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LEONISMOS

LEONISMOS

24
Fev16

Entrevista a Thomas Mendonça, parte I


Leonardo Rodrigues

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Demoram, mas as entrevistas regressam sempre. Para o regresso, os eventos organizaram-se para que fosse Thomas Mendonça o convidado. É um artista plástico luso-francês que tive o gosto de conhecer antes desta conversa tomar lugar. O que mais me surpreendeu foi alguém tão talentoso e inteligente se apresentar tão humilde, sem se levar a si e à vida tão a sério - só o suficiente. 

 

Antes da conversa, e depois de quase entrar na rua errada, tive uma visita guiada pela sua residência e atelier. O quarto serve de atelier de cerâmica - foto - , aqui pude ver e tocar nas peças que iram estar brevemente em exposição. Na cozinha, pela luz fantástica, é onde desenha. Foi lá que, depois dos copos com água, começámos a gravar o que seria uma boa hora de conversa. Durante esta hora abordamos questões como a identidade e processo criativo, o ensino e a sua próxima exposição. Devido à extensão, e porque as respostas são demasiado pertinentes, vou publicá-la em duas partes. Boa conversa!

 

Leonardo RodriguesComeça por te apresentares.

Thomas Mendonça: Chamo-me Thomas, nasci em França, perto de Paris, e vivi lá até os meus 10 anos. O meu pai é português e a minha mãe é francesa, pelo que tenho dupla nacionalidade.

 

LRTens alguma rotina, como é o teu dia-a-dia?

TM: Depende da fase do meu trabalho. Há alturas em que tenho uma rotina que é uma ausência de rotina. Neste momento o que tenho é uma rotina de trabalho porque estou a preparar uma exposição, o que faz com que tenha coisas para fazer diariamente. Acordar cedo faz parte disso, gosto muito do dia e de aproveitar a luz. Ao final do dia apetece-me descontrair e, à noite, sair. Durmo pouco, é uma opção.

 

LR: Vieste para Portugal muito cedo, com 10 anos. Quase que viveste metade da vida lá e a outra metade cá. Confidenciaste-me que isso a dada altura gerou uma certa confusão, a de não saber aonde pertences.

TM: Sim, durante a adolescência esta foi uma questão pertinente, a da casa, também em termos de identidade. É muito importante saber de onde vimos. Foi um problema ter duas nacionalidades e não perceber bem em qual delas me enquadrava. Simplesmente tenho as duas, são ambas parte de mim e hoje em dia vivo bem com isso, embora durante muito tempo tenha sido estranho ser francês em Portugal e português em França. Às tantas não és coisa nenhuma em lado algum.

 

LR: Já encontraste esse sentido de pertença?

TM:Não me sinto apegado a nenhum dos dois.

 

LRE à cidade de Lisboa?

TM: À cidade de Lisboa sim, sinto-me muito apegado. Finalmente, lá está, depois desta fase chata de não saber onde quero estar nem de onde sou, simplesmente decidi assumir que sou de Lisboa porque é uma cidade que me acolhe bem. Eu gosto de estar aqui, é a minha casa. Sei que posso ir para onde quer que seja, mas aqui é onde regresso e estou bem, em casa.

 

LR: Também estiveste em Erasmus na Polónia, foi essa uma terceira casa?

TM: Não, de todo. Foi uma experiência relativamente dura. A Polónia é fria e não tem luz solar no inverno.

 

LR: E as pessoas são como o clima?

TM: As pessoas parecem simpáticas, mas são muito tímidas por não falarem muito bem outras línguas. Eu entendo de onde vêm estas coisas: o pós guerra, o pós comunismo, muitos pós. Eles naturalmente são um povo mais fechado sobre eles próprios.

 

LR: No trabalho que tens vindo a realizar, excluindo então a Polónia, como é que a dicotomia Portugal-França se reflete?

TM: Acho que algumas dúvidas em termos de identidade fazem parte do meu trabalho normalmente, mas não é algo de sério ou central. Acho que toda a gente tem as dúvidas existenciais e acerca de muita coisa.

 

LR: Quando é que descobres que tens uma aptidão especial para certo tipo de coisas? É ainda em França, quando frequentaste, por exemplo, o atelier de cerâmica aos seis?

TM: Acho que desde muito novo. Tal como acontece geralmente nas áreas criativas, as pessoas têm um à vontade para isto.

 

LR: Lembras-te de ter tido algum momento mais concreto, um aha moment, em que te apercebes gostar mesmo muito disto?

TM: Não, parece que é algo que antecede a consciência. Dizem-me as pessoas da minha família que com dois anos e pouco enrolava lã à volta da minha cama e dizia que era decoração. É algo de que não tenho memória, obviamente. Nem na altura deveria ter consciência do que estava a fazer... ou tinha, não sei.

 

LR: Consideras que estas aptidões têm uma base natural?

TM: Não acredito muito na questão natural ou biológica, mas de facto não consigo perceber em que momento surge. Portanto, talvez seja.

 

LR: Quando é que decides que é isto que vais explorar? Disso já deves ter memória...

TM: Lá está, esta também parece ter sido uma decisão que antecipou a minha consciência. Quando se entra no secundário é preciso tomar um rumo e eu sabia que iria para artes. Sempre foi uma coisa muito lógica para mim. As áreas criativas sempre estiveram presentes, nunca tive que ponderar muito. Parece natural, não é uma dúvida. Depois do secundário, a faculdade não foi uma decisão muito complexa.

 

LR: Escolheste Artes Plásticas. O que é que o ensino superior acrescentou?

TM: Eu terminei o secundário numa escola de artes, António Arroio.  Ali estudei o curso de Produção Artística em Têxteis. Nos últimos anos percebi que não seria de todo design de moda, então segui para artes plásticas. Na altura queria afastar-me de Lisboa, então decidi que Caldas da Rainha seria a primeira hipótese e em último Lisboa. Com a média que tinha entrei na primeira opção. O ensino superior, não sei se é em Portugal, se em todo o lado, se uma questão de agora ou de sempre, nestas áreas é de alguma forma dispensável. À partida estamos enquadrados por um conjunto de professores, uma academia, uma escola, onde é suposto acontecerem determinadas coisas que não acontecem. O que me falta do meu curso são as questões práticas de como aplico isto na minha vida profissional, para poder chegar e dizer faço isto, aqui e agora. É um absurdo terminamos 3 anos de licenciatura e gastarmos mais de 3000€. Conhecemos professores fantásticos, uns mais do que outros, e fazemos amigos para a vida. 

 

LR: Então a nível profissional não enriquece assim tanto...

TM: Pode, mas é mais um acaso, depende também das relações que sabemos estreitar de uma forma pessoal e não profissional.

 

LR: Pelo que me disseste, quando acabaste o curso sentiste uma necessidade de ser independente, o que te levou a tentar encontrar emprego.

TM: Sim, quando acabei a licenciatura regressei para Lisboa. Rapidamente percebi que não fazia sentido regressar para retornar à casa dos meus pais, que fica na margem sul - o que não é perto nem afastado. Tenho muito gosto em estar perto das coisas, mais perto ainda. Comecei a viver em Lisboa, pagando contas. Tive sorte que não pagava casa na altura, mas havia alguma necessidade de ter independência financeira. Então, procurei emprego, como se faz normalmente para obter dinheiro. Acho que não queria muito e por sorte não encontrei. Via-me sem emprego, mas a conseguir viver em Lisboa, então decidi apostar naquilo em que me formei.

 

LR: Qual o maior problema que vias em trabalhar para outros? Achas que isso te iria comprometer artisticamente?

TM: Seguramente. Parte desta produção é uma questão de tempo. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo e, naturalmente, se tiver um trabalho das 8 às 18 não tenho esse tempo para estar a produzir diretamente e objetivamente as coisas. O trabalho iria ser muito mais pequeno, mais complicado, mais atrasado e acho que seria uma pessoa mais frustrada.

 

LR: Como é que as coisas surgem, como é o processo criativo pelo qual passas?

TM: Por vezes são epifanias, de repente apetece-me fazer qualquer coisa dentro de uma família de assuntos que me são mais naturais. São abordagens que vou trabalhando ao longo do tempo. Isto aplica-se a tudo, aos materiais, às temáticas e às técnicas. Não é uma linha reta, é uma linha que vai sempre atrás pescar coisas. São raras as quebras significativas no meu trabalho, mas existem. Por vezes há mesmo vontade de fazer completamente o contrário. É uma forma de nos reinventarmos de alguma forma. Depois, com paciência, é voltar a ver o que é que deixámos para trás e recuperar muitas coisas.

 

LR: Tens por hábito retomar trabalhos antigos?

TM: Não é bem retomar porque estamos no futuro, no depois, não se volta, temos outra bagagem, outra vida que aconteceu entretanto. Acontece muitas vezes olhar para coisas que foram feitas há muito tempo e não perderam interesse. A certa altura há ali uma coisa em que eu reparo que agora estou a trabalhar muito e não fazia ideia ou me lembrava que já existia. Pode ser muitas vezes uma forma de fazer, uma textura visual ou até mesmo uma coisa muito objetiva como uma palmeira.

 

LR: Quando te acontece não querer continuar determinado trabalho chegas a mandá-lo fora ou guardas para a eventualidade de?

TM: Eu nunca cheguei ao ponto de mandar uma coisa fora por estar chateado com ela. Ponho-as de castigo. Tenho alguns trabalhos que estão guardados que para os quais dependem muito tempo, paciência e meios, mas não consigo por algum motivo. Sei que daqui a dois anos vou pegar neles.

 

LR: Chegas a expor peças que estiveram de castigo?

TM: Sim, algumas das peças que vou expor em março não foram feitas agora, mas fazem sentido agora. Antes não estavam como eu queria. Havia qualquer coisa que me chateava nelas e deixei-as num canto. Agora, repensei-as, algumas alterei, e fazem muito sentido. Vieram mais cedo, mas só agora estão preparadas para fazer parte deste grupo de peças.

 

LR: Essas peças são como na moda...

TM: ...uma coleção, seria impossível não sê-lo. São coisas feitas num período de tempo relativamente próximo. E mesmo que sejam feitas ao longo dos anos... há coisas que são como o croché, a linha vai atrás e segura na laçada anterior criando a próxima. Há um fio condutor que as une a todas. Há uma linha de pensamento que se foi construindo ao longo do tempo.

 

Ler parte II.

 

11
Out15

Entrevista a Saramago, das artes visuais


Leonardo Rodrigues

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Tal como recentemente prometido no Meet the blogger, cá está a entrevista que tive o gosto de fazer a João Saramago. 

 

O João, para além de ser quem desenhou a chávena de onde bebo café todos os dias, concebeu o logo do meu blog e é, para mim, outro Saramago, mas das artes visuais. Não me vou estender mais com uma introdução desnecessária quando há uma conversa que quer falar por si.

 

LR: Para quem não te conhece, qual a melhor descrição de quem és, enquanto pessoa e artista - se é que estes se separam?

JS: Um tipo calado, gosto de preservar o meu espaço e isolação e, ao mesmo tempo, atraem-me os contrastes, as multidões e o caos. Não sei sinceramente se existe alguma separação, penso essencialmente que somos ou estamos a ser qualquer coisa em qualquer momento em qualquer sítio, mutáveis.

  

LR: Abandonaste o ensino superior para seguir uma carreira. Ainda achas que essa foi uma boa decisão?

JS: Por vezes debato-me se tirasse um curso de ilustração ou pintura que o meu rumo seria diferente por estar dentro de um circuito e de ter mais oportunidades de carreira, porque conheces o amigo do amigo que te põe a ilustrar para um jornal. Mas pagar para ter atenção é uma acção desesperada. Enquanto a minha intenção não for aprender novas linguagens, meios e técnicas, prefiro não o fazer. É desonesto e uma perda de energia e também não me interessa decorar o currículo em prol de validação ou credibilidade. Tomei a decisão de abandonar a licenciatura por três motivos: dinheiro, desinteresse e tempo. Até hoje, a aprendizagem é constante, pois tens que ter disciplina e foco e fazer a manutenção dessas coisas, porque nem todos os dias te apetece desenhar. E quando tens um emprego, tens que "criar" tempo para trabalhar naquilo para que nasceste ser.

 

LR: A vida tem sido fácil com aquilo que te reservou?

JS: Não, tem sido desafiante. Não vivo da pintura nem da ilustração como gostaria. Trabalho num restaurante, pinto e desenho todos os dias. Contudo, estou feliz neste momento. Sei que as coisas levam o seu tempo e que só tenho que me manter focado e fazer. "Fazer" é importante.

 

LR: Qual o maior obstáculo que encontraste até hoje no percurso da tua carreira?

JS: Gostava de conseguir trabalhar mais rápido. Por vezes fico ansioso quando estou a pintar por olhar para o papel e ver que ainda falta bastante. Os meus trabalhos são demorados e reflexivos. Queria conseguir executar mais, mas é exaustivo. Creio ser um obstáculo diário fazer a gestão e manutenção de um estado produtivo e ainda encontrar a diversão nisso, pois nem sempre é divertido pintar, por vezes é extremamente exaustivo. Mas, quando o trabalho está terminado, não encontro sensação semelhante, é uma grande satisfação.

 

LR: Quando te contratam é fácil manteres a tua identidade num trabalho?

JS: Creio que sim, embora a identidade seja o eterno conflito. Dou por mim muitas vezes a pensar o que é que vou fazer, o que é que vou acrescentar de novo, e ao fazer pesquisa encontro trabalhos que por vezes me deixam frustrado mas, volto a mim e faço as perguntas de outra forma, o que é que me dá mais gozo fazer? Rapidamente apercebo-me do meu estilo e decido vou aperfeiçoar isto. Esta é a minha identidade. Gosto de trabalhar com esferográfica, depois de estar feita a pintura, de realçar os pormenores e criar formas elásticas e entrelaçadas, de encher a folha. Gosto do exagero e de encontrar beleza nisso. Ultimamente tenho estado obcecado por desenhar formas derretidas, vem-me sempre à cabeça as camadas de cera derretida, gosto disso.

 

LR: Parte do teu trabalho é duma natureza mais abstrata, do tal exagero que encontra a beleza. Mas há mais do que isto no teu trabalho, muitas das linhas assumem formas mais concretas, de rostos, figuras públicas e prédios, alguns parecem gritar. Que pretendes tu realmente gritar com o que produzes?

JS: Não sei. Não racionalizo enquanto pinto, nem tão pouco parto de algum conceito. Parto sempre da emoção. Quando tenho material suficiente para parar, gosto de ficar a pensar e é quando os conceitos brotam. E aí sim, posso desenvolver a coleção e a mensagem. Acho que todo o meu trabalho reunido é um ensaio para qualquer coisa senão uma coisa só.

 

LR: Os social media assumem cada vez mais um papel de relevo nas nossa vidas. Como é que estes se relevam para ti, enquanto freelancer?

JS: As redes sociais são um mais uma forma de divulgação. Por vezes pode ser um pouco intrusiva e perigosa até. Costumo ter uma postura muito clínica e fria no sentido em que não me deixo afectar pela relação de quantos mais likes, mais credível e aprovado estás. Elaboro estratégias e experimento fórmulas para comunicar e aproximar-me das pessoas. A intenção é mostrar o trabalho, não obter validação.

 

LR: Em que é que estás trabalhar neste momento?

JS: Recentemente, fiz alguns desenhos que nasceram de uma necessidade de disciplina e método e reuni-os numa coleção. Essas pinturas tornaram-se exercícios de meditação, cujo objectivo principal era o foco. Depois, calhou ser chamado pelo Gerador para participar na 2ª edição do Trampolim e pintar o tema "voar com os pés assentes no chão". Senti de imediato a ligação com o tema, pois fui apanhado numa fase em que estava - e continuo a estar - interessado nos significados de expansão e dispersão, que brotaram desses desenhos. Achei que tudo fazia sentido. Então, estou neste momento a finalizar a pintura de uma sala num palacete no príncipe real e, vai estar aberto ao público gratuitamente no dia 10 de outubro, este sábado.

 

O João já tem a sua loja online disponível, visitem aqui

 

Podem também ler as outras Conversas com Vista, clicando nos nomes abaixo:

 

Paulo Borges, Professor

Samuel Pimenta, Escritor 

 

 

15
Ago15

Entrevista a Samuel Pimenta


Leonardo Rodrigues

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Foto de José Lorvão 

 

Demorou, mas finalmente chegou a segunda entrevista de Conversas com Vista.

 

Hoje é a vez de dar voz a um escritor, Samuel Pimenta (25). É Alguém com quem gosto de conversar e que tenho o privilégio de considerar amigo. Nesta conversa temos o Samuel de todos os dias. Percebam, então, porque é que eu, em concordância com a Le Cool, considero-o alguém que têm de conhecer.

 

LR: Eu já te conheço, mais enquanto pessoa do que escritor. O que achas que te define enquanto pessoa, enquanto escritor e enquanto ambos?

SP: O espírito libertário. Penso que é para lá que caminho, para a liberdade, enquanto pessoa e enquanto escritor, que é estranho separar uma coisa e outra. A escrita é um exercício de aprimoramento da pessoa que sou. E escrevo para ser mais livre, para poder desvendar mais da vida, do Universo.

 

LR: Como é que te chegam as coisas que colocas no papel?

SP: Chegam-me através dos meus sentidos e da forma como se relacionam, da minha sensibilidade. É sempre complicado explicar o processo que antecede o momento da escrita, a inspiração. É um momento místico, espiritual, mas também físico, pois faz-se sentir no corpo. Quando tenho uma ideia, o meu coração acelera, tenho de caminhar para organizar a mente.

 

LR: Já tiveste de lidar com a famosa folha em branco? Que fazes quando isso te acontece?

SP: Sim, é por isso que ela é famosa, é comum cruzar-se connosco. Antes preocupava-me, agora não. Não me obrigo a escrever, bem pelo contrário. Quando estou no processo de escrita e tenho algum bloqueio, opto por parar. A criação literária também é física, sai-nos do corpo, é importante repousar, deixar a mente liberta. Costumo dizer que é importante deixar a mente respirar. Ela precisa de ir a outros sítios, ver outras coisas, para regressar com um outro olhar, um olhar que vença a folha em branco. Durante o processo de escrita, estou muito consciente do meu corpo e respeito os tempos que ele me exige. Penso que o facto de praticar meditação desde muito cedo ajuda neste caso.

 

LR: És daqueles que tentam demarcar-se das suas vivências pessoais enquanto escritor? Isso é possível? De que forma é que isso se vê ou não na tua escrita?

SP: A meu ver, isso é uma tarefa impossível, nem penso sobre isso. Toda a criação artística parte de uma vivência pessoal, nem que seja de uma ideia (pois as ideias são coisas muito íntimas, estão guardadas dentro da nossa cabeça, às vezes muito caladas).

 

LR: Há dias falávamos sobre o não haver coisas más, para aqueles que ainda olham esta ideia com estranheza, que nos podes dizer?

SP: Acredito que as coisas podem parecer más à primeira vista, de forma ilusória, mas como sou uma pessoa positiva, sei que, por trás dessa miragem negativa, existem sempre oportunidades, aprendizagens que nos ajudam a construir quem somos, que nos ajudam a evoluir. E como evoluir é bom, acredito que todas as coisas são boas, que têm um bom propósito.

 

LR: Estás bem contigo, tanto se vê como se sente. Embora nunca possa existir apenas um caminho, acho que importa saber qual foi o teu, como se chega ao Samuel de agora?

SP: Com trabalho, perseverança e consciência. Há que ser consciente para fazer escolhas.

 

LR: Qual o valor mais importante que te ensinaram ou que aprendeste?

SP: O Amor. Podemos ter liberdade, podemos ser honrados, podemos ser verdadeiros, podemos ter quase tudo, mas é o Amor que conecta todas as formas de vida e é através dele e da sua vivência que nos aperfeiçoamos enquanto seres.

 

LR: Quem é a tua maior inspiração?

SP: Todas as pessoas que sonham e sonharam viver num mundo melhor, fazendo a sua parte para o conseguir.

 

LR: Fala-me dos teus sonhos.

SP: Mudar o mundo, torná-lo num lugar melhor, desde sempre.

 

LR: O que estás a fazer para realizá-los?

SP: Escrevo. E procuro aperfeiçoar-me enquanto pessoa todos os dias.

 

LR: Somos ambos de terras pequenas, por vezes incutem-nos a ideia que nascemos para ser igualmente pequeninos, que tens a dizer sobre isso?

SP: Que isso é um engano. Não importa o lugar onde se nasce, mas sim as pessoas que vamos encontrando e as escolhas que fazemos. Tive sempre pessoas que me encorajaram a seguir os meus sonhos, assim como pessoas que quiseram fazer-me acreditar que jamais conseguiria. E encontrei essas pessoas tanto em Alcanhões (a vila de onde sou), Santarém (onde estudei) e em Lisboa (onde fiz a Faculdade e iniciei a minha vida activa). Fui eu que escolhi acreditar que seria capaz de realizar os meus sonhos. No fundo, depende sempre de nós.

 

LR: Falta-te alguma coisa?

SP: Tenho tudo o que preciso, trazemos tudo dentro de nós.

 

LR: Constróis coisas desde sempre, agora livros, mas já ajudaste a construir uma casa. Conta-nos a história toda.

SP: Referes-te à minha casa, em Alcanhões. O meu pai é pedreiro, seguiu o ofício do meu avô. A nossa casa, hoje uma casa grande, foi sendo construída ao longo dos anos. Quando eu nasci não tínhamos o que temos. E ajudei algumas vezes o meu pai, confesso que sempre contrariado; ou preferia ficar a ver televisão ou a escrever. Ahahah! Penso que herdei essa apetência construtora dos meus pais: o meu pai constrói casas, a minha mãe é cozinheira. Ambos moldam o mundo com as suas próprias mãos e é assim que se sentem realizados. Eu faço a mesma coisa, mas com palavras.

 

LR: Isso fez-te dar mais valor às coisas?

SP: Acredito que sim. Ter consciência de que um ovo não brota das prateleiras de um supermercado, já embalado, dá-nos maturidade e responsabiliza-nos. Para termos as coisas, há um custo associado (não necessariamente monetário, neste caso). É importante saber que custo é esse. E nos tempos que correm os custos das coisas que consumimos são, mais do que nunca, ocultados.

 

LR: Se tivesses tido logo tudo, serias quem és hoje?

SP: Talvez não valorizasse tanto as coisas simples, mas não sei, nunca saberei.

 

LR: Voltando uma última vez ao lado profissional, o que é que podemos esperar do Samuel-escritor num futuro próximo?

SP: Dois livros, um romance e um livro de poesia. O romance será publicado pela editora Marcador e o livro de poesia pela editora Livros de Ontem. Ambos tratam de assuntos actuais, têm um carácter fortemente interventivo e político, mas cada um com uma linguagem própria. Serão publicados ainda este ano.

 

O Samuel também tem um blog onde publica com regularidade alguns dos seus textos, podem consultar aqui

22
Jul15

Entrevista a Paulo Borges


Leonardo Rodrigues

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Foto de Adama 

 

Hoje dou início a uma nova rubrica no blog, Conversas com Vista. Tenho dizer que não poderia ter escolhido melhor Pessoa do que Paulo Borges para começar. Houve aqui espaço para conversar um pouco sobre tudo: da meditação à família, do afastamento do PAN à candidatura a Presidente da República. Que a Conversa fale por si e alargue as Vistas de quem ler.

 

LR:  Quem é Paulo Borges?

 

PB: A designação que as convenções humanas dão a um fluxo de consciência e energia inseparável de todo o cosmos e sem princípio nem fim.

 

LR: “Nós pensamos sempre menos do que aquilo que somos”. Disse isto enquanto falava  acerca de budistas, no 5 Para a Meia Noite. Porque é que estamos constantemente a diminuirmo-nos? 

 

PB: Porque a consciência condicionada pelo pensamento e pela linguagem está sempre vários graus abaixo do nosso ser ou natureza ilimitados e profundos. Mas muitas vezes fazemos exactamente o contrário e vangloriamo-nos disso que em nós é mais estreito e pequenino, pois é com isso que nos identificamos, devido às nossas ilusões, incentivadas pela pressão familiar, educativa e social.

 

LR: Procuramos constantemente a felicidade no exterior, quer seja em coisas ou pessoas - a sociedade assim o ensina. Como é que o Paulo colocou o travão neste sistema de coisas?

 

PB: Eu estou apenas em processo de travagem e de reorientação desse impulso para a descoberta da paz e da felicidade nas coisas simples que nada nem ninguém nos pode dar ou tirar: a alegria de ser, o prazer de respirar, a volúpia de contemplar o mundo, o dom de amar e ser grato... A partir daqui podemos relacionar-nos com os outros e o mundo de outro modo: não centrados na carência e no desejo egocêntrico de ser felizes (que tantas vezes nos levam a instrumentalizar os outros), porque já o somos, mas na correspondência amorosa e compassiva às necessidades reais dos outros seres. Para mim a reflexão e a meditação têm sido o caminho fundamental, após o inevitável e precioso fracasso e dor da frustração da busca da felicidade no exterior.

 

LR: Parar de olhar para o exterior implica olhar para dentro. Contudo, isto por vezes dói, nem toda a gente gosta do que lá está. Há alguma forma simples de se chegar à auto aceitação?

 

PB: Creio que chegamos lá quando vemos que não há alternativa e que não adianta continuarmos a fugir para a frente, inventando histórias cinzentas ou cor-de-rosa acerca de quem somos, pois nunca escapamos à verdade nua e crua do que vamos sendo, tal qual.  No fundo a auto-aceitação não é difícil. Muito mais difícil é querermos ficar apenas com uma parte do que há em nós, suprimindo o resto, ou transformarmo-nos numa versão ideal de quem supostamente deveríamos ser, a nossos olhos ou de acordo com as expectativas alheias, o que só gera conflito, ansiedade e sofrimento. A verdadeira transformação acontece quando aceitamos trabalhar com a matéria-prima da nossa experiência, sensações, emoções e pensamentos, a cada instante. Se entrarmos a fundo na sua natureza poderemos ter a grata surpresa de descobrir que, por mais obscuros, limitadores e negativos que pareçam ser, há lá no íntimo um silêncio, uma paz e uma luz sempre presentes. A meditação é aqui uma vez mais fundamental.  

 

 

LR: Para além de Filosofia, ensina a meditar. Como é que a meditação funciona? De que modo é que esta prática nos possibilita uma mudança no relacionamento que temos connosco, com os outros e com o mundo?

 

PB: A meditação é o treino regular para reencontrar o estado natural da consciência, atenta ao aqui e agora, ao que se passa no corpo, na respiração, na mente e à nossa volta, de modo calmo, descontraído, claro e livre de juízos, apego, aversão, medos e expectativas. Com a mente serena e atenta, começamos a sentir e compreender que não estamos separados do mundo e de nenhum ser vivo. Entramos a pouco e pouco num estado menos dual de consciência onde a empatia amorosa e compassiva se estendem naturalmente a todas as formas de vida, sem discriminações. Claro que, enquanto estamos no caminho, como é o meu caso, não ficamos sempre neste estado, porque ressurgem os hábitos mentais e tendências emocionais dualistas que estão fortemente enraizados, mas temos vislumbres que não nos deixam dúvidas de que o aperfeiçoamento, o despertar e a libertação são possíveis. 

 

LR: Sei que medita duas vezes por dia, no entanto durante o correr do dia muitas são as distrações, muitos os pensamentos. Como é que se pode trazer a atenção para o aqui e agora, em qualquer situação?

 

PB: Treinando-nos a prestar a cada instante atenção ao que estamos a sentir e pensar e ao que está a acontecer. Se caminhamos trazemos a atenção para o contacto dos pés com o solo, se tomamos banho sentimos a água a correr pelo corpo, se comemos sentimos bem o sabor dos alimentos, se conversamos prestamos atenção ao som e ao sentido das palavras, se temos emoções observamo-las, se pensamos contemplamos os pensamentos em vez de nos perdermos neles, se vemos o mundo à nossa volta contemplamos o que vemos sem nos distrair com juízos e interpretações. Podemos usar estratégias como programar um sinal no telemóvel para, de 30 em 30 m ou em períodos mais estreitos, nos recordar para sairmos do piloto automático ou dos devaneios no passado e no futuro e prestarmos atenção ao momento presente. Se nos sentarmos uma, duas ou mais vezes por dia a treinar isto, torna-se mais fácil manter ou reencontrar a atenção plena em todas as situações. A isto chama-se meditação em acção, que não pode dispensar a sua base, a meditação formal sentada, numa almofada ou numa cadeira. Explico isto mais detalhadamente no meu último livro, O Coração da Vida, um guia prático de meditação. Considero a meditação, como alguém disse, a “grande Revolução Silenciosa do século XXI”, que está hoje no centro das atenções das neurociências e a entrar cada vez mais nas escolas, nas empresas, nos hospitais e nos projectos de transformação social e de sensibilização ambiental. 

 

LR: Quando é que se apercebeu que matar para comer não faz sentido?

 

PB: Desde criança que me vinha à mente o pensamento de que os animais que eu comia tiveram de ser mortos e que certamente não o desejaram e tinham sofrido terrivelmente com isso, mas como eram pensamentos incómodos e não via alternativas rejeitava-os e pensava noutra coisa. Até que a consciência despertou para isso ser eticamente inaceitável e haver alternativas muito acessíveis e bem mais saudáveis. Todos ganham com uma dieta vegetariana e de preferência vegana, os animais, os humanos e a Terra, pois o consumo de produtos de origem animal tem um imenso impacto ambiental. 

 

LR: Que lhe ocorre quando pensa a morte?

 

PB: Num sentido uma mudança um pouco mais profunda e imprevisível do que aquela que acontece a cada instante (pois sinto que morro e renasço a cada momento), uma vez que será acompanhada do fim do funcionamento do corpo e da percepção actual do mundo. Noutro sentido, uma transformação na continuidade, pois não me parece possível que o fluxo da consciência se interrompa. Devo dizer que desde criança, muito antes de me reconhecer na visão budista do mundo, sentia claramente que tinha existido antes do nascimento e que continuaria a existir depois.

 

LR: Muitas vezes ao lê-lo e ouvi-lo noto uma certa descrença face aos sistemas e aos partidos para dar resposta aos problemas do mundo. É esta descrença que o leva a abandonar o PAN?

 

PB: Sinto essa descrença desde a adolescência, apoiada em tudo o que vi durante e após o 25 de Abril de 1974 e na leitura que faço da história política da humanidade. Desde muito cedo que adquiri uma consciência libertária e me tornei convicto de que a luta pelo poder e a posse do poder corrompem o que há de melhor no ser humano. Fiz todavia um esforço por contrariar essa descrença ao ver surgir e abraçar um projecto como o do PAN, que me pareceu tão solidamente alicerçado em bases éticas e altruístas que poderia efectivamente ser um partido diferente, ou seja, como no slogan que propus e foi aceite, “um partido inteiro, pelo bem de tudo e de todos”. Infelizmente constatei a minha ingenuidade e confirmei, por tudo o que vi e acompanhei tão de perto, que um partido político atrai por natureza pessoas ávidas de protagonismo, carreirismo e poder e estimula o que há de pior no ser humano (não me excluo, de modo algum). Os partidos políticos e a democracia representativa a meu ver promovem inevitavelmente o carreirismo dos dirigentes e a desresponsabilização dos eleitores, que acham que a cidadania se cumpre com a participação num acto eleitoral de vez em quando. Por tudo isto saí do PAN para abraçar o novo projecto de que falo mais à frente.

 

LR: No seu website lê-se que à semelhança de outras grandes personalidades anseia pela “criação de uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, políticas e religiosas”. Estamos no caminho certo? Será tal coisa possível?

 

PB: Creio ser possível tudo aquilo que os seres humanos desejarem com suficiente energia e empenho. Tudo depende de acharmos ou não que isso seria o melhor para todos e para o planeta. Quando falo nessa comunidade ético-espiritual mundial que superasse as diferenças religiosas, culturais, nacionais e ideológicas, não quero dizer que as anulasse, mas que as integrasse numa harmonia superior, onde pudessem coexistir e conviver num diálogo pacífico, compreensivo e harmonioso. Creio que há cada vez mais seres humanos que se encaminham nesse sentido, embora haja também muitos movimentos e fenómenos de sinal contrário, como os fundamentalismos de todos os tipos. Acredito todavia que esse é o melhor caminho para a paz exterior e interior na Terra.

 

LR: Algo que sempre me incomodou, desde muito novo, é não ter a certeza se o conceito de verdade existe. O que é que o Professor Paulo Borges diria a um dos seus alunos perante tal inquietação?

 

PB: Bom, creio ser inegável que existem diversos conceitos acerca do que é a verdade, por sinal muito distintos entre si. O que podemos duvidar é se há realmente uma verdade para além dos distintos conceitos ou interpretações acerca do que é a verdade. Tendo a pensar, também baseado na experiência meditativa, que essa verdade existe, no sentido de uma natureza ou essência profunda do real, de todas as coisas e de todos os seres, infinita e ilimitada, mas que é por isso mesmo completamente impensável, inconceptualizável, indizível e inimaginável, pois transcende completamente os limites dos nossos conceitos, palavras e imagens, que por natureza só nos permitem expressar coisas e objectos definidos pelos sentidos e pela mente. Mas o facto de ser informulável e não poder ser jamais captada numa doutrina ou teoria – seja científica, filosófica ou religiosa – ou numa representação imagética, não significa que a ciência, a filosofia, a religião e a arte não nos possam dar vislumbres dela e que não se possa de todo experimentar de forma directa, por exemplo no silêncio ou em experiências de abertura da consciência, quando abandonamos tudo o que julgamos ser ou saber. Isso acontece, como dão conta inúmeros testemunhos desde há milénios até aos dias de hoje, em todo o tipo de estados diferenciados de consciência: na meditação e na contemplação, na oração, na dança, no yoga, na exacerbação do movimento físico, no arrebatamento erótico ou amoroso, na plenitude do acto sexual, na fruição estética, no êxtase criador, na comunhão com a natureza, etc., etc. 

 

LR: Do seu mais que vasto currículo e bibliografia, qual considera ser o maior feito?

 

PB: O que nunca fiz nem farei. O infinito que jamais se faz e antes nos desfaz, a nós e a tudo o que fazemos, dizemos e pensamos. É isso que me move e inspira em tudo o que penso, digo e faço. 

 

LR: Colocando de parte a vertente profissional, de que é que se orgulha? O que faz de si uma pessoa realizada?

 

PB: Nos meus melhores momentos, o não me orgulhar de nada e nem sequer sentir que existo como alguém ou algo, distinto dos outros e do mundo. 

 

LR: Em que pilares assenta a sua família?

 

PB: Sinto que herdei da minha mãe e da minha avó materna o amor pelos animais e do meu pai e avô paterno o amor pela justiça social. Do meu pai recebi também o gosto pela espiritualidade, pela filosofia e pela busca de conhecer as leis fundamentais da vida. Tenho a alegria de ter hoje uma família alargada, com a minha companheira, filhos, irmã, cunhado e sobrinhos onde o amor por todas as formas de vida e uma ética da não-violência são princípios e valores sólidos. 

 

LR: Tem alguma novidade para breve que queira partilhar? 

 

PB: Sim, que sou candidato à presidência da República em 2016 e que esta candidatura é simultaneamente o lançamento de um movimento cívico apartidário que visa criar um dinamismo social permanente para o Bem comum dos humanos, dos animais e da Terra fora da política convencional. A candidatura / movimento chama-se Outro Portugal Existe e pretende constituir uma plataforma de pensamento e acção que desenvolva e promova tudo o que já se faz em Portugal, em sintonia com iniciativas semelhantes em todo o mundo, de ético, saudável e sustentável, nos mais diversos domínios. Procuramos consciencializar esses diferentes grupos, iniciativas e pessoas de que já convergem para um paradigma cultural e civilizacional alternativo ao que hoje entra em crise e morre. Se todos nos unirmos, mais facilmente poderemos ser desde já a diferença que queremos ver no mundo e relativizar o Portugal institucional, do Estado, dos governos e dos partidos, a um papel marginal e cada vez mais insignificante na nossa vida colectiva. 

Para a candidatura seguir em frente necessitamos de 7500 assinaturas e se desejarem ajudar a recolhê-las podem escrever para amigos@outroportugalexiste.pt

 

LR: Ficou algo por ser dito?

 

PB: Tudo está sempre por ser dito, mas menos com palavras e mais com a Vida.

 

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