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LEONISMOS

LEONISMOS

21
Ago17

A mulher que está no mesmo sítio há 20 anos


Leonardo Rodrigues

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Cruzamo-nos com as pessoas mais extraordinárias todos os dias. Arrisco-me a congeminar que todas o são, pudéssemos nós ouvir as suas histórias e pensamentos.

Geralmente deixo-me levar pelas histórias que vou construindo, mas é sempre melhor ouvi-las. Não há muito tempo, estávamos a caminhar debaixo do sol ardente de Atenas, quando dei por mim a subir uma rua para entrar numa galeria de arte, algures no bairro de Plaka. 

Era um sítio apetecível para um turista deslumbrado com a Grécia, com pinturas que mostravam o melhor do país e do mundo. Os quadros eram de um único autor, cujo nome tenho num cartão. 

Não demorou muito até começar a conversar com a única pessoa que lá estava. Era uma mulher nos seus quarentas, com imensa vida dentro dela, um olhar taciturno e um sotaque inglês super peculiar. Era a mulher do artista.

Questionei-a, com entusiasmo, o quão maravilhoso era ter visitado aqueles locais todos. Ela disse-me que não viu nenhum, e que está em Atenas há 20 anos, desde que veio da Albânia à procura de uma vida melhor.

Ele pinta, ela vende. Assim é todos os dias da semana, de manhã à noite. Falámos pouco mais, já que entretanto me tinha desencontrado da minha companhia.

Desde então que penso nesta conversa, na forma como as palavras se organizaram e expressão que tinha no rosto.

Nenhuma forma de viver é errada, caso os olhos indiquem que está tudo bem. Poderemos, nós, deixar-nos ficar no mesmo sítio da vida, contra a nossa vontade? Ou melhor, estamos no sítio onde queremos estar?

 

20
Abr16

Escrever um blog?


Leonardo Rodrigues

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Mais frequentemente do que gostaria, estou em conflito com alguma coisa. Nesses dias, que são os de eleição para o deita abaixo, surgem questões para tudo. Ontem: Leonardo Rodrigues, mas porque raio tens um blog se tens tão pouco tempo para o escrever?

 

Hoje, depois de beber um café bem tirado, chegaram-me várias respostas - afinal quem me lê e conhece sabe que só funciono porque há café neste mundo. Vou tentar - só tentar - resumi-las em cinco.

 

Primeiramente, queria escrever mais e melhor. Agora que passou um ano, sei que é que aqui que reside toda a essência. Antes dos comentários e emails dos que (ainda) são desconhecidos e palavras dos amigos, está um texto construído por mim, em privado, que não poderia sair da cabeça (e mãos) de outra pessoa. São as minhas ideias e vida a adquirirem a forma de um texto, que se organiza cada vez melhor. Escrever primeiro para mim, depois para os outros, dá imenso gozo.

 

Outro dos motivos, que acaba por pesar de igual forma, é acreditar em partilhar. Por algum motivo, acredito que nasci para partilhar coisas com pessoas que transcendem o meu círculo de amigos. Nada, nada, neste mundo vale a pena se não puder ser partilhado com alguém. Gosto de partilhar histórias, as que são minhas minhas e as dos que se cruzam comigo. Gosto de partilhar as descobertas que faço sozinho e, na maior parte dos casos, com os outros. Que melhor forma para o fazer do que na internet, num blog, onde cá estamos (quase) todos?

 

Pequeno ou grande, destacado ou não, mesmo que não seja esse o objetivo, um blog acaba por tocar vidas. E isto, meninos e meninas, senhoras e senhores, é uma responsabilidade. Não é só um post sobre temáticas como a eutanásia que mexe no interior de alguém. Quando decidi começar a partilhar os meus livros com outros, com o passatempo De Mão em Mão, estava também a fazê-lo. Uma das vencedoras agradeceu-me por estar a partilhar com ela "bocadinhos de alma". Não se referia apenas ao livro, como ao blog e à mensagem que deixei no interior do livro. Tocar em alguém sem tocar literalmente, mais do que uma responsabilidade, é um privilégio. 

 

O blog tem-me servido de terapeuta, como se de um diário se tratasse. Ao contrário dos diários que querem ser escritos todos os dias e que só consigo na primeira semana, o blog dá-me liberdade. Muitas das realidades e ficções que passam pela minha cabeça deixo num caderno, sem compromisso, fechado a elástico. Nas vezes em que passei para o blog o que me incomodava, senti-me melhor. Quem leu, e deu feedback, também. São nas coisas "más" que pego para escrever muitos posts, mas os dedos acabam por transformar as palavras e, em três tempos, aprendo uma lição e clico em "publicar".  Com todo o negativismo que por aí há, porque não partilhar aquilo que aprendemos após as experiências negativas? Embora tudo tenha lugar, deixemos o papel de mensageiros da desgraça para os jornalistas.

 

Para terminar, um blog também pode aumentar a confiança, em nós e nas nossas ideias. Acredito que me tornei mais seguro após começar o Leonismos. Vou-vos confidenciar algo. Os primeiros posts que aqui fiz deixaram-me nervoso e a transpirar - como quando tive de fazer a minha primeira apresentação num auditório da faculdade. Tinha medo que houvessem erros e que me julgassem fosse de que forma fosse. Quando o Sapo me destacou um post pela primeira vez, "O que esperar quando se espera: pouco, provavelmente nada.", não sabia o que sentir. Agora não se trata de não me importar com o que os outros pensam, porque isso há de importar sempre, mas já não há medo, estou recetivo ao diálogo e sei que não se pode perder tempo ou energia com a  Senhora Dona Casmurrice.

 

Por agora são estas a coisas que me mantêm a escrever o blog, amanhã podem ser outras ou já nenhuma fazer sentido. Contudo, espero que os que lerem este post, caso já tenham um blog, se sintam incentivados a escrever mais, ou, na falta de um, que comecem. Pronto, por hoje já chega de Leonismos. 

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

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