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LEONISMOS

LEONISMOS

25
Abr16

Obrigado, 25 de abril!


Leonardo Rodrigues

A Revolução dos Cravos, como prefiro que se chame, não se processou tal e qual como se escreve nos livros de história. Não podia, é demasiado perfeita. Não quero saber! Escolho deliberadamente ignorar parte da Revolução. Importo-me com o que esta nos trouxe, onde estamos e para onde podemos caminhar porque este dia, há exatamente 42 anos, aconteceu. Porque alguns foram corajosos por si e por aqueles que nada podiam fazer. Todos os anos olho para trás e, em jeito de oração que não sei fazer muito bem, agradeço. Há 42 anos censurava-se com um "lápis azul", ups fazia-se um Exame Prévio, prendia-se e torturava-se por suspeitas de "diz que disse". Hoje posso escrever os meus "Isto e Aquilo" num blog, posso ousar ter uma opinião diferente e expô-la. Vou poder exercer a minha profissão de jornalista sem medo. Não se esqueçam que existem outras liberdades a conquistar e que, todos os dias, atentados às já consolidadas ganham nova força. Não basta plantar um cravo, há que cuidar. O trabalho só acaba quando cá já não estivermos. Rebelem-se quando para isso houver necessidade. Por agora, obrigado aos corajosos do passado, que conseguiram ver o futuro. 

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 Fotografia de Samuel Pimenta

07
Ago15

Ler +, Viver + e desculpar-se -


Leonardo Rodrigues

 

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Foto sem direitos de autor 

 

Quantos de vós gostariam de ler mais e não o fazem por falta de tempo?

 

Isto de ler nem sempre é fácil à primeira vista, mesmo para quem gosta, especialmente para um trabalhador-estudante que tem de acompanhar mil e uma séries, jantar com os amigos, faltar às aulas para ir até ao Porto, cumprir certas obrigações e fazer sabe-se lá mais o quê.

 

Há quase um ano que não conseguia acabar um livro, excetuando aqueles que se podem ler num dia uma frase, noutro dia outra, acabando tudo por fazer sempre muito sentido.

 

Com aqueles que, para uma compreensão total da obra, se exige uma leitura do princípio, do meio e do fim - mesmo que o autor lá vá trocando a ordem das coisas a seu belo prazer - começava, lia até meio, passava a ter algo de mais importante a fazer e colocava de parte. Eventualmente surgia outro livro que considerava imperativo ler e dava-se uma repetição do ciclo.

 

Esta história que andava a contar da falta de tempo, como muitas das que conto (e que sei que toda a gente conta), parecia-me familiar, há uns tempos tinha uma muito semelhante: não tinha tempo para começar um blog e mantê-lo. Surpresa, não só consegui começar como estou a escrever mais do que nunca e, nos dias e posts de sorte, ainda tendo o privilégio de ser destacado pelo Sapo - algo que agradeço imenso.

 

Agora não falando apenas das leituras, mas falando sempre, fabricamos constantemente histórias que nos impedem de fazer o que gostamos, por vezes destes prazeres tão simples como ler e escrever. Fabricamos não só para não fazer, mas para não viver.

 

Se formos a observar bem, e voltando agora de forma concreta às leituras, até temos tempo. Momentos para ler livros a sério não faltam. As oportunidades estão em todo o lado. Se posso ler tudo o que é notícia, ouvir música, escrever, trabalhar e passear, posso ler a sério. A minha vida está cheia de oportunidades:

 

Ora, temos a viagem de dez minutos de comboio que faço duas vezes por dia, as mil e uma pausas no trabalho, a horita que nos dão porque assim são obrigados e todas as mais que preciosas idas ao café. Ah, e a verdade seja dita, se podemos levar um tablet para a casa de banho e jogar Temple Run, podemos levar um livro.

 

Neste momento estou a ler A filha do Conspirador, de Philippa Gregory. Está a ser uma delícia. Ainda não decidi se vou fazer uma review ou não, maioritariamente porque ainda não decidi se o sei fazer ou não. António Lobo Antunes acha que não se deve falar de livros e talvez use isto como desculpa, até mudar de ideias.

 

Já agora, se quiserem partilhar, adoraria saber o que andam a ler e o que prescrevem para a minha reabilitação literária.

 

 

27
Jun15

O Facebook, o Arco Íris e os Monocromáticos do Restelo


Leonardo Rodrigues

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Ontem, assim que me apercebi que o Facebook estava a celebrar algo que me parece determinante para o curso da Humanidade, claro que decidi fazer parte. Afinal de contas estava a fazer um pequeno contributo para a comunidade LGBT, para a normalização do que sempre foi natural e a ganhar uma foto de perfil nova, cheia de vida e de cor. 

 

Minutos depois, fiz o upload da fotografia mais colorida que alguma vez tive no Instagram. Olhem, em 10 minutos perdi mais de 10 seguidores, acho que isto diz muito. Não me incomodou, se lhes é difícil percepcionar uma paleta de cores variadas prefiro que não me sigam. Não deve ser fácil viver num mundo monocromático, eu percebo-vos e têm todo o meu apoio - para procurar ajuda. 

 

Hoje, enquanto regressava do supermercado - espero mesmo que desta vez a comida dure a semana toda - observava toda a diversidade caraterística de Alcântara. Houve progressos sim senhores, já não se gritam insultos, não se muda para o outro lado da rua, nem se espanca ninguém só por ter uma cor diferente. Até sorrimos uns para os outros, vejam lá. E isto é o que me parece, mas também nunca fui dessas coisas, lembro-me, por exemplo, de me meter em confusões para defender um rapaz negro no secundário. Enfim, por outro lado, se alguém na rua for remotamente identificado como homossexual ainda há um insultosito que se tosse, um escarro que teve de tem de ser cuspido naquele preciso momento e que se acompanha de um olhar reprovador.

 

Vejam lá se as seguintes frases fazem sentido: Concordo com isso de se ser preto, mas se fosse na minha família já não achava muita piada;  Pretos, até podem ser, mas dentro de casa; Não me venham com essas pretalhisses; Preto com branco, onde é que já se viu?; Não percebo porque escolheram ser pretos, o branco não é mais bonito?

 

Não me ocorrem mais disparates. Quem estiver a ler isto pode considerar que não posso comparar o racismo com homofobia. Posso, e sabem porquê? Porque são ambas aversões ao que é natural, ao que não se escolhe. Vou dizer duas coisas básicas: a homossexualidade foi observada em mais de 300 espécies e, tendo em conta toda a descriminação que ainda há, acham mesmo que alguém iria fazer tal escolha? Acho que isto chega para meditar.

 

Sempre houve uma aversão perante que é desconhecido, estranho, diferente. Estas palavras costumam confundem-se com o errado. Quando as pessoas se familiarizam com os assuntos começam a ver as coisas com outros olhos. O Facebook fez a sua parte e eu estou a fazer a minha. 

 

Bom fim de semana!

 

P.S. Se quiserem uma foto mais colorida cliquem aqui.

20
Jun15

“Não, obrigado"


Leonardo Rodrigues

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"Não, obrigado".

 

Foi isto que ouvi hoje por parte de um sem abrigo a quem tentei oferecer algum dinheiro.

 

Costumo ver este senhor, quase todos os dias, a comer à porta de um prédio para o qual a minha janela tem vista.

 

Sempre o vi com comida e nunca senti necessidade de ajudar. Não sabia era de onde vinha essa comida. 

 

Há umas horas vi-o a vasculhar os caixotes de lixo de todos os prédios da rua. Acabei o meu vinho, agarrei em todo o troco que tinha em casa e desci as escadas a correr, continuei a correr rua abaixo feito herói - afinal de contas ia conseguir pagar um jantar, achava eu, a quem claramente precisava.

 

Com toda a dignidade que o senhor merece, dei-lhe boa tarde, disse que o tinha visto - não havia necessidade de dizer a fazer o quê, afinal estava a remexer o fundo de um caixote - e expliquei que lhe queria dar algum dinheiro. A isto ele respondeu-me com um simples “Não, obrigado”. Eu, sem perceber muito bem, insisti. Na segunda tentativa ouvi “Não, obrigado, eu não preciso”. Novamente, ignorei o que me tinha sido dito e, porque à terceira é de vez, perguntei se aceitava comida, ele repetiu o mesmo “Não, obrigado” inicial, só que desta vez olhou-me nos olhos e eu quase que percebi. Desejei-lhe um bom dia e voltei para casa na mesma velocidade com que o tentei ajudar.

 

Não sei bem se não aceitou por não querer ser ajudado ou por não se achar digno de ser ajudado, orgulho não deveria ser. Espero é que o facto de não o ter tratado como algo de invisível lhe tenha servido de alguma coisa, quiçá isto se revele mais valioso do que um jantar. Por vezes, saber que há alguém a querer ajudar é mais importante do que a ajuda em si. E, a verdade seja dita, ninguém me pediu nada, vou tentar ficar mais atento aos que me pedem, há sempre alguém a precisar de um herói.

 

A fotografia foi retirada de festivaldc.com 

25
Abr15

E um 25 de abril pelos touros?


Leonardo Rodrigues

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Nos últimos dias, como muitos de vós devem ter visto, um vídeo feito pelo Nuno Markl e pelo Ricardo Araújo Pereira gerou uma certa polémica nas redes sociais, e com polémica quero dizer ameaças de morte e afins.

 

Não, nenhum deles ameaçou nada, nem ninguém. Pelo contrário, apelavam a que duas petições fossem assinadas, uma para que se parasse de canalizar dinheiros públicos para as touradas - "é capaz de haver duas ou três prioridades" - e outra para que crianças não assistam nem participem nas touradas, "é capaz de ser cedo", diz-nos Ricardo. Parece-me razóavel. 

Tradicionalmente isto é uma heresia. 

Tradicionalmente também já se separou negros dos brancos, já se escravizou e já se queimou com vida muito boa gente. Tradicionalmente ainda se apedreja até a morte - mais mulheres do que homens - quase porque simplesmente apetece, ainda se mata porque existem pessoas com ideias e preferências diferentes, ainda se olha de lado.

Se o que escrevi acima não parecer nada de muito civilizado é porque não é. Matar pouco tem de civilizado. 

Não há muito tempo uma veterinária nos Estados Unidos meteu um espeto num gato e foi despedida, em Portugal talvez ganhasse um reality show. Ou talvez não porque um gato é diferente dum touro. Deus fez o touro para espetar e o gato para animal doméstico. Às vezes esqueço-me disto, tantos são os ensinamentos da sociedade.

Deixo-vos um touro num registo diferente:

Nem tudo o que está enraizado na cultura é bom. Se algo envolve violência, raiva, dor, sangue, talvez seja dispensável, por mais apelativo que possa parecer a alguém. Só se evolui quando se rompe com o estabelecido. 

Hoje celebra-se isso mesmo, a rotura com o Antigo Regime. Se podemos dizer e fazer o que nos apetece, desde, claro, que respeitemos a liberdade do outro, devemos a esta rotura, aos corajosos que foram contra a barbaridade estabelecida. Tal como os mais que muitos portugueses que foram forçados a combater no Ultramar, o touro, se tivesse liberdade, com certeza que sairia "a salto". É preciso que hajam ainda mais corajosos por eles e não contra eles.

E um 25 de abril pelos touros? Talvez não, porque feriados também já quase não temos, mas podem assinar o que está em baixo: 

http://www.enterrartouradas.org (petição em causa no vídeo) 

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=010basta

 

 

 

24
Abr15

30


Leonardo Rodrigues

 

Fonte: U.S. Antarctic Program Photo Library

 

Trinta foram os minutos que disse que iria escrever por dia, não a mim, mas a quem perguntou.

Uma alma caridosa gravou-me um áudio que dizia "Escreve meia hora Leonardo", três vezes, e ouvia-se também um piano.

Esta noite voltei a ouvir o piano, mas em imagens.

Bastaram-me trinta segundos de um documentário sobre a Antártida (Antarctica: A Year on Ice) para saber que a dada altura da minha vida quero afastar-me de tudo, experimentar silêncio, solidão, paz de forma absoluta – mesmo que por um dia.

É pouco provável que me deixem experimentar estes clichés todos lá. Ainda assim, há algo a passar-se por aquelas terras geladas que não acontece em mais lado nenhum, que eu nem sabia que o homem é capaz de fazer: NÃO INTERFERIR.

Isto do não interferir não vem de uma passividade mórbida, mas de um respeito absoluto pela natureza e pelo que é. Lá deixam que as coisas tomem o seu curso. Uma das imagens que mais me chocou foi ver uma foca que se desviou do caminho morrer. Se não estivessem a observar, as coisas iriam processar-se exatamente da mesma maneira. A foca iria perder-se, morrer, congelar, descongelar e servir de alimento a uma ave qualquer.

Naquela morte vi uma certa beleza, sabia que não fazia mal, é o que é suposto acontecer e, garantidamente, vai acontecer com tudo e todos.

No mundinho em que vivemos interfere-se. Cortam-se milhões de árvores que estão ali porque sim e plantam-se algumas para ladear as avenidas que impermiabilizaram quilometros de terra. Pegam-se em animais inocentes, alimentamos com comida geneticamente modificada e depois matamos. Deus nos livre  de deixar uma cadeia de fast-food abrir falência.

Não me apetece dar mais exemplos, mas tal como me disse muitas vezes a minha mãe, "às vezes mais vale tar quiete".

Se têm mais de 30 ou não, não importa, estarão sempre em idade de se manterem quietos e observarem.

Podem, quiçá, só precisar de 30 segundos.

 

Fica aqui o trailer do documentário para quem quiser ver:

 

 

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