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LEONISMOS

LEONISMOS

25
Nov16

Um colega que me quer comer... a paciência


Leonardo Rodrigues


É sexta feira, perdoo tudo, mas escrevo na mesma. Ao longo destes meses a minha vontade de ir trabalhar cresceu à medida que novos laços foram sendo criados e procedimentos interiorizados. Contudo, não podemos agradar a todos nem todos nos agradam. Tenho um colega que me adora dizer que fiz trapalhada ou inventar um procedimento adicional, fresco e inexistente. Por vezes pede desculpa e assume o erro, outras pede-me que o deixe falar, de forma muito calma, assertiva e irritante. Sempre que preciso que ele faça o seu trabalho, adotei a mesma estratégia: sorrio exageradamente, explico de forma extraordinariamente pausada o que pretendo e aguardo o clique em que nos agradecemos mutuamente. Hoje isto aconteceu, mas embora houvessem várias mensagens onde expliquei toda a situação e também o tivesse feito pessoalmente, quando estava a sair perguntou-me se me ia embora sem uma resposta. Três horas antes tínhamos feito o agradecimento mútuo. Expliquei-lhe apenas já tinha sido tratado, ele voltou ao que estava a fazer e eu vim de fim de semana. Sabem, eu não quero que deus me dê paciência, quero ser aumentado. É pedir muito?

13
Jun16

Insónia pré primeiro dia


Leonardo Rodrigues

Existe uma patologia que, a meu entender, está a ser ignorada: insónia pré primeiro dia. Os primeiros dias, sejam do que for, são, por norma, determinantes. Há a quase obrigatoriedade de realçar o melhor de nós, com o sistema operativo a funcionar em pleno. Isto causa ansiedade. Ontem, não fosse um pré primeiro dia, deu-me esta insónia. Não a tinha desde os tempos de escola. Toda a gente sentiu aquele nervoso miudinho na barriga no domingo que antecedia o primeiro dia de aulas. Eu sentia todos os domingos. Neste dia, tudo parece começar de novo, o nosso telemóvel, penteado, guarda roupa e o amor incondicional pelos colegas com quem não trocámos nem uma SMS durante as férias. Na vida adulta, esta insónia acontece aquando do regresso ao trabalho. Hoje comecei no emprego novo -  isto significa pura e simplesmente não adormecer. Ontem, pelas 20h, ainda não sabia que a minha paranóia com o despertador ia regressar, mas já me sabia nervoso. Lavei loiça, varri tudo, lavei e dobrei roupa. A minha tia passou-me a OCD para curar os nervos. Depois da casa, lembrei-me que também eu tinha imenso que fazer por mim, preparei uma mochila com cadernos onde já sabia não poder escrever e um livro que sabia não vir a abrir. Para complementar, achei por bem colocar a agenda que não uso, 3 canetas da mesma cor e cartões que nunca utilizo, tudo pode falhar. E, para piorar tudo, olhei-me ao espelho e vi que a barba precisava de um jeitinho. O jeitinho transformou-se em: lavagem com champô e condicionador, aparar com o pente no número quinze, depois com o catorze e, como nada me parecia alinhado, fui buscar uma tesoura. Demorei uma hora para não falhar um milímetro. Entretanto chegou a 1 da manhã, aí descobri que a máquina xpto que comprei no meu primeiro ano de faculdade também tem algo para aparar os pêlos do nariz... Depois, as horas pareciam demasiado estreitas para conseguir dormir e havia uma questão que dizia para me manter alerta: será que o despertador vai tocar? O meu telemóvel já me pregou partidas traumatizantes. Não só tocou como estava a olhar para ao telemóvel para desligá-lo por 4 vezes. Mesmo tendo sido feriado municipal e tendo eu apanhando dois autocarros, com transbordo e caminhada por um bairro desconhecido -  O Google Maps traíu-me duas vezes - fui dos primeiros a chegar. Sobrevivi e fui bem recebido. Acontece que não dormir fez-me concordar com tudo e levantar questões às quais obtive respostas que não me lembro. O que me vale é que amanhã o dia nasce outra vez e que, desta vez, serei (re)acordado por dois despertadores humanos.

10
Jun16

Assinei contrato: o que aprendi


Leonardo Rodrigues

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Flazingo

 

Depois de muito procurar emprego, assinei ontem um contrato de 6 meses. A procura teve momentos mais ativos do que outros. Não significa isto que alguma vez tivesse parado, em alguns momentos foi complicado manter o foco e a preocupação era-me paralisante. Não me apetecia escrever, não me apetecia falar, honestamente queria dormir e acordar quando no mundo os arco-íris tivessem mesmo um pote de ouro no final. Não conseguir um emprego significava que, depois de anos por minha conta, teria de voltar à Madeira, viver com a família e chatear-me. Assustador. Vontade de trabalhar nunca faltou, sempre quis depender apenas de mim. Ter emprego dá-nos essa liberdade e, para mim, significa viver onde quero, onde está e acontece tudo o que me importa. As ofertas de trabalho remunerado existem, aos milhares - não há para todos, certo, mas há para muitos. Fui, sem brincar, a dezenas de entrevistas, inclusive a várias segundas entrevistas. Muitos foram os sinais de como aquele seria o meu novo local de trabalho: "olhe, gostei mesmo muito", "parabéns pelas notas", por aí fora. Gostavam de mim, mas gostaram mais de outro. Aconteceu-me de tudo, ser aceite numa consultora que entretanto cancelou o recrutamento, "conseguir" um estágio do IEFP pelo qual não posso esperar. Eventualmente, uma das empresas de recrutamento que me chamou várias vezes deixou de telefonar e passou a enviar email a dizer que ainda não era daquela. Isto acabou.

 

Se há algo que fiz sempre foi pedir feedback ao longo do processo. Cheguei, inclusive, a perguntar aos recrutadores coisas que toda a gente quer saber como "é verdade que detestam Europass?". São essas pequenas aprendizagens, que podem parecer óbvias, mas que nem sempre temos em mente, que irei partilhar, do currículo às entrevistas.

 

Currículo

É na construção do currículo que estão os bastidores do espetáculo, é este o primeiro passo que decide se damos um segundo, quiçá, um terceiro. Eu tenho dois modelos diferentes e altero o conteúdo consoante aquilo a que me candidato. Temos de adaptar. Acho mais cliché odiar o Europass do que utilizá-lo, mas a minha opinião não importa, importa a dos recrutadores. Nesta matéria ouvi essencialmente duas coisas: "não temos problemas, é muito comum, o meu problema com o seu currículo é a ausência de datas". Aqui não se encerra o assunto, um bom amigo disse-me: "se estou a recrutar para uma vaga e recebo centenas de currículos, não posso ler todos, nem entrevistar todos os candidatos, então, é olhar para os 20 que se destacam [- os que não usam o dito cujo -], os que mostram empenho e criatividade. Claro que depois de os ler vou estar mais perto do candidato que procuro.". Faz sentido. Pelo sim pelo não, façam noutro modelo. Não precisam de algo over the top, apenas que vos diferencie e que, de forma sucinta, mostre o melhor de vós, a vossa experiência, capacidades e interesses. Só depois de o fazer é que comecei a ser chamado. Há um post de que gosto muito, escrito por alguém que está do lado de quem emprega e que cobre estas matérias muito bem, vejam Erros fatais no currículo.

 

Candidatura

Enviem currículos para trabalhos que vos interessem e que sentem conseguir realizar. Na fase do já estou para tudo, enviei currículos para cargos que não me interessavam, para os quais nenhum dos meus currículos fazia sentido. Isso culminou numa entrevista em que, depois de dois dedos de conversa, perguntaram-me: "o que é que ganho em tê-lo cá em vez de um dos outros 30 candidatos?". Costumo ter as respostas na ponta na língua, mas não soube responder-lhe. Não sabia responder porque mentir é das coisas que cada vez consigo fazer menos. Por vezes apetece-me dizer algo de bom para não abusar da sinceridade, mas a minha cara já está a assumir outros contornos. Enquanto posso dizer aos meus amigos "tens um macaco no nariz", "quando queres ir à loja para trocarmos essas botas?", "desculpa, mas ele só te quer para aquilo", "não dormes há quantos dias?", ao senhor não lhe podia dizer que aquele cargo e condições não faziam sentido, então despedimo-nos cordialmente. Se não me tivesse desvalorizado ao candidatar-me teríamos ambos poupado tempo.

 

Entrevistas

Nesta fase final, da performance, sejam vocês próprios. Representar alguém que não somos é difícil e passa para o outro lado. E, se nos tivermos candidatado a algo em que temos interesse, tudo corre sem esforços, sem nervosismos. Numa das entrevistas, estive a falar durante 5 minutos sobre coisas que detestava, mas que pareciam relevantes. Isto transpareceu e a senhora que me estava a entrevistar parecia enfadada. Quando comecei a falar realmente de mim, dos meus interesses, capacidades, aspirações e do que fazia - este blog, por exemplo - os olhos dela acenderam-se e começámos a ter um diálogo em vez dum monólogo. Embora esse recrutamento tenha sido cancelado, quando voltei à empresa, semanas depois, para falar com outra pessoa, ela viu-me do outro lado do open space e cumprimentou-me com um grande sorriso. Se forem iguais a toda a gente ninguém se vai lembrar. Mais recentemente, na mesma empresa, ligaram para me enviar diretamente para a segunda entrevista. Fiquei.

 

O meu novo emprego, embora só me ocupe a manhã, tem uma certa exigência, mas o salário e as condições estão à altura. Vou ser independente sem deixar de ter vida e, o melhor de tudo, terei tempo para fazer o que gosto e trabalhar noutros projetos sem ter de me questionar onde vou dormir no próximo mês. Na frase anterior não “escrevi dinheiro para beber café” pois o café lá dentro não me custará um cêntimo e, sim, isto pesou no meu entusiasmo aquando do início da entrevista. Confesso que este entusiamo foi o quebra gelo, não fosse as senhoras dos RH terem isto em comum comigo.

 

02
Mai16

Estágios do IEFP? Ai.


Leonardo Rodrigues

Pois é, parece que metade da população ativa está a procura de trabalho, eu não sou exceção.

 

Como sabem, os estágios do IEFP estão na moda. São um autêntico paraíso e, como tal, cada vez mais procurados pelas empresas que, doutra forma, contratam muito pouco. Uma caturreirice para alguns, sei lá.

 

Recentemente surgiu-me uma oportunidade de sonho, não que as condições do estágio mudassem a nível de remuneração, mas as funções a desempenhar - relacionadas com o meu curso, imaginem só - , o local e as pessoas eram perfeitos. Digamos que consegui o trabalho, a empresa oficializou a candidatura, tudo certinho. Feliz que ia ter a minha primeira experiência de trabalho gratificante em 30 dias úteis, acomodei-me.

 

Escrevi 30 dias úteis porque é este o número de dias que, segundo o IEFP, demora a que a candidatura seja revista - claro que a contagem pára quando são pedidos novos documentos. 30 dias é o prazo de validade da esperança, das expectativas(só não faço uso do novo AO com esta palavra). Depois chega a frustração e a incerteza.

 

Hoje, depois de uma entrevista de emprego, já que ficava no caminho, decidi que ia presencialmente saber o que se passava. Sentei-me com uma técnica extremamente simpática e atenciosa que prontamente me esclareceu em tudo - se isto parece ironia, não é. 

 

Fiquei muito contente com a mudança de governo(ainda não sei bem o que acho do nosso PM, mas gosto das ideias duma esquerda mais ou menos em concordância.) Acontece que nunca tinha sentido na pele as implicações destes acontecimentos tão politicamente empolgantes.

 

Hoje senti, quando alguém que trabalha para o Estado me explica que esperar por um governo, esperar por um Orçamento de Estado, não estarmos a nadar em dinheiro e, claro, o aumento de interesse nestes estágios, levou a atraso como nunca antes visto. Não são dias, também não são semanas, mas MESES. MESES!!!!

 

Aqueles que se candidataram a este estágio em outubro, podem começar agora a obter as respostas. Eu candidatei-me em março, portanto terei de aguentar mais algum tempo.

 

A senhora, ao ver a minha cara de frustração, disse-me para não perder a esperança, que não era um não. As coisas estão efetivamente a andar, apenas devagar. Para aqueles que, à semelhança de mim, têm menos de 30 anos e pretendem "o tal" estágio, podem trabalhar entretanto, só terão de se desvincular desse emprego uma vez que a candidatura seja aceite, de forma a serem considerados "Desempregados" pelo IEFP e, então, elegíveis para estágio. 

 

Espero que isto seja de utilidade. Que a procura continue. Ai.

 

 

 

24
Fev16

Entrevista a Thomas Mendonça, parte I


Leonardo Rodrigues

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Demoram, mas as entrevistas regressam sempre. Para o regresso, os eventos organizaram-se para que fosse Thomas Mendonça o convidado. É um artista plástico luso-francês que tive o gosto de conhecer antes desta conversa tomar lugar. O que mais me surpreendeu foi alguém tão talentoso e inteligente se apresentar tão humilde, sem se levar a si e à vida tão a sério - só o suficiente. 

 

Antes da conversa, e depois de quase entrar na rua errada, tive uma visita guiada pela sua residência e atelier. O quarto serve de atelier de cerâmica - foto - , aqui pude ver e tocar nas peças que iram estar brevemente em exposição. Na cozinha, pela luz fantástica, é onde desenha. Foi lá que, depois dos copos com água, começámos a gravar o que seria uma boa hora de conversa. Durante esta hora abordamos questões como a identidade e processo criativo, o ensino e a sua próxima exposição. Devido à extensão, e porque as respostas são demasiado pertinentes, vou publicá-la em duas partes. Boa conversa!

 

Leonardo RodriguesComeça por te apresentares.

Thomas Mendonça: Chamo-me Thomas, nasci em França, perto de Paris, e vivi lá até os meus 10 anos. O meu pai é português e a minha mãe é francesa, pelo que tenho dupla nacionalidade.

 

LRTens alguma rotina, como é o teu dia-a-dia?

TM: Depende da fase do meu trabalho. Há alturas em que tenho uma rotina que é uma ausência de rotina. Neste momento o que tenho é uma rotina de trabalho porque estou a preparar uma exposição, o que faz com que tenha coisas para fazer diariamente. Acordar cedo faz parte disso, gosto muito do dia e de aproveitar a luz. Ao final do dia apetece-me descontrair e, à noite, sair. Durmo pouco, é uma opção.

 

LR: Vieste para Portugal muito cedo, com 10 anos. Quase que viveste metade da vida lá e a outra metade cá. Confidenciaste-me que isso a dada altura gerou uma certa confusão, a de não saber aonde pertences.

TM: Sim, durante a adolescência esta foi uma questão pertinente, a da casa, também em termos de identidade. É muito importante saber de onde vimos. Foi um problema ter duas nacionalidades e não perceber bem em qual delas me enquadrava. Simplesmente tenho as duas, são ambas parte de mim e hoje em dia vivo bem com isso, embora durante muito tempo tenha sido estranho ser francês em Portugal e português em França. Às tantas não és coisa nenhuma em lado algum.

 

LR: Já encontraste esse sentido de pertença?

TM:Não me sinto apegado a nenhum dos dois.

 

LRE à cidade de Lisboa?

TM: À cidade de Lisboa sim, sinto-me muito apegado. Finalmente, lá está, depois desta fase chata de não saber onde quero estar nem de onde sou, simplesmente decidi assumir que sou de Lisboa porque é uma cidade que me acolhe bem. Eu gosto de estar aqui, é a minha casa. Sei que posso ir para onde quer que seja, mas aqui é onde regresso e estou bem, em casa.

 

LR: Também estiveste em Erasmus na Polónia, foi essa uma terceira casa?

TM: Não, de todo. Foi uma experiência relativamente dura. A Polónia é fria e não tem luz solar no inverno.

 

LR: E as pessoas são como o clima?

TM: As pessoas parecem simpáticas, mas são muito tímidas por não falarem muito bem outras línguas. Eu entendo de onde vêm estas coisas: o pós guerra, o pós comunismo, muitos pós. Eles naturalmente são um povo mais fechado sobre eles próprios.

 

LR: No trabalho que tens vindo a realizar, excluindo então a Polónia, como é que a dicotomia Portugal-França se reflete?

TM: Acho que algumas dúvidas em termos de identidade fazem parte do meu trabalho normalmente, mas não é algo de sério ou central. Acho que toda a gente tem as dúvidas existenciais e acerca de muita coisa.

 

LR: Quando é que descobres que tens uma aptidão especial para certo tipo de coisas? É ainda em França, quando frequentaste, por exemplo, o atelier de cerâmica aos seis?

TM: Acho que desde muito novo. Tal como acontece geralmente nas áreas criativas, as pessoas têm um à vontade para isto.

 

LR: Lembras-te de ter tido algum momento mais concreto, um aha moment, em que te apercebes gostar mesmo muito disto?

TM: Não, parece que é algo que antecede a consciência. Dizem-me as pessoas da minha família que com dois anos e pouco enrolava lã à volta da minha cama e dizia que era decoração. É algo de que não tenho memória, obviamente. Nem na altura deveria ter consciência do que estava a fazer... ou tinha, não sei.

 

LR: Consideras que estas aptidões têm uma base natural?

TM: Não acredito muito na questão natural ou biológica, mas de facto não consigo perceber em que momento surge. Portanto, talvez seja.

 

LR: Quando é que decides que é isto que vais explorar? Disso já deves ter memória...

TM: Lá está, esta também parece ter sido uma decisão que antecipou a minha consciência. Quando se entra no secundário é preciso tomar um rumo e eu sabia que iria para artes. Sempre foi uma coisa muito lógica para mim. As áreas criativas sempre estiveram presentes, nunca tive que ponderar muito. Parece natural, não é uma dúvida. Depois do secundário, a faculdade não foi uma decisão muito complexa.

 

LR: Escolheste Artes Plásticas. O que é que o ensino superior acrescentou?

TM: Eu terminei o secundário numa escola de artes, António Arroio.  Ali estudei o curso de Produção Artística em Têxteis. Nos últimos anos percebi que não seria de todo design de moda, então segui para artes plásticas. Na altura queria afastar-me de Lisboa, então decidi que Caldas da Rainha seria a primeira hipótese e em último Lisboa. Com a média que tinha entrei na primeira opção. O ensino superior, não sei se é em Portugal, se em todo o lado, se uma questão de agora ou de sempre, nestas áreas é de alguma forma dispensável. À partida estamos enquadrados por um conjunto de professores, uma academia, uma escola, onde é suposto acontecerem determinadas coisas que não acontecem. O que me falta do meu curso são as questões práticas de como aplico isto na minha vida profissional, para poder chegar e dizer faço isto, aqui e agora. É um absurdo terminamos 3 anos de licenciatura e gastarmos mais de 3000€. Conhecemos professores fantásticos, uns mais do que outros, e fazemos amigos para a vida. 

 

LR: Então a nível profissional não enriquece assim tanto...

TM: Pode, mas é mais um acaso, depende também das relações que sabemos estreitar de uma forma pessoal e não profissional.

 

LR: Pelo que me disseste, quando acabaste o curso sentiste uma necessidade de ser independente, o que te levou a tentar encontrar emprego.

TM: Sim, quando acabei a licenciatura regressei para Lisboa. Rapidamente percebi que não fazia sentido regressar para retornar à casa dos meus pais, que fica na margem sul - o que não é perto nem afastado. Tenho muito gosto em estar perto das coisas, mais perto ainda. Comecei a viver em Lisboa, pagando contas. Tive sorte que não pagava casa na altura, mas havia alguma necessidade de ter independência financeira. Então, procurei emprego, como se faz normalmente para obter dinheiro. Acho que não queria muito e por sorte não encontrei. Via-me sem emprego, mas a conseguir viver em Lisboa, então decidi apostar naquilo em que me formei.

 

LR: Qual o maior problema que vias em trabalhar para outros? Achas que isso te iria comprometer artisticamente?

TM: Seguramente. Parte desta produção é uma questão de tempo. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo e, naturalmente, se tiver um trabalho das 8 às 18 não tenho esse tempo para estar a produzir diretamente e objetivamente as coisas. O trabalho iria ser muito mais pequeno, mais complicado, mais atrasado e acho que seria uma pessoa mais frustrada.

 

LR: Como é que as coisas surgem, como é o processo criativo pelo qual passas?

TM: Por vezes são epifanias, de repente apetece-me fazer qualquer coisa dentro de uma família de assuntos que me são mais naturais. São abordagens que vou trabalhando ao longo do tempo. Isto aplica-se a tudo, aos materiais, às temáticas e às técnicas. Não é uma linha reta, é uma linha que vai sempre atrás pescar coisas. São raras as quebras significativas no meu trabalho, mas existem. Por vezes há mesmo vontade de fazer completamente o contrário. É uma forma de nos reinventarmos de alguma forma. Depois, com paciência, é voltar a ver o que é que deixámos para trás e recuperar muitas coisas.

 

LR: Tens por hábito retomar trabalhos antigos?

TM: Não é bem retomar porque estamos no futuro, no depois, não se volta, temos outra bagagem, outra vida que aconteceu entretanto. Acontece muitas vezes olhar para coisas que foram feitas há muito tempo e não perderam interesse. A certa altura há ali uma coisa em que eu reparo que agora estou a trabalhar muito e não fazia ideia ou me lembrava que já existia. Pode ser muitas vezes uma forma de fazer, uma textura visual ou até mesmo uma coisa muito objetiva como uma palmeira.

 

LR: Quando te acontece não querer continuar determinado trabalho chegas a mandá-lo fora ou guardas para a eventualidade de?

TM: Eu nunca cheguei ao ponto de mandar uma coisa fora por estar chateado com ela. Ponho-as de castigo. Tenho alguns trabalhos que estão guardados que para os quais dependem muito tempo, paciência e meios, mas não consigo por algum motivo. Sei que daqui a dois anos vou pegar neles.

 

LR: Chegas a expor peças que estiveram de castigo?

TM: Sim, algumas das peças que vou expor em março não foram feitas agora, mas fazem sentido agora. Antes não estavam como eu queria. Havia qualquer coisa que me chateava nelas e deixei-as num canto. Agora, repensei-as, algumas alterei, e fazem muito sentido. Vieram mais cedo, mas só agora estão preparadas para fazer parte deste grupo de peças.

 

LR: Essas peças são como na moda...

TM: ...uma coleção, seria impossível não sê-lo. São coisas feitas num período de tempo relativamente próximo. E mesmo que sejam feitas ao longo dos anos... há coisas que são como o croché, a linha vai atrás e segura na laçada anterior criando a próxima. Há um fio condutor que as une a todas. Há uma linha de pensamento que se foi construindo ao longo do tempo.

 

Ler parte II.

 

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