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LEONISMOS

LEONISMOS

31
Jan18

Etiqueta de supermercado: "Deixei aqui o meu carrinho"


Leonardo Rodrigues

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Ir ao supermercado e andar de transportes públicos em Lisboa é uma maravilhosa experiência sociológica. A última aconteceu ontem.

Chegou, na prática e na teoria, a minha vez de colocar as coisas no tapete, sendo que não havia alguém à minha frente - apenas um carrinho que cuidadosamente afastei depois de olhar à volta. Após preencher o tapete, sou abordado por um iluminado de cabelo lambido e polo da Tommy Hilfiger, ao telefone. Com uma cara muito pouco convidativa, diz-me: "Estava aqui um carrinho, deixei aqui o meu carrinho".

Pois estava, um carrinho abandonado e uma fila que não dava a volta ao supermercado por sorte. Respondi-lhe prontamente "Um carrinho não é uma pessoa, e você não estava, mas por gentileza deixo-o passar". A criatura não agradeceu e ainda empurrou o início do que ia comprar. 

Deixar um carrinho abandonado não é uma ideia funcional. Vamos supor, exagerando, que estão 100 pessoas dentro do supermercado e duas caixas abertas. São 50 carrinhos para cada caixa. Será que é prático deixarmos lá os carrinhos à espera, sendo que toda a gente tem velocidades e quantidades diferentes para comprar? Será que é justo o carrinho dar tanta prioridade como uma idade avançada? Não é.

Trata-se apenas de ter o bom senso de ir para uma caixa quando já acabámos as compras. Como se diz em bom português, na Madeira: quem foi a São Martinho perdeu o seu cantinho.

Ontem tinha tempo, e o madeirense que há em mim não veio cá para fora. E, na realidade, só tenho de educar a minha cadela. Não me custou muito respirar fundo, enquanto observei alguém que se acha dono do mundo a comprar uma seleção de artigos cuidadosamente escolhidos pelo seu alto teor de açúcar.

22
Dez15

É Natal, é Natal, Não Vai Nascer Jesus


Leonardo Rodrigues

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Em vésperas de Natal, por mais que já tenha sido feito, não se pode deixar de falar da festividade, é o passado a tornar-se novamente notícia, ciclicamente, não fosse assim toda a História.

 

Estamos habituados a celebrar o 25 de dezembro porque é tradição e é difícil resistir-lhe. A sorte é que esta é daquelas tradições que se demarcam pela positiva e que tem a capacidade particular - ainda que caridosamente cedida pelos governos - de, numa época em que ninguém tem tempo para nada, parar relógios, em Portugal e em todo o mundo

 

É certo que nem todos vão na canção de Natal e, cada vez mais, estamos a assistir a uma descrença na data, basta perguntar aos amigos e estar atento às conversas de café: "O natal deveria ser todos os dias"; "A vida corre mal e não se pode festejar por festejar"; "É símbolo máximo do capitalismo, só serve para gastar dinheiro"; "O Natal tem que ver com religião e ateu que se preze não pode compactuar com semelhante coisa".

 

Sim, pessimistas, o capitalismo não se chateia com o Natal e até agradece o empurrão, mas há que relembrar que poucos podem dar constantemente - uma ou outra data para dar (e receber) é a dose anual recomendada para os bolsos. Também, e segundo consta, o Natal nas suas origens não tinha nada que ver com a religião - monoteísta- , que o diga a História, e agora muito menos, que o digam as pessoas.

 

Ouvindo a História, se recuarmos a antes de Jesus Cristo nascer - e morrer -, já era celebrado a 25 de dezembro o nascimento - natalício - de um morto, Nimrode, considerado um messias, e filho do deus sol. A iniciativa de tal festividade veio da sua mãe-esposa, que também decidiu ser da vontade do filho que os presentes fossem colocados junto de uma árvore. Festejar o nascimento de algo, a árvore, e outros tantos elementos vem de costumes pagãos, de tempos em que se acreditava haver mais do que um deus.

 

Algumas pesquisas sugerem, tendo a Bíblia em consideração, que Cristo não poderia ter nascido a 25 de dezembro. Em Lucas 2:8 podemos ler "... havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho". Tal coisa nunca acontecia em dezembro, sendo que em meados de outubro já os rebanhos tinham sido retirados para ficarem protegidos do clima dos meses que se seguiam.

 

No segundo século do nosso tempo, de forma a unir cristãos e pagãos, as datas fundiram-se, prevalecendo, agora, apenas o 25 de dezembro dos cristãos católicos.

 

Quanto às pessoas, constata-se também um distanciamento, relativamente à religião católica. Ao questionar muitas pessoas as suas motivações para praticar o natal poucos responderam de forma elaborada, isto ou porque a pergunta foi lançada numa rede social e ninguém está para arranjar uma tendinite ao desenvolver o pensamento ou porque o Natal é assim tão simples. O que é certo é que ninguém respondeu “religião” - isso parece já só ser válido nas janelas que vemos ao andar pelas ruas de Lisboa doutros tempos em que o natal é sinónimo de menino Jesus.

 

Atualmente, mesmo perdendo a conotação religiosa continua a significar, para a maioria dos questionados, "amor", "alegria, "família", "união" e, sinceramente, “tudo o que quisermos que seja”.

 

O mundo está a encarar o natal como uma data que permite que uma família, aqueles com quem têm laços de sangue e outros com relações que ultrapassam questões de sangue, se sentem em torno de uma mesma mesa, talvez pela primeira vez no ano, para falar, rir e aproveitar o presente do presente.

 

Para alguns, não se trata apenas de reencontrar o irmão perdido, "por vezes é mesmo reconciliar".

 

Das melhores recordações que partilharam, há que salientar estas: "quando em pequena vi o Pai Natal pela primeira vez.”; “Beber cerveja a bordo de um tuk tuk em Changai”. Ninguém respondeu cruzar-se com Jesus, nem como adulto nem como recém nascido, embora em algumas casas se diga às crianças que o senhor está a visitar, ninguém o parece ter visto. Também ninguém relembrou a missa do parto - tradição religiosa de Natal da Ilha da Madeira e do Porto Santo - que lhe transformou a vida.

 

Dos que não mudam de temperatura com o Natal, há quem seja mais prático e vá mais longe: "embora o natal seja alegria, amor e gratidão nem é assim tão importante, o que importa, sim, é o ano novo e as oportunidades que poderão estar para surgir."

 

Por fim, que se faça uma menor correção na canção: É natal, é Natal/Não vai nascer Jesus.

 

E para vós, o que é o natal?

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