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LEONISMOS

LEONISMOS

04
Jul16

O mundo sobre rodas de Craig e Lauren - Entrevista (com fotos)


Leonardo Rodrigues

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Escreve-se mal acerca da tecnologia e do que a mesma fez às nossas relações. O que esquecemos, muitas vezes, é que somos nós que detemos o controlo sobre estes meios de ligação ao mundo. As imagens sempre me fascinaram e deus sabe como abundam na internet, especialmente em plataformas como o Instagram. Foi por isso que, há 3 anos, me juntei a esta grande comunidade. Houve retorno. Partilhei momentos que decidi congelar e vi os de outros, de todos os cantos da Terra. Para além de me cruzar com imagens que me fizeram parar durante minutos, de expandir os meus horizontes e de ver o mundo antes de o visitar, conheci gente maravilhosa como o Craig e a Lauren. Este casal percorre o mundo numa carrinha, não levam a casa às costas, mas, sim, sobre rodas. Falei com eles e, garanto-vos, as fotos não mentem, são quem mostram ser: duas almas livres com sede de viver com todos os sentidos. As apresentações estão feitas, só falta ler a nossa conversa. 

 

Leonardo Rodrigues: Em poucas palavras, quem são vocês?

Craig e Lauren: Nómadas a explorar o mundo.

 

LR: Antes de irmos ao tema das viagens, como é que vocês os dois se conheceram? Foi amor à primeira vista?

C&L: Conhecemo-nos há cerca de 10 anos atrás, num restaurante italiano onde trabalhávamos os dois. Não foi amor à primeira vista, éramos apenas amigos de trabalho. Foi então que o Craig decidiu ir viajar com um colega enquanto eu fiquei a trabalhar. Quando voltou, 5 meses depois, para juntar dinheiro para outra viagem, tornamos-nos ainda mais amigos e as coisas fluíram a partir daí.

 

LR: Quando é que decidem que estariam melhor na estrada e começam tudo isto?

C&L: Eu queria ter tentado viajar antes com amigos, mas estes cortaram-se sempre, o Craig ficou com o bichinho das viagens após a viagem com o amigo. Juntos decidimos ir para a Austrália, onde poderíamos viajar e trabalhar. Desta forma iríamos ter também a possibilidade de ver a Ásia com o dinheiro ganho. Acabámos por nos ausentar durante vários anos.

 

LR: Como é que conseguem manter este estilo de vida?

C&L: Nós geralmente trabalhamos como empregados de mesa ou de balcão durante 6 meses até um ano, amealhamos e depois gastamos o dinheiro em experiências. Poupámos imenso de forma a comprar uma carrinha para habitar, uma vez que isto significa que não teremos de pagar hotel. Para além disto, podemos sempre vender a carrinha quando terminada a experiência.

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LR: Durante os últimos oito anos vocês estiveram um pouco por todo o lado e aposto que, mais do que os sítios fantásticos que vemos nas vossas fotografias, conheceram grandes pessoas. Quem é que teve o maior impacto em vocês? Há alguma história que guardam convosco?

C&L: A maior parte das pessoas memoráveis que conhecemos são pessoas que se cruzam connosco nos sítios onde vamos trabalhando. Fizemos grandes amigos. O nosso patrão na Nova Zelândia tinha uma idade próxima da nossa e por isso demo-nos muito bem. Tivemos muita sorte, foi graças a ele que tivemos tantas experiências dignas de nota por lá: ele levou-nos para a sua casa de Lago, em Taupo, onde pescámos pela primeira vez e nadámos em águas claras como o cristal. Ele costumava emprestava-nos o seu carro para as roadtrips que fazíamos nos dias de folga e ainda chegou a convidar-nos a ficar com os pais no campo. Ajudámos a alimentar bezerros e dormimos numa cabana remota. E ainda levaram-nos a caçar.

 

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LR: Qual o vosso truque para planear as viagens?

C&L: Eu faço todo o planeamento e o Craig fica encarregue de conduzir. Geralmente passo os olhos pelo Lonely Planet e escrevo todos os locais que quero visitar, seguido de uma pequena descrição. Depois desenho um mapa e marco onde estes locais se situam, o que me dá uma ideia mais clara sobre a melhor rota a utilizar. Também costumo encontrar fotos no Pinterest, blogs e Instagram de sítios que gosto, que adiciono a este meu mapa.

 

LR: Quando olho para o que fazem vejo apenas uma pequena desvantagem: quando estão na estrada só se têm um ao outro. Costumam chatear-se? Como lidam com isso?

C&L: Sim!!!! Enlouquecemos! *risos* Levamo-nos à loucura constantemente, mas estamos enfiados numa carrinha e não há nenhum outro compartimento para onde possamos ir e amuar, então temos de engolir e seguir em frente. Os pontos altos definitivamente compensam os baixos, a verdade é que estamos bem a maior parte do tempo.

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LR: Diriam que viajar tornou-vos mais fortes enquanto casal?

C&L: Sim. Antes de começarmos a viajar só estivemos juntos durante um ano, depois passámos a estar juntos 24/24. Na maioria dos nossos empregos temos horários e folgas compatíveis, por isso não há pausas um do outro, gostamos assim. Em alguns trabalhos tivemos horários diferentes e isso foi um pouco estranho. Somos uns sortudos por gostarmos tanto da companhia um do outro.

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LR: Ponderam ter uma vida dita normal, criar raízes, ter filhos e essas coisas?

C&L: Talvez no futuro. Estamos a ficar mais velhos. À medida que o tempo passa começamos a preferir gastar mais dinheiro num quarto confortável quando estamos em "modo backpacking”. Em tempos, chegámos a ficar em sítios horripilantes, agora prezamos mais o conforto. Adoraríamos uma casa simples de campo, com apenas um pedaço de terra e uma cabana ou até mesmo viver num daqueles contentores de transporte. Sabemos como manter um estilo de vida minimalista e não precisamos de excessos. Gostaríamos de poder cultivar os nossos próprios vegetais, de ter galinhas, vacas e um cão - mais do que uma criança nesta fase das nossas vidas. Seria ótimo ter uma base destas que nos possibilitasse fazer viagens mais curtas e saber que temos sempre um sítio fixo para onde regressar, quando regressamos a casa.

 

LR: Qual a fotografia que tem a melhor história ou qual a história que tem a melhor fotografia?

C&L: É muito difícil escolher apenas uma fotografia, mas diríamos que é a que tirámos ao estacionar junto de um fiorde na Noruega. Tínhamos uma vista incrível da nossa carrinha e abrimos as portas traseiras para relaxar, uma vez que íamos passar lá a noite. Um navio de cruzeiro enorme passou pelo fiorde com centenas de pessoas a bordo, enquanto estávamos a desfrutar daquele cenário só nós os dois, de borla. Foi uma sensação maravilhosa.

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LR: Podem deixar umas palavras de encorajamento para os aspirantes a viajantes?

C&L: Todos podem viajar como nós. Não temos empregos altamente remunerados, nem recebemos dinheiro dos nossos pais. Muita gente pergunta como conseguimos, quando na realidade toda a gente pode, só têm de tomar a grande decisão de perseguir os vossos sonhos. Comprem uma carrinha, explorem o selvagem, façam caminhadas, nadem, conduzam e repitam. Só têm de gerir bem o dinheiro. Se gostarem muito de frequentar bares a experienciar a vida citadina hão de estar no voo de regresso a casa em pouco tempo ou constantemente a trabalhar e a não ver nada do país de forma a pagarem essa forma de estar.

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LR: O que podemos esperar de vocês em breve?

C&L: A nossa fantástica viagem aos Estados Unidos, claro. Temos até Outubro ou Novembro para chegar à Florida, vai ser uma viagem e pêras. Atualmente estamos a desfrutar das montanhas do Alasca e da sua vida selvagem abundante. Temos uma longa viagem pela região selvagem do Canadá, a caminho das Rocky Mountains. A partir de lá, vamos reentrar nos EUA e explorar o Parque Nacional de Yellowstone, desertos de rocha vermelha e cidades remotas. Eventualmente chegaremos à Florida solarenga, que serve de casa para o peixe-boi, flamingos e crocodilos. Viajamos maioritariamente para experienciar a vida selvagem e a natureza, por isso esperem muitas fotografias bonitas das nossas caminhadas e inspirar pessoas a uma vida numa carrinha.

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Instagram: https://www.instagram.com/nonstoptravelling/

Blog: https://nonstoptravelling.wordpress.com/blogs/

29
Mar16

A não perder: Poríferos Preciosos, de Thomas Mendonça


Leonardo Rodrigues

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O artista plástico Thomas Mendonça está de volta com uma nova exposição. Relembrem a entrevista que lhe fiz aqui.

 

A 19 de março foi dia do Thomas inaugurar, pela primeira vez, uma exposição de cerâmica, que intitulou de Poríferos Preciosos - e que preciosos, devo dizer!

 

A exposição irá estar aberta ao público até dia 31 de março no Museu Geológico - um museu fantástico que me parece um pouco esquecido pelos lisboetas e pouco visitado por quem só está de passagem.

 

Depois de percorrido um corredor ornamentado de fósseis naturais, entramos numa sala onde estão os dos nossos tempos, feitos por um artista - a natureza já não tem tempo para essas coisas.

 

Na inauguração, consegui trocar mais umas palavras com o artista e, claro, dizer-lhe que estava a ver y, para ele me dizer que era mesmo x, o que aprecio.

 

Estas peças delicadas que expõe têm o mar como musa, mais concretamente os seres esponjosos, pertencentes ao reino da porífera. Contudo, como sabem, o trabalho de cerâmica do Thomas não tem só fora, também tem dentro. No interior das mesmas toca sempre uma música, a música do dia - que pode ser algo da rádio, um estado de espírito ou apenas uma piada.

 

Como toca a música dentro das peças? Bem, não toca de forma literal, podemos simplesmente ter a certeza que tocou a dada altura e que lá está escrita, umas vezes é legível, outras não por estar completamente coberta. Isto é algo que não passou despercebido nem aos mais novos, que espreitavam curiosos o interior das peças, tentando ler o que lá estava e, tal como eu, ficando mais intrigados ainda com aquelas que estão completamente fechadas, sem nos deixar saber o que tocou naquele dia.

 

Não hesitem em por lá passar os olhos e deixem-se mergulhar na Porífera criada pelo Thomas!

 

Para verem e conhecerem mais do seu trabalho visitem o website e a página do evento.

31
Jan16

Número Zero, Umberto Eco (Spoiler Alert)


Leonardo Rodrigues

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Umberto Eco, semiólogo, filósofo e romancista italiano regressa às livrarias portuguesas com Número Zero, livro de ficção editado pela editora Gradiva.

 

O livro acaba por não ser apenas, como muito se escreveu, sobre o jornalismo nos dias de hoje e a sua doença - há muito diagnosticada como sensacionalismo - , mas também, sobre a sociedade - que adotou uma postura de passividade - e de que forma o jornalismo acaba por ser o seu espelho, vendendo-se tanto aos leitores como aos interesses dos poderosos que detêm os meios de comunicação.

 

Eco, para tais denúncias, leva-nos para o interior de uma redação piloto de um jornal que não saiu, que não é suposto sair e que, para não haver esperança, não sairá. O hipotético periódico teria como nome Amanhã. No Amanhã, como em qualquer outro jornal, falar-se-ia do ontem que já todos conhecemos pela televisão, mas, e aqui está o seu fator de diferenciação, ao invés de se fazer um retrato fiel do que foi, especula acerca daquilo que será amanhã, dali a uma semana ou até um mês, com tanta certeza que poderia ser um “oráculo”. O objetivo do jornal, ou melhor, os números zero deste jornal é o de intimidar os poderosos de tal maneira que deixe o seu financiador - o Comendador Vimercate - fazer parte do clube restrito. Se deixarem, não se publica o jornal, a missão é cumprida, mas publicar-se-á um livro igualmente duvidoso, assinado pelo diretor.

 

Este livro é a razão de ser do protagonista que, num livro de Eco, não poderia caber senão a um perdedor, o Dr. Communa, - um doutor que nem a licenciatura acabou porque, como sabemos, a culpa é sempre do outro. A sua função, enquanto doutor na arte de perder, é escrever um livro sobre todo o processo de gestação daquilo que que nunca irá nascer - omitindo este facto - para, a posteriori, ser assinado por outro, perdendo mais um pouco também aqui.

 

"Os perdedores, tal como os autodidatas, têm sempre um conhecimento mais vasto do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não podes perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deviam."

 

Como os outros que perdem, sonhava em escrever um livro que lhe desse fama e glória, mas parece que também não era uma grande escritor uma vez que para escrever tinha que citar em demasia e ninguém está para ler algo que necessite de enciclopédias para descortinar. A erudição e a cultura, tal como o diretor recorda a um redator, não vende: "temos de falar a linguagem do leitor, não a dos intelectuais [que estão em menor numero].”

 

À primeira vista, com apenas a sua versão das coisas, não conseguimos perceber se este é simplesmente paranóico, depois, com o andamento do livro, começamos a achar que a sua paranóia teve toda a razão de ser, até que acabamos por concordar que não há necessidade porque temos todos memória curta, somos cada vez mais uns vendidos e podemos descansar.

 

Voltando à redação, falemos do diretor, Simei, que desperta em Commona a seguinte descrição "No género x é um deus. X é o género em que x é merda." Os seus reparos, correções, exercícios e dicas assim o comprovam. Naquele jornal aprendia-se a desmentir o desmentido deturpando a realidade com a "realidade". Até quem escrevia os horóscopos, não tendo autorização para seguir os astros, seguia, a seguinte instrução, "vá ver as revistas e jornais que publiquem [...] e retire deles padrões recorrentes [...] otimistas, as pessoas não gostam de ouvir que vão morrer de cancro". Embora o prefácio não o adivinhe - porque enquanto capítulo seria o penúltimo -, o livro poderia ser intitulado d"O Grande Manual das Más Práticas Jornalísticas". Os  públicos dos jornais emitem muitos julgamentos acerca dos jornalistas, mas estes depois de formados, mesmo que saibam o que deve ser feito são reensinados pelos superiores a fazer um jornalismo que agrade a maioria, que não perturbe muito, que venda - mais do que para subsistir, para enriquecer.

 

Mas, enfim, de um jornal composto por fofoqueiros como Bragaddocio e Maia - únicos dos seis redatores que mereceram páginas para se apresentar no livro - , um diretor que conspira por ganância e um perdedor compulsivo, não se pode esperar muito.

 

No fim, por onde começou o início, e saltando a conspiração que Eco escreveu tendo como base factos que nos escandalizam enquanto leitor porque não sabíamos ou não nos lembrávamos, tudo acaba como o leitor eventualmente dá por si a querer. O herói, perdedor nato, pode não ficar com tanto dinheiro como era suposto, nem com a mais ínfima possibilidade de algum dia se ver publicado, mas, aos 50, ganha o amor, que é um outro tipo de reconhecimento, invertendo a sua sorte. Agora é esperar que os jornais também consigam inverter as suas sortes, embora os prognósticos de Eco, na voz de Maia e Commona, não sejam ótimistas.

 

Um livro a não perder, que irei oferecer num passatempo muito em breve. Fiquem atentos ao facebook!

 

11
Out15

Entrevista a Saramago, das artes visuais


Leonardo Rodrigues

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Tal como recentemente prometido no Meet the blogger, cá está a entrevista que tive o gosto de fazer a João Saramago. 

 

O João, para além de ser quem desenhou a chávena de onde bebo café todos os dias, concebeu o logo do meu blog e é, para mim, outro Saramago, mas das artes visuais. Não me vou estender mais com uma introdução desnecessária quando há uma conversa que quer falar por si.

 

LR: Para quem não te conhece, qual a melhor descrição de quem és, enquanto pessoa e artista - se é que estes se separam?

JS: Um tipo calado, gosto de preservar o meu espaço e isolação e, ao mesmo tempo, atraem-me os contrastes, as multidões e o caos. Não sei sinceramente se existe alguma separação, penso essencialmente que somos ou estamos a ser qualquer coisa em qualquer momento em qualquer sítio, mutáveis.

  

LR: Abandonaste o ensino superior para seguir uma carreira. Ainda achas que essa foi uma boa decisão?

JS: Por vezes debato-me se tirasse um curso de ilustração ou pintura que o meu rumo seria diferente por estar dentro de um circuito e de ter mais oportunidades de carreira, porque conheces o amigo do amigo que te põe a ilustrar para um jornal. Mas pagar para ter atenção é uma acção desesperada. Enquanto a minha intenção não for aprender novas linguagens, meios e técnicas, prefiro não o fazer. É desonesto e uma perda de energia e também não me interessa decorar o currículo em prol de validação ou credibilidade. Tomei a decisão de abandonar a licenciatura por três motivos: dinheiro, desinteresse e tempo. Até hoje, a aprendizagem é constante, pois tens que ter disciplina e foco e fazer a manutenção dessas coisas, porque nem todos os dias te apetece desenhar. E quando tens um emprego, tens que "criar" tempo para trabalhar naquilo para que nasceste ser.

 

LR: A vida tem sido fácil com aquilo que te reservou?

JS: Não, tem sido desafiante. Não vivo da pintura nem da ilustração como gostaria. Trabalho num restaurante, pinto e desenho todos os dias. Contudo, estou feliz neste momento. Sei que as coisas levam o seu tempo e que só tenho que me manter focado e fazer. "Fazer" é importante.

 

LR: Qual o maior obstáculo que encontraste até hoje no percurso da tua carreira?

JS: Gostava de conseguir trabalhar mais rápido. Por vezes fico ansioso quando estou a pintar por olhar para o papel e ver que ainda falta bastante. Os meus trabalhos são demorados e reflexivos. Queria conseguir executar mais, mas é exaustivo. Creio ser um obstáculo diário fazer a gestão e manutenção de um estado produtivo e ainda encontrar a diversão nisso, pois nem sempre é divertido pintar, por vezes é extremamente exaustivo. Mas, quando o trabalho está terminado, não encontro sensação semelhante, é uma grande satisfação.

 

LR: Quando te contratam é fácil manteres a tua identidade num trabalho?

JS: Creio que sim, embora a identidade seja o eterno conflito. Dou por mim muitas vezes a pensar o que é que vou fazer, o que é que vou acrescentar de novo, e ao fazer pesquisa encontro trabalhos que por vezes me deixam frustrado mas, volto a mim e faço as perguntas de outra forma, o que é que me dá mais gozo fazer? Rapidamente apercebo-me do meu estilo e decido vou aperfeiçoar isto. Esta é a minha identidade. Gosto de trabalhar com esferográfica, depois de estar feita a pintura, de realçar os pormenores e criar formas elásticas e entrelaçadas, de encher a folha. Gosto do exagero e de encontrar beleza nisso. Ultimamente tenho estado obcecado por desenhar formas derretidas, vem-me sempre à cabeça as camadas de cera derretida, gosto disso.

 

LR: Parte do teu trabalho é duma natureza mais abstrata, do tal exagero que encontra a beleza. Mas há mais do que isto no teu trabalho, muitas das linhas assumem formas mais concretas, de rostos, figuras públicas e prédios, alguns parecem gritar. Que pretendes tu realmente gritar com o que produzes?

JS: Não sei. Não racionalizo enquanto pinto, nem tão pouco parto de algum conceito. Parto sempre da emoção. Quando tenho material suficiente para parar, gosto de ficar a pensar e é quando os conceitos brotam. E aí sim, posso desenvolver a coleção e a mensagem. Acho que todo o meu trabalho reunido é um ensaio para qualquer coisa senão uma coisa só.

 

LR: Os social media assumem cada vez mais um papel de relevo nas nossa vidas. Como é que estes se relevam para ti, enquanto freelancer?

JS: As redes sociais são um mais uma forma de divulgação. Por vezes pode ser um pouco intrusiva e perigosa até. Costumo ter uma postura muito clínica e fria no sentido em que não me deixo afectar pela relação de quantos mais likes, mais credível e aprovado estás. Elaboro estratégias e experimento fórmulas para comunicar e aproximar-me das pessoas. A intenção é mostrar o trabalho, não obter validação.

 

LR: Em que é que estás trabalhar neste momento?

JS: Recentemente, fiz alguns desenhos que nasceram de uma necessidade de disciplina e método e reuni-os numa coleção. Essas pinturas tornaram-se exercícios de meditação, cujo objectivo principal era o foco. Depois, calhou ser chamado pelo Gerador para participar na 2ª edição do Trampolim e pintar o tema "voar com os pés assentes no chão". Senti de imediato a ligação com o tema, pois fui apanhado numa fase em que estava - e continuo a estar - interessado nos significados de expansão e dispersão, que brotaram desses desenhos. Achei que tudo fazia sentido. Então, estou neste momento a finalizar a pintura de uma sala num palacete no príncipe real e, vai estar aberto ao público gratuitamente no dia 10 de outubro, este sábado.

 

O João já tem a sua loja online disponível, visitem aqui

 

Podem também ler as outras Conversas com Vista, clicando nos nomes abaixo:

 

Paulo Borges, Professor

Samuel Pimenta, Escritor 

 

 

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