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LEONISMOS

LEONISMOS

06
Mar17

Mértola, para sempre


Leonardo Rodrigues

Há uns tempos dei continuidade ao meu projeto de descoberta do sul. O objetivo era novamente Albufeira, mas, desta vez, com um twist. Este twist traduziu-se em muitas novas estradas e localidades com nomes difíceis de memorizar. Por questões práticas, motivados pelo acaso e pelo cansaço, sentimos necessidade de pernoitar em Mértola.

Este nome, como tantos outros, devido à minha insularidade, não me disse nada. Chegámos pela noite com o objetivo de todo o viajante após horas de estrada, comer. O único restaurante disponível para nos receber àquela hora foi o restaurante Muralha. Com pão, sopa, prato principal e o jarro de vinho que acompanha estas andanças, os 5 maravilhosos conseguiram jantar bem por 10 euros cada. 

Eu digo que quando bem se come, bem se deita, mas no nosso caso foi apenas escolher onde deitar. Tínhamos duas opções viáveis: Beira Rio e Hotel Museu. Porque o segundo era mais novo e quente que o primeiro e como ele sofre com o frio, a escolha estava feita. O nome cumpre-se apenas na medida em que existe uma ruína romana no seu interior devidamente preservada. Recordo-me de ter feito uma cena pacífica na receção, que era mais um pedido desesperado, para garantir que o nosso quarto tinha uma vista igual à das fotografias.

De malas desfeitas, saímos para a noite de Mértola que se resumia ao bar Lancelot. O bar descreve-se numa palavra: hipster. As luzes são coloridas e as paredes pintadas com arte. Ali, essencialmente, conversa-se sem consciência das horas, com a companhia de álcool e baralhos de cartas enormes. Escolhemos o UNO e eu tentei resgatar as regras inventadas na adolescência que me tornaram o inequívoco vencedor.

Durante a noite a vila não nos disse muito, até riscámos o carro devido à estreiteza das ruas.

Para mim o mais impactante de Mértola, e daí o para sempre, foi lá acordar. Acordar naquele quarto em específico do Hotel Museu, onde bastou-me meter a cabeça fora da janela para estar no calmo Guadiana, assim, sem por nem tirar. A vista persegue-me desde então, a água que reflete as margens estreitas, a névoa lá ao fundo, as canoas coloridas. O silêncio imenso. Tudo coisas que fazem o rural que há em mim pensar em não regressar a Lisboa, desde que pudesse manter a mesma companhia. 

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Enquanto primeiro a acordar, coube-me ir explorar a vila sozinho. Prescindi do pequeno almoço no hotel, embora só custasse 6 euros, para descobrir o que lá havia. Afinal, após ter aberto a janela senti-me logo motivado a sair para fotografar e, claro, beber o café que me mantém vivo. Como em todas as viagens para fora, compreendi que o meu dinheiro vale mais do que em Lisboa. A moeda é a mesma, mas os preços têm bom senso.

 

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Depois de inspirarmos o ar puro tivémos de seguir viagem, com direito a paragens por Alcoutim e Cacela Velha, até Albufeira. Mas é Mértola e a suas vistas que continuam a insistir voltar à memória.

 

Acompanhem o blog Leonismos através do Facebook e do Instagram

 

 

22
Fev17

E que tal sushi vegetariano, com carne do monte?


Leonardo Rodrigues

Lembro-me perfeitamente daquela vez em que tive um jantar de sushi quase romântico. Só não o foi porque as minhas peças de sushi acabaram demasiado rápido. Afinal só haviam duas opções adequadas a mim e um restaurante depressa fica sem manga e abacate. A  realidade é que a cozinha pode sempre ser muito mais. O sushi pode ir além do peixe. E, melhor, pode ser feito com a carne do monte: os cogumelos. Recentemente  descobri uma receita deliciosa no site Olives for Dinner que decido agora partilhar.

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Tempo total: 1h30m| Cozedura: 90 min | Peças: 4/8

 

Arroz de sushi:

1 chávena de arroz para sushi
2 chávenas de água
1 colher de chá de vinagre de arroz
1 colher de chá de açúcar
1/2 colher de chá de sal

Cogumelos
2 chávenas de cogumelo cardo cortado em rodelas. Tire o topo, corte cada em 4 a 6 peças, e mergulhe em água morna por cerca de 20 minutos.
1 ovo
1 chávena de maizena 

Óleo

Molho
1/2 chávena de maionese
1 colher de sopa de sriracha -  molho de malagueta, alho, vinagre, sal e açúcar, a gosto.

Empratar

4 folhas nori torradas
4 colheres de sopa de sementes de sésamo preto(opcional)
1 abacate em fatias picadas

 

Modus Operandi

1. Uma vez cozido o arroz, temperar com vinagre de arroz, açúcar e sal. Deixar arrefecer.

2.Para fritar os cogumelos, coloque óleo em abundância numa panela em lume médio alto. Leva 5 a 7 minutos para que o óleo esteja pronto. Enquanto espera, coloque um quarto dos cogumelos no ovo e retire o excesso. De seguida coloque a maizena, suavemente pulverizada com as mãos.

3.Teste o óleo com uma pitada de maizena. Se chiar logo está pronto para fritar. Retire qualquer excesso e coloque a fritar até ficar dourado - não mais de 3 minutos. Coloque os cogumelos fritos em papel para drenar o excesso de óleo, enquanto repete o processo para os restantes cogumelos. 

4.Para montar os rolos, divida o arroz arrefecido em 4 porções. Cubra o tapete de sushi com com um plástico. Coloque uma folha de nori - lado brilhante para baixo. Humedecer os dedos com um pouco de água para evitar que o arroz fure. Em seguida espalhar o arroz uniformemente sobre uma folha nori, deixando uma pequena parte sem nada no topo. Polvilhe com uma colher de sopa de sementes de sésamo. 

5. Divida os cogumelos em 4 porções. Regue uma porção com o molho até uniformemente revestido. Com a extremidade sem nada distante de si, forme uma fina linha de cogumelos até ao lado mais próximo, adicionando um par de fatias de abacate. Enrole o sushi para longe, segurando o tapete firmemente, mas com cuidado.

6. Uma vez enrolado, sele o fim com água. Agora corte o rolo ao meio com uma faca muito afiada e depois cada metade em metades. Repita novamente se quiser servir 8 peças. Colocar os cogumelos que sobraram no topo.

7. Repetir processo para fazer outros 4 rolos. Finalizar com cebolinho picado.

 

Os produtos para fazer sushi podem ser encontrados, por exemplo, no Lidl - última vez que fiquei surpreendido num supermercado. Espero que este post sirva de inspiração e que permita muitos jantares a dois, mas mesmo só a dois, longe dos restaurantes. 

 

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Fotos e receita: Olives for Dinner

 

20
Fev17

Até ao ponto mais alto de Portugal Continental


Leonardo Rodrigues

Post anterior.

 

Acordar naturalmente em Juncais para ouvir o som dos pássaros e sinos das ovelhas é indescritível, mas melhor é a realização de que o pão fresco apareceu mesmo na cozinha antes de acordarmos e que há café suficiente para duas famílias. Quanto à salamandra, continua lá, a tornar a manhã na serra mais quente e mágica.

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Após o pequeno almoço, sabendo que Casa Grande de Juncais disponibiliza bicicletas, decidimos que assim andaríamos até ao almoço. Enquanto a Isabel foi preparar um meio de transporte mais verde, fomos espreitar o Café Central - mais ou menos o único de Juncais. Sem surpresas, foi fácil  meter conversa com quem lá estava, pareciam entusiasmados por sermos da capital e por estarmos na famosa "casa grande". Passados uns minutos, estávamos reunidos na praça com a dona do café e a amiga, um senhor que em vez de café bebe um vinho - apurámos que os elementos da Junta de Freguesia fazem o mesmo às 9:30 -  e o Max, o cão mais popular, seguido da Pipoca. É agora das minhas memórias sorridentes.

 

 

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Após a receção maravilhosa, com as bicicletas já à porta e com muito por explorar, fomos conhecer melhor a aldeia. Aquando de um dos meus estacionamentos, junto da fonte que também é um miradouro, rompi as calças. Perdi a elegância, mas não me espalhei. Confirmo que andar de bicicleta não se esquece mesmo.

 

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Convictos das nossas capacidades, a ambição levou-nos a descer até ao rio Mondego - 6 km. Foi uma viagem magnífica, não fossem todos os santos ajudarem a descer, com vistas de cortar a respiração e uma sensação de liberdade tremenda. Cá em baixo, havia a ponte, o rio - como prometido pelo mapa - , uma casa de pedra e muito verde. Ele descreveu o ambiente como "bucólico", acompanhando-se de uma cara que liberta serotonina só de pensar. Esta memória está tão viva que também cheira ao alecrim que crescia na ponte para Juncais. Regressar para almoçar causou-me dores no rabo que dificultaram os dias seguintes.

 

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Foto: Dele

 

Durante a tarde o nosso objetivo era alcançar o ponto mais alto de Portugal Continental, na Serra da Estrela. Dito e feito. O percurso fez-se pela belíssima e alta Seia, dona da fantástica freguesia do Sabugueiro. As vistas até lá cima só conseguiam ficar melhores e eu, à medida que a bateria carregava, lá ia disparando fotos compulsivamente. Com muita pena minha, a fraca luz nem sempre permite ao telemóvel fazer jus aos lugares, daí a partilha não ser igualmente compulsiva.

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Lá em cima, além da típica selfie que tiramos como se fosse uma bandeira, não deu para fazer muito. O vento era tanto que tínhamos um pássaro a voar em contra mão - é verdade, pensei em trazê-lo - , a neve era só gelo e havia nevoeiro. O nosso instinto foi procurar abrigo na versão de centro comercial da Serra. Devido ao chamamento, degustação de muito queijo, e uma vendedora muito persuasiva, gastei um balúrdio num único queijo. Acho que no fundo paguei tanto porque ela também me explicou um truque para o queijo durar para sempre, limpar os fungos aka bolor com um esfregão. Relembro que o queijo e enchidos - para quem está para aí virado - é mais barato nas aldeias que, por pouco, ainda não são polos de turismo. 

 

Até ao jantar, devido ao demorado e perigoso caminho de regresso - por Manteigas e afins - , com direito às paisagens mais estonteantes, quase que declarávamos o distrito da Guarda o melhor de Portugal. É mais prudente e razoável tomar a posição pública de que são todos lindos, de férias exagera-se tudo.  

 

Das opções não tão variadas que tínhamos para jantar, escolhemos um restaurante em Fornos de Algodres chamado de O Pote. Luxos, modernices e cortesias não tinham. Aqui vai-se quando se quer comer bem e barato. Ora, a entrada era composta por pão, queijo local e chouriço. As belas doses industriais, um jarro de vinho, sobremesa e café custaram-nos menos de 14 euros. Bem alimentados, bem nos deitámos.

 

O dia seguinte tem um nome: Penascosa - lá vão ver-se as famosas gravuras de Foz Côa. Fiquem atentos à próxima aventura pelo Facebook e pelo Instagram.

 

 

 

15
Fev17

Férias cá dentro: até à Casa Grande de Juncais


Leonardo Rodrigues

Este mês, após uns tempos intensos, posso dizer que estive totalmente de férias.  Aproveitei para fazer 14 dias seguidos. Na primeira semana deixei-me ficar por Lisboa para fazer absolutamente nada. E, porque agora a vida é bondosa a esse ponto, fiz coincidir a segunda semana com quem diz ser a cara metade. 

 

Escolhemos ficar por Portugal, afinal há sempre muito para descobrir no nosso país. Cá dentro também se expandem horizontes e há regalos para todos os sentidos: paisagens de cortar a respiração, iguarias que provocam salivação, ar tão puro que faz desmaiar e silêncio para os nossos ouvidos. Para aguçar ainda mais o apetite, todas as nossas terras estão repletas de História e histórias.

 

 

O nosso destino final era Juncais, mas, de férias, tem de haver tempo para desvios. Até Juncais, o desvio digno de nota foi Belver, concelho do Gavião. Inicialmente o objetivo era vermos o castelo do século XII, mas depressa abandonámos a ideia para contemplar as vistas maravilhosas para o Tejo. Quanto mais se sobe, mais bonito fica o rio. O silêncio, momentaneamente interrompido pelos pássaros, oficializou o início das férias - segunda parte para mim. 

 

O tempo, entre espantos, selfies e lamechices, foi passando. E, com isso, a nossa hora limite para check in na Casa Grande de Juncais. O Turismo Rural não tem facilitismos de 24horas. Ainda assim, a Isabel, quem ajuda a gerir este solar de granito do século XVI, arranjou-nos uma solução: o Sr. Carlos.

 

Chegamos pelas 20h a Juncais, onde fomos simpaticamente recebidos pela nossa solução. O Sr. Carlos entregou as chaves, fez-nos uma explicação geral de onde se encontrava tudo e explicou que de manhã nos deixaria um cesto com pão fresco na cozinha.

 

Quando abrimos a porta do nosso estúdio, humildemente apelidado de Paraíso 2, deixou de se sentir o frio da serra. Estava quentinho, graças ao aquecimento central e ao meu objetivo de vida: uma salamandra cheia de lenha acesa. Uma welcome drink acompanhada de chocolates e caramelos também estavam à nossa espera, o que foi a cereja no topo do bolo. 

 

Por falar em bolo, o nosso pequeno almoço também aguardava pacientemente na cozinha: bolo caseiro, laranjas da zona para sumo, queijo, manteiga e fiambre. O pão, já sabem, todas as manhãs antes de acordar já lá está.

 

Sendo que a viagem tinha sido longa e que os restaurantes ficam a uns bons minutos, utilizamos a nossa kitchenette equipadíssima para fazer o jantar. Depois, foi caminhada à chuva para conhecer a aldeia, xixi e cama, numa senhora cama, num senhor quarto.

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Se ficaram curiosos para saber como a restante viagem se seguiu sigam-me no Facebook e vejam umas deixas no Instagram. O próximo capítulo vai até o segundo ponto mais alto de Portugal, na Serra da Estrela. 

 

02
Fev17

Temos de desligar!


Leonardo Rodrigues

 

 

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Vivo numa relação de amor ódio com ficar sem bateria. Se houver algo que não pode esperar, é um pesadelo. Se não, é uma dádiva e acordarmos para coisas que nunca reparámos, como ver que o nome da estação Roma, refletida num dos vidros da carruagem é amoR.

Os tempos são insustentáveis. Deixar passar os reflexos da luz que dizem amoR não é grave, mas já deixar passar o Amor porque um retângulo convenceu-nos que a nossa vida está toda lá dentro, pode ser.

Os nossos telemóveis tornaram-se o centro, até dos jantares. Supostamente está lá tudo: as várias contas de email, o Facebook, o Messenger, o Snapchat, o Instagram, as aplicações onde se encontra o sexo e amor, as noticias, as memórias fotográficas, as notas, a agenda, o despertador, os mapas. Tudo, porra. E as notificações não nos largam, fazendo com que o trabalho, os colegas, os amigos, as estrelas e as desgraças se deitem connosco.

Sabem o que não está no telemóvel, nem mesmo no computador? As pessoas, de carne e osso, as conversas olhos nos olhos, o toque e os tiques, os cheiros dos lugares. O que vemos nos ecrãs são as representações disso. Temos de optar: representações ou os que temos ao nosso lado, à mesa e na cama?

Sinto que a ilusão de aproximação serve apenas para que a concretude das coisas se deteriore. O que sobra de nós, pode ser insuficiente.

Não proponho uma abolição de algo que melhora a vida moderna em muitos aspetos. Proponho, sim, que por vezes se deixe o telemóvel desligar ou usar o modo de voo. Desta forma conseguímos ouvir melhor quem está ao nosso lado e ver as nuvens sem photoshop que estão no céu.

 

01
Fev17

Os vegetarianos não afastam a carne do prato


Leonardo Rodrigues

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Deveria ser um tema datado, mas, mesmo neste novo ano de um século que tudo prometia, temos de continuar a discutir tudo como se fosse novidade.

 

Há duas mãos cheias de anos, ainda no secundário, motivado por livros maravilhosos que me chegaram às mãos, decidi que iria abandonar por completo o consumo de carne. Até hoje, acho que foi das melhores decisões que tomei. Na altura não foi fácil, nem em casa, nem na escola. Tive que aprender a cozinhar aos 14 - era isso ou continuar a afastar a carne dos pratos.

 

Afastar a carne da restante comida é algo que me continuam a sugerir, as piadas - com frango, fiambre, McDonald's e até sexuais - são as mesmas e o escrutínio do vegetarianismo continua. Quem diz vegetarianismo, diz sofrimento animal, alterações climáticas e muitos etc's.

 

Pedem-me continuamente que argumente, nem sempre tenho vontade. Se vir que estão a partir de um ponto de vista trocista, muito menos. Há uma frase de OSHO que gosto muito e que, de alguma forma, sintetiza a razão principal para o vegetarianismo.

 

A vida deseja prolongar a si mesma; o animal não morre de boa vontade. Se alguém o matar, você não irá morrer de boa vontade.

 

Além de mortes pouco dignas, os animais, até à morte, são criados em condições deploráveis - danosas para o meio ambiente e para a saúde de quem os consome. Penso também que se deus quisesse realmente que a nossa alimentação incluísse a carne, para quem usa este argumento, a mesma seria inanimada, cresceria em árvores e não possuiria sistema nervoso central.

 

Não espero que o mundo mude de um dia para o outro nem impingir um modo de vida. Nada deve ser feito assim. Gostava apenas que houvesse respeito mútuo e que todos procurassemos opções mais conscientes, no que diz respeito à sua própria saúde e ao meio ambiente.

 

As opções e combinações são imensas, tanto em casa como fora - muitos restaurantes no Porto já oferecem francesinhas vegetarianas, imaginem só. Quanto ao preço, muitas vezes é mais barato. Mantenham-se curiosos e atentos a futuras receitas a publicar aqui no blog.

19
Jan17

Não volto para o armário, deitei-o fora


Leonardo Rodrigues

Recentemente colocou-se a hipótese de irmos passar as nossas férias à minha ilha. Após a última conversa que tive com um membro da família, decidimos manter o plano inicial e rumar para norte.

Recuando no tempo, assim que tomei consciência de quem era, mesmo que não tivesse um conceito de antemão, passei também a ter um segredo. O ambiente à minha volta exercia uma influência castradora. E, no fundo, eu próprio também não queria ser quem era.

Os tempos mudaram, assisti a uma transformação das pessoas e das mentalidades à minha volta. Mas, mais do que os progressos dos outros, orgulho-me do meu percurso. Nem no emprego necessito fingir ser quem não sou. Saí e deitei o famoso armário fora para viver a minha vida.

Fruto disto, e porque a vida assim quis, no ano passado passei a ter a meu lado alguém que considero digno de apresentar a toda a família. Ontem uma pessoa, que surpreendentemente não foi a mãe, pediu-me para nos comportarmos como amigos - impôs esta condição - , isto porque não queria ter de dar explicações à filha.

Há uma ideia em que insisto há muito: as crianças são uma tábua rasa. Se a elas forem transmitidos bons valores e conhecimentos, mais fácil será de não perpetuar preconceitos. Não me cabe a mim educar filhos que não são meus. Ainda assim, pergunto-me, que educação é aquela que não assume que existe mais do que o preto e o branco, escondendo os lindos tons de cinzento que os separam?

Algo que é fundamental compreender por todos é que os casais gays não pretendem fazer em público, em família, mais do que os heteros fazem. Não há cá tratamentos especiais. O escárnio de algumas pessoas está em fazermos o mesmo, como tocar numa mão, agarrá-la, fazer uma carícia na cara ou dar um beijo. O afeto não pode ser um tabu.

E, com isto, não posso compactuar, mesmo que amenizem dizendo que "aceitam o meu modo de vida, mas que...". E são muitos os "mas que" que só servem para andarmos mais devagar. 
Enquanto casal homossexual, não temos, nem vamos, agir de forma diferente da um casal heterossexual. Desculpem, mas já não andamos com nenhuma cruz às costas.

19
Jan17

O Melhor Pão de Portugal está em Lisboa


Leonardo Rodrigues

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Há coisa de um mês, o número 14 da Rua Prior Crato ganhou um novo espaço dedicado, por inteiro, ao pão. Chama-se Gleba e, mais ou menos à letra significa, "porção de terreno cultivável". Numa primeira dentada, decidi que lá se fazia o melhor pão de Portugal.

 

Esta padaria, onde também se faz moagem de cereais, nasce pelas mãos de Diogo, um jovem de 21 anos proveniente de Santa Maria da Feira. Depois de estudar cozinha na Suíça, trabalhou em restaurantes com estrelas Michelin, em Londres e em Albufeira. Lisboa, por sua vez, foi a cidade eleita para o mestrado e, segundo o próprio, ficou com tanto tempo livre que decidiu trabalhar.

 

O pão que se faz na Gleba é diferente dos demais. Demora no total 36 horas a fermentar. Farinha, Água e Sal são os 3 ingredientes de ordem. Com um brilho nos olhos, a falar dos microrganismos que tornam tudo possível, explica-me que esta fermentação natural consome os açúcares e degrada o glúten. Desta forma, o pão dura mais, é mais saudável, de melhor digestão e pode ser consumido por intolerantes ao glúten.

 

 

Para tornar isto ainda mais apelativo, fazendo jus ao nome, os produtos utilizados nesta padaria são todos provenientes de pequenos produtores portugueses que, na sua maioria, utilizam práticas sustentáveis. Brevemente o Diogo tenciona certificar os seus produtos.

 

 

Na Gleba irão encontrar Pão de Centeio "Verde" de Trás-os-Montes, Pão de Trigo Barbela de Trás-os-Montes, Broa de Milho "Pigarro" do Minho e Trigamilha. Ocasionalmente, nas edições especiais, poderão comprar pão com queijo da ilha, ou figos e nozes secos ao sol.

 

 

O bairro já está todo a falar deste pão. Além bairro, começam a chegar pessoas de todo o país e até de fora, fruto do boca a boca - foi também assim que descobri. Agora foi a minha vez de passar a mensagem. Só falta vocês julgarem se o Diogo conseguiu ou não finalmente trazer bom pão para a capital.

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 Visitem o site

09
Dez16

Descobri que o PSD tem Facebook e faz vídeos


Leonardo Rodrigues

Para um partido, ter uma página de Facebook é algo que deveria fazer todo o sentido. O PSD faz-me contrariar a frase que escolhi para começar o post. Especialmente quando o partido usa este meio para deturpar a realidade, oferecendo um ponto de vista que, de tão próprio, nem os seus militantes entendem. Descobri um vídeo além-ridículo acerca das ciclovias e das bicicletas. Ei-lo:

 

Os números e interpretações do PSD são sempre curiosos. Geralmente, e enfatizando os últimos tempos, pouco contribuem para o debate público, muito menos para uma mudança e educação dos portugueses. Os números não são realistas e, pelas imagens, cobrem uma zona muito reduzida. TPC: ler definição de amostras representativas e maiorias parlamentares.

 

O inverno veio para ficar, embora se vá disfarçando de verão. Não é só agora que de repente vamos para as ruas contabilizar as bicicletas. Vou no meu quarto ano em Lisboa e o aumento é real. Os lisboetas sabem, só falta o PSD. 

 

Sempre que espero o autocarro pela manhã, num time frame variável entre 10 minutos a 1 hora, dependendo do estado de espírito da Carris, conto pelo menos 5 bicicletas e pelo menos um ciclista buzina-me por estar a dormir na ciclovia. O meu colega de casa, outro exemplo próximo, vai todos os dias de bicicleta para o trabalho. Estas ciclovias permitem, ainda, aos fãs da trotineta e do skate chegar a sítios.

 

Custa a muito boa gente que o betão e calçada são para andar, e que o pavimento rosa é para as bicicletas. Muitas vezes porque o do pedestre está degradado - e aí subscrevo, não é justo. Outras, só porque sim. O pedestre quer passeios em condições, o condutor uma estrada sem buracos e o ciclista exatamente o mesmo. Podem não fazer intenções de usar bicicleta, mas isto não é motivo para se opor a uma alternativa que polui zero e melhora a vida de todos - dos que caminham com menos fumo, dos que conduzem com mais espaço  na estrada e dos que querem um assento no autocarro.

 

O mundo, Portugal não pode ser exceção, necessita de alternativas de mobilidade sustentáveis, para o planeta e para a nossa saúde. Que a aposta passa pelos transportes públicos não há dúvidas, mas neste momento é isto 
 
Claro que nem sempre seremos nós a beneficiar diretamente das nossas infraestruturas. Em Lisboa, para além dos lisboetas, avistam-se todos os dias dezenas de turistas a usar bicicletas - são menos nos transportes públicos, menos a usarem outros meios poluentes como os táxis e ubers. É uma boa notícia para o ar - não se esqueçam deste dado adquirido. 
 
Porque estaria o PSD a tentar denegrir algo que faz parte do futuro? Não é com o futuro que o partido está sempre preocupado? Talvez porque o futuro das autárquicas é mais importante?
 
PS. CML, as ciclovias estão a ir a bom porto, que a Carris siga a mesma estrada.
 
 
 
 
29
Nov16

A empregada sabotou o dia em que eu conheci os pais


Leonardo Rodrigues

A primeira vez deixa-nos com os nervos à flor da pele, mexe com os intestinos, faz pulsar a veia da testa e, se for o caso, pode doer. Isto para a maioria das primeiras vezes. Quando conheci os pais dele deveria ter sido assim, mas a verdade é que nem tive tempo para pensar na grandiosidade da coisa até estar sentado, primeiro a respirar, depois a jantar. Estive demasiado ocupado a ser eletrocutado pela adrenalina.

Para o aniversário, ele decidiu fazer um jantar com os pais. Eu, enquanto namorado fofo e boa dona de casa, prontamente me propus a cozinhar. Queria, mesmo fora de água, sentir o conforto da cozinha. Quando chegou o dia ainda me tentou com a ideia do restaurante, mas não deixei. Ele ia trabalhar, a Fátima fazia as limpezas semanais e eu tornava o jantar possível. Parecia simples.

Estando de folga, dormi até às quinhentas, iludido pela simplicidade da vida. Levantei-me para ir fazer as compras e, como tinha tempo, decidi que ia comprar, comparar e comprar mais no Lidl, Pingo Doce e, para ter a certeza, Continente. Como estavam todos tão próximos, porque não? Fiquei quatro horas a passear sacos de um lado para outro, sempre com a ideia de que a empregada estava a fazer a sua magia.

Quando regresso a casa vi tudo como deixámos, até o pacote de Tuc se estava à vista de todos na mesa da sala. A Fátima não tinha feito magia. Embora tenha vasculhado a casa para perceber se tinha acontecido alguma coisa à mulher, não precisei de gastar mais neurónios para perceber que estava por minha conta.

Coloquei os calções mais curtos que encontrei, agarrei no aspirador como se a minha vida dependesse de matar o pó, lavei loiça, esterilizei a casa de banho, dobrei roupa e escondi coisas que não têm sítio fixo dentro dos armários.

Ele apanhou-me a 2/3 do desmaio. Com um sorriso na cara, contou-me que a empregada decidiu ir à segurança social e, como aquilo demora, achou melhor passar lá em casa no dia seguinte. 

Cozinhei para as 10 pessoas, as crianças comeram tudo, os adultos elogiaram, rimos muito. Portei-me bem e senti pertença. Mesmo que alguma coisa não seja, temos uma fotografia que vai ficar para sempre e que me faz sorrir.

No que diz respeito à Fátima, arranjei forças para perdoar-lhe porque no dia seguinte ela compensou com uma sopa sublime. Agora que ela vai para Londres de férias, eu vou aperfeiçoar as minhas sopas, assim reduzimos a nossa dependência e, com sorte, ela percebe que não me pode deixar à beira de novo ataque prozac sem aviso.

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 Imagem: A Criada Mal Criada

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