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LEONISMOS

LEONISMOS

09
Nov16

"But Nobody Likes Trump" (OPINIÃO)


Leonardo Rodrigues

"But nobody likes Trump", foi isto que ouvi há dois meses da boca de uma filha de emigrantes portugueses nos EUA, com seis anos, enquanto desfrutava de uma combinação de gelado de meloa e gengibre na Gulbenkian. Pensei em escrever sobre este episódio, mas pareceu-me tão irrelevante como especificar o sabor do gelado. Limitei-me a elogiá-la na altura.


Parece razoável dizer que sobrestimámos todos a ambiciosa tangerina laranja com cabelo de golden retriever - uma das melhores coisas que ouvi no decorrer desta eleição. Inicialmente era só uma brincadeira e nunca se os late night shows conseguiram piadas tão boas. A brincadeira foi-se tornando cada vez mais séria, até que hoje acordámos todos de ressaca.


Ouvi logo que acordei: “não vais gostar de ver o que está a acontecer.” Não gosto, custa-me que alguém goste e os motivos questionáveis por detrás desse contentamento.


Foi apregoando desumanidade que venceu. Por isso, esta vitória, é uma preocupação que nos diz respeito a todos, não apenas pelo mercado de capitais, mas pela economia dos valores e direitos que pode regredir.


Embora o voto popular seja de Clinton, não se pode esquecer que a outra metade da América decidiu queimar o voto por alguém pouco transparente, com um discurso baseado na mentira, desconfiança e ódio.


Analisando em detalhe, é muito difícil que alguém que deixou a cruz para Trump não tenha sido, de alguma forma, alvo das suas ofensas. Recuando a 1998, cito-o: “Concorreria como republicano. São o grupo de eleitores mais estúpidos do país. Acreditam em qualquer coisa que passe na FOX News. Eu poderia mentir que eles mesmo assim engoliriam. Aposto que os meus números seriam fantásticos.” Ele estava certo.

Hoje tornei a foto do meu perfil pessoal preta e legendei com “RIP America”. Para alguns isto pareceu exagerado, mas é apenas uma forma simbólica de mostrar luto, solidariedade para com os bons princípios dos americanos e do mundo. Globalização e Americanização são quase o mesmo. A América perdeu e o Mundo também.

Hillary Clinton, ainda assim, deixa-nos esperançosos: "Esta perda dói. Mas, por favor, nunca parem de acreditar que lutar pelo que está certo vale a pena. Vale sempre a pena."

E para terminar ainda em melhor tom, cito um comentário cheio de esperança que encontrei: “Nós não fugimos, não nos escondemos, não nos mudamos para o Canadá, nem Narnia nem Middle Earth, - reagrupamos, organizamos e voltamos dentro de quatro anos. Certo?”

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25
Abr16

Obrigado, 25 de abril!


Leonardo Rodrigues

A Revolução dos Cravos, como prefiro que se chame, não se processou tal e qual como se escreve nos livros de história. Não podia, é demasiado perfeita. Não quero saber! Escolho deliberadamente ignorar parte da Revolução. Importo-me com o que esta nos trouxe, onde estamos e para onde podemos caminhar porque este dia, há exatamente 42 anos, aconteceu. Porque alguns foram corajosos por si e por aqueles que nada podiam fazer. Todos os anos olho para trás e, em jeito de oração que não sei fazer muito bem, agradeço. Há 42 anos censurava-se com um "lápis azul", ups fazia-se um Exame Prévio, prendia-se e torturava-se por suspeitas de "diz que disse". Hoje posso escrever os meus "Isto e Aquilo" num blog, posso ousar ter uma opinião diferente e expô-la. Vou poder exercer a minha profissão de jornalista sem medo. Não se esqueçam que existem outras liberdades a conquistar e que, todos os dias, atentados às já consolidadas ganham nova força. Não basta plantar um cravo, há que cuidar. O trabalho só acaba quando cá já não estivermos. Rebelem-se quando para isso houver necessidade. Por agora, obrigado aos corajosos do passado, que conseguiram ver o futuro. 

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 Fotografia de Samuel Pimenta

03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

foto do autor

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