horizontes e há regalos para todos os sentidos: paisagens de cortar a respiração, iguarias que provocam salivação, ar tão puro que faz desmaiar e silêncio para os nossos ouvidos. Para aguçar ainda mais o apetite, todas as nossas terras estão repletas de História e histórias.

 

 

O nosso destino final era Juncais, mas, de férias, tem de haver tempo para desvios. Até Juncais, o desvio digno de nota foi Belver, concelho do Gavião. Inicialmente o objetivo era vermos o castelo do século XII, mas depressa abandonámos a ideia para contemplar as vistas maravilhosas para o Tejo. Quanto mais se sobe, mais bonito fica o rio. O silêncio, momentaneamente interrompido pelos pássaros, oficializou o início das férias - segunda parte para mim. 

 

O tempo, entre espantos, selfies e lamechices, foi passando. E, com isso, a nossa hora limite para check in na Casa Grande de Juncais. O Turismo Rural não tem facilitismos de 24horas. Ainda assim, a Isabel, quem ajuda a gerir este solar de granito do século XVI, arranjou-nos uma solução: o Sr. Carlos.

 

Chegamos pelas 20h a Juncais, onde fomos simpaticamente recebidos pela nossa solução. O Sr. Carlos entregou as chaves, fez-nos uma explicação geral de onde se encontrava tudo e explicou que de manhã nos deixaria um cesto com pão fresco na cozinha.

 

Quando abrimos a porta do nosso estúdio, humildemente apelidado de Paraíso 2, deixou de se sentir o frio da serra. Estava quentinho, graças ao aquecimento central e ao meu objetivo de vida: uma salamandra cheia de lenha acesa. Uma welcome drink acompanhada de chocolates e caramelos também estavam à nossa espera, o que foi a cereja no topo do bolo. 

 

Por falar em bolo, o nosso pequeno almoço também aguardava pacientemente na cozinha: bolo caseiro, laranjas da zona para sumo, queijo, manteiga e fiambre. O pão, já sabem, todas as manhãs antes de acordar já lá está.

 

Sendo que a viagem tinha sido longa e que os restaurantes ficam a uns bons minutos, utilizamos a nossa kitchenette equipadíssima para fazer o jantar. Depois, foi caminhada à chuva para conhecer a aldeia, xixi e cama, numa senhora cama, num senhor quarto.

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Se ficaram curiosos para saber como a restante viagem se seguiu sigam-me no Facebook e vejam umas deixas no Instagram. O próximo capítulo vai até o segundo ponto mais alto de Portugal, na Serra da Estrela. 

 

12
Out16

Ao Encontro do Sul, Parte II - Albufeira


Leonardo Rodrigues

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"A conquista do sul tarda, mas finalmente acontece", foi isto que escrevi numa SMS antes de sequer ter entrado no comboio que me iria levar de Sete Rios a Albufeira.  

Deveria ter percebido que não ia conquistar nada, afinal o comboio atrasou-se e, assim que chegou, levei com um presságio na barriga - na forma de caixa gigante da IKEA. Num outro dia teria entendido a mensagem, mas naquela sexta não deixei, não podia. Só pensei que assim que as carruagens deslizassem pelo caminho de ferro a minha vida em Lisboa entraria em modo de pausa. A primeira pausa, em 3 meses, a mais de 25km de Lisboa. Para agravar, melhorando, seria também o meu primeiro fim de semana fora com aquele que me atura quase diariamente. 

Se por um lado a procura anterior pelo sul se fez contra a corrente, esta fez-se de frente, junto das vistas. Respirei de alívio quando me sentei e senti a capital a ficar para trás.

O lugar da janela, confirmado por duas vezes, era meu. A senhora que me acompanhou não queria o sol e eu queria a vista. Não se omite um sem omitir a outra. Tentámos um meio termo desconfortável que sei que não foi do seu agrado. Então, abdiquei do apoio de braço sem abrir a boca, contando que se apercebesse do meu gesto de tréguas.

Depois, e dizem-me que é assim em mais sítios, as pessoas que pedem na CP são mais sofisticadas, distribuem um papel - há tempo para estas coisas, bem sei - , deixam os passageiros ler e depois passam para recolher o papel e o dinheiro, se nos convencerem. Achei interessante, não invade. No metro temos que ouvir todos. Ainda partilhei com a minha companheira de viagem que seria mais útil um exame, que não poderia comprovar o estado clínico de alguém através de uma folha onde se pode escrever qualquer coisa. Claro que me censurou, mas também não contribuiu.

Já tinha deixado algumas notas sobre a minha perceção da viagem para depois escrever um post, mas tive que interromper a escrita porque começámos a conversar, eu e senhora que queria a cortina fechada. Foi extraordinário e três chapadas na cara para mim.

Embora com mais de 20 anos de diferença, tínhamos tanto em comum e partilhávamos ideais semelhantes. Houve também espaço para discutir a atualidade - daquela semana - , do burkini, passando pelo nudismo nas praias portuguesas - intemporal? - , ao EI. Mas, à parte do Amor, a questão que mais nos apoquentou foi: será que os alentejanos estão conscientes da qualidade de vida que têm? Eu nunca estive consciente da que tinha na Madeira.

Os Montes parecem pincelados de castanho, com manchas verdes e brancas e é preciso treinar o olho para enxergar pessoas.

Ao namorar as pequenas aldeias que avistava senti uma grande vontade de partir a janela e atirar-me para lá, de fazer parte daquilo. Não sei onde era. Crianças disseram adeus da rua, talvez seja fascinante verem um comboio de possibilidades, que transporta pessoas oriundas da capital, não sei. 

Uma vez em Albufeira, acho que poderíamos ter aproveitado o fim de semana de outra forma - scones: check; piscina: check; água do mar aquecida por Neptuno: check.

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Caminho até à praia

 

Como não só de coisas boas se faz check, e tendo em consideração que fui avisado pela caixa do IKEA, o impensável aconteceu, tive de o partilhar durante metade do tempo útil do fim de semana com uns amigos do ex que encontrou na praia. Concordei em fazermos praia com eles, depois dei por mim a jantar num restaurante chamado Ricardo's, escolhido por eles. Não me posso esquecer que também saímos à noite. Agradeço ao vinho a coragem.

 

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O restaurante tem o nome do antecessor. Não acredito em coincidências. Mentiria se dissesse que não simpatizei com os moços. Ri-me bastante e esse é um bom indicador, só me queixo do fim de semana idealizado se ter esfumado.

 

Num próximo encontro com o sul expliquei-lhe que vamos para um sítio deserto, onde a única coisa que pode soar familiar seja o som dos pássaros. Depois, se o tempo deixar, também vos deixo entrar a bordo do próximo encontro.

04
Jul16

O mundo sobre rodas de Craig e Lauren - Entrevista (com fotos)


Leonardo Rodrigues

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Escreve-se mal acerca da tecnologia e do que a mesma fez às nossas relações. O que esquecemos, muitas vezes, é que somos nós que detemos o controlo sobre estes meios de ligação ao mundo. As imagens sempre me fascinaram e deus sabe como abundam na internet, especialmente em plataformas como o Instagram. Foi por isso que, há 3 anos, me juntei a esta grande comunidade. Houve retorno. Partilhei momentos que decidi congelar e vi os de outros, de todos os cantos da Terra. Para além de me cruzar com imagens que me fizeram parar durante minutos, de expandir os meus horizontes e de ver o mundo antes de o visitar, conheci gente maravilhosa como o Craig e a Lauren. Este casal percorre o mundo numa carrinha, não levam a casa às costas, mas, sim, sobre rodas. Falei com eles e, garanto-vos, as fotos não mentem, são quem mostram ser: duas almas livres com sede de viver com todos os sentidos. As apresentações estão feitas, só falta ler a nossa conversa. 

 

Leonardo Rodrigues: Em poucas palavras, quem são vocês?

Craig e Lauren: Nómadas a explorar o mundo.

 

LR: Antes de irmos ao tema das viagens, como é que vocês os dois se conheceram? Foi amor à primeira vista?

C&L: Conhecemo-nos há cerca de 10 anos atrás, num restaurante italiano onde trabalhávamos os dois. Não foi amor à primeira vista, éramos apenas amigos de trabalho. Foi então que o Craig decidiu ir viajar com um colega enquanto eu fiquei a trabalhar. Quando voltou, 5 meses depois, para juntar dinheiro para outra viagem, tornamos-nos ainda mais amigos e as coisas fluíram a partir daí.

 

LR: Quando é que decidem que estariam melhor na estrada e começam tudo isto?

C&L: Eu queria ter tentado viajar antes com amigos, mas estes cortaram-se sempre, o Craig ficou com o bichinho das viagens após a viagem com o amigo. Juntos decidimos ir para a Austrália, onde poderíamos viajar e trabalhar. Desta forma iríamos ter também a possibilidade de ver a Ásia com o dinheiro ganho. Acabámos por nos ausentar durante vários anos.

 

LR: Como é que conseguem manter este estilo de vida?

C&L: Nós geralmente trabalhamos como empregados de mesa ou de balcão durante 6 meses até um ano, amealhamos e depois gastamos o dinheiro em experiências. Poupámos imenso de forma a comprar uma carrinha para habitar, uma vez que isto significa que não teremos de pagar hotel. Para além disto, podemos sempre vender a carrinha quando terminada a experiência.

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LR: Durante os últimos oito anos vocês estiveram um pouco por todo o lado e aposto que, mais do que os sítios fantásticos que vemos nas vossas fotografias, conheceram grandes pessoas. Quem é que teve o maior impacto em vocês? Há alguma história que guardam convosco?

C&L: A maior parte das pessoas memoráveis que conhecemos são pessoas que se cruzam connosco nos sítios onde vamos trabalhando. Fizemos grandes amigos. O nosso patrão na Nova Zelândia tinha uma idade próxima da nossa e por isso demo-nos muito bem. Tivemos muita sorte, foi graças a ele que tivemos tantas experiências dignas de nota por lá: ele levou-nos para a sua casa de Lago, em Taupo, onde pescámos pela primeira vez e nadámos em águas claras como o cristal. Ele costumava emprestava-nos o seu carro para as roadtrips que fazíamos nos dias de folga e ainda chegou a convidar-nos a ficar com os pais no campo. Ajudámos a alimentar bezerros e dormimos numa cabana remota. E ainda levaram-nos a caçar.

 

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LR: Qual o vosso truque para planear as viagens?

C&L: Eu faço todo o planeamento e o Craig fica encarregue de conduzir. Geralmente passo os olhos pelo Lonely Planet e escrevo todos os locais que quero visitar, seguido de uma pequena descrição. Depois desenho um mapa e marco onde estes locais se situam, o que me dá uma ideia mais clara sobre a melhor rota a utilizar. Também costumo encontrar fotos no Pinterest, blogs e Instagram de sítios que gosto, que adiciono a este meu mapa.

 

LR: Quando olho para o que fazem vejo apenas uma pequena desvantagem: quando estão na estrada só se têm um ao outro. Costumam chatear-se? Como lidam com isso?

C&L: Sim!!!! Enlouquecemos! *risos* Levamo-nos à loucura constantemente, mas estamos enfiados numa carrinha e não há nenhum outro compartimento para onde possamos ir e amuar, então temos de engolir e seguir em frente. Os pontos altos definitivamente compensam os baixos, a verdade é que estamos bem a maior parte do tempo.

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LR: Diriam que viajar tornou-vos mais fortes enquanto casal?

C&L: Sim. Antes de começarmos a viajar só estivemos juntos durante um ano, depois passámos a estar juntos 24/24. Na maioria dos nossos empregos temos horários e folgas compatíveis, por isso não há pausas um do outro, gostamos assim. Em alguns trabalhos tivemos horários diferentes e isso foi um pouco estranho. Somos uns sortudos por gostarmos tanto da companhia um do outro.

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LR: Ponderam ter uma vida dita normal, criar raízes, ter filhos e essas coisas?

C&L: Talvez no futuro. Estamos a ficar mais velhos. À medida que o tempo passa começamos a preferir gastar mais dinheiro num quarto confortável quando estamos em "modo backpacking”. Em tempos, chegámos a ficar em sítios horripilantes, agora prezamos mais o conforto. Adoraríamos uma casa simples de campo, com apenas um pedaço de terra e uma cabana ou até mesmo viver num daqueles contentores de transporte. Sabemos como manter um estilo de vida minimalista e não precisamos de excessos. Gostaríamos de poder cultivar os nossos próprios vegetais, de ter galinhas, vacas e um cão - mais do que uma criança nesta fase das nossas vidas. Seria ótimo ter uma base destas que nos possibilitasse fazer viagens mais curtas e saber que temos sempre um sítio fixo para onde regressar, quando regressamos a casa.

 

LR: Qual a fotografia que tem a melhor história ou qual a história que tem a melhor fotografia?

C&L: É muito difícil escolher apenas uma fotografia, mas diríamos que é a que tirámos ao estacionar junto de um fiorde na Noruega. Tínhamos uma vista incrível da nossa carrinha e abrimos as portas traseiras para relaxar, uma vez que íamos passar lá a noite. Um navio de cruzeiro enorme passou pelo fiorde com centenas de pessoas a bordo, enquanto estávamos a desfrutar daquele cenário só nós os dois, de borla. Foi uma sensação maravilhosa.

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LR: Podem deixar umas palavras de encorajamento para os aspirantes a viajantes?

C&L: Todos podem viajar como nós. Não temos empregos altamente remunerados, nem recebemos dinheiro dos nossos pais. Muita gente pergunta como conseguimos, quando na realidade toda a gente pode, só têm de tomar a grande decisão de perseguir os vossos sonhos. Comprem uma carrinha, explorem o selvagem, façam caminhadas, nadem, conduzam e repitam. Só têm de gerir bem o dinheiro. Se gostarem muito de frequentar bares a experienciar a vida citadina hão de estar no voo de regresso a casa em pouco tempo ou constantemente a trabalhar e a não ver nada do país de forma a pagarem essa forma de estar.

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LR: O que podemos esperar de vocês em breve?

C&L: A nossa fantástica viagem aos Estados Unidos, claro. Temos até Outubro ou Novembro para chegar à Florida, vai ser uma viagem e pêras. Atualmente estamos a desfrutar das montanhas do Alasca e da sua vida selvagem abundante. Temos uma longa viagem pela região selvagem do Canadá, a caminho das Rocky Mountains. A partir de lá, vamos reentrar nos EUA e explorar o Parque Nacional de Yellowstone, desertos de rocha vermelha e cidades remotas. Eventualmente chegaremos à Florida solarenga, que serve de casa para o peixe-boi, flamingos e crocodilos. Viajamos maioritariamente para experienciar a vida selvagem e a natureza, por isso esperem muitas fotografias bonitas das nossas caminhadas e inspirar pessoas a uma vida numa carrinha.

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26
Mai16

Dia do Riso, todos os dias


Leonardo Rodrigues

Ontem um trio maravilha, do qual fazia parte, decidiu sentar-se numa esplanada no Saldanha para beber café e comer um pastel de nata - coisas que um lisboeta tem de fazer para não perder a nacionalidade - , conversar, depois rir e olhar para quem passava. Centenas passaram por nós, de carro e a pé, posso garantir que éramos dos poucos a rir, os únicos conscientes que pode não haver amanhã ou daqui a uma hora. Os restantes caminhavam para alguma coisa, com ar sério, como se o arroz fosse queimar se não andassem cabisbaixo, com cara de poucos amigos, perdidos em pensamentos. Os portugueses estão tristes. Aquele português, com os olhos na Calçada, muitas vezes também sou eu. Há quem não se lembre de como chegou a casa por cansaço, por embriaguez, eu por vezes não me lembro porque vim em piloto automático, perdido em pensamentos. A minha querida professora e companheira de loucura, da esplanada, acenou enquanto ria para algumas pessoas. A maior parte não viu ou não conseguiu entender. Porque haveria alguém de sorrir a um estranho, estaria ela doida? Uma senhora, talvez a pessoa com o olhar mais triste que vimos, parou. A doida disse-lhe, É dia do riso, ria. Primeiro não conseguiu compreender e olhou para toda a gente na mesa, ri para confirmar. Ela riu de volta, acho que até murmurou um agradecimento. Talvez não lhe estivesse a ocorrer porque o dia foi mau, mas, para além de ser linda, tinha um sorriso fabuloso, desenhado exclusivamente para ela. Talvez aqueles segundos lhe tenham servido para perceber que se o arroz queimar, pode fazer massa, que vai bem com tudo. Nem sempre me lembro das opções. Ontem, por exemplo, acordei chateado porque uma entrevista no dia anterior tinha corrido mal, já tinha decidido: sofrer o dia todo. Depois, ainda de manhã, ao beber um café no Miradouro da Portas do Sol, percebi, com ajuda, que independentemente do que estivesse a acontecer na minha vida tinha a liberdade de estar ali, rodeado de gente, enquanto o sol insistia em dar cor aos meus braços e pernas, com um ventinho que passava para atenuar o processo. Até os pássaros cantavam para relembrar a primavera. Para poder apreciar o momento, só tive de retirar uma coisa que já não estava acontecer da equação. Reescrevam também a vossa equação e depois dêem um boa gargalhada - sem café não será a mesma coisa! 

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Prova da maravilhosa manhã de ontem

 

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