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LEONISMOS

LEONISMOS

19
Jan17

O Melhor Pão de Portugal está em Lisboa


Leonardo Rodrigues

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Há coisa de um mês, o número 14 da Rua Prior Crato ganhou um novo espaço dedicado, por inteiro, ao pão. Chama-se Gleba e, mais ou menos à letra significa, "porção de terreno cultivável". Numa primeira dentada, decidi que lá se fazia o melhor pão de Portugal.

 

Esta padaria, onde também se faz moagem de cereais, nasce pelas mãos de Diogo, um jovem de 21 anos proveniente de Santa Maria da Feira. Depois de estudar cozinha na Suíça, trabalhou em restaurantes com estrelas Michelin, em Londres e em Albufeira. Lisboa, por sua vez, foi a cidade eleita para o mestrado e, segundo o próprio, ficou com tanto tempo livre que decidiu trabalhar.

 

O pão que se faz na Gleba é diferente dos demais. Demora no total 36 horas a fermentar. Farinha, Água e Sal são os 3 ingredientes de ordem. Com um brilho nos olhos, a falar dos microrganismos que tornam tudo possível, explica-me que esta fermentação natural consome os açúcares e degrada o glúten. Desta forma, o pão dura mais, é mais saudável, de melhor digestão e pode ser consumido por intolerantes ao glúten.

 

 

Para tornar isto ainda mais apelativo, fazendo jus ao nome, os produtos utilizados nesta padaria são todos provenientes de pequenos produtores portugueses que, na sua maioria, utilizam práticas sustentáveis. Brevemente o Diogo tenciona certificar os seus produtos.

 

 

Na Gleba irão encontrar Pão de Centeio "Verde" de Trás-os-Montes, Pão de Trigo Barbela de Trás-os-Montes, Broa de Milho "Pigarro" do Minho e Trigamilha. Ocasionalmente, nas edições especiais, poderão comprar pão com queijo da ilha, ou figos e nozes secos ao sol.

 

 

O bairro já está todo a falar deste pão. Além bairro, começam a chegar pessoas de todo o país e até de fora, fruto do boca a boca - foi também assim que descobri. Agora foi a minha vez de passar a mensagem. Só falta vocês julgarem se o Diogo conseguiu ou não finalmente trazer bom pão para a capital.

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 Visitem o site

12
Set16

E passaram 3 anos


Leonardo Rodrigues

Não tenho escrito. Alguns amigos mais próximos sentem falta, e vão-me dizendo. Confesso que, secretamente, desejo que pessoas que não conheço também tenham reparado.

 

Existem posts que me têm parecido a desculpa ideal para regressar, mas nunca tenho coragem para os acabar, parecem-me sempre tão incompletos, sem palavras ou emoções suficientes. Acho que é por estar feliz, ocupado. Quando o tempo abunda e a felicidade escasseia, aí sim, cuspimos todas as palavras que conhecemos num grito.

 

Agora que decidi compreender o meu signo, tenho ainda uma outra justificação: mais do que perfecionismos e leonismos, os carneiros são de desculpas. Vivem muitos momentos intensamente, como se não houvesse amanhã. Depois, adiam a vida como se o fim não estivesse anunciado à priori. Simplificando, com o que me disseram, "os carneiros atiram-se para as coisas e deixam-nas pela metade". Claro que prefiro responsabilizar o signo em vez de a mim, embora me comprometa a contrariá-lo.

 

Agora que me justifiquei, hoje tenho um pretexto e vou colocar um ponto final neste post. O pretexto foi-me oferecido, espero que gratuitamente, pelo Facebook. O dito leva-nos a memória, para ser a nossa memória. Ontem lembrou-me que há extamente três anos, depois de uma viagem que me trouxe para viver na capital, o meu dia começou no Rossio com um muffin e um café - sem que, para meu espanto, houvesse necessidade de o tratar por bica.

 

Fechou-se um ciclo, sinto-o, e, como estou a escrever, sei que começa um outro onde tantas outras coisas vão acontecer. Ainda antes de ontem celebrava dois meses, que se querem mais, de namoro. Em breve, uns bons dois anos de blog. Hoje posso ainda celebrar o meu 70º post. 

 

O saldo, com todas as vicissitudes - palavra cara para pedras no sapato - , é positivo. Mesmo o tempo não parando por nada, levando e trazendo tudo como a corrente, há algo que escrevi há uns tempos no post "Obrigado, Lisboa" que continua a fazer sentido e penso que me será sempre atual: "Obrigado, Lisboa, por me dares amores, desilusões e amigos que são agora família. Obrigado por abalares convicções e por ajudares a sedimentar outras. Obrigado por me ensinares vulnerabilidade e humildade. E, mais importante do que tudo, obrigado por me deixares tratar a bica por café." Como o ponto final que ali está pertence a uma citação e me comprometi a colocar um ponto final a sério escrevo esta frase para esse efeito.

 

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 3 anos depois

 

10
Jun16

Assinei contrato: o que aprendi


Leonardo Rodrigues

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Flazingo

 

Depois de muito procurar emprego, assinei ontem um contrato de 6 meses. A procura teve momentos mais ativos do que outros. Não significa isto que alguma vez tivesse parado, em alguns momentos foi complicado manter o foco e a preocupação era-me paralisante. Não me apetecia escrever, não me apetecia falar, honestamente queria dormir e acordar quando no mundo os arco-íris tivessem mesmo um pote de ouro no final. Não conseguir um emprego significava que, depois de anos por minha conta, teria de voltar à Madeira, viver com a família e chatear-me. Assustador. Vontade de trabalhar nunca faltou, sempre quis depender apenas de mim. Ter emprego dá-nos essa liberdade e, para mim, significa viver onde quero, onde está e acontece tudo o que me importa. As ofertas de trabalho remunerado existem, aos milhares - não há para todos, certo, mas há para muitos. Fui, sem brincar, a dezenas de entrevistas, inclusive a várias segundas entrevistas. Muitos foram os sinais de como aquele seria o meu novo local de trabalho: "olhe, gostei mesmo muito", "parabéns pelas notas", por aí fora. Gostavam de mim, mas gostaram mais de outro. Aconteceu-me de tudo, ser aceite numa consultora que entretanto cancelou o recrutamento, "conseguir" um estágio do IEFP pelo qual não posso esperar. Eventualmente, uma das empresas de recrutamento que me chamou várias vezes deixou de telefonar e passou a enviar email a dizer que ainda não era daquela. Isto acabou.

 

Se há algo que fiz sempre foi pedir feedback ao longo do processo. Cheguei, inclusive, a perguntar aos recrutadores coisas que toda a gente quer saber como "é verdade que detestam Europass?". São essas pequenas aprendizagens, que podem parecer óbvias, mas que nem sempre temos em mente, que irei partilhar, do currículo às entrevistas.

 

Currículo

É na construção do currículo que estão os bastidores do espetáculo, é este o primeiro passo que decide se damos um segundo, quiçá, um terceiro. Eu tenho dois modelos diferentes e altero o conteúdo consoante aquilo a que me candidato. Temos de adaptar. Acho mais cliché odiar o Europass do que utilizá-lo, mas a minha opinião não importa, importa a dos recrutadores. Nesta matéria ouvi essencialmente duas coisas: "não temos problemas, é muito comum, o meu problema com o seu currículo é a ausência de datas". Aqui não se encerra o assunto, um bom amigo disse-me: "se estou a recrutar para uma vaga e recebo centenas de currículos, não posso ler todos, nem entrevistar todos os candidatos, então, é olhar para os 20 que se destacam [- os que não usam o dito cujo -], os que mostram empenho e criatividade. Claro que depois de os ler vou estar mais perto do candidato que procuro.". Faz sentido. Pelo sim pelo não, façam noutro modelo. Não precisam de algo over the top, apenas que vos diferencie e que, de forma sucinta, mostre o melhor de vós, a vossa experiência, capacidades e interesses. Só depois de o fazer é que comecei a ser chamado. Há um post de que gosto muito, escrito por alguém que está do lado de quem emprega e que cobre estas matérias muito bem, vejam Erros fatais no currículo.

 

Candidatura

Enviem currículos para trabalhos que vos interessem e que sentem conseguir realizar. Na fase do já estou para tudo, enviei currículos para cargos que não me interessavam, para os quais nenhum dos meus currículos fazia sentido. Isso culminou numa entrevista em que, depois de dois dedos de conversa, perguntaram-me: "o que é que ganho em tê-lo cá em vez de um dos outros 30 candidatos?". Costumo ter as respostas na ponta na língua, mas não soube responder-lhe. Não sabia responder porque mentir é das coisas que cada vez consigo fazer menos. Por vezes apetece-me dizer algo de bom para não abusar da sinceridade, mas a minha cara já está a assumir outros contornos. Enquanto posso dizer aos meus amigos "tens um macaco no nariz", "quando queres ir à loja para trocarmos essas botas?", "desculpa, mas ele só te quer para aquilo", "não dormes há quantos dias?", ao senhor não lhe podia dizer que aquele cargo e condições não faziam sentido, então despedimo-nos cordialmente. Se não me tivesse desvalorizado ao candidatar-me teríamos ambos poupado tempo.

 

Entrevistas

Nesta fase final, da performance, sejam vocês próprios. Representar alguém que não somos é difícil e passa para o outro lado. E, se nos tivermos candidatado a algo em que temos interesse, tudo corre sem esforços, sem nervosismos. Numa das entrevistas, estive a falar durante 5 minutos sobre coisas que detestava, mas que pareciam relevantes. Isto transpareceu e a senhora que me estava a entrevistar parecia enfadada. Quando comecei a falar realmente de mim, dos meus interesses, capacidades, aspirações e do que fazia - este blog, por exemplo - os olhos dela acenderam-se e começámos a ter um diálogo em vez dum monólogo. Embora esse recrutamento tenha sido cancelado, quando voltei à empresa, semanas depois, para falar com outra pessoa, ela viu-me do outro lado do open space e cumprimentou-me com um grande sorriso. Se forem iguais a toda a gente ninguém se vai lembrar. Mais recentemente, na mesma empresa, ligaram para me enviar diretamente para a segunda entrevista. Fiquei.

 

O meu novo emprego, embora só me ocupe a manhã, tem uma certa exigência, mas o salário e as condições estão à altura. Vou ser independente sem deixar de ter vida e, o melhor de tudo, terei tempo para fazer o que gosto e trabalhar noutros projetos sem ter de me questionar onde vou dormir no próximo mês. Na frase anterior não “escrevi dinheiro para beber café” pois o café lá dentro não me custará um cêntimo e, sim, isto pesou no meu entusiasmo aquando do início da entrevista. Confesso que este entusiamo foi o quebra gelo, não fosse as senhoras dos RH terem isto em comum comigo.

 

26
Mai16

Dia do Riso, todos os dias


Leonardo Rodrigues

Ontem um trio maravilha, do qual fazia parte, decidiu sentar-se numa esplanada no Saldanha para beber café e comer um pastel de nata - coisas que um lisboeta tem de fazer para não perder a nacionalidade - , conversar, depois rir e olhar para quem passava. Centenas passaram por nós, de carro e a pé, posso garantir que éramos dos poucos a rir, os únicos conscientes que pode não haver amanhã ou daqui a uma hora. Os restantes caminhavam para alguma coisa, com ar sério, como se o arroz fosse queimar se não andassem cabisbaixo, com cara de poucos amigos, perdidos em pensamentos. Os portugueses estão tristes. Aquele português, com os olhos na Calçada, muitas vezes também sou eu. Há quem não se lembre de como chegou a casa por cansaço, por embriaguez, eu por vezes não me lembro porque vim em piloto automático, perdido em pensamentos. A minha querida professora e companheira de loucura, da esplanada, acenou enquanto ria para algumas pessoas. A maior parte não viu ou não conseguiu entender. Porque haveria alguém de sorrir a um estranho, estaria ela doida? Uma senhora, talvez a pessoa com o olhar mais triste que vimos, parou. A doida disse-lhe, É dia do riso, ria. Primeiro não conseguiu compreender e olhou para toda a gente na mesa, ri para confirmar. Ela riu de volta, acho que até murmurou um agradecimento. Talvez não lhe estivesse a ocorrer porque o dia foi mau, mas, para além de ser linda, tinha um sorriso fabuloso, desenhado exclusivamente para ela. Talvez aqueles segundos lhe tenham servido para perceber que se o arroz queimar, pode fazer massa, que vai bem com tudo. Nem sempre me lembro das opções. Ontem, por exemplo, acordei chateado porque uma entrevista no dia anterior tinha corrido mal, já tinha decidido: sofrer o dia todo. Depois, ainda de manhã, ao beber um café no Miradouro da Portas do Sol, percebi, com ajuda, que independentemente do que estivesse a acontecer na minha vida tinha a liberdade de estar ali, rodeado de gente, enquanto o sol insistia em dar cor aos meus braços e pernas, com um ventinho que passava para atenuar o processo. Até os pássaros cantavam para relembrar a primavera. Para poder apreciar o momento, só tive de retirar uma coisa que já não estava acontecer da equação. Reescrevam também a vossa equação e depois dêem um boa gargalhada - sem café não será a mesma coisa! 

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Prova da maravilhosa manhã de ontem

 

10
Mai16

Vinho, Amor e Felicidade


Leonardo Rodrigues

Gosto de vinho e de tudo o que tem a ver com o mesmo, acontece que de enologia percebo pouco ou nada. Felizmente, cruzo-me com pessoas de bom gosto, entendidas da coisa, que até piadas com Casal Garcia se podem - conseguir não é poder - fazer. Nunca tenho de me dar ao trabalho de escolher, só de respeitar o decantar do vinho, a sua oxigenação e desfrutar. Do vinho e da companhia. Na Madeira, cresci muito perto do vinho. Participei nas vindimas e fui, descalço, para o lagar da minha avó pisar as uvas, ajudando-as a expelir o néctar aprovado e recomendado por deuses. Tudo me parecia contraditório: dezenas de homens eram contratados, pela minha avó, para vindimar, depois tinham de carregar baldes pretos gigantes com cachos de uva Americana, Americana Branca, Jaquê - "a que pinta os lábios e as mãos", "Negramol" - Tinta Negra Mole, um cruzamento de castas francesas usado no fabrico do Vinho Madeira - "Agremón", Chenin, contudo ensinaram-me a não gostar, porque fazia mal e porque era só para adultos. Agora já não acho contraditório, nem os censuro por terem guardado uma das bebidas dos deuses - a outra é o café - só para eles, o meu fígado não estava plenamente desenvolvido então. Ainda assim, a frustração era maior do que naquelas situações em que se pode ver e não se pode tocar, podia ver, podia tocar, podia fazer, mas não podia beber. O fruto proibido tornou-se muito apetecido, mas tive que esperar para poder aprender a gostar de vinho. Gostar de vinho, na minha opinião, sim, aprende-se. Aprendi a gostar de vinho com 19. Curiosamente, não aprendi a gostar pelos tintos, mas sim por um branco, Planalto da Casa Ferreirinha. Aprendi quando me apaixonei. Mas enquanto os amores se vão, os vinhos ficam, durante muitos anos. Enquanto o vinho ajuda a curar amores, nunca ouvi o contrário. Enviei há pouco uma mensagem que dizia "São 15h, já é socialmente aceitável estar bêbado". Sejam felizes.

 

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Foto: IVBAM

 

Nota: consultei a minha mãe e a mãe da minha melhor amiga para saber os nomes dados aos tipos de castas e só não consegui verificar a existência da casta agremón, que a minha mãe insiste em pronunciar agremão. Não se fiem.

09
Mai16

Pertenço oficialmente ao bairro


Leonardo Rodrigues

É verdade, uns meses depois de regressar àquele que foi o meu primeiro bairro lisboeta, só agora sei que faço novamente parte do mesmo. Isto não tem nada que ver com mudanças oficiais de morada, de centro de saúde, com poder dar indicações de olhos fechados, muito menos com receber a correspondência nesta nova casa. São pequenas coisas que ocorrem, como sorrir para alguém que vemos todas as manhãs na rua ou a senhora da padaria sentir que pode desabafar connosco sobre o seu dia. Várias pequenas grandes coisas destas fazem-me sentir confortável, enquadrado, mas há uma que me toca especialmente: chegar ao café e ver alguém a se dirigir para a máquina sem eu ter que abrir a boca. Gosto de que o bom dia seja dado quando me estão a colocar o café à frente, só aí é que os meus grandes olhos castanhos se abrem. Para além disto há mais um detalhe que gosto particularmente, só quando já estou a beber o café, depois de o ter mexido, é que me dão o pacote de açúcar a que tenho direito. Sabem que não bebo café com açúcar, mas que o levo para casa. Eles reparam, eu também. 

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Esta fotografia foi tirada no Café da Garagem. Infelizmente ainda não consegui encontrar a casa ideal para estes lados da cidade.

01
Mai16

Dia da Mãe


Leonardo Rodrigues

Primeiro domingo de maio, mais um dia para celebrar, mais um dia que me aumenta as saudades de casa. Não me meto num avião para ir a casa há muito e as saudades têm vindo a assumir as mais variadas formas.

 

Nem costumava pensar nisto. Um dia, depois outro, sempre ocupado, sempre distraído. Ultimamente certas coisas têm-me feito parar, coisas que me transportam para a minha casa da infância, onde antes de acordar já o café perfumava a casa e dava energia à minha mãe para gritar, meia hora antes do despertador, "Leonarde, acorda que vais perder a camionete"; onde havia necessidade de suplicar aos cães que me deixassem sair de casa sem nenhuma patada; onde a janela do meu quarto que, devido às arvores do jardim, só me permitia ver o nosso Atlântico. Tantas pequenas coisas.

 

No dia 31 de março, no meu aniversário, foi ler a mensagem que o meu primo - um verdadeiro irmão - tinha para mim que me despertou a saudade. Apercebi-me que não só estava a fazer falta lá em casa, como eles me fazem falta. Depois da festa que foi o dia, lá o Leonardo acabou a chorar.

 

Há dias, foi estar na Gulbenkian, num dia de sol, enquanto regavam o jardim. A terra quente e a água criaram um perfume tão distinto que me transportou para os dias quentes em que se regava os jardins, os nossos e os da minha avó. O Leonardo não chorou, mas anotou no caderninho.

 

E, pronto, hoje foi o Dia da Mãe. Quando lhe liguei perguntou-me se tinha feito ou comprado algo para ela. Respondi com uma pergunta, "Como aquelas sapatilhas que querias muito e nunca usaste, como a base para copos com o elétrico que está guardada ou como o postal que foi consumido pela humidade do frigorifico?". Ela só disse "Leonarde". Rimo-nos. Ela é tão cómica, mas acho que não sabe. Tenho saudades de me rir de conversas que não fazem sentido a mais ninguém e que eu penso ser o único a entender. Da Madeira isso é que me faz mais falta.

 

Vou comprar qualquer coisa, muito possivelmente uma passagem de avião para a fazer usar as sapatilhas. Tenho a certeza que só isto bastará para nos rirmos muito, afinal essas sapatilhas são umas MBT e os primeiros passos desiquilibram qualquer um.  

 

Feliz Dia da Mãe, a todas as Mães!

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Se conseguirem, ignorem aquele cabelo, as fotografias fofas estão guardadas dentro de álbuns cercados por mar.

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

01
Fev16

Passatempo De Mão em Mão: Número Zero, Umberto Eco


Leonardo Rodrigues

Mesmo com um budget quase inexistente, lembrei-me que também posso fazer um passatempo cá no blog. E que melhor do que livros para começar?

 

Ultimamente tenho-me sentido inspirado por tudo, em grande parte devido às minhas férias de quase dois meses.

 

Na semana passada foi altura de ser inspirado por um caixote que encontrei na rua mal saí de casa. Claro que não era um caixote qualquer, estava recheado de livros, acompanhado de um papel que indicava que os livros estavam ali porque já tinham cumprido o seu propósito e que era altura de os passar para outras mãos, dizendo "Free Books/Livros Grátis". Gostei de ver como um caixote com livros, àquela hora da manhã, fez interromper o passo apressado de muitos lisboetas e os colocou a trocar sorrisos e a falar uns com os outros.

 

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Aproveitei esta oportunidade para expandir a minha biblioteca ficando com uma edição de 2004 do livro "Burned Alive", partilhando a ocorrência na minha conta do instagram.

 

Muitos dos meus livros também já cumpriram o seu propósito, podendo ter sido isso ajudar a aquecer numa noite fria de inverno ou distrair-me da confusão que é o metro. Agora estão só a apanhar pó, humidade, e raramente os consigo reler, ora porque estou sempre a adquirir outros, ora porque a bibliografia da faculdade não me permite. Mas o meu maior problema não é ter livros que já só servem para enfeitar, é mesmo mudar-me de casa com eles, visto ter mais livros do que roupa.

 

Como não tenho coragem de os deixar na rua, ao sabor do vento e da chuva, a partir de hoje passo a ter este passatempo chamado De Mão em Mão, permitindo-os passar para outras mãos, na esperança que o novo dono perpetue a vida do livro, de mão em mão.  

 

O primeiro livro que quero partilhar já conta com um post, que podem ler aqui e é, como o título deixou claro, Número Zero, de Umberto Eco. 

 

Para ganharem o livro só têm de fazer isto:

  1. Colocar gosto na página do Blog no Facebook, aqui.
  2. Comentar a ligação do passatempo, no Facebook, com "Eu quero".
  3. Partilhá-la.

 

O vencedor(a) será escolhido aleatoriamente -  através de random.org - e anunciado na próxima segunda feira, dia 8-2-2016, na página do Facebook e, posteriormente, contactado por mensagem privada. Boas partilhas, boas leituras!

27
Jan16

E o Mercado da Figueira?


Leonardo Rodrigues

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Mercado da Ribeira para aqui, Mercado de Campo de Ourique para acolá, e o Mercado da Figueira?

 

Há uns tempos, numa das minhas caminhadas, que me continuam a permitir encontrar sempre uma ruela nova, qual não foi a minha surpresa quando encontrei, não uma rua, mas um mercado novo. Curiosamente, o achado deu-se numa das praças mais importantes de Lisboa, por onde passo quase semanalmente, a Praça da Figueira.

 

Imaginem só se, com o meu passo acelerado de quem já só quer ir beber um último café e atirar-se num sofá, não tivesse olhado de relance para o lado esquerdo e encontrado aquela porta tão discreta que diz Mercado da Figueira. Se a minha surpresa com este mercado parecer desmedida, justifico-a com o facto de ser da Madeira e isto serve-me para justificar tudo.

 

Ainda assim, para ter a certeza e não refugiar-me na minha isularidade para justificar este post, perguntei a vários lisboetas, com já trinta anos disto, se conheciam o Mercado da Figueira. Sei que três não é uma amostra significativa, mas responderam-me que não, daí a quase obrigatoriedade deste post.

 

Depois de pesquisas feitas, tornou-se um conhecido. Este mercado nasceu duma iniciativa de feirantes, em 1755, naquilo que eram meras ruínas do Hospital de Todos os Santos - destruído no mesmo ano pelo terramoto que devastou a cidade. Tal foi o sucesso que em 1855 é construído um mercado coberto que, infelizmente, foi deitado abaixo nos anos 50, devido a uma catastrofe pior, Salazar, ups, Duarte Pacheco.

 

Enquanto os mercados da moda apostam num estilo chique industrial, este renasce pelas mãos da VARN, que decide manter muitos dos contornos originais, mais tradicionais, onde se fez apenas as adapatações necessárias para estar à altura das necessidades e exigências dos nossos dias.

 

À entrada, antes de chegarmos ao mercado prorpiamente dito, percorremos um corredor ladeado por garrafas, com o que de melhor se faz nos lagares portugueses. Corredor corrido, temos duas opções, a cafetaria à esquerda e o mercado, convenientemente adaptado a supermercado, à direita. O primeiro apelo é o visual, afinal quem vê caras não vê corações, primeiro vê-se a cara e só depois o coração. É um coração português, com produtos portugueses, cheios de qualidade, da fruta ao peixe.

 

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Cansado, muito passou-me ao lado, mas, na cafetaria, senti uma enorme tentação por me tornar diabético. Embora houvesse pão fresco e muitas sandes, foram os bolos que falaram comigo. Tudo tinha um ar acabado de fazer, quente, cheiroso, doce, e, quase mais importante que os adjetivos anteriores, barato. Vejam só que um menu com sandes, sumo natural e café fica a 1.95€. É de salientar que os sumos naturais, feitos com a fruta das bancas, vendem-se a 1€ e, podem, tal como eu, pedir para levar e continuar o passeio pela nossa belissima capital.

 

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Depois de comprar o meu caril no Martim Moniz hei de passar por lá muitas mais vezes, nem que seja para uma frutose fresquinha que me permita seguir calçada.

 

Em tempos em que poupar é palavra de ordem, porque não fazê-lo com qualidade?

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