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LEONISMOS

LEONISMOS

12
Set16

E passaram 3 anos


Leonardo Rodrigues

Não tenho escrito. Alguns amigos mais próximos sentem falta, e vão-me dizendo. Confesso que, secretamente, desejo que pessoas que não conheço também tenham reparado.

 

Existem posts que me têm parecido a desculpa ideal para regressar, mas nunca tenho coragem para os acabar, parecem-me sempre tão incompletos, sem palavras ou emoções suficientes. Acho que é por estar feliz, ocupado. Quando o tempo abunda e a felicidade escasseia, aí sim, cuspimos todas as palavras que conhecemos num grito.

 

Agora que decidi compreender o meu signo, tenho ainda uma outra justificação: mais do que perfecionismos e leonismos, os carneiros são de desculpas. Vivem muitos momentos intensamente, como se não houvesse amanhã. Depois, adiam a vida como se o fim não estivesse anunciado à priori. Simplificando, com o que me disseram, "os carneiros atiram-se para as coisas e deixam-nas pela metade". Claro que prefiro responsabilizar o signo em vez de a mim, embora me comprometa a contrariá-lo.

 

Agora que me justifiquei, hoje tenho um pretexto e vou colocar um ponto final neste post. O pretexto foi-me oferecido, espero que gratuitamente, pelo Facebook. O dito leva-nos a memória, para ser a nossa memória. Ontem lembrou-me que há extamente três anos, depois de uma viagem que me trouxe para viver na capital, o meu dia começou no Rossio com um muffin e um café - sem que, para meu espanto, houvesse necessidade de o tratar por bica.

 

Fechou-se um ciclo, sinto-o, e, como estou a escrever, sei que começa um outro onde tantas outras coisas vão acontecer. Ainda antes de ontem celebrava dois meses, que se querem mais, de namoro. Em breve, uns bons dois anos de blog. Hoje posso ainda celebrar o meu 70º post. 

 

O saldo, com todas as vicissitudes - palavra cara para pedras no sapato - , é positivo. Mesmo o tempo não parando por nada, levando e trazendo tudo como a corrente, há algo que escrevi há uns tempos no post "Obrigado, Lisboa" que continua a fazer sentido e penso que me será sempre atual: "Obrigado, Lisboa, por me dares amores, desilusões e amigos que são agora família. Obrigado por abalares convicções e por ajudares a sedimentar outras. Obrigado por me ensinares vulnerabilidade e humildade. E, mais importante do que tudo, obrigado por me deixares tratar a bica por café." Como o ponto final que ali está pertence a uma citação e me comprometi a colocar um ponto final a sério escrevo esta frase para esse efeito.

 

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 3 anos depois

 

26
Fev16

O que Move a Cidade Europeia, no Brasil


Leonardo Rodrigues

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Não há como ter amigos além fronteiras. Para além de serem aqueles com quem nunca nos chateamos, são aqueles que nos contam novidades realmente novas. 

 

O povo brasileiro têm-me surpreendido imenso, não só pelo pelo seu sentido de humor, como pela sua personalidade calorosa e alegre, que contagia qualquer um. E, claro, também há a sua forma adorável de falar português.

 

Tenho amigos brasileiros que confessam: "o Brasil está um lixo". É verdade, um país que tinha, e tem, tudo para prosperar, continua a afundar-se num poço sem fundo à vista. A responsabilidade, mais do que do povo, é mesmo de quem está lá em cima a sufocar os seus interesses, corrompendo que nem roedores.

 

No entanto, se há coisa que os brasileiros sabem fazer é o olhar para o lado positivo das coisas. E não, não é só com o Carnaval, também o fazem com soluções inovadoras. 

 

Um dos melhores exemplos está em Curitiba, conhecida lá dentro como cidade europeia. Tem esta designação, mais do que pelo clima frio, pelo seu desenvolvimento que se faz notar pela menor taxa de analfabetismo brasileira, passando pela sustentabilidade ambiental, até à fantástica rede de transportes.

 

É dos transportes - que realmente funcionam - que vos quero falar. Aquando do desenvolvimento económico que Curitiba experienciou, surgiu a necessidade de desenvolver a rede de transportes. Numa outra metrópole, ter-se-ia construído uma rede de metro, só que lá não havia dinheiro. Ora, e que pensam eles: não podemos construir metro? Está bem, vamos aplicar o mesmo conceito aos autocarros - mentira, eles pensaram "ônibus". Dito e feito. 

 

Hoje, têm uma rede de transportes metropolitana que funciona. Os autocarros, biarticulados - um género de junção de vários autocarros, como já temos cá, mas muito maiores -, têm faixas próprias EXCLUSIVAS  por toda a cidade. As paragens, como podem ver na foto tirada pelo meu amigo Leif, são tubos de vidro. Estas têm as mesmas funcionalidades de uma estação de metro, onde se compra o título de viagem e se procede à validação do mesmo. O autocarro simplesmente encaixa-se na estrutura de vidro para deixar e recolher os passageiros. Não há como coisas que funcionam à luz do dia. 

 

Depois de Curitiba, para além de sistemas semelhantes terem sido implementados no resto do Brasil, 80 países já seguiram de alguma forma as suas pisadas, dando especial ênfase a Bogotá, na Colúmbia. 

 

Este post com certeza que não há de apresentar uma novidade para todos, nem era esse o objetivo. Tantas linhas sobre o Brasil e os transportes para dizer algo mais simples do que uma rede de transportes, e que podemos todos aplicar: Na ausência da possibilidade de fazermos o que queremos, que tal fazer o seu equivalente ou, quiçá, algo completamente diferente?

 

P.S. Não tendo lá estado, e embora este não seja um post turístico, posso deixar as dicas que me deram. Uma vez em Curitiba, visitar: a Ópera de Arame, o Jardim Botânico e o Museu Oscar Neymer, conhecido como "O Olho".

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

01
Fev16

Passatempo De Mão em Mão: Número Zero, Umberto Eco


Leonardo Rodrigues

Mesmo com um budget quase inexistente, lembrei-me que também posso fazer um passatempo cá no blog. E que melhor do que livros para começar?

 

Ultimamente tenho-me sentido inspirado por tudo, em grande parte devido às minhas férias de quase dois meses.

 

Na semana passada foi altura de ser inspirado por um caixote que encontrei na rua mal saí de casa. Claro que não era um caixote qualquer, estava recheado de livros, acompanhado de um papel que indicava que os livros estavam ali porque já tinham cumprido o seu propósito e que era altura de os passar para outras mãos, dizendo "Free Books/Livros Grátis". Gostei de ver como um caixote com livros, àquela hora da manhã, fez interromper o passo apressado de muitos lisboetas e os colocou a trocar sorrisos e a falar uns com os outros.

 

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Aproveitei esta oportunidade para expandir a minha biblioteca ficando com uma edição de 2004 do livro "Burned Alive", partilhando a ocorrência na minha conta do instagram.

 

Muitos dos meus livros também já cumpriram o seu propósito, podendo ter sido isso ajudar a aquecer numa noite fria de inverno ou distrair-me da confusão que é o metro. Agora estão só a apanhar pó, humidade, e raramente os consigo reler, ora porque estou sempre a adquirir outros, ora porque a bibliografia da faculdade não me permite. Mas o meu maior problema não é ter livros que já só servem para enfeitar, é mesmo mudar-me de casa com eles, visto ter mais livros do que roupa.

 

Como não tenho coragem de os deixar na rua, ao sabor do vento e da chuva, a partir de hoje passo a ter este passatempo chamado De Mão em Mão, permitindo-os passar para outras mãos, na esperança que o novo dono perpetue a vida do livro, de mão em mão.  

 

O primeiro livro que quero partilhar já conta com um post, que podem ler aqui e é, como o título deixou claro, Número Zero, de Umberto Eco. 

 

Para ganharem o livro só têm de fazer isto:

  1. Colocar gosto na página do Blog no Facebook, aqui.
  2. Comentar a ligação do passatempo, no Facebook, com "Eu quero".
  3. Partilhá-la.

 

O vencedor(a) será escolhido aleatoriamente -  através de random.org - e anunciado na próxima segunda feira, dia 8-2-2016, na página do Facebook e, posteriormente, contactado por mensagem privada. Boas partilhas, boas leituras!

27
Jan16

E o Mercado da Figueira?


Leonardo Rodrigues

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Mercado da Ribeira para aqui, Mercado de Campo de Ourique para acolá, e o Mercado da Figueira?

 

Há uns tempos, numa das minhas caminhadas, que me continuam a permitir encontrar sempre uma ruela nova, qual não foi a minha surpresa quando encontrei, não uma rua, mas um mercado novo. Curiosamente, o achado deu-se numa das praças mais importantes de Lisboa, por onde passo quase semanalmente, a Praça da Figueira.

 

Imaginem só se, com o meu passo acelerado de quem já só quer ir beber um último café e atirar-se num sofá, não tivesse olhado de relance para o lado esquerdo e encontrado aquela porta tão discreta que diz Mercado da Figueira. Se a minha surpresa com este mercado parecer desmedida, justifico-a com o facto de ser da Madeira e isto serve-me para justificar tudo.

 

Ainda assim, para ter a certeza e não refugiar-me na minha isularidade para justificar este post, perguntei a vários lisboetas, com já trinta anos disto, se conheciam o Mercado da Figueira. Sei que três não é uma amostra significativa, mas responderam-me que não, daí a quase obrigatoriedade deste post.

 

Depois de pesquisas feitas, tornou-se um conhecido. Este mercado nasceu duma iniciativa de feirantes, em 1755, naquilo que eram meras ruínas do Hospital de Todos os Santos - destruído no mesmo ano pelo terramoto que devastou a cidade. Tal foi o sucesso que em 1855 é construído um mercado coberto que, infelizmente, foi deitado abaixo nos anos 50, devido a uma catastrofe pior, Salazar, ups, Duarte Pacheco.

 

Enquanto os mercados da moda apostam num estilo chique industrial, este renasce pelas mãos da VARN, que decide manter muitos dos contornos originais, mais tradicionais, onde se fez apenas as adapatações necessárias para estar à altura das necessidades e exigências dos nossos dias.

 

À entrada, antes de chegarmos ao mercado prorpiamente dito, percorremos um corredor ladeado por garrafas, com o que de melhor se faz nos lagares portugueses. Corredor corrido, temos duas opções, a cafetaria à esquerda e o mercado, convenientemente adaptado a supermercado, à direita. O primeiro apelo é o visual, afinal quem vê caras não vê corações, primeiro vê-se a cara e só depois o coração. É um coração português, com produtos portugueses, cheios de qualidade, da fruta ao peixe.

 

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Cansado, muito passou-me ao lado, mas, na cafetaria, senti uma enorme tentação por me tornar diabético. Embora houvesse pão fresco e muitas sandes, foram os bolos que falaram comigo. Tudo tinha um ar acabado de fazer, quente, cheiroso, doce, e, quase mais importante que os adjetivos anteriores, barato. Vejam só que um menu com sandes, sumo natural e café fica a 1.95€. É de salientar que os sumos naturais, feitos com a fruta das bancas, vendem-se a 1€ e, podem, tal como eu, pedir para levar e continuar o passeio pela nossa belissima capital.

 

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Depois de comprar o meu caril no Martim Moniz hei de passar por lá muitas mais vezes, nem que seja para uma frutose fresquinha que me permita seguir calçada.

 

Em tempos em que poupar é palavra de ordem, porque não fazê-lo com qualidade?

22
Jan16

A ver: Os despojos do dia


Leonardo Rodrigues

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Ontem foi dia, mais noite, de estar presente na inauguração da mais recente exposição de um grande amigo meu, o fotógrafo Rui Dias Monteiro, intitulada "Os despojos do dia".

 

Embora já conhecesse muito do trabalho do Rui e também já tivesse tido privilégio de caminhar e conversar com ele enquanto fotografava, só agora é que julgo ter entendido verdadeiramente o porquê de ele fotografar o que os outros deixam ficar, os despojos.

 

Ele vê e capta aquilo que nós muitas vezes já não somos capazes de ver, tanto que as coisas se repetem, tanto que as deixamos esquecidas. E, sem lhes dar valor, apelidamo-as de lixo. Isto aplica-se tanto à nossa capital, como ao local onde esta sequência foi capturada, Cabo Verde, como ao mundo.

 

O olhar meditativo do Rui só vem a provar novamente que menos é mais. Ele sabe-o e as suas fotos, na sua simplicidade, e "centralidade" como muito bem disseram, transmitem-no.

 

Enquanto muitos fotógrafos tendem a editar excessivamente os seus trabalhos, este limita-se a fazer pequenas correções de luz, nada mais. Tão simples quanto as coisas.

 

Neste trabalho é de salientar que nada é pousado, afinal de contas, para quê mexer no que tão perfeitamente ocorre por si, como que por vontade própria da natureza?

 

"Os despojos do dia" não pretende ser uma crítica à existência daqueles objetos esquecidos na natureza, é mais um convite a pensá-los doutra forma, a olhá-los com outros olhos: E se os despojos dos nossos dias não fossem apenas lixo, mas, com o passar do tempo houvesse uma fusão e se tonassem ornamentos, quiçá "jóias" da própria natureza?

 

É sem dúvida uma exposição a não perder. Aos interessados, podem visita-lá de terça a sábado, das 14 às 19, na Galeria Alecrim 50. Assim será até dia 5 de Março, pelo que certamente há de encaixar nas vossas agendas.

22
Dez15

É Natal, é Natal, Não Vai Nascer Jesus


Leonardo Rodrigues

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Em vésperas de Natal, por mais que já tenha sido feito, não se pode deixar de falar da festividade, é o passado a tornar-se novamente notícia, ciclicamente, não fosse assim toda a História.

 

Estamos habituados a celebrar o 25 de dezembro porque é tradição e é difícil resistir-lhe. A sorte é que esta é daquelas tradições que se demarcam pela positiva e que tem a capacidade particular - ainda que caridosamente cedida pelos governos - de, numa época em que ninguém tem tempo para nada, parar relógios, em Portugal e em todo o mundo

 

É certo que nem todos vão na canção de Natal e, cada vez mais, estamos a assistir a uma descrença na data, basta perguntar aos amigos e estar atento às conversas de café: "O natal deveria ser todos os dias"; "A vida corre mal e não se pode festejar por festejar"; "É símbolo máximo do capitalismo, só serve para gastar dinheiro"; "O Natal tem que ver com religião e ateu que se preze não pode compactuar com semelhante coisa".

 

Sim, pessimistas, o capitalismo não se chateia com o Natal e até agradece o empurrão, mas há que relembrar que poucos podem dar constantemente - uma ou outra data para dar (e receber) é a dose anual recomendada para os bolsos. Também, e segundo consta, o Natal nas suas origens não tinha nada que ver com a religião - monoteísta- , que o diga a História, e agora muito menos, que o digam as pessoas.

 

Ouvindo a História, se recuarmos a antes de Jesus Cristo nascer - e morrer -, já era celebrado a 25 de dezembro o nascimento - natalício - de um morto, Nimrode, considerado um messias, e filho do deus sol. A iniciativa de tal festividade veio da sua mãe-esposa, que também decidiu ser da vontade do filho que os presentes fossem colocados junto de uma árvore. Festejar o nascimento de algo, a árvore, e outros tantos elementos vem de costumes pagãos, de tempos em que se acreditava haver mais do que um deus.

 

Algumas pesquisas sugerem, tendo a Bíblia em consideração, que Cristo não poderia ter nascido a 25 de dezembro. Em Lucas 2:8 podemos ler "... havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho". Tal coisa nunca acontecia em dezembro, sendo que em meados de outubro já os rebanhos tinham sido retirados para ficarem protegidos do clima dos meses que se seguiam.

 

No segundo século do nosso tempo, de forma a unir cristãos e pagãos, as datas fundiram-se, prevalecendo, agora, apenas o 25 de dezembro dos cristãos católicos.

 

Quanto às pessoas, constata-se também um distanciamento, relativamente à religião católica. Ao questionar muitas pessoas as suas motivações para praticar o natal poucos responderam de forma elaborada, isto ou porque a pergunta foi lançada numa rede social e ninguém está para arranjar uma tendinite ao desenvolver o pensamento ou porque o Natal é assim tão simples. O que é certo é que ninguém respondeu “religião” - isso parece já só ser válido nas janelas que vemos ao andar pelas ruas de Lisboa doutros tempos em que o natal é sinónimo de menino Jesus.

 

Atualmente, mesmo perdendo a conotação religiosa continua a significar, para a maioria dos questionados, "amor", "alegria, "família", "união" e, sinceramente, “tudo o que quisermos que seja”.

 

O mundo está a encarar o natal como uma data que permite que uma família, aqueles com quem têm laços de sangue e outros com relações que ultrapassam questões de sangue, se sentem em torno de uma mesma mesa, talvez pela primeira vez no ano, para falar, rir e aproveitar o presente do presente.

 

Para alguns, não se trata apenas de reencontrar o irmão perdido, "por vezes é mesmo reconciliar".

 

Das melhores recordações que partilharam, há que salientar estas: "quando em pequena vi o Pai Natal pela primeira vez.”; “Beber cerveja a bordo de um tuk tuk em Changai”. Ninguém respondeu cruzar-se com Jesus, nem como adulto nem como recém nascido, embora em algumas casas se diga às crianças que o senhor está a visitar, ninguém o parece ter visto. Também ninguém relembrou a missa do parto - tradição religiosa de Natal da Ilha da Madeira e do Porto Santo - que lhe transformou a vida.

 

Dos que não mudam de temperatura com o Natal, há quem seja mais prático e vá mais longe: "embora o natal seja alegria, amor e gratidão nem é assim tão importante, o que importa, sim, é o ano novo e as oportunidades que poderão estar para surgir."

 

Por fim, que se faça uma menor correção na canção: É natal, é Natal/Não vai nascer Jesus.

 

E para vós, o que é o natal?

15
Dez15

Abrigo dos Sem Abrigo


Leonardo Rodrigues

Este é um post diferente dos que tenho feito até agora, o que vos vou mostrar de seguida é o meu trabalho final para a cadeira de fotojornalismo, onde as imagens tem de ser mais fortes do que as palavras.

 

Inicialmente pensei em fazer um portfólio que consistia em fotografar desconhecidos, que via com frequência, e fantasiar acerca das suas histórias, mas a realidade acabou por se impor sobre a ficção.

 

Há uns dias, após regressar ao meu primeiro bairro em Lisboa, passei por um sem abrigo que já não via há um ano. Notei que ele agora fazia algo pelos trocos que pedia, pintava. Não eram coisas tristes e sem cor, ou só com duas cores, os desenhos eram alegres, cheios de vida, com mais cores do que as do arco-íris. Isto agora fez-me lembrar o trecho dum dos meus poemas favoritos de Pessoa, "E canta como se tivesse/Mais razões pra cantar que a vida."

 

Fiquei contente, claro, mas segui caminho, afinal de contas é o que toda a gente faz, mesmo em vésperas de natal.

 

No dia após o meu reparo, quando acordei sentia um conforto tremendo ao estar quentinho na cama e a ouvir o bonito som da chuva, que não me podia tocar. Depois, como é costume, comecei a percorrer o bairro mentalmente, árvores e carros em frente, bom dia ao senhor do café à direita, esperar pelo verde à esquerda e lá estava ele, o sem abrigo pintor.

 

Acontece que não era um dia como os outros que têm contrariado as leis do inverno, chovia e muito. Onde é que ele se estava a abrigar, perguntei-me, e como? Sei que existem sítios onde podem passar a noite, mas nem todos o fazem.

 

O sítio onde este passa as noites não sei se encontrei, mas no meu percurso desde Sete Rios até aos Restauradores capturei vários "abrigos" que metem dó a qualquer um, então na Avenida da Liberdade não há quem os esconda, embora todos o tentem ignorar.

 

Abaixo estão alguns dos abrigos dos que não têm abrigo. Feliz natal e, em época de agradecer coisas, agradeçam-se o presente de terem um teto e uma cama.

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20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

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