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LEONISMOS

LEONISMOS

24
Fev16

Entrevista a Thomas Mendonça, parte I


Leonardo Rodrigues

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Demoram, mas as entrevistas regressam sempre. Para o regresso, os eventos organizaram-se para que fosse Thomas Mendonça o convidado. É um artista plástico luso-francês que tive o gosto de conhecer antes desta conversa tomar lugar. O que mais me surpreendeu foi alguém tão talentoso e inteligente se apresentar tão humilde, sem se levar a si e à vida tão a sério - só o suficiente. 

 

Antes da conversa, e depois de quase entrar na rua errada, tive uma visita guiada pela sua residência e atelier. O quarto serve de atelier de cerâmica - foto - , aqui pude ver e tocar nas peças que iram estar brevemente em exposição. Na cozinha, pela luz fantástica, é onde desenha. Foi lá que, depois dos copos com água, começámos a gravar o que seria uma boa hora de conversa. Durante esta hora abordamos questões como a identidade e processo criativo, o ensino e a sua próxima exposição. Devido à extensão, e porque as respostas são demasiado pertinentes, vou publicá-la em duas partes. Boa conversa!

 

Leonardo RodriguesComeça por te apresentares.

Thomas Mendonça: Chamo-me Thomas, nasci em França, perto de Paris, e vivi lá até os meus 10 anos. O meu pai é português e a minha mãe é francesa, pelo que tenho dupla nacionalidade.

 

LRTens alguma rotina, como é o teu dia-a-dia?

TM: Depende da fase do meu trabalho. Há alturas em que tenho uma rotina que é uma ausência de rotina. Neste momento o que tenho é uma rotina de trabalho porque estou a preparar uma exposição, o que faz com que tenha coisas para fazer diariamente. Acordar cedo faz parte disso, gosto muito do dia e de aproveitar a luz. Ao final do dia apetece-me descontrair e, à noite, sair. Durmo pouco, é uma opção.

 

LR: Vieste para Portugal muito cedo, com 10 anos. Quase que viveste metade da vida lá e a outra metade cá. Confidenciaste-me que isso a dada altura gerou uma certa confusão, a de não saber aonde pertences.

TM: Sim, durante a adolescência esta foi uma questão pertinente, a da casa, também em termos de identidade. É muito importante saber de onde vimos. Foi um problema ter duas nacionalidades e não perceber bem em qual delas me enquadrava. Simplesmente tenho as duas, são ambas parte de mim e hoje em dia vivo bem com isso, embora durante muito tempo tenha sido estranho ser francês em Portugal e português em França. Às tantas não és coisa nenhuma em lado algum.

 

LR: Já encontraste esse sentido de pertença?

TM:Não me sinto apegado a nenhum dos dois.

 

LRE à cidade de Lisboa?

TM: À cidade de Lisboa sim, sinto-me muito apegado. Finalmente, lá está, depois desta fase chata de não saber onde quero estar nem de onde sou, simplesmente decidi assumir que sou de Lisboa porque é uma cidade que me acolhe bem. Eu gosto de estar aqui, é a minha casa. Sei que posso ir para onde quer que seja, mas aqui é onde regresso e estou bem, em casa.

 

LR: Também estiveste em Erasmus na Polónia, foi essa uma terceira casa?

TM: Não, de todo. Foi uma experiência relativamente dura. A Polónia é fria e não tem luz solar no inverno.

 

LR: E as pessoas são como o clima?

TM: As pessoas parecem simpáticas, mas são muito tímidas por não falarem muito bem outras línguas. Eu entendo de onde vêm estas coisas: o pós guerra, o pós comunismo, muitos pós. Eles naturalmente são um povo mais fechado sobre eles próprios.

 

LR: No trabalho que tens vindo a realizar, excluindo então a Polónia, como é que a dicotomia Portugal-França se reflete?

TM: Acho que algumas dúvidas em termos de identidade fazem parte do meu trabalho normalmente, mas não é algo de sério ou central. Acho que toda a gente tem as dúvidas existenciais e acerca de muita coisa.

 

LR: Quando é que descobres que tens uma aptidão especial para certo tipo de coisas? É ainda em França, quando frequentaste, por exemplo, o atelier de cerâmica aos seis?

TM: Acho que desde muito novo. Tal como acontece geralmente nas áreas criativas, as pessoas têm um à vontade para isto.

 

LR: Lembras-te de ter tido algum momento mais concreto, um aha moment, em que te apercebes gostar mesmo muito disto?

TM: Não, parece que é algo que antecede a consciência. Dizem-me as pessoas da minha família que com dois anos e pouco enrolava lã à volta da minha cama e dizia que era decoração. É algo de que não tenho memória, obviamente. Nem na altura deveria ter consciência do que estava a fazer... ou tinha, não sei.

 

LR: Consideras que estas aptidões têm uma base natural?

TM: Não acredito muito na questão natural ou biológica, mas de facto não consigo perceber em que momento surge. Portanto, talvez seja.

 

LR: Quando é que decides que é isto que vais explorar? Disso já deves ter memória...

TM: Lá está, esta também parece ter sido uma decisão que antecipou a minha consciência. Quando se entra no secundário é preciso tomar um rumo e eu sabia que iria para artes. Sempre foi uma coisa muito lógica para mim. As áreas criativas sempre estiveram presentes, nunca tive que ponderar muito. Parece natural, não é uma dúvida. Depois do secundário, a faculdade não foi uma decisão muito complexa.

 

LR: Escolheste Artes Plásticas. O que é que o ensino superior acrescentou?

TM: Eu terminei o secundário numa escola de artes, António Arroio.  Ali estudei o curso de Produção Artística em Têxteis. Nos últimos anos percebi que não seria de todo design de moda, então segui para artes plásticas. Na altura queria afastar-me de Lisboa, então decidi que Caldas da Rainha seria a primeira hipótese e em último Lisboa. Com a média que tinha entrei na primeira opção. O ensino superior, não sei se é em Portugal, se em todo o lado, se uma questão de agora ou de sempre, nestas áreas é de alguma forma dispensável. À partida estamos enquadrados por um conjunto de professores, uma academia, uma escola, onde é suposto acontecerem determinadas coisas que não acontecem. O que me falta do meu curso são as questões práticas de como aplico isto na minha vida profissional, para poder chegar e dizer faço isto, aqui e agora. É um absurdo terminamos 3 anos de licenciatura e gastarmos mais de 3000€. Conhecemos professores fantásticos, uns mais do que outros, e fazemos amigos para a vida. 

 

LR: Então a nível profissional não enriquece assim tanto...

TM: Pode, mas é mais um acaso, depende também das relações que sabemos estreitar de uma forma pessoal e não profissional.

 

LR: Pelo que me disseste, quando acabaste o curso sentiste uma necessidade de ser independente, o que te levou a tentar encontrar emprego.

TM: Sim, quando acabei a licenciatura regressei para Lisboa. Rapidamente percebi que não fazia sentido regressar para retornar à casa dos meus pais, que fica na margem sul - o que não é perto nem afastado. Tenho muito gosto em estar perto das coisas, mais perto ainda. Comecei a viver em Lisboa, pagando contas. Tive sorte que não pagava casa na altura, mas havia alguma necessidade de ter independência financeira. Então, procurei emprego, como se faz normalmente para obter dinheiro. Acho que não queria muito e por sorte não encontrei. Via-me sem emprego, mas a conseguir viver em Lisboa, então decidi apostar naquilo em que me formei.

 

LR: Qual o maior problema que vias em trabalhar para outros? Achas que isso te iria comprometer artisticamente?

TM: Seguramente. Parte desta produção é uma questão de tempo. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo e, naturalmente, se tiver um trabalho das 8 às 18 não tenho esse tempo para estar a produzir diretamente e objetivamente as coisas. O trabalho iria ser muito mais pequeno, mais complicado, mais atrasado e acho que seria uma pessoa mais frustrada.

 

LR: Como é que as coisas surgem, como é o processo criativo pelo qual passas?

TM: Por vezes são epifanias, de repente apetece-me fazer qualquer coisa dentro de uma família de assuntos que me são mais naturais. São abordagens que vou trabalhando ao longo do tempo. Isto aplica-se a tudo, aos materiais, às temáticas e às técnicas. Não é uma linha reta, é uma linha que vai sempre atrás pescar coisas. São raras as quebras significativas no meu trabalho, mas existem. Por vezes há mesmo vontade de fazer completamente o contrário. É uma forma de nos reinventarmos de alguma forma. Depois, com paciência, é voltar a ver o que é que deixámos para trás e recuperar muitas coisas.

 

LR: Tens por hábito retomar trabalhos antigos?

TM: Não é bem retomar porque estamos no futuro, no depois, não se volta, temos outra bagagem, outra vida que aconteceu entretanto. Acontece muitas vezes olhar para coisas que foram feitas há muito tempo e não perderam interesse. A certa altura há ali uma coisa em que eu reparo que agora estou a trabalhar muito e não fazia ideia ou me lembrava que já existia. Pode ser muitas vezes uma forma de fazer, uma textura visual ou até mesmo uma coisa muito objetiva como uma palmeira.

 

LR: Quando te acontece não querer continuar determinado trabalho chegas a mandá-lo fora ou guardas para a eventualidade de?

TM: Eu nunca cheguei ao ponto de mandar uma coisa fora por estar chateado com ela. Ponho-as de castigo. Tenho alguns trabalhos que estão guardados que para os quais dependem muito tempo, paciência e meios, mas não consigo por algum motivo. Sei que daqui a dois anos vou pegar neles.

 

LR: Chegas a expor peças que estiveram de castigo?

TM: Sim, algumas das peças que vou expor em março não foram feitas agora, mas fazem sentido agora. Antes não estavam como eu queria. Havia qualquer coisa que me chateava nelas e deixei-as num canto. Agora, repensei-as, algumas alterei, e fazem muito sentido. Vieram mais cedo, mas só agora estão preparadas para fazer parte deste grupo de peças.

 

LR: Essas peças são como na moda...

TM: ...uma coleção, seria impossível não sê-lo. São coisas feitas num período de tempo relativamente próximo. E mesmo que sejam feitas ao longo dos anos... há coisas que são como o croché, a linha vai atrás e segura na laçada anterior criando a próxima. Há um fio condutor que as une a todas. Há uma linha de pensamento que se foi construindo ao longo do tempo.

 

Ler parte II.

 

26
Dez15

Resolução para 2016


Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

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15
Dez15

Abrigo dos Sem Abrigo


Leonardo Rodrigues

Este é um post diferente dos que tenho feito até agora, o que vos vou mostrar de seguida é o meu trabalho final para a cadeira de fotojornalismo, onde as imagens tem de ser mais fortes do que as palavras.

 

Inicialmente pensei em fazer um portfólio que consistia em fotografar desconhecidos, que via com frequência, e fantasiar acerca das suas histórias, mas a realidade acabou por se impor sobre a ficção.

 

Há uns dias, após regressar ao meu primeiro bairro em Lisboa, passei por um sem abrigo que já não via há um ano. Notei que ele agora fazia algo pelos trocos que pedia, pintava. Não eram coisas tristes e sem cor, ou só com duas cores, os desenhos eram alegres, cheios de vida, com mais cores do que as do arco-íris. Isto agora fez-me lembrar o trecho dum dos meus poemas favoritos de Pessoa, "E canta como se tivesse/Mais razões pra cantar que a vida."

 

Fiquei contente, claro, mas segui caminho, afinal de contas é o que toda a gente faz, mesmo em vésperas de natal.

 

No dia após o meu reparo, quando acordei sentia um conforto tremendo ao estar quentinho na cama e a ouvir o bonito som da chuva, que não me podia tocar. Depois, como é costume, comecei a percorrer o bairro mentalmente, árvores e carros em frente, bom dia ao senhor do café à direita, esperar pelo verde à esquerda e lá estava ele, o sem abrigo pintor.

 

Acontece que não era um dia como os outros que têm contrariado as leis do inverno, chovia e muito. Onde é que ele se estava a abrigar, perguntei-me, e como? Sei que existem sítios onde podem passar a noite, mas nem todos o fazem.

 

O sítio onde este passa as noites não sei se encontrei, mas no meu percurso desde Sete Rios até aos Restauradores capturei vários "abrigos" que metem dó a qualquer um, então na Avenida da Liberdade não há quem os esconda, embora todos o tentem ignorar.

 

Abaixo estão alguns dos abrigos dos que não têm abrigo. Feliz natal e, em época de agradecer coisas, agradeçam-se o presente de terem um teto e uma cama.

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11
Out15

Entrevista a Saramago, das artes visuais


Leonardo Rodrigues

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Tal como recentemente prometido no Meet the blogger, cá está a entrevista que tive o gosto de fazer a João Saramago. 

 

O João, para além de ser quem desenhou a chávena de onde bebo café todos os dias, concebeu o logo do meu blog e é, para mim, outro Saramago, mas das artes visuais. Não me vou estender mais com uma introdução desnecessária quando há uma conversa que quer falar por si.

 

LR: Para quem não te conhece, qual a melhor descrição de quem és, enquanto pessoa e artista - se é que estes se separam?

JS: Um tipo calado, gosto de preservar o meu espaço e isolação e, ao mesmo tempo, atraem-me os contrastes, as multidões e o caos. Não sei sinceramente se existe alguma separação, penso essencialmente que somos ou estamos a ser qualquer coisa em qualquer momento em qualquer sítio, mutáveis.

  

LR: Abandonaste o ensino superior para seguir uma carreira. Ainda achas que essa foi uma boa decisão?

JS: Por vezes debato-me se tirasse um curso de ilustração ou pintura que o meu rumo seria diferente por estar dentro de um circuito e de ter mais oportunidades de carreira, porque conheces o amigo do amigo que te põe a ilustrar para um jornal. Mas pagar para ter atenção é uma acção desesperada. Enquanto a minha intenção não for aprender novas linguagens, meios e técnicas, prefiro não o fazer. É desonesto e uma perda de energia e também não me interessa decorar o currículo em prol de validação ou credibilidade. Tomei a decisão de abandonar a licenciatura por três motivos: dinheiro, desinteresse e tempo. Até hoje, a aprendizagem é constante, pois tens que ter disciplina e foco e fazer a manutenção dessas coisas, porque nem todos os dias te apetece desenhar. E quando tens um emprego, tens que "criar" tempo para trabalhar naquilo para que nasceste ser.

 

LR: A vida tem sido fácil com aquilo que te reservou?

JS: Não, tem sido desafiante. Não vivo da pintura nem da ilustração como gostaria. Trabalho num restaurante, pinto e desenho todos os dias. Contudo, estou feliz neste momento. Sei que as coisas levam o seu tempo e que só tenho que me manter focado e fazer. "Fazer" é importante.

 

LR: Qual o maior obstáculo que encontraste até hoje no percurso da tua carreira?

JS: Gostava de conseguir trabalhar mais rápido. Por vezes fico ansioso quando estou a pintar por olhar para o papel e ver que ainda falta bastante. Os meus trabalhos são demorados e reflexivos. Queria conseguir executar mais, mas é exaustivo. Creio ser um obstáculo diário fazer a gestão e manutenção de um estado produtivo e ainda encontrar a diversão nisso, pois nem sempre é divertido pintar, por vezes é extremamente exaustivo. Mas, quando o trabalho está terminado, não encontro sensação semelhante, é uma grande satisfação.

 

LR: Quando te contratam é fácil manteres a tua identidade num trabalho?

JS: Creio que sim, embora a identidade seja o eterno conflito. Dou por mim muitas vezes a pensar o que é que vou fazer, o que é que vou acrescentar de novo, e ao fazer pesquisa encontro trabalhos que por vezes me deixam frustrado mas, volto a mim e faço as perguntas de outra forma, o que é que me dá mais gozo fazer? Rapidamente apercebo-me do meu estilo e decido vou aperfeiçoar isto. Esta é a minha identidade. Gosto de trabalhar com esferográfica, depois de estar feita a pintura, de realçar os pormenores e criar formas elásticas e entrelaçadas, de encher a folha. Gosto do exagero e de encontrar beleza nisso. Ultimamente tenho estado obcecado por desenhar formas derretidas, vem-me sempre à cabeça as camadas de cera derretida, gosto disso.

 

LR: Parte do teu trabalho é duma natureza mais abstrata, do tal exagero que encontra a beleza. Mas há mais do que isto no teu trabalho, muitas das linhas assumem formas mais concretas, de rostos, figuras públicas e prédios, alguns parecem gritar. Que pretendes tu realmente gritar com o que produzes?

JS: Não sei. Não racionalizo enquanto pinto, nem tão pouco parto de algum conceito. Parto sempre da emoção. Quando tenho material suficiente para parar, gosto de ficar a pensar e é quando os conceitos brotam. E aí sim, posso desenvolver a coleção e a mensagem. Acho que todo o meu trabalho reunido é um ensaio para qualquer coisa senão uma coisa só.

 

LR: Os social media assumem cada vez mais um papel de relevo nas nossa vidas. Como é que estes se relevam para ti, enquanto freelancer?

JS: As redes sociais são um mais uma forma de divulgação. Por vezes pode ser um pouco intrusiva e perigosa até. Costumo ter uma postura muito clínica e fria no sentido em que não me deixo afectar pela relação de quantos mais likes, mais credível e aprovado estás. Elaboro estratégias e experimento fórmulas para comunicar e aproximar-me das pessoas. A intenção é mostrar o trabalho, não obter validação.

 

LR: Em que é que estás trabalhar neste momento?

JS: Recentemente, fiz alguns desenhos que nasceram de uma necessidade de disciplina e método e reuni-os numa coleção. Essas pinturas tornaram-se exercícios de meditação, cujo objectivo principal era o foco. Depois, calhou ser chamado pelo Gerador para participar na 2ª edição do Trampolim e pintar o tema "voar com os pés assentes no chão". Senti de imediato a ligação com o tema, pois fui apanhado numa fase em que estava - e continuo a estar - interessado nos significados de expansão e dispersão, que brotaram desses desenhos. Achei que tudo fazia sentido. Então, estou neste momento a finalizar a pintura de uma sala num palacete no príncipe real e, vai estar aberto ao público gratuitamente no dia 10 de outubro, este sábado.

 

O João já tem a sua loja online disponível, visitem aqui

 

Podem também ler as outras Conversas com Vista, clicando nos nomes abaixo:

 

Paulo Borges, Professor

Samuel Pimenta, Escritor 

 

 

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