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LEONISMOS

LEONISMOS

25
Out17

A dança da (in)competência


Leonardo Rodrigues

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Antes de mais, este não é um post a dizer a ninguém "és feio, mas sem ofensa". Temos todos uma parte menos bonita, até no que à competência diz respeito. E é disso que quero falar. 

Acredito que a todos devem ser dadas as mesmas ferramentas e oportunidades. Alguns pegarão nisto e irão transformar as suas vidas e as de outros. Outros, mesmo com mérito, nem sempre conseguem lá chegar. Há ainda uma outra esfera que, de forma geral, decide fazer uso do poder político. 

A política não se faz apenas no Estado, está em todo o lado, até nas reuniões de condomínio, e tem que ver com likeabiliy e saber usar a palavra. É o tal jogo de cintura. Seremos hipócritas se dissermos que nunca deixámos uma verdade incómoda no ar para que tivesse um efeito x ou y. 

Existem pessoas que não têm um talento nem capacidade especial, apenas isto, jogo de cintura nível ventre da Shakira. Embora este comportamento por vezes seja sufocante de observar, parece a mais natural dança de sobrevivência, em grandes empresas e no Estado. 

É com esta dança que, muitas vezes, aqueles à margem da competência sobem. Curiosamente, e com pena, nem sempre quem promove isto se apercebe e, pior ainda, quem está na base da cadeia alimentar não ousa dizê-lo. 

Talvez não tenha muito que ver, mas isto faz-me pensar num conceito de economia, chamado de Mão Invisível, a regulação natural e mágica da economia. Como que por magia, parece que deixamos tudo se auto regular, enquanto observadores passivos.

Atenção que sei que metade das vezes não é nada assim. Contudo, quero dizer que seja onde for, para haver uma mudança real, temos de nos juntar à dança, dando o exemplo, dançando e fazendo diferente. É a formula de sempre. 

 

 

 

17
Out17

As árvores vivem de pé


Leonardo Rodrigues

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A vida real não é um espetáculo de grandes planos e de música cinematográfica. Sinto, vez após vez, que os cenários que se descrevem como dantescos se apresentam assim perante nós. 

Pior, as pessoas que elegemos, sucessivamente, fazem o mesmo. Querem pareceres, relatórios, análises e, se ainda houver dinheiro, um desenho. Depois do frenesim mediático, tudo morre, ano após ano. E com a morte mediática, vem a morte da floresta e das gentes. 

Não temos de ir muito longe nesta curta linha de tempo, a Câmara de Leiria sabia que o pinhal necessitava de limpeza. Creio que tinham deixado para 2018. Agora que sobrou um bocadinho de pinhal, talvez mandem fazer um museu em 2020 - desde que, claro, não disturbe o OE.

A culpa não é exclusivamente da inoperância de quem tem meios e autoridade para atuar. É também das empresas com sede de lucro, de quem não faz nem deixa fazer com os terrenos, de quem não limpa, de quem suja, de quem não quer saber, e de quem acha por bem queimar centenas de anos. Como a mãe de uma amiga diz, "quando a lei é branda o homem é mau".

O eucalipto não tinha de ser um inimigo a abater, se não fosse a espécie predominante. É muito bonito termos meio milhão de proprietários florestais, mas corre mal quando temos menos de 16% de floresta pública. Sabemos que o sobreiro - embora existam espécies melhores - serve de "tampão", por causa da cortiça, mas o pinheiro e eucalipto ganham a discussão económica. 

Não tenho dúvidas de que vamos conseguir replantar, que temos conhecimento que chegue para recuperar, mas tem de haver uma completa reestruturação deste sistema. Não chegam palavras de ação sem a ação. Tal como as doenças, a solução mais eficaz, e barata, é prevenir. Além de ser tempo de punir, é de dar o exemplo. Temos de ir para a rua mostrar descontentamento, é verdade, mas também de sair para cuidar.

E, embora a lei tenha de ser dura lex sed lex, serve apenas de relações públicas, se a consciência de um povo não a acompanhar. Precisamos de uma mudança de consciência, precisamos que Portugal perceba que não comemos graças ao dinheiro dos 2% que a floresta alimenta, mas que 100% respira graças às árvores que, vivendo em pé, sem dias de folga, tornam o nosso ar respirável. 

 

 

10
Ago16

A minha Ilha está a arder


Leonardo Rodrigues

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 Foto: Gregório Cunha/Lusa

 

Por uma panóplia de razões tenho estado ausente do blog, mas não há plataforma melhor para manifestar-me perante os eventos mais recentes.

 

Ontem, nas últimas horas do dia -  que decidi que terminava pelas duas da manhã de hoje - não conseguia tirar os olhos da televisão. Tinha companhia, mas também não me apetecia dizer nada. A minha ilha ardia e eu só queria ouvir: a situação está controlada, não existem moradias nem pessoas em risco. À medida que o tempo ia passando apercebi-me que não ia ouvir o que queria: mais moradias ameaçadas, cada vez mais pessoas a serem evacuadas, enquanto outras tantas casas eram galgadas pelo fogo. Até o impensável aconteceu, o fogo passou a estar dentro da cidade, em várias zonas, sem que houvesse meios suficientes para cobrir todos os novos casos.

 

A omnipresença só a deus compete, bem sei, mas não o vi por lá - problemas técnicos, quiçá. Cheirava e sentia-se o inferno, não se via o céu. Os jornalistas diziam e nós viamos: "cenário dantesco", o "fogo maldito".

 

Isto já aconteceu antes. Não com fogo, mas com o elemento oposto, a água, no dia 20 de fevereiro de 2010. Estava no Funchal nesse dia, num centro comercial que acabou por ficar inundado, e vi o desespero de frente. Não perdi nem a vida nem bens, só precisei aguardar pela noite para sair da cidade.

 

Nem todos foram tão afortunados e muitos madeirenses precisaram perder tudo para que finalmente os "senhores lá de cima" começassem a tomar medidas preventivas -  umas mais eficazes que outras, sejamos honestos. Precisámos dessa catástrofe para começar a olhar para as ribeiras de uma outra forma, para perceber que uma ilha com a nossa orografia é mais exigente.

 

Como ouvi a filha do José Saramago dizer ontem, o governo não fez a sua parte. Há muito que o governo e os seus tentáculos na Madeira não fazem a sua parte. Os fogos em 2013 foram um aviso ignorado. Agora, em pleno agosto de 2016, são mais de mil deslocados, dezenas de casas ardidas e três mortos. É esperar que os bombeiros façam o impossível e que, depois, tomem uma atitude preventiva em 2019. A prevenção tem de começar agora, hoje, em todas as zonas suscetíveis. Agosto nem a meio se vai!

 

O primeiro ministro diz, com razão, que os fogos não podem ser apenas combatidos quando já deflagraram, o combate tem de começar antes. Há muito que dizemos isto, mas temos uma ilha e um país a arder. A natureza tem o seu quê de responsabilidade, mas é um "quê" que quase não se ouve - 1%, abutres!

 

Hoje, na RTP, falava-se da condição humana, afinal 99% dos fogos não têm causas naturais - leia-se: há mão de homens, sim, com h minúsculo. No Funchal já foram detidas várias pessoas. Enquanto a cidade ardia, duas pessoas foram apanhadas pela polícia a atear fogo - informação avançada pelo presidente do governo regional na conferência de imprensa desta manhã. É verdade, algumas pessoas numa ação que dura minutos conseguem destruir o que demorou vidas a construir. Para além da prevenção, parece-me que a justiça não consegue impedir que estes seres voltem a cometer tamanha atrocidade.

 

Negativismo de parte, não se esqueçam que há muita solidariedade, entre madeirenses e portugueses no geral. Um exemplo que vi ontem que pode parecer banal para alguns, para mim teve uma força brutal. Enquanto um homem, em entrevista, explicava o que ardia, um jornalista perguntou-lhe se o animal que tinha debaixo do braço era dele, ele disse que não, que encontrou a arara na rua. Estamos unidos, com vontade de ajudar tudo e todos.

 

Sei que a maior parte das pessoas a quem este texto vai chegar sente-se impotente, mas todos podemos fazer alguma coisa, sem correr riscos. Se estão na Madeira, comecem por acolher amigos em necessidade e os animais que andam à solta. Se não podem fazer isto, talvez possam contribuir com bens essencias. Se sim, desloquem-se ao RG3, na Nazaré. Não precisam de criar pânico, só mostrar que estão lá. Aos que, como eu, não estão e querem ajudar, a Caritas reforçou ontem que podem contribuir para o seguinte IBAN: PT50 0035 0697 00597240130 28.

 

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