Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

LEONISMOS

LEONISMOS

24
Jan18

Visitar Milão num dia - ideias sobre o que saber, ver e fazer


Leonardo Rodrigues

6772611083_773f3c44f6_b.jpgFoto: "Milan from above" by Suvodeb Banerjee is licensed under the CC BY 2.0

Porque a vida assim decidiu, após muitos anos de espera, finalmente aterrei na terra que tem a forma de uma bota. Com um plano muito ambicioso, a primeira paragem foi Milão, a cidade que nunca esteve na lista. 

No comboio com muito bom ar, e que parte do aeroporto de Malpensa sempre pontual, ficamos com a garantia que não nos aproximamos de uma cidade qualquer. 

Como os turistas devem saber antes de lá chegar, a paragem de metro onde querem sair para começar a visita, graças à sua principal atração, apelida-se de Duomo, com a saída para a Piazza del Duomo. 

IMG_1123.JPG

Sei que as opções são variadas, mas acredito que primeiro devem atravessar a Galleria Vittorio Emanule II. 

IMG_1203.JPG

 

Milão 4.jpg

Milão 3.jpg

Existe, mais ou menos a meio, um touro no chão. Reza, de boca em boca, que devemos pisar os testículos do touro com o calcanhar e rodopiar duas vezes, se quisermos a boa sorte. Mesmo contra estas tradições, não querendo perturbar nenhum deus romano, lá o fizemos - depois dos 3 grupos de turistas chineses antes de nós.  

IMG_1114[1].JPG

Depois de passarem por pizzarias, Prada e companhia, poderão chegar à praça onde a estátua representa ninguém menos do que o Leonardo da Vinci. Claro que foi oportuno fotografar alguém tão ilustre, com quem partilho o nome. 

IMG_1056.JPG

 

IMG_1106.JPG

À vossa esquerda, estará o majestoso Teatro alla Scala, uma paragem obrigatória. Porque Itália às vezes recebe bem os estrangeiros à primeira visita, conseguimos assistir ao ensaio de uma ópera que ainda não está em exibição. Não é falácia dizer que vimos uma ópera no Scala. Após as 13 horas, o ensaio termina, as luzes acendem-se e passa a ser permitido fotografar. Depois de andarem por entre os vestidos luxuosos de Maria Callas e bustos de vultos da grandiosidade de outros tempos, aproveitem para passar na loja do museu e comprar boa música a preço de feira. Como Callas outrora disse, "La Scala é tutto". Tudo.

IMG_1072.JPG

 

Milão1.jpg

É altura de seguir até à Catedral e, claro, subir o Duomo - se não quiserem pagar extra para ir de elevador - de forma a terem a melhor vista da cidade. Nesta Catedral gótica irão espantar-se com a sua grandiosidade, dos mármores às pinturas, mas há algo que não deixa ninguém indiferente, a escultura de São Bartolomeu, que foi esfolado vivo. 

IMG_1159.JPG

IMG_1152.JPG

 

 

Milão2.jpg

IMG_1186.jpg

Quando se está a conhecer a cidade, a vontade de ficar parado num restaurante é pouca. Se em Istambul podem comprar milho na rua, em Milão podem comprar massa fresca, sandes e pizzas al taglio. Optei pela massa fresca com pesto para o almoço.

IMG_1241[1].JPG

Ainda no tópico de coisas boas para o palato, dizem que os melhores gelados de Milão estão na Gelateria Solferino, uma gelataria passada para os filhos quando o dono chegou aos 80 - foi mais ou menos isso que lêmos na revista da easyJet. Testámos apenas 4 das 200 variedades e confirma-se, pelo menos em Milão não há melhor a 2,5 euros. A escolha mais ousada recai no gelado de rum. 

Antes de darem o dia por encerrado, passem na igreja Basilica San Vittore al Corpo, que é ofuscada pelo Museu da Ciência da tecnologia "Leonardo da Vinci". Se as voluntárias estiverem de bom humor, é possível visitar o túmulo do imperador Teodósio, e o presbitério - área de acesso interdito. Perguntar o porquê de haver pouca luz e mostrarem-se completamente deslumbrados com a igreja - o que não é difícil - pode ajudar. 

IMG_2419.JPG

À noite, depois de caminhar na agitação da cidade, se optarem por não ir à ópera, nada melhor do que apanhar um elétrico para fazer uma visita aos canais que ainda restam na cidade. Estão ladeados por restaurantes e bares, uns mais conceptuais do que outros, e é aqui que a noite vive. 

Para quem tiver mais tempo, há uma paragem obrigatória, por guardar uma obra prima de Leonardo Da Vinci. É a Igreja Santa Maria delle Grazie, que guarda A Última Ceia. Mas, como só entram grupos de 15 numa sala que é desumidificada a cada visita, só conseguirão garantir o lugar reservando semanas antes.

Na impossibilidade dessa visita, deixem-se perder nas ruas imponentes da cidade, e deslumbrem-se nas montras do Distrito da Moda, já que pagar o que lá está não é para todos os bolsos. A minha maior extravagância em Milão foi mesmo comprar cadernos na Moleskine, onde existem em todas as cores e feitios. 

IMG_1224.JPG

 

IMG_1226.JPG

Há sempre alguma coisa para fazer nesta cidade cosmopolita, quer seja ir jantar ao novo sítio da moda, quer seja um concerto ou uma exposição. No Palazzo Reale, que fica quase ao lado da Catedral, visitámos uma exposição única do incompreendido Caravaggio, um misto entre genial e mórbido. Algures no centro existia uma exposição do aclamado fotógrafo Sebastião Salgado. 

As possibilidades onde vão querer estar são quase infinitas. É um mito quando se diz que Milão é aborrecida. Está é uma cidade onde tudo e todos se encontram. 

 

07
Dez17

O que saber antes de escolher um rent a car


Leonardo Rodrigues

autos-technology-vw-multi-storey-car-park-63294.jp

A grande aventura de uma road trip noutro país começa no rent a car. Pela primeira vez, tive necessidade de escolher o melhor e comecei por algo que afinal não cumpre o seu propósito, as críticas online. 

Na maioria dos casos, percebe-se uma coisa, tendemos a não ler os termos e condições daquilo que estamos a contratar online. Chegamos ao balcão e parece que querem cobrar o dobro ou reter uma "quantia exorbitante" no cartão de crédito, ou ainda facultar-nos um carro que não escolhemos.

Para começar, escolhemos uma categoria de carro, podendo o rent a car ter vários modelos. Caso no momento da recolha não tenha determinada categoria, o upgrade deve ser gratuito. 

Todos os rent a car, sem exceção, se o site não deixar claro, funcionam da seguinte forma: há necessidade de deixar um depósito/caução. Este valor pode ser descontado e devolvido posteriormente ou, em alternativa, fica apenas bloqueado no cartão de crédito. O depósito é uma segurança para o rent a car, embora também sirva para nos empurrar para o seguro.

No que ao seguro diz respeito, por norma, a proteção média é mais do que suficiente. Para nós, a melhor segurança é o seguro. Caso algo aconteça, já está pago e vamos todos continuar amigos. Por vezes, os seguros podem isentar-nos do pagamento do depósito ou reduzir o mesmo, embora nem sempre se aplique. 

Temos de perceber que os rent a cars, e quem lá trabalha, fazem dinheiro muito graças aos extras que disponibilizam como o GPS ou Wi-Fi. Pensem numa companhia aérea low cost: não vão precisar de tudo o que apresentam e é ok dizer que não.  

Embora pareça mais barato reservar através de um agregador, sendo que os agregadores tendem a vender o seu próprio seguro, recomendo ler as letras pequenas que dizem que possivelmente nos venderão outro seguro no rent a car. Além do seguro do agregador não nos ajudar relativamente ao depósito, o seguro no balcão não tem intermediários, pelo que, com a cobertura certa, à partida não teremos de avançar com o dinheiro.

Podem ainda existir valores extra devido à política de combustível, para pessoas mais novas, com carta há pouco tempo ou que sejam mais velhas. Alguns países podem obrigar a equipamento de inverno, algo que pode também ser vendido à parte. Caso tenhamos cometido alguma infração, especialmente dentro da União Europeia, irá chegar uma carta para que a mesma seja paga ou, dependendo das condições, o rent a car pode cobrar no cartão utilizado para pagamento.

Ao recolher o carro, é recomendado confirmar que os danos pré existentes estão iventariados e tirar fotografias ao carro. 

Recentemente, em Itália, optámos por escolher a Europcar, uma vez que foi a única que além do bom preço, deixava claro quanto seria pago no balcão, já com o seguro e equipamento de inverno, assim como quanto custaria a caução. O processo de recolha e drop off do veículo foi muito suave, sem nada sneaky. 

Para quem viaja com um budget, não podem haver surpresas e escolher bem é determinante para um saldo positivo.

 

Podem acompanhar o blog através do FacebookInstagram e Twitter

 

 

27
Set17

Não temos de comprar tudo biológico


Leonardo Rodrigues

orgânico.jpeg

Há uma  consciencialização cada vez maior dos efeitos que a alimentação pode ter na nossa saúde. Sabemos que consumir alimentos processados, com açúcar refinado e gorduras saturadas faz mal, contribuindo para doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes.

Há evidência científica que correlaciona o consumo de alimentos produzidos com pesticidas ao grande C. Acontece que a produção biológica continua a não ser acessível para todos os bolsos. 

No entanto, por ser uma boa tendência, e por haver cada vez mais procura, começa a haver muito mais oferta. O que é bom tanto para a nossa saúde, como para a do nosso planeta. 

Embora nem todos possamos comprar apenas biológico, podemos minimizar a quantidade dos pesticidas com "truques" simples como tirar a casca e lavar os alimentos com vinagre. Ou, se formos mesmo muito sortudos, fazendo crescer a nossa própria comida.

Segundo um estudo da EWG - Enviromental Working Group -, os seguintes alimentos, na sua lista anual, são considerados como mais limpos/seguros, mesmo quando não biológicos: milho doce, abacate, ananás, couve, cebola, ervilhas congeladas, papaia, espargos, mango, beringela, couve flor, meloa, kiwi, mamão e toranja.

Os menores vestígios de pesticidas explicam-se com a forma como crescem, a densidade da casca e a quantidade de pesticidas utilizada para este tipo de cultivo.

Cá em casa, acompanhado a crescente facilidade em adquirir produtos biológicos, uma boa gestão do orçamento e muita atenção aos preços, começamos a conseguir aumentar a fatia de biológicos consumidos, todos os meses. Lembrem-se que tendências de consumo definem o que será a oferta, baixando valores. 

 

Acompanhem o blog através do Facebook

31
Jul17

3 dias em Istambul, no centro do mundo


Leonardo Rodrigues

20226157_1802390560071804_4343633166704050176_n.jp

 

Vou poder dizer, enquanto viver, que estive na Turquia antes de abolirem o ensino da teoria da evolução nas suas escolas. Comecei por onde se tem de começar, a mítica cidade de Istambul. É, para mim, o centro do mundo, onde as coisas do Oriente e do Ocidente se juntam para se separarem. 

A cidade é imensa, não fosse o lar de quase quinze milhões de pessoas. Surpreende pelos contrastes, que vão além de arranha céus e prédios de madeira. As mesquitas avistam-se mais alto que tudo. Tem um sofisticado sistema de transportes, e um aparelho turístico irrepreensível. Na cidade dos rooftops, pode-se comer bem e barato, apenas se não cedermos à pressão do comerciantes.

Tínhamos três dias e, graças à localização privilegiada do nosso Airbnb, junto da praça de Sultanahmet, fizemos tudo o que é obrigatório.

20226055_1365426460178904_8118933218301837312_n.jp

Começámos pela Mesquita Azul. Embora na prática não sejam colocados entraves aos homens com calções, o correto são calças para os homens, e as mulheres devem estar o mais cobertas possível, com ênfase para a cabeça e os ombros, porque Alá assim disse. Os sapatos não são permitidos, ficam à porta ou facultam-nos um saco. As mulheres muçulmanas oram dentro de umas salas recônditas, uma vez que não se devem expor na dianteira, com os homens. O seu interior é muito trabalhado, é mágica e, de tão imensa, não me espantaria se tocasse realmente no céu - embora não seja maior do que a Hagia Sophia.

20394457_932264343579221_8709388387099869184_n.jpg

Sinónimo da imponência de Constantinopla, em tempos de Constantino II, Haghia Sophia foi inicialmente uma basílica, a Magna Ecclesia. Com as mudanças de poder, acabou por se tornar numa mesquita. Hoje em dia é um museu dos mais visitados do mundo, graças à iniciativa de Ataturk, o presidente que aproximou a cidade do Ocidente e promoveu uma clara separação do Estado e religião. A entrada custa 10 euros e vale cada cêntimo.  Ficámos horas a contemplar os imensos pormenores. 

 

B7466D2F-191A-4B14-91C6-1B83CB0E65C1.jpg

 

Ainda naquela parte da cidade, a Basílica Cisterna, uma maravilha romana onde poderiam estar milhares de litros de água, que abasteciam a cidade, é outro must. Curiosamente, devido à renovação dos povos de Constantinopla, a Basílica como que se perdeu. Quando os habitantes começaram a conseguir pescar peixes com baldes das suas caves, lá descobriram a construção milenar. É arrepiante estar dentro da cisterna, mais ainda se pensarmos que uma construção daquela magnitude mobilizou milhares de escravos. Acredita-se que o "pilar das lágrimas" foi lá colocado em homenagem aos que morreram. Espero que sim. 

 

IMG_0149.JPG

 

37DB1EE2-E165-47F0-BE2C-F3D357CB03E7.jpg

 

Para se almoçar bem e barato ali perto, nada como ir comer até ao telhado do Doy Doy, um maravilhoso restaurante de cozinha tradicional turca, a preços e vistas bem apetecíveis.

IMG_1388.JPG

 

O Grand Bazaar é outra paragem obrigatória. Pensemos neste como um centro comercial tradicional, térreo, que se estende por vários quilómetros. Não tenham ilusões, vão perder-se nas milhentas ruas. Enquanto se perdem e encontram uma das muitas saídas, lembrem-se de regatear sempre o preço. Na primeira tentativa de lá entrar - domingo - estava fechado. Nos dias de semana fecha pelas 19.

 

A737C015-9F33-4CB0-9FD1-70CC5656964A.jpg

 

Para reabastecer na rua, e que podem comprar com apenas 8 liras turcas, ou dois euros, é a sandes de peixe. Esta é vendida do lado ocidental da cidade, mesmo junto ao mar do estreito do Bosforo. Tentei saber qual a mistura de especiarias que lá se colocava, mas ninguém me conseguiu explicar. Nas lojas, encaminharam-me sempre para a fish spice, que era diferente da que me deram a provar...

 

IMG_1621.JPG

 

Por falar em fish spice, tenho de falar em especiarias. Embora não estivéssemos conscientes, passámos pelo bazar das especiarias, que também estava na nossa lista. Acontece que naquele momento estávamos de mau humor, e só nos queríamos afastar do Grand Bazaar. Minutos antes, fomos abordados por dois engraxadores, que nos tentaram cobrar 90 liras turcas por conversa fiada e por nos terem molhado as sapatilhas. Não me pareceu que assaltos fossem frequentes, mas sim os esquemas para enganar turistas. De qualquer modo, rumávamos ao lado moderno, onde se avista a grandiosa torre. 

IMG_1611.JPG

É na torre de Galata, do lado ocidental, que se tem a melhor vista da cidade, para ambas as margens do Golden Horn e para o lado Asiático. É das atrações mais caras e não esperem descontos, se não tiverem cidadania turca. 

19051368_135867703651277_7445558826771677184_n.jpg

Por estas paragens, existe algo muito frequente em Istambul, prédios inteiros convertidos em restaurante. Encontrámos um que se chamava Galata Konak Café. Além de doçaria irrepreensível no piso térreo, tinham uma vista muito semelhante à da torre de Galata, no último andar, mas gratuita.         

19051344_231100800739521_5463389960348368896_n.jpg

Porque uma caminhada assim o quis, fomos ter à estação aonde chegava e donde saía o icónico expresso do Oriente. Outrora, foi o comboio mais luxuoso do mundo, e ligava metade da Europa ao Oriente. Transportou grandes vultos, da realeza às estrelas. Embora não conseguisse conter o entusiasmo, foi fácil entender que os tempos áureos dos caminhos de ferro acabaram.  

 

71F8ACEE-45A7-4E14-94CC-F00F8A56C365.jpg

Ir a Istambul sem ir aos banhos turcos é como ir a Roma e não ver o papa. É uma experiência cara, mas vale a pena. Os banhos turcos chamam-se Hamam e experimentámos a Çemberlitas Hamami. Dão-nos uma chave para a cabine, onde indicam para ficar apenas de toalha e chinelos. A chave fica no pulso. Depois é altura de rumar a uma sala quente onde a temperatura é superior a 40 graus. Quando já não aguentamos a humidade, chega uma pessoa que nos manda deitar, estala as costas e esfrega-nos vigorosamente com uma luva. O passo seguinte é o banho frio. Embora seja tudo muito rápido, e bem pago, há uma grande insistência na gorjeta.

 

47E2ADBF-FF26-4682-AAB7-A39F3781E375.jpg

 

Andámos durante estes dias, em média, 12 horas, mas nem assim conseguímos ter tempo para ir além do exterior do Palácio de Topkapı nem visitar a Ásia. Ficará para a próxima viagem.

IMG_1308.JPG

 

Acho que é normal não saber o que esperar desta cidade. Começamos com receio do que se ouve e lê, mas acabamos por perceber que é mais segura do que a nossa e que as pessoas são muito afetuosas. Contudo, existem diferenças culturais estranhas à vista e aos ouvidos. Cinco vezes por dia entoam-se passagens do Alcorão para toda a cidade, anunciando os momentos de oração. Curiosamente, ou não, o livro sagrado do Islão está disponível gratuitamente nas mesquitas, em muitas línguas. Trouxe a minha cópia, para ter a certeza do que diz.

Istambul poderia ser uma cidade europeia, apenas ainda mais limpa e cuidada. Recomenda-se com muita nostalgia, e memórias que já não cabem num post que vai longo. 

 

IMG_1254.JPG

Caso tenham alguma dúvida enviem email para leonismos@sapo.pt, e acompanhem sempre o blog através do Facebook e Instagram.

22
Mar17

Dia em que vi algodão a cair do céu pela primeira vez


Leonardo Rodrigues

fotografia.JPG

 

Foi no mês que passou. Tínhamos acabado a nossa visita à belíssima cidade do Sabugal, onde o ponto alto é mesmo o ponto mais alto, o topo do Castelo das Cinco Quinas, com vistas sobre o Côa. 

Ainda no castelo, depois de uma quase escalada às escuras para chegar ao cimo, começou a chover, o ar ficou mais rápido e frio, e o pensamento de que poderia nevar construiu-se na minha cabeça.

Só verbalizei este meu desejo íntimo de, por uma vez na vida, ver a neve a cair em vez de gelo no chão, quando cheguei ao museu. Era uma ideia que nos deixava a ambos sorridentes. O rapaz que lá trabalhava prontamente nos fechou a boca, explicando que, no Fundão, terra onde se localizava a nossa próxima "casa", a Cerca Design House, não nevava há quase dez anos. Não sei se é necessário deixar por escrito que não gostei deste museu. 

No caminho que se apresentava de condução difícil para o meu ele, entre Google Maps, troca de cabos para carregar as nossas baterias que duram cada vez menos e muito Carpool Karaoke, começámos a ver a chuva a ficar cada vez mais branca, grossa e leve.

Não demorou muito para que sentíssemos a necessidade de encostar. Fui o primeiro a ir para a rua. Sentia e não sentia o frio. É verdadeiramente mágico ver aquilo que é água sólida, tingida de branco, a cair de forma tão leve e graciosa. Ao mais pequeno toque, naquela fase, volta ao seu estado liquido.

Ele filmou e não há margem para dúvidas, de que estava feliz e que, mediante justificação plausível na minha cabeça, faço uma cena, umas mais felizes que outras. 

Ficámos nisto um bom tempo, totalmente alheios aos acidentes e às estradas cortadas, na companhia um do outro, com os nossos momentos de profunda lamechice registados numa dezena de selfies. A ele surgiam memórias de uma Nova Iorque que lhe foi próxima e em mim surgiam emoções por afinidade.

Como o amor e neve não enchem barriga, seguimos viagem meia hora depois. Descongelar foi tão fácil porque no hotel, que se cobria novamente de neve, esperavam-nos com chávenas de chá quente e, por causa da neve, partilhavam o mesmo ar de surpresa.

 

 

08
Mar17

Come-se bem na Cova de uma Loba


Leonardo Rodrigues

cova da loba.jpg

 

Recôndito, ali estava o único restaurante de Linhares da Beira, a fazer jus ao seu nome, Cova da Loba.

Nada é por acaso. Diz que,  e eu sei que se diz muita coisa, que noutros tempos distantes uma tal de Dona Lopa expulsou de casa de Santo António uma criada que não era mais do que o Demo disfarçado, à caça de almas para a sua causa. O Santo devido à semelhança nome-espécie, como agradecimento, transformou-a em loba, com grande longevidade.

Esta vida continuará longa com a condição de trazer a Linhares os melhores frutos do bosque.

No meu entendimento gastronómico e de enólogo, parece-me que o animal à Cova da Loba conseguiu que chegasse o melhor de tudo, frutos do bosque, cogumelos, queijos da serra, vinho, Portugal e a criatividade.

É só com muita criatividade que se consegue pegar no que é nosso, melhorar e apresentar um Portugal novo. Os pratos têm as raízes de sempre, mas satisfazem o olhar fresco e os paladares modernos.

Ele comeu um imponente polvo com uma redução de balsâmico e eu um sublime risotto com cogumelos selvagens e queijo da serra. Os olhos não enganaram e fomos arrebatados pela explosão de sabores inteligentemente combinada e apresentada. 

image (10).jpeg

 

image (11).jpeg

 

Como a loba está de folga às quartas a sua Cova não abre. De resto, é sempre boa altura para visitar, mesmo que neve lá fora há uma lareira dentro. 

 

Não perca pitada do blog, siga-me no Facebook e Instagram

 

06
Mar17

Mértola, para sempre


Leonardo Rodrigues

Há uns tempos dei continuidade ao meu projeto de descoberta do sul. O objetivo era novamente Albufeira, mas, desta vez, com um twist. Este twist traduziu-se em muitas novas estradas e localidades com nomes difíceis de memorizar. Por questões práticas, motivados pelo acaso e pelo cansaço, sentimos necessidade de pernoitar em Mértola.

Este nome, como tantos outros, devido à minha insularidade, não me disse nada. Chegámos pela noite com o objetivo de todo o viajante após horas de estrada, comer. O único restaurante disponível para nos receber àquela hora foi o restaurante Muralha. Com pão, sopa, prato principal e o jarro de vinho que acompanha estas andanças, os 5 maravilhosos conseguiram jantar bem por 10 euros cada. 

Eu digo que quando bem se come, bem se deita, mas no nosso caso foi apenas escolher onde deitar. Tínhamos duas opções viáveis: Beira Rio e Hotel Museu. Porque o segundo era mais novo e quente que o primeiro e como ele sofre com o frio, a escolha estava feita. O nome cumpre-se apenas na medida em que existe uma ruína romana no seu interior devidamente preservada. Recordo-me de ter feito uma cena pacífica na receção, que era mais um pedido desesperado, para garantir que o nosso quarto tinha uma vista igual à das fotografias.

De malas desfeitas, saímos para a noite de Mértola que se resumia ao bar Lancelot. O bar descreve-se numa palavra: hipster. As luzes são coloridas e as paredes pintadas com arte. Ali, essencialmente, conversa-se sem consciência das horas, com a companhia de álcool e baralhos de cartas enormes. Escolhemos o UNO e eu tentei resgatar as regras inventadas na adolescência que me tornaram o inequívoco vencedor.

Durante a noite a vila não nos disse muito, até riscámos o carro devido à estreiteza das ruas.

Para mim o mais impactante de Mértola, e daí o para sempre, foi lá acordar. Acordar naquele quarto em específico do Hotel Museu, onde bastou-me meter a cabeça fora da janela para estar no calmo Guadiana, assim, sem por nem tirar. A vista persegue-me desde então, a água que reflete as margens estreitas, a névoa lá ao fundo, as canoas coloridas. O silêncio imenso. Tudo coisas que fazem o rural que há em mim pensar em não regressar a Lisboa, desde que pudesse manter a mesma companhia. 

mértola.jpg

Enquanto primeiro a acordar, coube-me ir explorar a vila sozinho. Prescindi do pequeno almoço no hotel, embora só custasse 6 euros, para descobrir o que lá havia. Afinal, após ter aberto a janela senti-me logo motivado a sair para fotografar e, claro, beber o café que me mantém vivo. Como em todas as viagens para fora, compreendi que o meu dinheiro vale mais do que em Lisboa. A moeda é a mesma, mas os preços têm bom senso.

 

mértola 2.jpg 

 

 

Depois de inspirarmos o ar puro tivémos de seguir viagem, com direito a paragens por Alcoutim e Cacela Velha, até Albufeira. Mas é Mértola e a suas vistas que continuam a insistir voltar à memória.

 

Acompanhem o blog Leonismos através do Facebook e do Instagram

 

 

27
Fev17

Casa mais Sustentável com a IKEA - Passatempo


Leonardo Rodrigues

passatempo ikea.jpg

 

É da cidade e pensa que não pode e não sabe cultivar? Isso há muito que não é problema, basta ir à internet e retirar umas ideias. Mas, caso prefira encontrar ideias à moda antiga como eu, através de um livro de papel, também é possível e a IKEA tem a solução, chama-se Cultivar em Família.

Cultivar em família é um livro cheio de imagens e DIY, com inspiração para tornar qualquer um em agricultor. Tal como cozinhar, cultivar nem sempre é para estimular o palato, podem também ser para lavar os olhos ou perfumar a casa. Este livro, para toda a família, tem tudo lá dentro: como cultivar batatas num saco, fazer crescer flores em água, cultivar em garrafas penduradas - ou noutra coisa qualquer - , diário de plantas, receita de gelado de brócolos, enfim, é só escolher. 

No meu passeio de hoje pela loja, lembrei-me que seria uma ótima ideia oferecer uma cópia deste livro aos leitores e futuros leitores do blog. Para se habilitarem a ganhar o livro só têm de fazer o seguinte:


1 - Gostar da minha página, aqui;
2 - Colocar gosto na publicação deste post;
- Comentar a publicação com o ingrediente que não pode faltar na cozinha.

Fim do passatempo: 11-3-2017

Vencedor: Victor Isidóro

Nota: este passatempo não é feito em parceria com a IKEA;  a cada participante é atribuído um número que depois, através do random.org, é escolhido aleatoriamente.


22
Fev17

E que tal sushi vegetariano, com carne do monte?


Leonardo Rodrigues

Lembro-me perfeitamente daquela vez em que tive um jantar de sushi quase romântico. Só não o foi porque as minhas peças de sushi acabaram demasiado rápido. Afinal só haviam duas opções adequadas a mim e um restaurante depressa fica sem manga e abacate. A  realidade é que a cozinha pode sempre ser muito mais. O sushi pode ir além do peixe. E, melhor, pode ser feito com a carne do monte: os cogumelos. Recentemente  descobri uma receita deliciosa no site Olives for Dinner que decido agora partilhar.

sushi veggie.jpg


Tempo total: 1h30m| Cozedura: 90 min | Peças: 4/8

 

Arroz de sushi:

1 chávena de arroz para sushi
2 chávenas de água
1 colher de chá de vinagre de arroz
1 colher de chá de açúcar
1/2 colher de chá de sal

Cogumelos
2 chávenas de cogumelo cardo cortado em rodelas. Tire o topo, corte cada em 4 a 6 peças, e mergulhe em água morna por cerca de 20 minutos.
1 ovo
1 chávena de maizena 

Óleo

Molho
1/2 chávena de maionese
1 colher de sopa de sriracha -  molho de malagueta, alho, vinagre, sal e açúcar, a gosto.

Empratar

4 folhas nori torradas
4 colheres de sopa de sementes de sésamo preto(opcional)
1 abacate em fatias picadas

 

Modus Operandi

1. Uma vez cozido o arroz, temperar com vinagre de arroz, açúcar e sal. Deixar arrefecer.

2.Para fritar os cogumelos, coloque óleo em abundância numa panela em lume médio alto. Leva 5 a 7 minutos para que o óleo esteja pronto. Enquanto espera, coloque um quarto dos cogumelos no ovo e retire o excesso. De seguida coloque a maizena, suavemente pulverizada com as mãos.

3.Teste o óleo com uma pitada de maizena. Se chiar logo está pronto para fritar. Retire qualquer excesso e coloque a fritar até ficar dourado - não mais de 3 minutos. Coloque os cogumelos fritos em papel para drenar o excesso de óleo, enquanto repete o processo para os restantes cogumelos. 

4.Para montar os rolos, divida o arroz arrefecido em 4 porções. Cubra o tapete de sushi com com um plástico. Coloque uma folha de nori - lado brilhante para baixo. Humedecer os dedos com um pouco de água para evitar que o arroz fure. Em seguida espalhar o arroz uniformemente sobre uma folha nori, deixando uma pequena parte sem nada no topo. Polvilhe com uma colher de sopa de sementes de sésamo. 

5. Divida os cogumelos em 4 porções. Regue uma porção com o molho até uniformemente revestido. Com a extremidade sem nada distante de si, forme uma fina linha de cogumelos até ao lado mais próximo, adicionando um par de fatias de abacate. Enrole o sushi para longe, segurando o tapete firmemente, mas com cuidado.

6. Uma vez enrolado, sele o fim com água. Agora corte o rolo ao meio com uma faca muito afiada e depois cada metade em metades. Repita novamente se quiser servir 8 peças. Colocar os cogumelos que sobraram no topo.

7. Repetir processo para fazer outros 4 rolos. Finalizar com cebolinho picado.

 

Os produtos para fazer sushi podem ser encontrados, por exemplo, no Lidl - última vez que fiquei surpreendido num supermercado. Espero que este post sirva de inspiração e que permita muitos jantares a dois, mas mesmo só a dois, longe dos restaurantes. 

 

sushi 2.jpg

Fotos e receita: Olives for Dinner

 

20
Fev17

Até ao ponto mais alto de Portugal Continental


Leonardo Rodrigues

Post anterior.

 

Acordar naturalmente em Juncais para ouvir o som dos pássaros e sinos das ovelhas é indescritível, mas melhor é a realização de que o pão fresco apareceu mesmo na cozinha antes de acordarmos e que há café suficiente para duas famílias. Quanto à salamandra, continua lá, a tornar a manhã na serra mais quente e mágica.

pequeno almoço.jpg

 

Após o pequeno almoço, sabendo que Casa Grande de Juncais disponibiliza bicicletas, decidimos que assim andaríamos até ao almoço. Enquanto a Isabel foi preparar um meio de transporte mais verde, fomos espreitar o Café Central - mais ou menos o único de Juncais. Sem surpresas, foi fácil  meter conversa com quem lá estava, pareciam entusiasmados por sermos da capital e por estarmos na famosa "casa grande". Passados uns minutos, estávamos reunidos na praça com a dona do café e a amiga, um senhor que em vez de café bebe um vinho - apurámos que os elementos da Junta de Freguesia fazem o mesmo às 9:30 -  e o Max, o cão mais popular, seguido da Pipoca. É agora das minhas memórias sorridentes.

 

 

image.jpg

 

Após a receção maravilhosa, com as bicicletas já à porta e com muito por explorar, fomos conhecer melhor a aldeia. Aquando de um dos meus estacionamentos, junto da fonte que também é um miradouro, rompi as calças. Perdi a elegância, mas não me espalhei. Confirmo que andar de bicicleta não se esquece mesmo.

 

16422287_10155093526383487_5038217206467092317_o.j

 

Convictos das nossas capacidades, a ambição levou-nos a descer até ao rio Mondego - 6 km. Foi uma viagem magnífica, não fossem todos os santos ajudarem a descer, com vistas de cortar a respiração e uma sensação de liberdade tremenda. Cá em baixo, havia a ponte, o rio - como prometido pelo mapa - , uma casa de pedra e muito verde. Ele descreveu o ambiente como "bucólico", acompanhando-se de uma cara que liberta serotonina só de pensar. Esta memória está tão viva que também cheira ao alecrim que crescia na ponte para Juncais. Regressar para almoçar causou-me dores no rabo que dificultaram os dias seguintes.

 

mondego.jpg

Foto: Dele

 

Durante a tarde o nosso objetivo era alcançar o ponto mais alto de Portugal Continental, na Serra da Estrela. Dito e feito. O percurso fez-se pela belíssima e alta Seia, dona da fantástica freguesia do Sabugueiro. As vistas até lá cima só conseguiam ficar melhores e eu, à medida que a bateria carregava, lá ia disparando fotos compulsivamente. Com muita pena minha, a fraca luz nem sempre permite ao telemóvel fazer jus aos lugares, daí a partilha não ser igualmente compulsiva.

image (4).jpeg

  

Lá em cima, além da típica selfie que tiramos como se fosse uma bandeira, não deu para fazer muito. O vento era tanto que tínhamos um pássaro a voar em contra mão - é verdade, pensei em trazê-lo - , a neve era só gelo e havia nevoeiro. O nosso instinto foi procurar abrigo na versão de centro comercial da Serra. Devido ao chamamento, degustação de muito queijo, e uma vendedora muito persuasiva, gastei um balúrdio num único queijo. Acho que no fundo paguei tanto porque ela também me explicou um truque para o queijo durar para sempre, limpar os fungos aka bolor com um esfregão. Relembro que o queijo e enchidos - para quem está para aí virado - é mais barato nas aldeias que, por pouco, ainda não são polos de turismo. 

 

Até ao jantar, devido ao demorado e perigoso caminho de regresso - por Manteigas e afins - , com direito às paisagens mais estonteantes, quase que declarávamos o distrito da Guarda o melhor de Portugal. É mais prudente e razoável tomar a posição pública de que são todos lindos, de férias exagera-se tudo.  

 

Das opções não tão variadas que tínhamos para jantar, escolhemos um restaurante em Fornos de Algodres chamado de O Pote. Luxos, modernices e cortesias não tinham. Aqui vai-se quando se quer comer bem e barato. Ora, a entrada era composta por pão, queijo local e chouriço. As belas doses industriais, um jarro de vinho, sobremesa e café custaram-nos menos de 14 euros. Bem alimentados, bem nos deitámos.

 

O dia seguinte tem um nome: Penascosa - lá vão ver-se as famosas gravuras de Foz Côa. Fiquem atentos à próxima aventura pelo Facebook e pelo Instagram.

 

 

 

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Copyrighted.com Registered & Protected 
HMLF-E7YY-MGTC-ZU7E

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D