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LEONISMOS

LEONISMOS

24
Jun17

O Café do Bairro, os Maricas e a Polícia


Leonardo Rodrigues

Engana-se quem pensa que em Alvalade existem apenas idosos, gentes chiques e os seus cães. Na minha rua, desde que o Café do Bairro reabriu, também existem bêbados com isenção de horário. Estes, noite sim, noite sim senhores, perturbam a vizinhança com a sua voz radiofónica embriagada, risos e conversas com conteúdo de relevância indecifrável.

O bairro e a vizinhança nunca nos deram problemas, pelo contrário. Fiquei especialmente surpreendido com a atitude positiva relativamente à nossa Dóris. Nós damos de volta, acordamos para ajudar a vizinha que não consegue tirar o marido da banheira, mudamos uma lâmpada porque alguém já não consegue ver bem durante o dia e juntamos os cocós do chão.

Ao sermos bons vizinhos, a única coisa que queremos é respeito. Não tendo a possibilidade de dormir há já algum tempo, optámos por chamar a polícia - tal como a dona deste estabelecimento gritou à minha vizinha para fazer. Uma hora depois, a polícia não veio.

Decidimos nós, novamente, pedir silêncio. Eles responderam, mandaram-nos levar aqui e acolá, enquanto "maricas", "com audição sensível", que somos. A vizinha com Parkinson do último andar também tem "uma audição sensível".

No fim de semana passado estivemos na 18ª Marcha e nem um insulto, afinal a homofobia já não vai às nossas marchas. Continua entre nós, nos nossos bairros, nos nossos cafés e nos empregos que chamamos de nossos.

Liguei de novo à polícia, para dizer que uma hora depois já tínhamos sido insultados e que não teria chegado a isso se tivessem vindo. O polícia que me atendeu disse que a viatura tinha sido enviada e pediu desculpa. A viatura fantasma perdeu-se numa viagem que demoraria 5 minutos a fazer.

A vizinhança vai tomar outras medidas connosco, embora tenham medo de represálias. Sempre que alguém nos faz menos merecedores dos nossos direitos, seja porque motivo for, há que ir à luta.  Ter os direitos, leis e estudos escritos não chega. O nosso país ainda arde.

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29
Nov16

A empregada sabotou o dia em que eu conheci os pais


Leonardo Rodrigues

A primeira vez deixa-nos com os nervos à flor da pele, mexe com os intestinos, faz pulsar a veia da testa e, se for o caso, pode doer. Isto para a maioria das primeiras vezes. Quando conheci os pais dele deveria ter sido assim, mas a verdade é que nem tive tempo para pensar na grandiosidade da coisa até estar sentado, primeiro a respirar, depois a jantar. Estive demasiado ocupado a ser eletrocutado pela adrenalina.

Para o aniversário, ele decidiu fazer um jantar com os pais. Eu, enquanto namorado fofo e boa dona de casa, prontamente me propus a cozinhar. Queria, mesmo fora de água, sentir o conforto da cozinha. Quando chegou o dia ainda me tentou com a ideia do restaurante, mas não deixei. Ele ia trabalhar, a Fátima fazia as limpezas semanais e eu tornava o jantar possível. Parecia simples.

Estando de folga, dormi até às quinhentas, iludido pela simplicidade da vida. Levantei-me para ir fazer as compras e, como tinha tempo, decidi que ia comprar, comparar e comprar mais no Lidl, Pingo Doce e, para ter a certeza, Continente. Como estavam todos tão próximos, porque não? Fiquei quatro horas a passear sacos de um lado para outro, sempre com a ideia de que a empregada estava a fazer a sua magia.

Quando regresso a casa vi tudo como deixámos, até o pacote de Tuc se estava à vista de todos na mesa da sala. A Fátima não tinha feito magia. Embora tenha vasculhado a casa para perceber se tinha acontecido alguma coisa à mulher, não precisei de gastar mais neurónios para perceber que estava por minha conta.

Coloquei os calções mais curtos que encontrei, agarrei no aspirador como se a minha vida dependesse de matar o pó, lavei loiça, esterilizei a casa de banho, dobrei roupa e escondi coisas que não têm sítio fixo dentro dos armários.

Ele apanhou-me a 2/3 do desmaio. Com um sorriso na cara, contou-me que a empregada decidiu ir à segurança social e, como aquilo demora, achou melhor passar lá em casa no dia seguinte. 

Cozinhei para as 10 pessoas, as crianças comeram tudo, os adultos elogiaram, rimos muito. Portei-me bem e senti pertença. Mesmo que alguma coisa não seja, temos uma fotografia que vai ficar para sempre e que me faz sorrir.

No que diz respeito à Fátima, arranjei forças para perdoar-lhe porque no dia seguinte ela compensou com uma sopa sublime. Agora que ela vai para Londres de férias, eu vou aperfeiçoar as minhas sopas, assim reduzimos a nossa dependência e, com sorte, ela percebe que não me pode deixar à beira de novo ataque prozac sem aviso.

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 Imagem: A Criada Mal Criada

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