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LEONISMOS

LEONISMOS

29
Nov16

A empregada sabotou o dia em que eu conheci os pais


Leonardo Rodrigues

A primeira vez deixa-nos com os nervos à flor da pele, mexe com os intestinos, faz pulsar a veia da testa e, se for o caso, pode doer. Isto para a maioria das primeiras vezes. Quando conheci os pais dele deveria ter sido assim, mas a verdade é que nem tive tempo para pensar na grandiosidade da coisa até estar sentado, primeiro a respirar, depois a jantar. Estive demasiado ocupado a ser eletrocutado pela adrenalina.

Para o aniversário, ele decidiu fazer um jantar com os pais. Eu, enquanto namorado fofo e boa dona de casa, prontamente me propus a cozinhar. Queria, mesmo fora de água, sentir o conforto da cozinha. Quando chegou o dia ainda me tentou com a ideia do restaurante, mas não deixei. Ele ia trabalhar, a Fátima fazia as limpezas semanais e eu tornava o jantar possível. Parecia simples.

Estando de folga, dormi até às quinhentas, iludido pela simplicidade da vida. Levantei-me para ir fazer as compras e, como tinha tempo, decidi que ia comprar, comparar e comprar mais no Lidl, Pingo Doce e, para ter a certeza, Continente. Como estavam todos tão próximos, porque não? Fiquei quatro horas a passear sacos de um lado para outro, sempre com a ideia de que a empregada estava a fazer a sua magia.

Quando regresso a casa vi tudo como deixámos, até o pacote de Tuc se estava à vista de todos na mesa da sala. A Fátima não tinha feito magia. Embora tenha vasculhado a casa para perceber se tinha acontecido alguma coisa à mulher, não precisei de gastar mais neurónios para perceber que estava por minha conta.

Coloquei os calções mais curtos que encontrei, agarrei no aspirador como se a minha vida dependesse de matar o pó, lavei loiça, esterilizei a casa de banho, dobrei roupa e escondi coisas que não têm sítio fixo dentro dos armários.

Ele apanhou-me a 2/3 do desmaio. Com um sorriso na cara, contou-me que a empregada decidiu ir à segurança social e, como aquilo demora, achou melhor passar lá em casa no dia seguinte. 

Cozinhei para as 10 pessoas, as crianças comeram tudo, os adultos elogiaram, rimos muito. Portei-me bem e senti pertença. Mesmo que alguma coisa não seja, temos uma fotografia que vai ficar para sempre e que me faz sorrir.

No que diz respeito à Fátima, arranjei forças para perdoar-lhe porque no dia seguinte ela compensou com uma sopa sublime. Agora que ela vai para Londres de férias, eu vou aperfeiçoar as minhas sopas, assim reduzimos a nossa dependência e, com sorte, ela percebe que não me pode deixar à beira de novo ataque prozac sem aviso.

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 Imagem: A Criada Mal Criada

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

orpheu_img.jpeg

Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

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