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LEONISMOS

LEONISMOS

12
Out16

"Quando tinha a tua idade é que era bom"


Leonardo Rodrigues

Quando viajo até à infância lembro-me sempre de algo novo, por vezes empolgante, mais frequentemente devastador. Uma que tenho visitado com frequência é o desejo de crescer, ser mais velho, ter isto e um pouco mais daquilo. Queria, essencialmente, deter O segredo. Achava que esse segredo iria permitir entender o puzzle todo e dar-me a certeza no olhar.  Os adultos até podem ter comprado O Segredo de Rhonda Byrne, como eu, mas na realidade ninguém sabe o que está a fazer. Não há manual de instruções nem nunca houve. O livro é engodo e a vida também. Mesmo sem saber tanto quanto fingem, numa coisa não mentiram, quando tinha a tua idade é que era bom, sempre nostálgicos. Pois era. Por mais que tudo corresse mal, o mundo era um lugar mágico, onde as incertezas eram só portais para um local ainda mais mágico e misterioso. Tudo estava para acontecer. À minha volta parece apenas que à medida que o tempo passa deixamos de saber dançar junto destes portais, afinal agora como temos certezas e sabemos o que fazer, não há lugar para istos e aquilos e nada pode ser diferente. O segredo, no máximo, é que não há segredos desta natureza e que, nada sendo resultado da concretude das coisas, está tudo a um sopro de voltar ao pó. Temos de dançar e ser crianças. Era bom.

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 Uma fotografia mais nítida não foi possível até a data de redação deste post

13
Mai16

Cresci na Cozinha


Leonardo Rodrigues

Ainda agora comecei o post e já tenho de me corrigir, Cresci em várias cozinhas, essencialmente em 3. A principal é a lá de casa, na Madeira, uma cozinha que é mais sala do que a própria sala. É a entrada e a saída. Quando lá vivia, funcionava como um género de ponto de encontro, onde comíamos, conversávamos, discutíamos, ríamos e chorávamos. (Não admira que seja um emotional eater, Cresci, mesmo, na Cozinha.) Aqui estavam as caminhas dos cães - um dos problemas para conseguir chegar à escola com a roupa sem manchas, como vos contei aqui. E, era por lá que tinha de passar obrigatoriamente para chegar aos quartos, ao quintal e à casa de banho. Tive de me deixar do lema que afirma que todos os caminhos vão dar a Roma, a minha casa ensinou-me que todos os corredores vão dar à cozinha. Em segundo lugar, está a cozinha da minha avó. Agora que penso nisto, as nossas casas tinham todas plantas bastante estranhas. A sala como que ficava fora de mão, então era na cozinha que liam o jornal, que eu devorava desenhos animados, tentava falar apaixonadamente de coisas que não dominava e que, inevitavelmente, presenciava a minha avó a fazer magia. A magia assumia a forma de bolos que perfumavam as ruas, do milho com couve que tinha de repousar nos pratos, a espetada no forno a lenha, e, por fim, a sopa - escrevi sapo, ando claramente a passar demasiado tempo por estas bandas. Ai a sopa. A sopa que aquela mulher fazia permitiu-me ser daqueles miúdos que nunca fizeram uma birra para comer legumes. Para terminar com isto das minhas 3 cozinhas, temos a a cozinha mais interessante de todas, uma industrial - fascinava-me na altura. Foi aí que a minha mãe, conjuntamente com umas 15 mulheres, tirou 3 cursos de culinária. Se pensam que por isso comi melhor, enganam-se, só mesmo nas provas do final de cada aula. A minha mãe pura e simplesmente não cozinha em casa, essa tarefa ficou para a minha tia.... Sempre gostei de comer e de ajudar na confeção dos pratos, mas, com 15 anos, vi-me na obrigação de também começar a cozinhar só para mim. Isto, porque com esta idade comecei a ter contacto com certo tipo de literatura, como OSHO, algo que me fez optar pelo vegetarianismo. Aí, tornei-me mestre em manipular um certo ingrediente. Porquê contar-vos isto tudo e parar aqui? Porque, meu caros, a Mula mais querida atualmente a habitar este planeta convidou-me a participar numa edição da rubrica "na cozinha com", pelo que esta história acabará por lá. Vou ter uma quarta cozinha na minha vida e, pela primeira vez, fica num curral. Prestem atenção às vossas "Leituras".

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 Fotografia tirada no RDA, pelo Rui - tenho tanto sono que hoje nem edições se me dignei a fazer.

10
Mai16

Vinho, Amor e Felicidade


Leonardo Rodrigues

Gosto de vinho e de tudo o que tem a ver com o mesmo, acontece que de enologia percebo pouco ou nada. Felizmente, cruzo-me com pessoas de bom gosto, entendidas da coisa, que até piadas com Casal Garcia se podem - conseguir não é poder - fazer. Nunca tenho de me dar ao trabalho de escolher, só de respeitar o decantar do vinho, a sua oxigenação e desfrutar. Do vinho e da companhia. Na Madeira, cresci muito perto do vinho. Participei nas vindimas e fui, descalço, para o lagar da minha avó pisar as uvas, ajudando-as a expelir o néctar aprovado e recomendado por deuses. Tudo me parecia contraditório: dezenas de homens eram contratados, pela minha avó, para vindimar, depois tinham de carregar baldes pretos gigantes com cachos de uva Americana, Americana Branca, Jaquê - "a que pinta os lábios e as mãos", "Negramol" - Tinta Negra Mole, um cruzamento de castas francesas usado no fabrico do Vinho Madeira - "Agremón", Chenin, contudo ensinaram-me a não gostar, porque fazia mal e porque era só para adultos. Agora já não acho contraditório, nem os censuro por terem guardado uma das bebidas dos deuses - a outra é o café - só para eles, o meu fígado não estava plenamente desenvolvido então. Ainda assim, a frustração era maior do que naquelas situações em que se pode ver e não se pode tocar, podia ver, podia tocar, podia fazer, mas não podia beber. O fruto proibido tornou-se muito apetecido, mas tive que esperar para poder aprender a gostar de vinho. Gostar de vinho, na minha opinião, sim, aprende-se. Aprendi a gostar de vinho com 19. Curiosamente, não aprendi a gostar pelos tintos, mas sim por um branco, Planalto da Casa Ferreirinha. Aprendi quando me apaixonei. Mas enquanto os amores se vão, os vinhos ficam, durante muitos anos. Enquanto o vinho ajuda a curar amores, nunca ouvi o contrário. Enviei há pouco uma mensagem que dizia "São 15h, já é socialmente aceitável estar bêbado". Sejam felizes.

 

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Foto: IVBAM

 

Nota: consultei a minha mãe e a mãe da minha melhor amiga para saber os nomes dados aos tipos de castas e só não consegui verificar a existência da casta agremón, que a minha mãe insiste em pronunciar agremão. Não se fiem.

foto do autor

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