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LEONISMOS

LEONISMOS

27
Fev17

Casa mais Sustentável com a IKEA - Passatempo


Leonardo Rodrigues

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É da cidade e pensa que não pode e não sabe cultivar? Isso há muito que não é problema, basta ir à internet e retirar umas ideias. Mas, caso prefira encontrar ideias à moda antiga como eu, através de um livro de papel, também é possível e a IKEA tem a solução, chama-se Cultivar em Família.

Cultivar em família é um livro cheio de imagens e DIY, com inspiração para tornar qualquer um em agricultor. Tal como cozinhar, cultivar nem sempre é para estimular o palato, podem também ser para lavar os olhos ou perfumar a casa. Este livro, para toda a família, tem tudo lá dentro: como cultivar batatas num saco, fazer crescer flores em água, cultivar em garrafas penduradas - ou noutra coisa qualquer - , diário de plantas, receita de gelado de brócolos, enfim, é só escolher. 

No meu passeio de hoje pela loja, lembrei-me que seria uma ótima ideia oferecer uma cópia deste livro aos leitores e futuros leitores do blog. Para se habilitarem a ganhar o livro só têm de fazer o seguinte:


1 - Gostar da minha página, aqui;
2 - Colocar gosto na publicação deste post;
- Comentar a publicação com o ingrediente que não pode faltar na cozinha.

Fim do passatempo: 11-3-2017

Vencedor: Victor Isidóro

Nota: este passatempo não é feito em parceria com a IKEA;  a cada participante é atribuído um número que depois, através do random.org, é escolhido aleatoriamente.


08
Nov16

Hora Certa (CONTO)


Leonardo Rodrigues

Na estação de comboios entendi, mudou. As pessoas e aquilo que constroem de imaterial não resiste ao tempo. Senti estas palavras naquele adeus diferente dos outros, num alívio só dele. No passado, as despedidas provisórias carregavam-se de saudade, nossa, mesmo que fosse fingida. Engana-se quem pensa que a honestidade é um esforço mais importante que o fingimento no amor. Neste último toque não nos sentíamos. Quando dois corpos se tocam e não se sente é porque um vai escapar. Soube que era um adeus para enquanto durássemos.

 

Permiti às portas fechar e ao comboio deslizar, embora me sentisse a tomar balanço, sem cair para a linha. Olhei-o fixamente do lado de fora, tão fixamente que perdi o foco. Acabou e sentia-me vazia, sem roupa nem sapatos. Para uma mulher isto ou é um alívio ou é como perder o chão. Não fui capaz de fazer o meu olhar acompanhar o fugir ruidoso da carruagem, só de continuar a olhar em frente, com o maxilar rígido e um olhar parado, preso a uma cabeça e a um corpo que não se queriam mexer. Estava convicta de que a mais pequena ação me faria balançar mais. Umas pessoas andavam para um lado, umas para outro e mais algumas sei lá para onde. Talvez conseguissem ver-me, talvez estivessem também elas com a visão turva, descalças.

 

O caminho até à casa que decidimos chamar nossa, no alto, com vista para a cidade sem mar, percorreu-se em piloto automático. Quando cheguei, a janela que dava para o largo estava aberta e dei por mim, por dor e por instinto, a tentar fechá-la. Queria tudo trancado, mas detive-me. Algures, num apartamento do bairro, tocava uma música tão triste que fazia o ar cheirar a chuva. O cheiro fez-me levar as mãos à cabeça e, desajeitadamente, pentear, com as mãos, os cabelos que começavam a ficar demasiado longos. Quis usar isto para justificar não ser desejada. Depois ri, o pensamento seguinte dizia-me que deus é francês com uma costela britânica. Naquele momento concluí que tudo começa e acaba com uma qualquer música francesa. Ouvia-a distante e distinguia apenas a palavra Paris no meio daquele choro eufónico em francês fluente.

 

Numa cidade onde o tropeçar em amor é constante, uns estão fatidicamente obrigados a desencaixar a metade que lhes pertence para que seja encaixada numa outra, ficando, em consequência, uma peça danificada que não torna a encaixar. Ninguém, se futuro houver, quer completar um puzzle com uma peça que ao mais suave toque se desfaz. Se assim acontece numa cidade onde se tropeça em amor, pensei, que seria de mim se, nesta cidade, para além da merda dos cães, a História só deixa tropeçar em saudade? Pensar isto provocou em mim uma causa que talvez tivesse como efeito o riso, não o permiti.

 

A canção foi-se diluindo, ficando cada vez mais longe, até parar. Foi o que nos aconteceu. Fechei tudo, voltei a mim, ao quarto onde não queria que luz nenhuma entrasse, ao colchão rijo, à imobilidade. As vozes retomaram ao meu dentro. Nunca as consigo ouvir a todas, fica um burburinho lá dentro que faz tremer o corpo. O tremor tem mais vontade sua que as vozes, mas não lhe posso gritar. A voz da insegurança consegue sempre ser ouvida, num falar gritado. Não és, não vais ser. Imploro-lhe silêncio, sei que tem razão. Sem os outros não somos. O branco é que deveria ter som, cheio de vento, mas é a escuridão que fala e fala.

 

Passadas umas horas sento-me aos pés da cama, fecho a mão esquerda, abro a direita e empurro-as, compulsivamente, uma contra a outra. Não consigo parar, cala as vozes. Há silêncio, rio novamente e não sei porquê.

 

Saí para ir ao encontro da noite. Parei apenas quando alcancei o primeiro banco do primeiro jardim que encontrei. Fiz por não me movimentar de forma louca, em vez disso contemplei a luz cansada do único candeeiro que me fazia companhia. Ali fiquei.

 

Acordei com o barulho de quem, naquela manhã de domingo, tinha família. Era verão, tinha passado a noite no banco de jardim, tal e qual uma daquelas pessoas que transformam o cartão no seu teto, lençol, cobertor, colcha e edredão. Não me importavam os olhares que, noutro dia, podiam ter sido meus. Que histórias que trazem tanta face anónima ali?

 

Porque é que os olho com curiosidade? Porque é que aquele casal está sentado a olhar em frente, com um olhar pesado? Que fez ele? É sempre ele. Porque é que a rapariga de cor de rosa anda em círculos à volta da estátua? Talvez a cabeça dela também não se cale. Porque é que o rapaz de preto contempla o chão como se soubesse que é para lá que vai? Porque é que me importo?

 

Importo-me porque agora sei que nada para, nem pessoas nem mundo. Doía tanto e nem eu tinha conseguido parar. Tudo acontece. Eu aconteço na mesma. O sol continuou a abrir a manhã e fez-se-me luz. Como fazem todos os dias, a hora certa, os candeeiros de rua.

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12
Out16

"Quando tinha a tua idade é que era bom"


Leonardo Rodrigues

Quando viajo até à infância lembro-me sempre de algo novo, por vezes empolgante, mais frequentemente devastador. Uma que tenho visitado com frequência é o desejo de crescer, ser mais velho, ter isto e um pouco mais daquilo. Queria, essencialmente, deter O segredo. Achava que esse segredo iria permitir entender o puzzle todo e dar-me a certeza no olhar.  Os adultos até podem ter comprado O Segredo de Rhonda Byrne, como eu, mas na realidade ninguém sabe o que está a fazer. Não há manual de instruções nem nunca houve. O livro é engodo e a vida também. Mesmo sem saber tanto quanto fingem, numa coisa não mentiram, quando tinha a tua idade é que era bom, sempre nostálgicos. Pois era. Por mais que tudo corresse mal, o mundo era um lugar mágico, onde as incertezas eram só portais para um local ainda mais mágico e misterioso. Tudo estava para acontecer. À minha volta parece apenas que à medida que o tempo passa deixamos de saber dançar junto destes portais, afinal agora como temos certezas e sabemos o que fazer, não há lugar para istos e aquilos e nada pode ser diferente. O segredo, no máximo, é que não há segredos desta natureza e que, nada sendo resultado da concretude das coisas, está tudo a um sopro de voltar ao pó. Temos de dançar e ser crianças. Era bom.

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 Uma fotografia mais nítida não foi possível até a data de redação deste post

09
Fev16

De Mão em Mão II (Passatempo)


Leonardo Rodrigues

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Depois de achada a vencedora da primeira edição do passatempo De Mão em Mão, é altura de lançar a segunda com o livro que começou tudo, "Queimada Viva" de Souad.

 

Tal como fiz da primeira vez com o Número Zero de Eco,  também já vos deixei a review deste livro que podem ler aqui

 

É a sua edição de 2004, em inglês, que me compromento a passar para outras mãos, tal como o seu primeiro dono quis, ao deixar aquele livro numa rua muito movimentada de Lisboa. 

 

Para o livro passar para as vossas mãos, e para que mais pessoas possam participar, deixo-vos duas alternativas, uma com o Facebook e outra sob a forma de formulário. Peço que escolham uma e que só participem uma vez.

 

Facebook:

1 - Gostar da página, aqui.

2 - Comentar a ligação deste passatempo com "I want".

 

Formulário:

 

 

O vencedor será anunciado na próxima terça feira até às 21h.

04
Fev16

Para refletir: Queimada Viva, de Souad


Leonardo Rodrigues

 

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Quem leu o post do passatempo De Mão em Mão, para o qual ainda vão a tempo, sabe que resgatei o livro "Burned Alive" - "Queimada Viva", em português - daquele pequeno tesouro recheado de livros que encontrei na rua.

 

Li-o num ápice. Acho que este foi o primeiro livro que tive coragem de ler na totalidade em inglês, porque embora o fale com fluência, prefiro ler na minha própria língua. A escrita é acessível, o que é difícil é ler coisas que chocam na totalidade com tudo o que nós ocidentais, arrisco, civilizados, acreditamos.

 

"Queimada viva" é o relato arrepiante da vida de Souad, nome fictício, uma das muitas milhares de mulheres que vivem em regimes onde as leis são feitas de homens para homens. Na sua aldeia, algures na Cisjordânia, uma mulher não pode pensar por si, ter vontades próprias, curiosidade, olhar um homem nos olhos, nem sair à rua sozinha antes do casamento. O casamento, a maior liberdade pela qual uma mulher pode ansear, é apenas uma transferência de propriedade e só lhes libertará da escravatura do pai para que isso passe a ser feito pelo marido, o novo dono, que pagou com ouro para a ter.

 

Dentro destes casamentos, a violência não só se perpetua como a responsabilidade aumenta. Os motivos para a violência já não são só as lides domésticas, o chegar um minuto mais tarde ou apanhar um tomate verde. Passa a haver obrigatoriedade de ter filhos, as filhas são um fardo, têm de ser encaminhadas, distribuídas e, valendo menos que um animal, se começarem a ser muitas, as próprias mães chegam a matá-las, encarando elas próprias isto como natural. Não sabem melhor, não conhecem outra realidade, são vítimas de um sistema. Curiosamente, apercebemo-nos que os homens também o são.

 

Souad foi vítima dos tão falados crimes de honra. Tinha que morrer porque desonrou a família ao se apaixonar, ao ambicionar ser propriedade de alguém que não o seu pai, com uma gravidez fora do casamento. A única forma de ser restabelecida a honra da família era com a sua morte, então atearam-lhe fogo. As mulheres da sua aldeia só o apagaram. No hospital, onde deveria ter recebido cuidados imediatos, tendo em conta que Souad era uma charmuta, arábico para puta, só teve direito a um banho porque cheirava mal. Estava lá para morrer. Se viveu para contar a história foi porque "nós" intervimos. 

 

Já na Europa, dois meses depois, finalmente a receber tratamentos, Souad, ao olhar para as enfermeiras com saias curtas, maquilhagem, a sorrir a conversar com os médicos só pensava que no dia seguinte já não iam estar lá, sentindo um profundo alivio quando as via novamente. As pessoas deveriam poder pura e simplesmente ser.

 

Na simplicidade da obra, porque não precisamos de nos desdobrar em palavras pomposas para transmitir grandes ideias, há tanta força, acorda-nos, humaniza-nos. Leva-nos à reflexão! Pensei muito na minha mãe que me criou sozinha e nunca casou. Numa daquelas terras isso seria inconcebível porque não surgem heroínas, só nascem heróis. 

 

Cá, mesmo com muito pudismo e catolicismo, com toda a sinceridade, podemos fazer o que nos der na real gana, desde que isso não magoe o outro, amar quem amamos, tocar nessas pessoas, com ou sem papel. Começamos a poder explorar as nossas sexualidades cedo, de forma informada, segura, com consciência dos atos. 

 

As mulheres podem ainda não estar em mesmo número nos cargos de topo, na política nem receber tanto, mas têm os mesmos direitos de um homem. Isto constitucionalmente, culturalmente ainda existem certos estigmas que em Lisboa já não vejo, tanto, também porque faço por não me rodear de pessoas tacanhas. 

 

Dito isto, na minha terriola da Madeira, conheço de vista mulheres que sofrem de violência doméstica, mas que nada fazem por medo, por acharem que não há vida para além do marido de há 30 anos. Nem elas, nem quem lhes diz "bom dia, como vai?", levando com a mesma resposta "vai-se andando", como já é tudo tão automático, só respondem "enquanto for assim está bom", e seguem para o café para falar da vida dos outros. Enquanto for assim está bom, mas e quando estas mulheres já não andarem?

 

Ainda estou a ter os primeiros vislumbres daquilo que um blog pode fazer. Não sei bem, mas não custa nada falar destas coisas, apelar à atenção, à prevenção, à denúncia e a uma nova emancipação que está, sobretudo, por acontecer nos meios mais pequenos.

 

Futuramente, e com o propósito de continuar a abordar esta temática, sem que para isso seja necessário ler novamente que mais uma mulher morreu, irei escrever um texto com uma blogger amiga que foi vítima de violência doméstica, na esperança que palavras levem a ações.

 

Este livro, será também passado de Mão em Mão, fiquem atentos ao Facebook

 

 

31
Jan16

Número Zero, Umberto Eco (Spoiler Alert)


Leonardo Rodrigues

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Umberto Eco, semiólogo, filósofo e romancista italiano regressa às livrarias portuguesas com Número Zero, livro de ficção editado pela editora Gradiva.

 

O livro acaba por não ser apenas, como muito se escreveu, sobre o jornalismo nos dias de hoje e a sua doença - há muito diagnosticada como sensacionalismo - , mas também, sobre a sociedade - que adotou uma postura de passividade - e de que forma o jornalismo acaba por ser o seu espelho, vendendo-se tanto aos leitores como aos interesses dos poderosos que detêm os meios de comunicação.

 

Eco, para tais denúncias, leva-nos para o interior de uma redação piloto de um jornal que não saiu, que não é suposto sair e que, para não haver esperança, não sairá. O hipotético periódico teria como nome Amanhã. No Amanhã, como em qualquer outro jornal, falar-se-ia do ontem que já todos conhecemos pela televisão, mas, e aqui está o seu fator de diferenciação, ao invés de se fazer um retrato fiel do que foi, especula acerca daquilo que será amanhã, dali a uma semana ou até um mês, com tanta certeza que poderia ser um “oráculo”. O objetivo do jornal, ou melhor, os números zero deste jornal é o de intimidar os poderosos de tal maneira que deixe o seu financiador - o Comendador Vimercate - fazer parte do clube restrito. Se deixarem, não se publica o jornal, a missão é cumprida, mas publicar-se-á um livro igualmente duvidoso, assinado pelo diretor.

 

Este livro é a razão de ser do protagonista que, num livro de Eco, não poderia caber senão a um perdedor, o Dr. Communa, - um doutor que nem a licenciatura acabou porque, como sabemos, a culpa é sempre do outro. A sua função, enquanto doutor na arte de perder, é escrever um livro sobre todo o processo de gestação daquilo que que nunca irá nascer - omitindo este facto - para, a posteriori, ser assinado por outro, perdendo mais um pouco também aqui.

 

"Os perdedores, tal como os autodidatas, têm sempre um conhecimento mais vasto do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não podes perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deviam."

 

Como os outros que perdem, sonhava em escrever um livro que lhe desse fama e glória, mas parece que também não era uma grande escritor uma vez que para escrever tinha que citar em demasia e ninguém está para ler algo que necessite de enciclopédias para descortinar. A erudição e a cultura, tal como o diretor recorda a um redator, não vende: "temos de falar a linguagem do leitor, não a dos intelectuais [que estão em menor numero].”

 

À primeira vista, com apenas a sua versão das coisas, não conseguimos perceber se este é simplesmente paranóico, depois, com o andamento do livro, começamos a achar que a sua paranóia teve toda a razão de ser, até que acabamos por concordar que não há necessidade porque temos todos memória curta, somos cada vez mais uns vendidos e podemos descansar.

 

Voltando à redação, falemos do diretor, Simei, que desperta em Commona a seguinte descrição "No género x é um deus. X é o género em que x é merda." Os seus reparos, correções, exercícios e dicas assim o comprovam. Naquele jornal aprendia-se a desmentir o desmentido deturpando a realidade com a "realidade". Até quem escrevia os horóscopos, não tendo autorização para seguir os astros, seguia, a seguinte instrução, "vá ver as revistas e jornais que publiquem [...] e retire deles padrões recorrentes [...] otimistas, as pessoas não gostam de ouvir que vão morrer de cancro". Embora o prefácio não o adivinhe - porque enquanto capítulo seria o penúltimo -, o livro poderia ser intitulado d"O Grande Manual das Más Práticas Jornalísticas". Os  públicos dos jornais emitem muitos julgamentos acerca dos jornalistas, mas estes depois de formados, mesmo que saibam o que deve ser feito são reensinados pelos superiores a fazer um jornalismo que agrade a maioria, que não perturbe muito, que venda - mais do que para subsistir, para enriquecer.

 

Mas, enfim, de um jornal composto por fofoqueiros como Bragaddocio e Maia - únicos dos seis redatores que mereceram páginas para se apresentar no livro - , um diretor que conspira por ganância e um perdedor compulsivo, não se pode esperar muito.

 

No fim, por onde começou o início, e saltando a conspiração que Eco escreveu tendo como base factos que nos escandalizam enquanto leitor porque não sabíamos ou não nos lembrávamos, tudo acaba como o leitor eventualmente dá por si a querer. O herói, perdedor nato, pode não ficar com tanto dinheiro como era suposto, nem com a mais ínfima possibilidade de algum dia se ver publicado, mas, aos 50, ganha o amor, que é um outro tipo de reconhecimento, invertendo a sua sorte. Agora é esperar que os jornais também consigam inverter as suas sortes, embora os prognósticos de Eco, na voz de Maia e Commona, não sejam ótimistas.

 

Um livro a não perder, que irei oferecer num passatempo muito em breve. Fiquem atentos ao facebook!

 

24
Jan16

Bons livros


Leonardo Rodrigues

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Sei que hoje, para muitos, é apenas dia de eleições, mas ao ver as notas do meu telemóvel, lembrei-me do post que comecei há coisa de semana e meia, então hoje passou a ser também dia de acabar posts.

 

Queria partilhar convosco que li o meu primeiro livro de 2016. Confesso-vos que quando acabei, caiu-me tudo figuradamente e, fisicamente, umas lágrimas. O livro em questão é "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares. Não me apeteceu chorar com o final nem por ter acabado - embora tenha tido um susto quando ao virar a página 607 vi a Nota do Autor - , apeteceu-me chorar pelo livro ter sido tão bom e por todas as emoções que fez surgir em mim.

 

O que é que torna um romance bom? Em primeiro lugar lê-se sem esforço, e com isto não digo que não exija pensar, refletir, pesquisar até, mas fazemo-lo com naturalidade. Os livros, a literatura, toda a arte enquanto arte, têm de fazer sentir. Se um livro não for capaz de me sentar à mesa com as personagens e me permitir escutá-las, olhá-las nos olhos, sentir a dor que deveria ser só delas, não é nada. Um livro mede-se, para mim e agora, pelas emoções que desperta e pelos desejos que acorda.

 

O "Rio das Flores" faz isto tudo, mas não quero aqui despi-lo completamente porque acho que as páginas de um livro têm de ser percorridas com uma sensação de novidade, como se de um corpo de um novo amante, ao ser percorrido pela primeira vez, se tratasse - embora já haja suspeitas relativamente ao conteúdo.

 

Escrever isto, recorda-me de uma entrevista de António Lobo Antunes, que vi há uns anos, ele dizia não entender bem o porquê de se falar de livros, achava que isso simplesmente não se deveria fazer. Na altura acabei por concordar, final de contas, por mais que me desdobre em elogios ou críticas, aquele paralelepípedo de papel só será alguma coisa cada vez que for desbravado e cada leitor vai sentir algo de singular, de acordo com as suas vivências e ideias, que me transcende.

 

Mesmo me transcendendo, vou partilhar o que o Rio das Flores me reassegurou: para além das aparências, nada é sólido; ideias e pessoas mudam, sempre; algumas coisas acabam porque outras melhores, mais acertadas, estão para começar; e, principalmente, que os Homens, bem, são apenas homens.

 

Como o período de luto ou de ressaca literária já acabou, iniciei outro, "O Retrato de Dorian Grey" de Oscar Wilde. Talvez com esse escreva uma crítica a sério, talvez não escreva nada. Votem bem!

20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

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@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

08
Set15

Call Center, O Monstro


Leonardo Rodrigues

Inicialmente, acho que só tinha coisas negativas para escrever. Agora, numa balança em que de um lado se coloca positivo e do outro negativo, tenho mais para pesar.

 

Não sou muito bom naquilo que faço, nem sei se o quero ser, sê-lo parece-se com desistir. Contudo, sendo eu uma pessoa com azar no amor e sorte no jogo, lá vou vendendo e cumprindo objetivos.

 

No trabalho, de tanto ouvir, já não quero ouvir. Aquele interesse por ouvir e saber mais, que quem me conhece reconhece em mim, como que vai desaparecendo a cada chamada que recebo. Já não quero que me expliquem como é viver em certa localidade, passemos adiante homens e mulheres!

 

A desumanidade atribuída a um operador de call center por quem está do outro lado da linha verifica-se e, confesso, também passei a atribuí-la ao cliente. As vozes têm todas um nome, Cliente. De serem tantas, quase que parecem iguais, apenas umas se fazem ouvir mais alto que outras. As perguntas e as respostas tornam-se automáticas e têm um objetivo comum, a venda.

 

Este é um trabalho digno deste século e, embora preze e use muito do que agora se inventa, não me agrada que toda a interação num trabalho se baseie no contacto com máquinas que dão acesso a uma ficha que, por sua vez, se faz acompanhar de uma voz mais ou menos irritada, com mais ou menos vontade de comprar.

 

Posto estes pensamentos pensados em horas menos boas, o trabalho, por vezes, dá-me vontade de sorrir. Conseguir que um cliente que é também um paciente com cancro solte uma gargalhada, não sendo essa a minha função, faz-me bem. Do outro lado da balança, que se faz sempre pesar, lembra-me que as empresas fazem contratos que asseguram unicamente o seu bem estar, não abrangendo o mau estar do cliente que se faz verifica com cancros, mortes, desemprego, mudanças de casa e afins. Talvez não seja o meu trabalho temporário a não ser humano, as empresas é que cada vez o são menos.

 

É-me difícil fugir do lado negativo, mas vou, novamente, tentar escrever-vos sobre o outro ingrediente. No outro dia emocionei-me, estava a fechar uma venda, mas pelo meio, enquanto o computador decidia se havia de cooperar, fui conversando, mais ouvindo, uma senhora. Esta chamada vai ficar comigo por algum tempo. Ela tratava-me como uma pessoa, eu tratava-a como outra. Começamos a trocar experiências de vida, o porquê não sei. A verdade é que a mesma tecnologia que pode destruir também pode aproximar.

 

A senhora tinha sido abandonada grávida, tal como a minha mãe o foi há 21 anos. Ambas criaram os filhos da melhor forma que sabiam, como podiam, com o apoio da família e de amigos – que chegam a ser mais família que a família. (Confidencio-vos que a minha mãe, para subsistir, chegou a levar-me, ainda bebé, para o nosso terreno e deixava-me num cantinho, muito bem aconchegado em mantas, enquanto lavrava a terra.) A senhora, que não posso revelar o nome, disse-me que deveria dar muito valor à minha mãe, que esta era uma “mãe coragem/guerreira” – ouvir isto deixou-me com uma lágrima no canto do olho. Nunca a tinha pensado assim, com este apelido que me parece tão forte. E, embora na altura a minha mãe não tivesse consciência disso, foi preciso muita coragem disfarçada de instinto.

 

Ao longo desta chamada não estive preocupado em anotar corretamente tudo o que era número, embora também o tivesse feito, mas sim o que ela me ia dizendo, palavra por palavra.

 

A senhora, ao prosseguir com o seu discurso de pessoa que viveu e aprendeu, disse-me que agora é feliz, que agora é realizada, mesmo depois de ter perdido aquele que seria o seu segundo filho. No que à família diz respeito disse-me que, sim, é importante, que é o pai dela “na terra e deus no céu”, mas que esta sua realização maior vem de ter encontrado o amor, um companheiro que a preenche. Afinal de contas a família que criamos – ou que pensamos criar, no meu caso - tem sempre um valor diferente daquela que nos é oferecida quando nascemos. ”Precisamos sempre de alguém, embora estejamos sempre a negá-lo”.

 

Agradeci-lhe as suas tão sábias palavras e disse-lhe que me sentia com sorte de a ter em chamada porque nem todos os clientes são assim e porque por vezes dizem o que dizem, ela respondeu-me da forma mais simples, “Não vale a pena sermos maus nesta vida, temos de entender o outro”. Numa palavra, Respeito!

 

Confidenciou-me, ainda e por fim, que depois de ter dado a luz o filho morto foi criticada por uma mulher qualquer por não ir sempre ao cemitério, à qual respondeu “olhe, se eu quiser chorar choro em casa, chorar na rua não me vai trazer a filho de volta.” Confiro.

 

Ter a oportunidade de desenvolver uma empatia com pessoas que nunca vi e que nunca vou ouvir outra vez não é das únicas coisas boas. Estes primeiros trabalhos, que embora não sejam nada fáceis, têm-me servido para desenvolver um sentido de responsabilidade maior e deixam-me com um grande jogo de cintura noutras esferas da minha vida.

 

Nos dias que correm este é daqueles trabalhos da praxe que grande parte dos jovens se sujeitam à medida que se vão tornando responsáveis pela sua vida, renda, comida, roupa, propinas, livros e cada gota de café que nos perfuma a alma – sim, porque não poder comprar café é uma preocupação que se sobrepõe à minha próxima propina.

 

Ah, e não se preocupem que tenho deixado um belo registo escrito das várias formas que a loucura e estupidez que um cliente pode demonstrar, mas só o irei publicar no blog assim que esta minha experiência acabe. Não posso precisar uma data, até porque os contratos que se vão assinando têm uma duração de quinze dias.

 

Quando era mais novo vivia um monstro debaixo da minha cama, mas não tinha nome. Depois, à medida que fui ganhado segurança e conhecimento do mundo que me rodeava, foi-se embora. O Call Center é apenas mais um que, tal como todos os monstros todos antes deste, só existe em fases de transição e crescimento, que não se demoram muito a ser ultrapassadas. Haverão outros, e que venham eles!

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@gratisografy

 

 

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