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LEONISMOS

LEONISMOS

12
Set17

Passatempo: 2 convites duplos para o Festival de Cinema Queer 21


Leonardo Rodrigues

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Não é segredo, nem foi, que o Festival de Cinema Queer estará em breve de volta ao São Jorge. Algo que é, para muitos, a semana de overdose visual e cultural mais aguardada do ano.

Este ano são 90 filmes, de 32 países. Para tornar este regresso do Festival ainda melhor, uni-me ao Queer para oferecer, por agora, 2 convites duplos - há mais, em breve - para "Homogeneous, Empty Time", a estrear dia 20 de setembro. 

Esta longa metragem de Thunska Pansittivorakul e Harit Srikha é, de certa forma, um regresso à violência, procurando a fundação da Tailândia enquanto nação. Fá-lo, confrontando várias realidades, quer do aluno do secundário, quer de líderes de uma direita saudosista. Às tensões entre muçulmanos, por exemplo, teremos acesso através de um olhar de um casal de lésbicas. Além do contexto político de uma nação fragmentada, iremos aceder ao lado místico, dos fantasmas que pairam na vida de muitos.

 

 

Como ganhar os convites:

1 - Colocar gosto na página do blog, aqui

2 - Comentar, no Facebook, a publicação do passatempo com o nome de quem levariam convosco, aqui.

3 - Partilhar a mesma de forma pública. 

 

Vejam, ainda, o trailer do festival:

Nota: Sendo um filme para maiores de 16 anos, não serão aceites participantes de idade inferior. Apenas serão consideradas válidas as participações que cumpram os requisitos acima indicados. A cada uma será atribuído um número. Posteriormente, serão escolhidos dois números através do random.org, que irão ser contactados via mensagem privada no dia 18-9-2017. Os bilhetes destinam-se exclusivamente a esta sessão, não podendo haver troca nem convertê-los em dinheiro. 

01
Fev17

Os vegetarianos não afastam a carne do prato


Leonardo Rodrigues

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Deveria ser um tema datado, mas, mesmo neste novo ano de um século que tudo prometia, temos de continuar a discutir tudo como se fosse novidade.

 

Há duas mãos cheias de anos, ainda no secundário, motivado por livros maravilhosos que me chegaram às mãos, decidi que iria abandonar por completo o consumo de carne. Até hoje, acho que foi das melhores decisões que tomei. Na altura não foi fácil, nem em casa, nem na escola. Tive que aprender a cozinhar aos 14 - era isso ou continuar a afastar a carne dos pratos.

 

Afastar a carne da restante comida é algo que me continuam a sugerir, as piadas - com frango, fiambre, McDonald's e até sexuais - são as mesmas e o escrutínio do vegetarianismo continua. Quem diz vegetarianismo, diz sofrimento animal, alterações climáticas e muitos etc's.

 

Pedem-me continuamente que argumente, nem sempre tenho vontade. Se vir que estão a partir de um ponto de vista trocista, muito menos. Há uma frase de OSHO que gosto muito e que, de alguma forma, sintetiza a razão principal para o vegetarianismo.

 

A vida deseja prolongar a si mesma; o animal não morre de boa vontade. Se alguém o matar, você não irá morrer de boa vontade.

 

Além de mortes pouco dignas, os animais, até à morte, são criados em condições deploráveis - danosas para o meio ambiente e para a saúde de quem os consome. Penso também que se deus quisesse realmente que a nossa alimentação incluísse a carne, para quem usa este argumento, a mesma seria inanimada, cresceria em árvores e não possuiria sistema nervoso central.

 

Não espero que o mundo mude de um dia para o outro nem impingir um modo de vida. Nada deve ser feito assim. Gostava apenas que houvesse respeito mútuo e que todos procurassemos opções mais conscientes, no que diz respeito à sua própria saúde e ao meio ambiente.

 

As opções e combinações são imensas, tanto em casa como fora - muitos restaurantes no Porto já oferecem francesinhas vegetarianas, imaginem só. Quanto ao preço, muitas vezes é mais barato. Mantenham-se curiosos e atentos a futuras receitas a publicar aqui no blog.

08
Nov16

Hora Certa (CONTO)


Leonardo Rodrigues

Na estação de comboios entendi, mudou. As pessoas e aquilo que constroem de imaterial não resiste ao tempo. Senti estas palavras naquele adeus diferente dos outros, num alívio só dele. No passado, as despedidas provisórias carregavam-se de saudade, nossa, mesmo que fosse fingida. Engana-se quem pensa que a honestidade é um esforço mais importante que o fingimento no amor. Neste último toque não nos sentíamos. Quando dois corpos se tocam e não se sente é porque um vai escapar. Soube que era um adeus para enquanto durássemos.

 

Permiti às portas fechar e ao comboio deslizar, embora me sentisse a tomar balanço, sem cair para a linha. Olhei-o fixamente do lado de fora, tão fixamente que perdi o foco. Acabou e sentia-me vazia, sem roupa nem sapatos. Para uma mulher isto ou é um alívio ou é como perder o chão. Não fui capaz de fazer o meu olhar acompanhar o fugir ruidoso da carruagem, só de continuar a olhar em frente, com o maxilar rígido e um olhar parado, preso a uma cabeça e a um corpo que não se queriam mexer. Estava convicta de que a mais pequena ação me faria balançar mais. Umas pessoas andavam para um lado, umas para outro e mais algumas sei lá para onde. Talvez conseguissem ver-me, talvez estivessem também elas com a visão turva, descalças.

 

O caminho até à casa que decidimos chamar nossa, no alto, com vista para a cidade sem mar, percorreu-se em piloto automático. Quando cheguei, a janela que dava para o largo estava aberta e dei por mim, por dor e por instinto, a tentar fechá-la. Queria tudo trancado, mas detive-me. Algures, num apartamento do bairro, tocava uma música tão triste que fazia o ar cheirar a chuva. O cheiro fez-me levar as mãos à cabeça e, desajeitadamente, pentear, com as mãos, os cabelos que começavam a ficar demasiado longos. Quis usar isto para justificar não ser desejada. Depois ri, o pensamento seguinte dizia-me que deus é francês com uma costela britânica. Naquele momento concluí que tudo começa e acaba com uma qualquer música francesa. Ouvia-a distante e distinguia apenas a palavra Paris no meio daquele choro eufónico em francês fluente.

 

Numa cidade onde o tropeçar em amor é constante, uns estão fatidicamente obrigados a desencaixar a metade que lhes pertence para que seja encaixada numa outra, ficando, em consequência, uma peça danificada que não torna a encaixar. Ninguém, se futuro houver, quer completar um puzzle com uma peça que ao mais suave toque se desfaz. Se assim acontece numa cidade onde se tropeça em amor, pensei, que seria de mim se, nesta cidade, para além da merda dos cães, a História só deixa tropeçar em saudade? Pensar isto provocou em mim uma causa que talvez tivesse como efeito o riso, não o permiti.

 

A canção foi-se diluindo, ficando cada vez mais longe, até parar. Foi o que nos aconteceu. Fechei tudo, voltei a mim, ao quarto onde não queria que luz nenhuma entrasse, ao colchão rijo, à imobilidade. As vozes retomaram ao meu dentro. Nunca as consigo ouvir a todas, fica um burburinho lá dentro que faz tremer o corpo. O tremor tem mais vontade sua que as vozes, mas não lhe posso gritar. A voz da insegurança consegue sempre ser ouvida, num falar gritado. Não és, não vais ser. Imploro-lhe silêncio, sei que tem razão. Sem os outros não somos. O branco é que deveria ter som, cheio de vento, mas é a escuridão que fala e fala.

 

Passadas umas horas sento-me aos pés da cama, fecho a mão esquerda, abro a direita e empurro-as, compulsivamente, uma contra a outra. Não consigo parar, cala as vozes. Há silêncio, rio novamente e não sei porquê.

 

Saí para ir ao encontro da noite. Parei apenas quando alcancei o primeiro banco do primeiro jardim que encontrei. Fiz por não me movimentar de forma louca, em vez disso contemplei a luz cansada do único candeeiro que me fazia companhia. Ali fiquei.

 

Acordei com o barulho de quem, naquela manhã de domingo, tinha família. Era verão, tinha passado a noite no banco de jardim, tal e qual uma daquelas pessoas que transformam o cartão no seu teto, lençol, cobertor, colcha e edredão. Não me importavam os olhares que, noutro dia, podiam ter sido meus. Que histórias que trazem tanta face anónima ali?

 

Porque é que os olho com curiosidade? Porque é que aquele casal está sentado a olhar em frente, com um olhar pesado? Que fez ele? É sempre ele. Porque é que a rapariga de cor de rosa anda em círculos à volta da estátua? Talvez a cabeça dela também não se cale. Porque é que o rapaz de preto contempla o chão como se soubesse que é para lá que vai? Porque é que me importo?

 

Importo-me porque agora sei que nada para, nem pessoas nem mundo. Doía tanto e nem eu tinha conseguido parar. Tudo acontece. Eu aconteço na mesma. O sol continuou a abrir a manhã e fez-se-me luz. Como fazem todos os dias, a hora certa, os candeeiros de rua.

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15
Set16

Sugestão: Esta é a minha cidade e eu quero viver nela


Leonardo Rodrigues

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A cultura está cada vez mais acessível, só temos de lhe dar atenção. Naturalmente que quando é grátis, o ímpeto de irmos ao seu encontro é maior. Ontem, por felicidades que o destino me traz às mãos, tendo eu planeado ficar por casa, o telefone toca e lá ele me diz: tenho convites para uma peça no D. Maria às 21, vamos? Mesmo sem saber para o que ia, aceitei.

No teatro, vibrei quando descobri que estávamos prestes a ver Esta é a minha cidade e eu quero viver nela, não fosse Lisboa ser a minha cidade e não querer viver em nenhuma outra. Ao me aperceber que não seria em sala, mas nas ruas de Lisboa, sem pausas, o entusiasmo esmoreceu. Contudo, agarrei-me à promessa de Joana Craveiro: "nunca mais a vão ver da mesma forma".

Três horas depois, a promessa foi totalmente cumprida. Mesmo que se olhe com os mesmos olhos, ver-se-ão ruas, prédios e eventos diferentes, que aconteceram e não retornarão de outra forma. As ruas e as suas esquinas renovam-se com as histórias velhas. Os prédios que, mesmo de uma beleza extraordinária que já quase não conseguimos ver, passam a ser notados. As vidas dos que outrora os habitaram renascem pela voz destes extraordinários interpretes, ora na pele de uma prostituta, ora na de uma grande senhora.

Neste espetáculo volante é construída a ponte entre o que foi e o que é, levando-nos a encarar de frente a morte do que era a nossa cidade antes da invasão dos turistas, das bicicletas e os primos tuk tuk. Afinal, a História tornou-se morada de hostels e airbnb - os únicos que se conseguem manter de pé.

Não me sinto no direito de revelar mais, mais deixo-vos com página do espetáculo e convido todos os lisboetas a redescobrir a cidade nestas viagens únicas, que se realizarão de Quarta a Sábado pelas 21:30 - até 24 de setembro.

 
 
27
Jun16

Surreal é a própria vida: próxima exposição de Thomas Mendonça


Leonardo Rodrigues

 

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As imagens têm um poder imediato que a palavra só pode ambicionar. Numa entrevista anterior, Thomas Mendonça falou-me da sua vida, de onde vem a sua estética, os porquês disto e daquilo, mas, só com o visionamento destas fotografias, que remontam ao início, nesta viagem pelas suas memórias, é que tudo fica claro e as peças do puzzle se unem: a mistura do pop com o “sério”, as brincadeiras de género e o surreal - que às tantas é bem real. Cuidadosamente retiradas de uma caixa de lata vermelha e dispostas sobre a sua cama, as fotografias de Thomas revelam uma infância onde se respirou surrealidade. Uma mãe que parece a Lady Di, um pai que só pode ter resultado dum cruzamento entre James Dean e Brad Pitt, o tio que decide ser apropriado vestir-se de mulher no final de ano. É notória uma forte presença de marcas que, já nos anos 90, estavam impregnadas nas nossas mentes como a Barbie, Mickey, Planet Hollywood e, ainda, pessoas vestidas de personagens do nosso imaginário coletivo como o Zorro e Bugs Bunny. É nestas fotografias que o Thomas pega para criar os desenhos da sua próxima exposição, “Surreal é a própria vida”, dando-lhes uma nova vida com contornos que realçam o surreal das mesmas, mantendo-se fiel à sua estética. Para além da visita guiada pelas suas memórias, o Thomas concedeu-me uma entrevista que já podem ler no dezanove, aqui.13530372_1872675279626485_663222540_n.jpg13553362_1872674996293180_446026029_n.jpg13552557_1872675269626486_360597231_n.jpg13553396_1872675276293152_904353251_n.jpg13552529_1872675249626488_1242439143_n.jpg

09
Fev16

De Mão em Mão II (Passatempo)


Leonardo Rodrigues

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Depois de achada a vencedora da primeira edição do passatempo De Mão em Mão, é altura de lançar a segunda com o livro que começou tudo, "Queimada Viva" de Souad.

 

Tal como fiz da primeira vez com o Número Zero de Eco,  também já vos deixei a review deste livro que podem ler aqui

 

É a sua edição de 2004, em inglês, que me compromento a passar para outras mãos, tal como o seu primeiro dono quis, ao deixar aquele livro numa rua muito movimentada de Lisboa. 

 

Para o livro passar para as vossas mãos, e para que mais pessoas possam participar, deixo-vos duas alternativas, uma com o Facebook e outra sob a forma de formulário. Peço que escolham uma e que só participem uma vez.

 

Facebook:

1 - Gostar da página, aqui.

2 - Comentar a ligação deste passatempo com "I want".

 

Formulário:

 

 

O vencedor será anunciado na próxima terça feira até às 21h.

04
Fev16

Para refletir: Queimada Viva, de Souad


Leonardo Rodrigues

 

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Quem leu o post do passatempo De Mão em Mão, para o qual ainda vão a tempo, sabe que resgatei o livro "Burned Alive" - "Queimada Viva", em português - daquele pequeno tesouro recheado de livros que encontrei na rua.

 

Li-o num ápice. Acho que este foi o primeiro livro que tive coragem de ler na totalidade em inglês, porque embora o fale com fluência, prefiro ler na minha própria língua. A escrita é acessível, o que é difícil é ler coisas que chocam na totalidade com tudo o que nós ocidentais, arrisco, civilizados, acreditamos.

 

"Queimada viva" é o relato arrepiante da vida de Souad, nome fictício, uma das muitas milhares de mulheres que vivem em regimes onde as leis são feitas de homens para homens. Na sua aldeia, algures na Cisjordânia, uma mulher não pode pensar por si, ter vontades próprias, curiosidade, olhar um homem nos olhos, nem sair à rua sozinha antes do casamento. O casamento, a maior liberdade pela qual uma mulher pode ansear, é apenas uma transferência de propriedade e só lhes libertará da escravatura do pai para que isso passe a ser feito pelo marido, o novo dono, que pagou com ouro para a ter.

 

Dentro destes casamentos, a violência não só se perpetua como a responsabilidade aumenta. Os motivos para a violência já não são só as lides domésticas, o chegar um minuto mais tarde ou apanhar um tomate verde. Passa a haver obrigatoriedade de ter filhos, as filhas são um fardo, têm de ser encaminhadas, distribuídas e, valendo menos que um animal, se começarem a ser muitas, as próprias mães chegam a matá-las, encarando elas próprias isto como natural. Não sabem melhor, não conhecem outra realidade, são vítimas de um sistema. Curiosamente, apercebemo-nos que os homens também o são.

 

Souad foi vítima dos tão falados crimes de honra. Tinha que morrer porque desonrou a família ao se apaixonar, ao ambicionar ser propriedade de alguém que não o seu pai, com uma gravidez fora do casamento. A única forma de ser restabelecida a honra da família era com a sua morte, então atearam-lhe fogo. As mulheres da sua aldeia só o apagaram. No hospital, onde deveria ter recebido cuidados imediatos, tendo em conta que Souad era uma charmuta, arábico para puta, só teve direito a um banho porque cheirava mal. Estava lá para morrer. Se viveu para contar a história foi porque "nós" intervimos. 

 

Já na Europa, dois meses depois, finalmente a receber tratamentos, Souad, ao olhar para as enfermeiras com saias curtas, maquilhagem, a sorrir a conversar com os médicos só pensava que no dia seguinte já não iam estar lá, sentindo um profundo alivio quando as via novamente. As pessoas deveriam poder pura e simplesmente ser.

 

Na simplicidade da obra, porque não precisamos de nos desdobrar em palavras pomposas para transmitir grandes ideias, há tanta força, acorda-nos, humaniza-nos. Leva-nos à reflexão! Pensei muito na minha mãe que me criou sozinha e nunca casou. Numa daquelas terras isso seria inconcebível porque não surgem heroínas, só nascem heróis. 

 

Cá, mesmo com muito pudismo e catolicismo, com toda a sinceridade, podemos fazer o que nos der na real gana, desde que isso não magoe o outro, amar quem amamos, tocar nessas pessoas, com ou sem papel. Começamos a poder explorar as nossas sexualidades cedo, de forma informada, segura, com consciência dos atos. 

 

As mulheres podem ainda não estar em mesmo número nos cargos de topo, na política nem receber tanto, mas têm os mesmos direitos de um homem. Isto constitucionalmente, culturalmente ainda existem certos estigmas que em Lisboa já não vejo, tanto, também porque faço por não me rodear de pessoas tacanhas. 

 

Dito isto, na minha terriola da Madeira, conheço de vista mulheres que sofrem de violência doméstica, mas que nada fazem por medo, por acharem que não há vida para além do marido de há 30 anos. Nem elas, nem quem lhes diz "bom dia, como vai?", levando com a mesma resposta "vai-se andando", como já é tudo tão automático, só respondem "enquanto for assim está bom", e seguem para o café para falar da vida dos outros. Enquanto for assim está bom, mas e quando estas mulheres já não andarem?

 

Ainda estou a ter os primeiros vislumbres daquilo que um blog pode fazer. Não sei bem, mas não custa nada falar destas coisas, apelar à atenção, à prevenção, à denúncia e a uma nova emancipação que está, sobretudo, por acontecer nos meios mais pequenos.

 

Futuramente, e com o propósito de continuar a abordar esta temática, sem que para isso seja necessário ler novamente que mais uma mulher morreu, irei escrever um texto com uma blogger amiga que foi vítima de violência doméstica, na esperança que palavras levem a ações.

 

Este livro, será também passado de Mão em Mão, fiquem atentos ao Facebook

 

 

01
Fev16

Passatempo De Mão em Mão: Número Zero, Umberto Eco


Leonardo Rodrigues

Mesmo com um budget quase inexistente, lembrei-me que também posso fazer um passatempo cá no blog. E que melhor do que livros para começar?

 

Ultimamente tenho-me sentido inspirado por tudo, em grande parte devido às minhas férias de quase dois meses.

 

Na semana passada foi altura de ser inspirado por um caixote que encontrei na rua mal saí de casa. Claro que não era um caixote qualquer, estava recheado de livros, acompanhado de um papel que indicava que os livros estavam ali porque já tinham cumprido o seu propósito e que era altura de os passar para outras mãos, dizendo "Free Books/Livros Grátis". Gostei de ver como um caixote com livros, àquela hora da manhã, fez interromper o passo apressado de muitos lisboetas e os colocou a trocar sorrisos e a falar uns com os outros.

 

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Aproveitei esta oportunidade para expandir a minha biblioteca ficando com uma edição de 2004 do livro "Burned Alive", partilhando a ocorrência na minha conta do instagram.

 

Muitos dos meus livros também já cumpriram o seu propósito, podendo ter sido isso ajudar a aquecer numa noite fria de inverno ou distrair-me da confusão que é o metro. Agora estão só a apanhar pó, humidade, e raramente os consigo reler, ora porque estou sempre a adquirir outros, ora porque a bibliografia da faculdade não me permite. Mas o meu maior problema não é ter livros que já só servem para enfeitar, é mesmo mudar-me de casa com eles, visto ter mais livros do que roupa.

 

Como não tenho coragem de os deixar na rua, ao sabor do vento e da chuva, a partir de hoje passo a ter este passatempo chamado De Mão em Mão, permitindo-os passar para outras mãos, na esperança que o novo dono perpetue a vida do livro, de mão em mão.  

 

O primeiro livro que quero partilhar já conta com um post, que podem ler aqui e é, como o título deixou claro, Número Zero, de Umberto Eco. 

 

Para ganharem o livro só têm de fazer isto:

  1. Colocar gosto na página do Blog no Facebook, aqui.
  2. Comentar a ligação do passatempo, no Facebook, com "Eu quero".
  3. Partilhá-la.

 

O vencedor(a) será escolhido aleatoriamente -  através de random.org - e anunciado na próxima segunda feira, dia 8-2-2016, na página do Facebook e, posteriormente, contactado por mensagem privada. Boas partilhas, boas leituras!

31
Jan16

Número Zero, Umberto Eco (Spoiler Alert)


Leonardo Rodrigues

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Umberto Eco, semiólogo, filósofo e romancista italiano regressa às livrarias portuguesas com Número Zero, livro de ficção editado pela editora Gradiva.

 

O livro acaba por não ser apenas, como muito se escreveu, sobre o jornalismo nos dias de hoje e a sua doença - há muito diagnosticada como sensacionalismo - , mas também, sobre a sociedade - que adotou uma postura de passividade - e de que forma o jornalismo acaba por ser o seu espelho, vendendo-se tanto aos leitores como aos interesses dos poderosos que detêm os meios de comunicação.

 

Eco, para tais denúncias, leva-nos para o interior de uma redação piloto de um jornal que não saiu, que não é suposto sair e que, para não haver esperança, não sairá. O hipotético periódico teria como nome Amanhã. No Amanhã, como em qualquer outro jornal, falar-se-ia do ontem que já todos conhecemos pela televisão, mas, e aqui está o seu fator de diferenciação, ao invés de se fazer um retrato fiel do que foi, especula acerca daquilo que será amanhã, dali a uma semana ou até um mês, com tanta certeza que poderia ser um “oráculo”. O objetivo do jornal, ou melhor, os números zero deste jornal é o de intimidar os poderosos de tal maneira que deixe o seu financiador - o Comendador Vimercate - fazer parte do clube restrito. Se deixarem, não se publica o jornal, a missão é cumprida, mas publicar-se-á um livro igualmente duvidoso, assinado pelo diretor.

 

Este livro é a razão de ser do protagonista que, num livro de Eco, não poderia caber senão a um perdedor, o Dr. Communa, - um doutor que nem a licenciatura acabou porque, como sabemos, a culpa é sempre do outro. A sua função, enquanto doutor na arte de perder, é escrever um livro sobre todo o processo de gestação daquilo que que nunca irá nascer - omitindo este facto - para, a posteriori, ser assinado por outro, perdendo mais um pouco também aqui.

 

"Os perdedores, tal como os autodidatas, têm sempre um conhecimento mais vasto do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não podes perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deviam."

 

Como os outros que perdem, sonhava em escrever um livro que lhe desse fama e glória, mas parece que também não era uma grande escritor uma vez que para escrever tinha que citar em demasia e ninguém está para ler algo que necessite de enciclopédias para descortinar. A erudição e a cultura, tal como o diretor recorda a um redator, não vende: "temos de falar a linguagem do leitor, não a dos intelectuais [que estão em menor numero].”

 

À primeira vista, com apenas a sua versão das coisas, não conseguimos perceber se este é simplesmente paranóico, depois, com o andamento do livro, começamos a achar que a sua paranóia teve toda a razão de ser, até que acabamos por concordar que não há necessidade porque temos todos memória curta, somos cada vez mais uns vendidos e podemos descansar.

 

Voltando à redação, falemos do diretor, Simei, que desperta em Commona a seguinte descrição "No género x é um deus. X é o género em que x é merda." Os seus reparos, correções, exercícios e dicas assim o comprovam. Naquele jornal aprendia-se a desmentir o desmentido deturpando a realidade com a "realidade". Até quem escrevia os horóscopos, não tendo autorização para seguir os astros, seguia, a seguinte instrução, "vá ver as revistas e jornais que publiquem [...] e retire deles padrões recorrentes [...] otimistas, as pessoas não gostam de ouvir que vão morrer de cancro". Embora o prefácio não o adivinhe - porque enquanto capítulo seria o penúltimo -, o livro poderia ser intitulado d"O Grande Manual das Más Práticas Jornalísticas". Os  públicos dos jornais emitem muitos julgamentos acerca dos jornalistas, mas estes depois de formados, mesmo que saibam o que deve ser feito são reensinados pelos superiores a fazer um jornalismo que agrade a maioria, que não perturbe muito, que venda - mais do que para subsistir, para enriquecer.

 

Mas, enfim, de um jornal composto por fofoqueiros como Bragaddocio e Maia - únicos dos seis redatores que mereceram páginas para se apresentar no livro - , um diretor que conspira por ganância e um perdedor compulsivo, não se pode esperar muito.

 

No fim, por onde começou o início, e saltando a conspiração que Eco escreveu tendo como base factos que nos escandalizam enquanto leitor porque não sabíamos ou não nos lembrávamos, tudo acaba como o leitor eventualmente dá por si a querer. O herói, perdedor nato, pode não ficar com tanto dinheiro como era suposto, nem com a mais ínfima possibilidade de algum dia se ver publicado, mas, aos 50, ganha o amor, que é um outro tipo de reconhecimento, invertendo a sua sorte. Agora é esperar que os jornais também consigam inverter as suas sortes, embora os prognósticos de Eco, na voz de Maia e Commona, não sejam ótimistas.

 

Um livro a não perder, que irei oferecer num passatempo muito em breve. Fiquem atentos ao facebook!

 

24
Jan16

Bons livros


Leonardo Rodrigues

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Sei que hoje, para muitos, é apenas dia de eleições, mas ao ver as notas do meu telemóvel, lembrei-me do post que comecei há coisa de semana e meia, então hoje passou a ser também dia de acabar posts.

 

Queria partilhar convosco que li o meu primeiro livro de 2016. Confesso-vos que quando acabei, caiu-me tudo figuradamente e, fisicamente, umas lágrimas. O livro em questão é "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares. Não me apeteceu chorar com o final nem por ter acabado - embora tenha tido um susto quando ao virar a página 607 vi a Nota do Autor - , apeteceu-me chorar pelo livro ter sido tão bom e por todas as emoções que fez surgir em mim.

 

O que é que torna um romance bom? Em primeiro lugar lê-se sem esforço, e com isto não digo que não exija pensar, refletir, pesquisar até, mas fazemo-lo com naturalidade. Os livros, a literatura, toda a arte enquanto arte, têm de fazer sentir. Se um livro não for capaz de me sentar à mesa com as personagens e me permitir escutá-las, olhá-las nos olhos, sentir a dor que deveria ser só delas, não é nada. Um livro mede-se, para mim e agora, pelas emoções que desperta e pelos desejos que acorda.

 

O "Rio das Flores" faz isto tudo, mas não quero aqui despi-lo completamente porque acho que as páginas de um livro têm de ser percorridas com uma sensação de novidade, como se de um corpo de um novo amante, ao ser percorrido pela primeira vez, se tratasse - embora já haja suspeitas relativamente ao conteúdo.

 

Escrever isto, recorda-me de uma entrevista de António Lobo Antunes, que vi há uns anos, ele dizia não entender bem o porquê de se falar de livros, achava que isso simplesmente não se deveria fazer. Na altura acabei por concordar, final de contas, por mais que me desdobre em elogios ou críticas, aquele paralelepípedo de papel só será alguma coisa cada vez que for desbravado e cada leitor vai sentir algo de singular, de acordo com as suas vivências e ideias, que me transcende.

 

Mesmo me transcendendo, vou partilhar o que o Rio das Flores me reassegurou: para além das aparências, nada é sólido; ideias e pessoas mudam, sempre; algumas coisas acabam porque outras melhores, mais acertadas, estão para começar; e, principalmente, que os Homens, bem, são apenas homens.

 

Como o período de luto ou de ressaca literária já acabou, iniciei outro, "O Retrato de Dorian Grey" de Oscar Wilde. Talvez com esse escreva uma crítica a sério, talvez não escreva nada. Votem bem!

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