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LEONISMOS

LEONISMOS

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

24
Jan16

Bons livros


Leonardo Rodrigues

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Sei que hoje, para muitos, é apenas dia de eleições, mas ao ver as notas do meu telemóvel, lembrei-me do post que comecei há coisa de semana e meia, então hoje passou a ser também dia de acabar posts.

 

Queria partilhar convosco que li o meu primeiro livro de 2016. Confesso-vos que quando acabei, caiu-me tudo figuradamente e, fisicamente, umas lágrimas. O livro em questão é "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares. Não me apeteceu chorar com o final nem por ter acabado - embora tenha tido um susto quando ao virar a página 607 vi a Nota do Autor - , apeteceu-me chorar pelo livro ter sido tão bom e por todas as emoções que fez surgir em mim.

 

O que é que torna um romance bom? Em primeiro lugar lê-se sem esforço, e com isto não digo que não exija pensar, refletir, pesquisar até, mas fazemo-lo com naturalidade. Os livros, a literatura, toda a arte enquanto arte, têm de fazer sentir. Se um livro não for capaz de me sentar à mesa com as personagens e me permitir escutá-las, olhá-las nos olhos, sentir a dor que deveria ser só delas, não é nada. Um livro mede-se, para mim e agora, pelas emoções que desperta e pelos desejos que acorda.

 

O "Rio das Flores" faz isto tudo, mas não quero aqui despi-lo completamente porque acho que as páginas de um livro têm de ser percorridas com uma sensação de novidade, como se de um corpo de um novo amante, ao ser percorrido pela primeira vez, se tratasse - embora já haja suspeitas relativamente ao conteúdo.

 

Escrever isto, recorda-me de uma entrevista de António Lobo Antunes, que vi há uns anos, ele dizia não entender bem o porquê de se falar de livros, achava que isso simplesmente não se deveria fazer. Na altura acabei por concordar, final de contas, por mais que me desdobre em elogios ou críticas, aquele paralelepípedo de papel só será alguma coisa cada vez que for desbravado e cada leitor vai sentir algo de singular, de acordo com as suas vivências e ideias, que me transcende.

 

Mesmo me transcendendo, vou partilhar o que o Rio das Flores me reassegurou: para além das aparências, nada é sólido; ideias e pessoas mudam, sempre; algumas coisas acabam porque outras melhores, mais acertadas, estão para começar; e, principalmente, que os Homens, bem, são apenas homens.

 

Como o período de luto ou de ressaca literária já acabou, iniciei outro, "O Retrato de Dorian Grey" de Oscar Wilde. Talvez com esse escreva uma crítica a sério, talvez não escreva nada. Votem bem!

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