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LEONISMOS

LEONISMOS

12
Out17

Pedi um crédito, e o computador said no


Leonardo Rodrigues

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Ontem foi um dia interessante, de me lembrar de histórias. 

Vou começar por contar uma das piores fases, que nunca encontrei forma de abordar no blog. A vida, com a faculdade, ficou diferente. Por isso, há cerca de dois anos e meio, vendi um computador que me tinha custado mais de mil euros e a máquina fotográfica. A alternativa seria ficar sem casa. Confesso que custou, o valor emocional que atribuía àqueles objetos e toda a situação frágil foi avassaladora. Mas, até ao dia de hoje, sei que fiz a escolha inteligente, ter um teto para me recompor. 

Ontem, vi um computador que queria. E, além de estar a um ótimo preço, imaginem só, havia uma campanha sem juros. Fiz o esforço de entrar num centro comercial para saber como se processava tal milagre, oferecido pela Santa Cetelem. Antes de conseguir chegar concretamente à campanha que queria, tive de recusar veemente dois cartões de crédito. 

Depois, tive de ouvi-la a explicar-me tudo  - por vezes com informação de uma campanha anterior - , como se fosse mesmo muito estúpido e não conseguisse fazer contas. Chegou mesmo a dizer-me, com um tom condescendente, "ainda bem que pergunta, faz muito bem em ler as letras pequeninas, eu também leio sempre", quase que tinha um AVC. Se tratarmos as pessoas como crianças, elas assinam coisas?

Tudo bem, aquilo era rápido, e a proposta de sair com um computador que não sobreaquece e precisa estar ligado à corrente, tornava tudo suportável. A decisão não seria tomada por ela, mas sim por um formulário que preenchi e me bebeu os dados do cartão de cidadão em segundos. No final, o formulário disse-me que não, e ela: "pelo menos o José tentou". Detesto que me tratem por José.

Além disto poder ser uma cena do Little Britan, que celebrizou a expressão, computer says no, por estar tão o perto, mas inacessível, lembrei-me de algo que vi este ano, à porta de um McDonald's em Istambul. 

Um menino sujo, enquanto espancava o vidro, chorava como nunca vi ninguém chorar, para pedir comida. Quase imediatamente a seguir, vinha uma empregada afasta-lo dali, como se fosse um pombo à procura de migalhas. Um contraste chocante, com as pessoas que comiam aquela comida apelativa, num espaço cheio de luz. Era apenas um vidro e uns trocos, mas ditava o que uns e outros podem ter. 

Aquela condescendência toda quase que me magoou, mas obriguei-me, minutos depois, porque há sempre, a ver o outro lado da moeda. 

Não me posso comparar a esse menino, em tão pouco tempo passei a ter uma família que me ama, emprego, férias marcadas, uma casa ótima, e uma dispensa que se compõe sempre. Vou continuar a ter um computador velhinho, é verdade, mas fico sempre com mais do que quando vendi o computador xpto. A felicidade não tem mensalidade. 

 

 
 
 
 
29
Nov16

A empregada sabotou o dia em que eu conheci os pais


Leonardo Rodrigues

A primeira vez deixa-nos com os nervos à flor da pele, mexe com os intestinos, faz pulsar a veia da testa e, se for o caso, pode doer. Isto para a maioria das primeiras vezes. Quando conheci os pais dele deveria ter sido assim, mas a verdade é que nem tive tempo para pensar na grandiosidade da coisa até estar sentado, primeiro a respirar, depois a jantar. Estive demasiado ocupado a ser eletrocutado pela adrenalina.

Para o aniversário, ele decidiu fazer um jantar com os pais. Eu, enquanto namorado fofo e boa dona de casa, prontamente me propus a cozinhar. Queria, mesmo fora de água, sentir o conforto da cozinha. Quando chegou o dia ainda me tentou com a ideia do restaurante, mas não deixei. Ele ia trabalhar, a Fátima fazia as limpezas semanais e eu tornava o jantar possível. Parecia simples.

Estando de folga, dormi até às quinhentas, iludido pela simplicidade da vida. Levantei-me para ir fazer as compras e, como tinha tempo, decidi que ia comprar, comparar e comprar mais no Lidl, Pingo Doce e, para ter a certeza, Continente. Como estavam todos tão próximos, porque não? Fiquei quatro horas a passear sacos de um lado para outro, sempre com a ideia de que a empregada estava a fazer a sua magia.

Quando regresso a casa vi tudo como deixámos, até o pacote de Tuc se estava à vista de todos na mesa da sala. A Fátima não tinha feito magia. Embora tenha vasculhado a casa para perceber se tinha acontecido alguma coisa à mulher, não precisei de gastar mais neurónios para perceber que estava por minha conta.

Coloquei os calções mais curtos que encontrei, agarrei no aspirador como se a minha vida dependesse de matar o pó, lavei loiça, esterilizei a casa de banho, dobrei roupa e escondi coisas que não têm sítio fixo dentro dos armários.

Ele apanhou-me a 2/3 do desmaio. Com um sorriso na cara, contou-me que a empregada decidiu ir à segurança social e, como aquilo demora, achou melhor passar lá em casa no dia seguinte. 

Cozinhei para as 10 pessoas, as crianças comeram tudo, os adultos elogiaram, rimos muito. Portei-me bem e senti pertença. Mesmo que alguma coisa não seja, temos uma fotografia que vai ficar para sempre e que me faz sorrir.

No que diz respeito à Fátima, arranjei forças para perdoar-lhe porque no dia seguinte ela compensou com uma sopa sublime. Agora que ela vai para Londres de férias, eu vou aperfeiçoar as minhas sopas, assim reduzimos a nossa dependência e, com sorte, ela percebe que não me pode deixar à beira de novo ataque prozac sem aviso.

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 Imagem: A Criada Mal Criada

12
Out16

Ao Encontro do Sul, Parte II - Albufeira


Leonardo Rodrigues

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"A conquista do sul tarda, mas finalmente acontece", foi isto que escrevi numa SMS antes de sequer ter entrado no comboio que me iria levar de Sete Rios a Albufeira.  

Deveria ter percebido que não ia conquistar nada, afinal o comboio atrasou-se e, assim que chegou, levei com um presságio na barriga - na forma de caixa gigante da IKEA. Num outro dia teria entendido a mensagem, mas naquela sexta não deixei, não podia. Só pensei que assim que as carruagens deslizassem pelo caminho de ferro a minha vida em Lisboa entraria em modo de pausa. A primeira pausa, em 3 meses, a mais de 25km de Lisboa. Para agravar, melhorando, seria também o meu primeiro fim de semana fora com aquele que me atura quase diariamente. 

Se por um lado a procura anterior pelo sul se fez contra a corrente, esta fez-se de frente, junto das vistas. Respirei de alívio quando me sentei e senti a capital a ficar para trás.

O lugar da janela, confirmado por duas vezes, era meu. A senhora que me acompanhou não queria o sol e eu queria a vista. Não se omite um sem omitir a outra. Tentámos um meio termo desconfortável que sei que não foi do seu agrado. Então, abdiquei do apoio de braço sem abrir a boca, contando que se apercebesse do meu gesto de tréguas.

Depois, e dizem-me que é assim em mais sítios, as pessoas que pedem na CP são mais sofisticadas, distribuem um papel - há tempo para estas coisas, bem sei - , deixam os passageiros ler e depois passam para recolher o papel e o dinheiro, se nos convencerem. Achei interessante, não invade. No metro temos que ouvir todos. Ainda partilhei com a minha companheira de viagem que seria mais útil um exame, que não poderia comprovar o estado clínico de alguém através de uma folha onde se pode escrever qualquer coisa. Claro que me censurou, mas também não contribuiu.

Já tinha deixado algumas notas sobre a minha perceção da viagem para depois escrever um post, mas tive que interromper a escrita porque começámos a conversar, eu e senhora que queria a cortina fechada. Foi extraordinário e três chapadas na cara para mim.

Embora com mais de 20 anos de diferença, tínhamos tanto em comum e partilhávamos ideais semelhantes. Houve também espaço para discutir a atualidade - daquela semana - , do burkini, passando pelo nudismo nas praias portuguesas - intemporal? - , ao EI. Mas, à parte do Amor, a questão que mais nos apoquentou foi: será que os alentejanos estão conscientes da qualidade de vida que têm? Eu nunca estive consciente da que tinha na Madeira.

Os Montes parecem pincelados de castanho, com manchas verdes e brancas e é preciso treinar o olho para enxergar pessoas.

Ao namorar as pequenas aldeias que avistava senti uma grande vontade de partir a janela e atirar-me para lá, de fazer parte daquilo. Não sei onde era. Crianças disseram adeus da rua, talvez seja fascinante verem um comboio de possibilidades, que transporta pessoas oriundas da capital, não sei. 

Uma vez em Albufeira, acho que poderíamos ter aproveitado o fim de semana de outra forma - scones: check; piscina: check; água do mar aquecida por Neptuno: check.

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Caminho até à praia

 

Como não só de coisas boas se faz check, e tendo em consideração que fui avisado pela caixa do IKEA, o impensável aconteceu, tive de o partilhar durante metade do tempo útil do fim de semana com uns amigos do ex que encontrou na praia. Concordei em fazermos praia com eles, depois dei por mim a jantar num restaurante chamado Ricardo's, escolhido por eles. Não me posso esquecer que também saímos à noite. Agradeço ao vinho a coragem.

 

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O restaurante tem o nome do antecessor. Não acredito em coincidências. Mentiria se dissesse que não simpatizei com os moços. Ri-me bastante e esse é um bom indicador, só me queixo do fim de semana idealizado se ter esfumado.

 

Num próximo encontro com o sul expliquei-lhe que vamos para um sítio deserto, onde a única coisa que pode soar familiar seja o som dos pássaros. Depois, se o tempo deixar, também vos deixo entrar a bordo do próximo encontro.

10
Jun16

Assinei contrato: o que aprendi


Leonardo Rodrigues

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Flazingo

 

Depois de muito procurar emprego, assinei ontem um contrato de 6 meses. A procura teve momentos mais ativos do que outros. Não significa isto que alguma vez tivesse parado, em alguns momentos foi complicado manter o foco e a preocupação era-me paralisante. Não me apetecia escrever, não me apetecia falar, honestamente queria dormir e acordar quando no mundo os arco-íris tivessem mesmo um pote de ouro no final. Não conseguir um emprego significava que, depois de anos por minha conta, teria de voltar à Madeira, viver com a família e chatear-me. Assustador. Vontade de trabalhar nunca faltou, sempre quis depender apenas de mim. Ter emprego dá-nos essa liberdade e, para mim, significa viver onde quero, onde está e acontece tudo o que me importa. As ofertas de trabalho remunerado existem, aos milhares - não há para todos, certo, mas há para muitos. Fui, sem brincar, a dezenas de entrevistas, inclusive a várias segundas entrevistas. Muitos foram os sinais de como aquele seria o meu novo local de trabalho: "olhe, gostei mesmo muito", "parabéns pelas notas", por aí fora. Gostavam de mim, mas gostaram mais de outro. Aconteceu-me de tudo, ser aceite numa consultora que entretanto cancelou o recrutamento, "conseguir" um estágio do IEFP pelo qual não posso esperar. Eventualmente, uma das empresas de recrutamento que me chamou várias vezes deixou de telefonar e passou a enviar email a dizer que ainda não era daquela. Isto acabou.

 

Se há algo que fiz sempre foi pedir feedback ao longo do processo. Cheguei, inclusive, a perguntar aos recrutadores coisas que toda a gente quer saber como "é verdade que detestam Europass?". São essas pequenas aprendizagens, que podem parecer óbvias, mas que nem sempre temos em mente, que irei partilhar, do currículo às entrevistas.

 

Currículo

É na construção do currículo que estão os bastidores do espetáculo, é este o primeiro passo que decide se damos um segundo, quiçá, um terceiro. Eu tenho dois modelos diferentes e altero o conteúdo consoante aquilo a que me candidato. Temos de adaptar. Acho mais cliché odiar o Europass do que utilizá-lo, mas a minha opinião não importa, importa a dos recrutadores. Nesta matéria ouvi essencialmente duas coisas: "não temos problemas, é muito comum, o meu problema com o seu currículo é a ausência de datas". Aqui não se encerra o assunto, um bom amigo disse-me: "se estou a recrutar para uma vaga e recebo centenas de currículos, não posso ler todos, nem entrevistar todos os candidatos, então, é olhar para os 20 que se destacam [- os que não usam o dito cujo -], os que mostram empenho e criatividade. Claro que depois de os ler vou estar mais perto do candidato que procuro.". Faz sentido. Pelo sim pelo não, façam noutro modelo. Não precisam de algo over the top, apenas que vos diferencie e que, de forma sucinta, mostre o melhor de vós, a vossa experiência, capacidades e interesses. Só depois de o fazer é que comecei a ser chamado. Há um post de que gosto muito, escrito por alguém que está do lado de quem emprega e que cobre estas matérias muito bem, vejam Erros fatais no currículo.

 

Candidatura

Enviem currículos para trabalhos que vos interessem e que sentem conseguir realizar. Na fase do já estou para tudo, enviei currículos para cargos que não me interessavam, para os quais nenhum dos meus currículos fazia sentido. Isso culminou numa entrevista em que, depois de dois dedos de conversa, perguntaram-me: "o que é que ganho em tê-lo cá em vez de um dos outros 30 candidatos?". Costumo ter as respostas na ponta na língua, mas não soube responder-lhe. Não sabia responder porque mentir é das coisas que cada vez consigo fazer menos. Por vezes apetece-me dizer algo de bom para não abusar da sinceridade, mas a minha cara já está a assumir outros contornos. Enquanto posso dizer aos meus amigos "tens um macaco no nariz", "quando queres ir à loja para trocarmos essas botas?", "desculpa, mas ele só te quer para aquilo", "não dormes há quantos dias?", ao senhor não lhe podia dizer que aquele cargo e condições não faziam sentido, então despedimo-nos cordialmente. Se não me tivesse desvalorizado ao candidatar-me teríamos ambos poupado tempo.

 

Entrevistas

Nesta fase final, da performance, sejam vocês próprios. Representar alguém que não somos é difícil e passa para o outro lado. E, se nos tivermos candidatado a algo em que temos interesse, tudo corre sem esforços, sem nervosismos. Numa das entrevistas, estive a falar durante 5 minutos sobre coisas que detestava, mas que pareciam relevantes. Isto transpareceu e a senhora que me estava a entrevistar parecia enfadada. Quando comecei a falar realmente de mim, dos meus interesses, capacidades, aspirações e do que fazia - este blog, por exemplo - os olhos dela acenderam-se e começámos a ter um diálogo em vez dum monólogo. Embora esse recrutamento tenha sido cancelado, quando voltei à empresa, semanas depois, para falar com outra pessoa, ela viu-me do outro lado do open space e cumprimentou-me com um grande sorriso. Se forem iguais a toda a gente ninguém se vai lembrar. Mais recentemente, na mesma empresa, ligaram para me enviar diretamente para a segunda entrevista. Fiquei.

 

O meu novo emprego, embora só me ocupe a manhã, tem uma certa exigência, mas o salário e as condições estão à altura. Vou ser independente sem deixar de ter vida e, o melhor de tudo, terei tempo para fazer o que gosto e trabalhar noutros projetos sem ter de me questionar onde vou dormir no próximo mês. Na frase anterior não “escrevi dinheiro para beber café” pois o café lá dentro não me custará um cêntimo e, sim, isto pesou no meu entusiasmo aquando do início da entrevista. Confesso que este entusiamo foi o quebra gelo, não fosse as senhoras dos RH terem isto em comum comigo.

 

09
Abr16

Ao Encontro do Sul, em Évora (com fotos)


Leonardo Rodrigues

Há quem queira encontrar o norte que perdeu, eu, como já tive muitos encontros com ele, quis ir ao encontro do sul. Em Portugal Continental, como vos disse em tempos de Meet the Blogger, nunca tinha ido além do Portinho da Arrábida. Então, lá fiz eu a minha tentativa até Évora. 

 

Eram 10 em ponto quando o comboio, muito cumpridor dos seus horários, deixou a estação de Entrecampos, começando assim a nossa procura - minha e do Rúben - pelo sul. Escolher lugares de comboio definitivamente é algo que não poderá constar no meu CV, a não ser que seja para remar contra a maré. Depois de ultrapassada a frustração com os lugares, passou a ser hora de desfrutar das vistas. Os livros de geografia estão certos, fica tudo mais plano e, de vez em quando, avista-se um monte. Acho que nunca tinha visto tantos quilómetros seguidos de terra plana, tanta que os meus olhos não conseguiam avistar o fim. Estas terras portuguesas, confirma-se, preenchem-se de oliveiras, vinhas, grandes e pequenas propriedades amorosas e caminhos, mais frequentemente do que se podia esperar, de terra batida. A minha infância, antes das construções desenfreadas de  A.J.J., também os tinha.

 

Sinto-me sempre uma criança curiosa quando vou para um sítio que desconheço, especialmente de comboio, que tem o seu quê de mágico. Como as crianças, dúvidas curiosas trespassam o pensamento: será que vamos encontrar alentejanos nas esquinas à espera que o vento lhes passe o jornal? E eram disparates deste género que me voltava para a direita para dizer e perturbar o meu companheiro de viagem, que lia atentamente o Expresso - já que o encontrou, parecia mal não ler o Jornal. 

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Uma hora e meia depois lá estávamos nós e, como a sorte nasceu para morrer connosco, chovia a potes. O percurso da estação ao interior da cidade medieval fez-se quase que por instinto e recheado de piadas macabras sobre Dianas, vai-se lá entender o porquê.

 

Como turistas experientes que somos, o primeiro passo foi pedir um mapa, depois, claro, tomar outro café.

 

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Na Praça do Giraldo, o café que nos chamou à atenção, talvez pelo nome familiar, foi o Café Arcada. De tão amplo e cheio, parecia albergar todas as pessoas em Évora que sabem que o dia só começa com um café bem tirado. Isso reassegurou-nos que era ali que deveríamos estar. Para acompanhar a bica pedimos algo de tradicional e recomendaram-nos duas coisas, só uma pareceu viável: a queijada. Pode até ficar mal dizer, mas esta foi a única queijada continental que gostei e que tive apetite de repetir. Escusado será dizer que o mapa e todo o dinheiro - não muito - na mesa ficou, não fosse eu ter colocado o tabuleiro do pequeno almoço em cima. 

  

 

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Embrance Évora foi o hostel escolhido para pernoitar. Era tudo o que queríamos. Em termos de localização não podíamos pedir mais central, fica numa rua entre a Capela dos Ossos e a Praça do Giraldo. A decoração era, também, absolutamente irrepreensível: moderna e acolhedora. Todos os quartos têm alcunhas, a do nosso assentava-nos que nem uma luva: viajantes. Entre as camas havia uma moldura com uma mensagem deveras inspiradora: "O mundo é um livro e aqueles que não viajam lêem apenas uma página."

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Do hostel, há ainda que realçar o pátio fabuloso que, infelizmente, devido ao estado do tempo, não conseguimos utilizar e o terraço donde fomos observar a noite eborense. Quanto ao preço, a noite custou-nos 30 euros - com um pequeno almoço que continha produtos da zona incluído

 

Próximo do hostel, como disse, estava localizada a conhecida Capela dos Ossos, o monumento pelo qual mais ansiávamos ver. Há alguma dificuldade em explicar os sentimentos que surgem quando se pisa um sítio daquela natureza. Acho que o nome e ler sobre o local em nada nos preparam para a visita. É arrepiante olhar em volta e ver os ossos de tanta gente, que nos parecem perseguir com o olhar, havendo à entrada o seguinte aviso: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. O objetivo dos frades franciscanos fica assim cumprido, sendo que a visita convida-nos a repensar a nossa condição, a fragilidade, a fugacidade e, digo eu, insignificância da vida.

 

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Próximo dos limites da cidade, acabando a sua estrutura por fazer parte da muralha, encontra-se o Palácio D. Manuel. Como tínhamos pouco tempo até o fecho decidimos tirar partido dos jardins, em vez do que estava exposto no interior. Escusado será dizer que os bancos vermelhos, que podem ver acima, acompanham toda a área verde e agradam os olhos. É também nos exteriores deste palácio que se encontram as tais "Ruínas Fingidas" que, antes de terem realçado serem construídas com materiais provenientes de outras construções, nos fizeram render à expressão "cidade museu" - algo que utilizamos para nos referir a basicamente a tudo o que o olho encontrava. Embora não tenhamos prestado muito atenção ao que estava exposto, o Rúben fez questão de utilizar as instalações e o pouco tempo que tínhamos para disseminar a sua ideologia de paz, sexo e amor....

 

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O Art Café, também localizado próximo do nosso hostel, foi outro verdadeiro achado. O que nos cativou primeiramente foi a música menos comum que se fazia ouvir da rua. Lá dentro, o ambiente distinto. Os objetos que decoravam o espaço não eram apenas obras de arte e, a um primeiro olhar, pareciam fazer parte da coleção de memórias de alguém. Depois, pareceram-me memórias que foram sendo deixadas ao longo dos tempos por todos os que lá passaram. O poema, no placard ao lado da mesa, assim o evidenciou. Quando regressámos, no dia seguinte, para beber um café de despedida, na impossibilidade de escrever poesia, deixámos os nossos pacotes de açúcar afixados. Afinal de contas, os contemporâneos só nos têm reassegurado que a arte pode ser qualquer coisa. A nossa celebra a hipocondria e, como tal, o consumo mínimo de açúcar possível, afinal a vida é mais doce sem diabetes.

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De volta aos monumentos, temos o Tempo de Diana. Foi aqui que o Rúben repreendeu uma turista espanhola, dizendo-lhe que não podia estar lá encostada, uma vez tratar-se do nosso património cultural. A senhora, super constrangida, pediu-nos desculpas aflita. Ri-me desalmadamente. 

 

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Houve muita dificuldade em fotografar toda a experiência, uma vez que o câmara do meu iPhone tem vontades próprias, chovia e a luz que tínhamos não era propícia à arte. Ainda assim, deixo-vos mais algumas fotos antes de concluir o post.

 

No Jardim dos Colegiais, que fica próximo da antiga sede da Universidade de Évora.

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O Aqueduto de Água de Prata fotografado do exterior da muralha, embora, a certo ponto, se unam. 

 

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Aproveitei a fotografia do Rúben para fazer a minha. Neste edifício, que fica ao lado da Fonte das Portas de Moura, localizam-se apenas serviços administrativos

 

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Nestes dois dias conseguimos ver imensa coisa, inclusive o Forúm Eugénio de Almeida, o Museu da Carruagem, o Arco Romano da Dona Isabel e tudo o que as várias voltas que demos permitiram. Confesso que a certo ponto não sabíamos que mais fazer, então continuámos a passear nos círculos inerentes ao planeamento de uma cidade medieval. 

 

Para a questão que me surgiu no comboio envolvendo jornais, vento e alentejanos a resposta é não. Contudo, a preguiça confirmou-se quando, ao pedirmos indicações para regressarmos à estação de comboios, nos disseram que era melhor ir de autocarro, porque ficava muito longe - 10m a pé.

 

E na estação ferroviária de Évora terminou o passeio, onde o começámos - não fosse tudo assim - , mas nem aqui se acabaram as aventuras. Tivemos um encontro a 3, fruto das dating apps, com alguém - não o escrevo assim por questões de confidencialidade, mas porque quando entramos no comboio já não nos lembrávamos do nome. Deste último episódio, só agradeço por sermos dois a tentar manter um ritmo socialmente aceitável de pergunta-resposta-pergunta-resposta até o comboio chegar. 

 

O Rúben, a única pessoa que consigo tolerar durante vários dias seguidos, refere-se a estes passeios como fugas e costuma perguntar-me "vamos fugir?". Garantidamente que sim, vamos fugir mais vezes para regressar e partilhar tudo convosco. 

 

Sigam o Blog Leonismos no Facebook para não perderem o nosso comboio. 

 

06
Abr16

O Sexo e a Capital: Amor à Primeira Vista


Leonardo Rodrigues

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Tenho amigos que defendem acerrimamente que deveria ter no blog uma rubrica semelhante ao Sex and the City, uma coisa à Bradshaw. Por dois motivos: conto-lhes tudo, eles contam-me tudo; tentamos chegar a verdades universais sobre o nosso caos amoroso.

 

Não sei se sei escrever sobre isso, mas enquanto pessoa que tem sexo na cidade, quiçá, talvez, tenha qualificações para tal, como milhões de outros citadinos com acesso à internet. Vou chamar a isto O Sexo e a Capital.

 

E como é que se começa? Bem, talvez não esteja a começar, embora os posts que mais leram tenham sido sobre outras temáticas, tenho um post intitulado de "Cio Emocional" e outro de "Estamos a ficar todos mais para o puta?" - sim, O Sexo e a Capital começou há mais tempo, só não tinha nome. Algumas opiniões mantenho, outras não e isso é crescer.

 

Para começar, nada melhor e mais cliché do que o amor à primeira vista. Já disse que não, agora digo que sim, mais ou menos isso.

 

Pensei, na ingenuidade da minha adolescência, que o "amor" só surgisse lá para 3ª vista. E assim deveria ser, pela questão prática de se saber como é a pessoa no dia-a-dia, fora do encontro, sem o vinho que lhe dá conversa, torna interessante e bom na cama.

 

Ao mesmo tempo que, teoricamente, deveria acontecer menos, não fosse a bagagem que uma pessoa acumula, acontece mais. Afinal de contas vamo-nos conhecendo cada vez melhor e nos tornando mais e mais seletivos, sabendo, desta forma, de antemão o que queremos e resulta e o que não. Já ninguém tem tempo a perder, e isto é uma faca de dois gumes.

 

A realidade também, confesso, é que não preciso de muito para me apaixonar. Existem pessoas que conheço, tudo impecável, mas não há faísca e não faço questão de repetir. Sejamos amigos. Outras que, apesar deste e daquele defeito, são tudo e muito mais, e, por algum motivo, fazem-me comprometer emocionalmente. De forma simples, amor à primeira vista, para mim, é quando se conhece alguém e queremos continuar a conhecer, apenas essa pessoa. Não é propriamente à primeira vista, que acho isso um tanto superficial, mas talvez à primeira conversa, ao primeiro toque.

 

O exemplo mais divertido dum destes episódios deu-se quando alguém, durante o nosso primeiro jantar, me decide contar uma história sobre um aranhão a que esteve uma hora a explicar o porquê do mesmo ter de morrer. Estivemos juntos durante 3 meses. Mais recentemente, outro caso, acho que foi ver como não-sei-quem faz a sua cara que dá conta de timidez: uma combinação de respiração contida, movimento de nariz e lábio.

 

Este "amor à primeira vista" é perigoso, complicado, geralmente fugaz. Da última vez que tal me aconteceu o cupido só teve tempo de atirar uma flecha sobre mim, não fosse isso que o gajo faz sempre.

 

Enquanto me deixo de devaneios e volto para a cama para continuar a curar a gripe, contem-me, acreditam na vossa definição de amor à primeira vista?

 

 

P.S. Tenho a agradecer à minha querida Laura Brás por me facultar os olhos para fotografia e por me incentivar, continuamente, a encontrar o amor para além da 1ª vista. 

15
Dez15

Abrigo dos Sem Abrigo


Leonardo Rodrigues

Este é um post diferente dos que tenho feito até agora, o que vos vou mostrar de seguida é o meu trabalho final para a cadeira de fotojornalismo, onde as imagens tem de ser mais fortes do que as palavras.

 

Inicialmente pensei em fazer um portfólio que consistia em fotografar desconhecidos, que via com frequência, e fantasiar acerca das suas histórias, mas a realidade acabou por se impor sobre a ficção.

 

Há uns dias, após regressar ao meu primeiro bairro em Lisboa, passei por um sem abrigo que já não via há um ano. Notei que ele agora fazia algo pelos trocos que pedia, pintava. Não eram coisas tristes e sem cor, ou só com duas cores, os desenhos eram alegres, cheios de vida, com mais cores do que as do arco-íris. Isto agora fez-me lembrar o trecho dum dos meus poemas favoritos de Pessoa, "E canta como se tivesse/Mais razões pra cantar que a vida."

 

Fiquei contente, claro, mas segui caminho, afinal de contas é o que toda a gente faz, mesmo em vésperas de natal.

 

No dia após o meu reparo, quando acordei sentia um conforto tremendo ao estar quentinho na cama e a ouvir o bonito som da chuva, que não me podia tocar. Depois, como é costume, comecei a percorrer o bairro mentalmente, árvores e carros em frente, bom dia ao senhor do café à direita, esperar pelo verde à esquerda e lá estava ele, o sem abrigo pintor.

 

Acontece que não era um dia como os outros que têm contrariado as leis do inverno, chovia e muito. Onde é que ele se estava a abrigar, perguntei-me, e como? Sei que existem sítios onde podem passar a noite, mas nem todos o fazem.

 

O sítio onde este passa as noites não sei se encontrei, mas no meu percurso desde Sete Rios até aos Restauradores capturei vários "abrigos" que metem dó a qualquer um, então na Avenida da Liberdade não há quem os esconda, embora todos o tentem ignorar.

 

Abaixo estão alguns dos abrigos dos que não têm abrigo. Feliz natal e, em época de agradecer coisas, agradeçam-se o presente de terem um teto e uma cama.

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14
Out15

Recreativa dos Anjos, RDA para os amigos


Leonardo Rodrigues

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Não é um bar, muito menos um restaurante, as placas sobre os balcões assim o deixam claro. No entanto, é pela comida que se sabe da existência da Recreativa dos Anjos e é pela comida que lá se volta. O que importa esclarecer, logo no início, é que existem bastantes mais razões para entrarmos no número 69 da R. Regueirão dos Anjos.

 

As paredes, que dão corpo à garagem onde se localiza o RDA, preconizam que o recheio há de ser ótimo, diferente e cheio de cor.

 

Em Lisboa, e começando por falar na comida, dificilmente se conseguirá comer tão bem, em qualidade e quantidade, por tão pouco. Lá, com quatro euros, podem comer uma deliciosa sopa - nada que ver com a água colorida servida em muitos restaurantes - , um prato principal e uma cerveja - que, mesmo não sendo a única bebida em stock, parece ser a mais apropriada.

 

Numa primeira ida ao RDA podem surgir as seguintes questões: Servem à mesa? Aceitam multibanco? Posso mesmo entrar para ir buscar a cerveja? Terei mesmo de lavar a loiça que sujar? E, algo que se deve perguntar sempre, há café? Não, não, sim, sim, não, são as respetivas respostas.

 

Depois de esclarecido o elementar, na segunda visita, as questões são menos técnicas e mais teóricas, quem são e qual o objetivo? Entre amassar a base da pizza e limpar a polpa de tomate entornada, um dos voluntários do Forno Comunitário respondeu que são uma associação constituída por vários grupos recreativos, e que estes tomam conta do espaço em diferentes dias da semana. Quanto ao objetivo, tem tanto de simples como de complexo: mostrar que há uma alternativa - se não total, parcial - ao capitalismo desenfreado que se vive nos nossos dias. Coisa que os próprios reconhecem limites, "os alimentos que aqui estão tiveram que ser comprados em algum sítio".

 

Se há algo que não tem limites é um sorriso no rosto com que somos recebidos e um espírito de entre-ajuda sem igual que se observa. Falam com toda a gente como se fossem amigos de há muito. Há quem veja os integrantes do projeto como hipsters, mas a própria palavra está mais em voga do que aquilo que significa, o que eles são é livres. Ou, pelo menos, tentam, fugindo ao sistema de coisas.

 

É de notar ainda um cão e um gato bem dispostos, que muito diplomaticamente partilham o espaço, seguindo assim as pisadas dos donos. Só lhes falta falar.

 

Quem frequenta o espaço, à semelhança dos que lá são voluntários, vêm de todos os lados e vestem-se de forma diferente, na fila tanto pode estar um senhor todo engravatado, como alguém descalço. Mesmo pertencendo a um grupo, não se homogenizaram, e isto é prova do tal conseguir fugir, ainda que parcialmente, ao capitalismo.

 

Se lá forem num domingo ou numa segunda terão a Recreativa do Forno Comunitário dos Anjos para vos receber. Em ambos os dias o prato principal é pizza, cabe ao freguês escolher os ingredientes que lá quer colocar. No que à confeção diz respeito, e isto para os mais entusiastas, têm a possibilidade de meter as mãos na massa, com o apoio de um voluntário. O objetivo é dar a conhecer a todos como utilizar um forno e ensinar a fazer pão. A ideia fundadora do projeto remonta de há muito, quando nem todas as casas tinham forno, então, no centro das aldeias, existiam um forno que poderia ser utilizado por todos, o forno comunitário.

 

De Terça a Sexta a confecção dos pratos passa a ser da responsabilidade dos voluntários da Cantina Cooperativa, embora as atividades fiquem a cargo de outros.

 

Seguindo a ordem dos dias da semana, na terça, para além da Cantina Cooperativa, é dia da oficina de computadores - coletivo 1000101 - tomar conta da garagem. Estes têm como missão promover a auto manutenção informática e a utilização de software livre. Se lá levarem o vosso computador avariado alguém há de resolver o problema e, mais importante que qualquer outra coisa, de forma gratuita.

 

As quartas feiras pertencem à Cicloficina dos Anjos que, para além de repararem bicicletas de forma gratuita, vão ensinado a quem por lá passa a arte para que depois também o possam fazer em casa.

 

A Associação Terapêutica do Ruído, terceiro recreativo, descreve-se como uma entidade devota aos efeitos terapêuticos do mesmo. Segundo a sua página, o ruído em doses elevadas permite a libertação das tensões e frustrações do dia a dia. Se passarem pela Recreativa no último sábado de cada mês se poderão experimentar uma libertação total, muito ruidosa.

 

Por último, mas não com menos importância, temos o recreativo do Bookbloc, que organiza uma discussão quinzenal e aborda essencialmente duas grandes temáticas: a cidade e o feminismo. Para abordar estas temáticas utilizam sempre um texto ou um filme como base.

 

Este mês, para além do que acima foi escrito, haverá ping-pong às quintas e boxe ao sábados. A agenda, que é bem mais vasta e onde constam atividades como workshops e tertúlias, pode ser encontrada no blog da Recreativa ou na sua página do Facebook.

 

Não se admirem por de lá sair com um sorriso nos lábios, talvez seja da companhia, talvez seja da comida maravilhosa que não esvaziou os bolsos, talvez seja por outra coisa qualquer.

 

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20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

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@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

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