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LEONISMOS

LEONISMOS

03
Ago15

Drama!


Leonardo Rodrigues

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Quando não há, inventa-se.

 

Porquê e para quê, perguntam-se e pergunto-me.

 

Chego a uma conclusão, o drama serve para conferir sentido. É a forma que alguns escolhem para dar sentido à vida que, de si, tem pouco ou nenhum. O esforço é mínimo, a irritação do povo que percebe máxima. E isto, diga-se de passagem, é mórbido.

 

Mas, mórbido ou não, o entretenimento egoísta de um dos intervenientes é sempre garantido. Entretem-se reproduzindo uma telenovela que sempre teve e terá o mesmo enredo e onde apenas, com sorte, se varia o nome das personagens.

 

Pois bem, se há coisa que sei é: quando a telenovela começa é hora de mudar o canal.

 

10
Jun15

Cio Emocional


Leonardo Rodrigues

 

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Há umas semanas teorizei acerca do facto de andarmos todos a ficar para o puta. Talvez não seja bem assim.

 

Não se pode negar que isto de ser humano vem com uma forte componente sexual, com certas necessidades. No entanto o que me tem parecido é que estas necessidades cada vez mais se apresentam como falsas necessidades, parece que é isto, mas afinal é aquilo e, aquilo, às vezes até nem era nada.

 

Permitam-me, então, reformular, não estamos “mais para o puta”, estamos - alguns - apenas com o Cio Emocional. Precisamos de sentir. 

 

A este pseudo conceito, como todos aqueles outros que invento durante o dia - e noite, quando a insónia quer - , cheguei através de uma conversa com amigos. A conversa foi qualquer coisa como: Acho que estou com o cio, Então mas não tiveste sexo há 5 minutos, Sim, Estás com o cio emocional, mas é. Não importa quem estava com o quê ou, melhor, quem achava que estava com o quê.

 

O que importa, sim, é perceber isto do cio das emoções, dos afetos. A primeira definição que me surgiu foi: quando te falta qualquer coisa, achas que é de sexo que se trata ou que isto a pode tratar e, uma vez a “vontade saciada”, o estado persiste. Continua a faltar qualquer coisa. Talvez fosse apenas de um abraço que precisasses, daqueles mais quentes, que duram horas. O melhor que já me disseram foi “Não precisas de uma foda, precisas de um abraço, vem cá” - imaginem tal coisa dita em inglês. 

 

(Talvez até nem se precise de nada, se calhar falo daquilo do querer sempre mais, que não se pode saciar nem com sexo, nem com nada.)

 

No terreno - dating world, sex dating world - percebe-se, duma parte e da outra: Falhou uma vez, Não falhou mas está longe, Nunca encontrei ninguém, nem nunca vou encontrar, Já perdi a esperança. Parou-se de procurar algo mais porque no passado correu mal, porém, e isto deve ser repetido quantas vezes forem necessárias: só o presente importa.

 

E olhem, não há como procurar, mesmo que se magoe aqui e ali, aprende-se. Popularmente há quem diga que quem procura sempre encontra, outros que é quando não se procura que aparece. Que venha o cupido e escolha!

 

A definição que apresentei acima não é, de todo, científica, eu também não o sou. No entanto, para tornar isto o mais abrangente possível, fui perguntar a alguns dos meus amigos, - do estudante ao professor, do homossexual à heterossexual - , o que era isto do cio emocional, se existia, se é igual para ambos os sexos, qual a experiência. As respostas confirmaram a minha teoria, deixo-vos as passagens mais interessantes:

 

“Cio emocional é um frustrante estado de alma, consumado com o despertar da mente, após uma fugaz satisfação sexual. (…) Oferecemo-nos ao outro aos pedaços. Somos inteiros apenas nos momentos de frustração, em que a inquietação sobre o que realmente queremos impera. A superficialidade da rotina, do encontro imediato, da rapidez do toque, não preenche e não basta a quem planeia um pouco mais para si e, eventualmente, para o outro a seu lado.”

P.L., estudante, Lisboa

 

“Não sei em termos de psicologia humana, com certeza que há estudos sobre isso, mas pela experiência que eu tive, achei que tive as duas carências: a física de sexo e prazer físico, é claro, a emocional também... Ou seja, no meu caso não era falsa ilusão de sexo, porque queria a sensação é prazer físico, mas a parte emocional seria a que mais procurava, talvez. Em cada homem que eu pensava em ter sexo, seria sim com o fim de construir algo mais e de me preencher algo emocional.”

C., médica, Porto

 

“Quanto ao Cio Emocional, sem dúvida que existe. Seja mascarado de carência, afectos a transbordar, tesão de alma, ou de entre-pernas, medo de solidão, "achar que desta é que é", lá que existe, isso sem dúvida. E, Leonardo, se se conseguisse disfarçar o (não ter) afecto com o sexo, estávamos todos saciados e apaixonados pela nossa mão direita, à excepção provavelmente dos canhotos.”

M.F., psicólogo 

 

“Cio emocional é quando tu precisas mais de um abraço do que de um orgasmo, mas optas pelo orgasmo porque nos dias  de hoje é mais fácil arranjar quem nos foda do que quem nos abrace. Nos primeiros cinco minutos depois de me vir estou satisfeito. Depois o efeito acaba e volto a me sentir sozinho. Geralmente não procuro compensar o lado emocional/afetivo desta forma, mas há quem o faça. Parecem hamsters sempre a dar voltas no mesmo sitio. Vai chegar o dia em que ja comeram todos e a noite vai ser passada sem companhia. É preciso parar para fazer um balanço.”

L.C, Lisboa

 

“Sei que estou constantemente a precisar de carinho e de sentir que sou amada, e o sexo acaba por ser a forma mais fácil de o conseguir, mesmo sendo uma ilusão e por meros minutos.”

C.P, estudante, Lisboa 

 

“Acho que sim, especialmente numa relação entre dois homens, é de cio emocional que se trata. A maior parte procura afecto e não sabe, pensa que só quer sexo, mas não quer. Quer afecto, mas tem medo dele, das emoções e por isso, depois da queca, adeus adeus

Estão numa eterna busca por alguma coisa até darem conta que já comeram Lisboa inteira. Os amores chegam e vão ainda mais depressa do que chegam. Mas, se conseguires nutrir boas amizades, parte da tua necessidade de afecto fica resolvida. Claro que há sempre uma componente mais íntima em que os amigos não entram. As pessoas esquecem-se que o sexo é, possivelmente, a maior troca energética que dois humanos, ou mais, podem fazer, e nessa troca acontece muita coisa, a outros níveis. É um acto que deve ser feito de forma responsável e não só porque sim.”

S, lisboa 

 

“A mim "cio" nunca me deu, dá-me mais falta é das outras coisas mais básicas de um casal. Por exemplo, no outro dia, com quem estou agora fizemos sexo e depois fomos ver um filme e sinceramente gostei mais do pós-sexo do que o sexo em si, e não estou a dizer que o sexo foi mau. Quando iniciei a minha vida sexual só procurava sexo, depois cheguei a uma fase em que queria mais, mas alguma coisa dentro de mim não deixava que eu gostasse de mim mesmo. Só após arranjar este grupo de amigos, no qual sou abertamente gay, é que consegui aceitá-lo e falar abertamente. Conseguir dizer que sou gay permitiu-me procurar algo mais do que sexo. Agora sim, sinto-me eu.”

F.N, estudante, Porto

 

“Sim, ja acreditei que precisava de ter sexo para estar bem, e acreditei mesmo, pois dava-me energia e tudo isso. Entretanto, sabemos que não precisamos de nada disso, nem do afeto dos outros… Acreditava tanto, que criei dependência disso, loucura absoluta. Isto aconteceu, em período de grande confusão. A ilusão do sexo é de facto grande. De qualquer modo o ter sexo faz parte da nossa condição humana. Para se estar bem, é que já e outra coisa. Eu já acreditei nisso! Mas o mais curioso, é que de um modo geral eu ficava bem, depois disso, a carência, vinha no dia seguinte. Há sempre essa carência!”

L.C, professora, Madeira

 

"Isso tem tudo a ver com carência emocional, com distorção de sentimentos, com afetividade apenas por mero prazer. Cio, ok, cio porque regemo-nos por apetite sexual, pelo desejo do momento e daí que as traições sejam, por vezes, casuais. A questão é: qual a barreira que nos impede de utilizar o nosso corpo, enquanto trunfo pessoal, para o que nos der na gana?"

J, professora, Açores

 

A conclusão razoável a que podemos chegar é que tanto o sexo como o afeto são necessidades a que temos de dar resposta, mas que são complementares. O sexo é como uma droga: ajuda a esquecer, mas apenas temporariamente, nunca é suficiente e traz ressaca. Tudo nesta vida deve ser visto como um todo. Nada do que eu ou os meus amigos escrevemos se pode apresentar como verdade absoluta, pessoas diferentes funcionam de formas diferentes, mas que se reflita sobre as coisas, que vivam felizes para sempre que é isso que se quer. E não se esqueçam do que o nosso argumento de autoridade disse: “se se conseguisse disfarçar o (não ter) afecto com o sexo, estávamos todos saciados e apaixonados pela nossa mão direita, à excepção provavelmente dos canhotos.”

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