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LEONISMOS

LEONISMOS

25
Nov16

Nova Plataforma que Promete Agitar os Blogs - Sapo Friendly


Leonardo Rodrigues



Quantas vezes já pensaram "era tão bom que eu pudesse escrever, ter a certeza que o conteúdo cumpre os melhores requisitos para ser encontrado (SEO - se não sabem o que isto é, precisam mesmo) e ainda personalizar a partilha nas mais diversas redes sociais, tudo de uma só vez"?

Talvez não tenham pensado bem assim, mas eu quero poupar linhas. A resposta surgiu nos comentários de vários blogs durante estes dias, no Leonismos inclusive: o Swonkie. O nome é fofo e a plataforma também. A melhor parte: é compatível com o nosso Sapo, não fosse esta startup ser portuguesa.

Assim que concluírem o registo, que podem - e devem - fazer através de uma rede social, e embora a plataforma seja bastante intuitiva, alguém muito bem disposto vai estar online para vos dar as boas vindas e acompanhar em qualquer questão que tenham. Depois é só Escrever, Partilhar e Promover - as palavras de ordem.

Após os primeiros posts irão começar a ter acesso a estatísticas detalhadas do vosso desempenho nas redes sociais, de forma a conseguirem evoluir. 

O futuro à empresa pertence, mas neste momento a versão Beta é totalmente gratuita e só têm de aproveitar esta oportunidade para escrever e partilhar melhor. 
06
Abr16

O Sexo e a Capital: Amor à Primeira Vista


Leonardo Rodrigues

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Tenho amigos que defendem acerrimamente que deveria ter no blog uma rubrica semelhante ao Sex and the City, uma coisa à Bradshaw. Por dois motivos: conto-lhes tudo, eles contam-me tudo; tentamos chegar a verdades universais sobre o nosso caos amoroso.

 

Não sei se sei escrever sobre isso, mas enquanto pessoa que tem sexo na cidade, quiçá, talvez, tenha qualificações para tal, como milhões de outros citadinos com acesso à internet. Vou chamar a isto O Sexo e a Capital.

 

E como é que se começa? Bem, talvez não esteja a começar, embora os posts que mais leram tenham sido sobre outras temáticas, tenho um post intitulado de "Cio Emocional" e outro de "Estamos a ficar todos mais para o puta?" - sim, O Sexo e a Capital começou há mais tempo, só não tinha nome. Algumas opiniões mantenho, outras não e isso é crescer.

 

Para começar, nada melhor e mais cliché do que o amor à primeira vista. Já disse que não, agora digo que sim, mais ou menos isso.

 

Pensei, na ingenuidade da minha adolescência, que o "amor" só surgisse lá para 3ª vista. E assim deveria ser, pela questão prática de se saber como é a pessoa no dia-a-dia, fora do encontro, sem o vinho que lhe dá conversa, torna interessante e bom na cama.

 

Ao mesmo tempo que, teoricamente, deveria acontecer menos, não fosse a bagagem que uma pessoa acumula, acontece mais. Afinal de contas vamo-nos conhecendo cada vez melhor e nos tornando mais e mais seletivos, sabendo, desta forma, de antemão o que queremos e resulta e o que não. Já ninguém tem tempo a perder, e isto é uma faca de dois gumes.

 

A realidade também, confesso, é que não preciso de muito para me apaixonar. Existem pessoas que conheço, tudo impecável, mas não há faísca e não faço questão de repetir. Sejamos amigos. Outras que, apesar deste e daquele defeito, são tudo e muito mais, e, por algum motivo, fazem-me comprometer emocionalmente. De forma simples, amor à primeira vista, para mim, é quando se conhece alguém e queremos continuar a conhecer, apenas essa pessoa. Não é propriamente à primeira vista, que acho isso um tanto superficial, mas talvez à primeira conversa, ao primeiro toque.

 

O exemplo mais divertido dum destes episódios deu-se quando alguém, durante o nosso primeiro jantar, me decide contar uma história sobre um aranhão a que esteve uma hora a explicar o porquê do mesmo ter de morrer. Estivemos juntos durante 3 meses. Mais recentemente, outro caso, acho que foi ver como não-sei-quem faz a sua cara que dá conta de timidez: uma combinação de respiração contida, movimento de nariz e lábio.

 

Este "amor à primeira vista" é perigoso, complicado, geralmente fugaz. Da última vez que tal me aconteceu o cupido só teve tempo de atirar uma flecha sobre mim, não fosse isso que o gajo faz sempre.

 

Enquanto me deixo de devaneios e volto para a cama para continuar a curar a gripe, contem-me, acreditam na vossa definição de amor à primeira vista?

 

 

P.S. Tenho a agradecer à minha querida Laura Brás por me facultar os olhos para fotografia e por me incentivar, continuamente, a encontrar o amor para além da 1ª vista. 

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

04
Fev16

Para refletir: Queimada Viva, de Souad


Leonardo Rodrigues

 

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Quem leu o post do passatempo De Mão em Mão, para o qual ainda vão a tempo, sabe que resgatei o livro "Burned Alive" - "Queimada Viva", em português - daquele pequeno tesouro recheado de livros que encontrei na rua.

 

Li-o num ápice. Acho que este foi o primeiro livro que tive coragem de ler na totalidade em inglês, porque embora o fale com fluência, prefiro ler na minha própria língua. A escrita é acessível, o que é difícil é ler coisas que chocam na totalidade com tudo o que nós ocidentais, arrisco, civilizados, acreditamos.

 

"Queimada viva" é o relato arrepiante da vida de Souad, nome fictício, uma das muitas milhares de mulheres que vivem em regimes onde as leis são feitas de homens para homens. Na sua aldeia, algures na Cisjordânia, uma mulher não pode pensar por si, ter vontades próprias, curiosidade, olhar um homem nos olhos, nem sair à rua sozinha antes do casamento. O casamento, a maior liberdade pela qual uma mulher pode ansear, é apenas uma transferência de propriedade e só lhes libertará da escravatura do pai para que isso passe a ser feito pelo marido, o novo dono, que pagou com ouro para a ter.

 

Dentro destes casamentos, a violência não só se perpetua como a responsabilidade aumenta. Os motivos para a violência já não são só as lides domésticas, o chegar um minuto mais tarde ou apanhar um tomate verde. Passa a haver obrigatoriedade de ter filhos, as filhas são um fardo, têm de ser encaminhadas, distribuídas e, valendo menos que um animal, se começarem a ser muitas, as próprias mães chegam a matá-las, encarando elas próprias isto como natural. Não sabem melhor, não conhecem outra realidade, são vítimas de um sistema. Curiosamente, apercebemo-nos que os homens também o são.

 

Souad foi vítima dos tão falados crimes de honra. Tinha que morrer porque desonrou a família ao se apaixonar, ao ambicionar ser propriedade de alguém que não o seu pai, com uma gravidez fora do casamento. A única forma de ser restabelecida a honra da família era com a sua morte, então atearam-lhe fogo. As mulheres da sua aldeia só o apagaram. No hospital, onde deveria ter recebido cuidados imediatos, tendo em conta que Souad era uma charmuta, arábico para puta, só teve direito a um banho porque cheirava mal. Estava lá para morrer. Se viveu para contar a história foi porque "nós" intervimos. 

 

Já na Europa, dois meses depois, finalmente a receber tratamentos, Souad, ao olhar para as enfermeiras com saias curtas, maquilhagem, a sorrir a conversar com os médicos só pensava que no dia seguinte já não iam estar lá, sentindo um profundo alivio quando as via novamente. As pessoas deveriam poder pura e simplesmente ser.

 

Na simplicidade da obra, porque não precisamos de nos desdobrar em palavras pomposas para transmitir grandes ideias, há tanta força, acorda-nos, humaniza-nos. Leva-nos à reflexão! Pensei muito na minha mãe que me criou sozinha e nunca casou. Numa daquelas terras isso seria inconcebível porque não surgem heroínas, só nascem heróis. 

 

Cá, mesmo com muito pudismo e catolicismo, com toda a sinceridade, podemos fazer o que nos der na real gana, desde que isso não magoe o outro, amar quem amamos, tocar nessas pessoas, com ou sem papel. Começamos a poder explorar as nossas sexualidades cedo, de forma informada, segura, com consciência dos atos. 

 

As mulheres podem ainda não estar em mesmo número nos cargos de topo, na política nem receber tanto, mas têm os mesmos direitos de um homem. Isto constitucionalmente, culturalmente ainda existem certos estigmas que em Lisboa já não vejo, tanto, também porque faço por não me rodear de pessoas tacanhas. 

 

Dito isto, na minha terriola da Madeira, conheço de vista mulheres que sofrem de violência doméstica, mas que nada fazem por medo, por acharem que não há vida para além do marido de há 30 anos. Nem elas, nem quem lhes diz "bom dia, como vai?", levando com a mesma resposta "vai-se andando", como já é tudo tão automático, só respondem "enquanto for assim está bom", e seguem para o café para falar da vida dos outros. Enquanto for assim está bom, mas e quando estas mulheres já não andarem?

 

Ainda estou a ter os primeiros vislumbres daquilo que um blog pode fazer. Não sei bem, mas não custa nada falar destas coisas, apelar à atenção, à prevenção, à denúncia e a uma nova emancipação que está, sobretudo, por acontecer nos meios mais pequenos.

 

Futuramente, e com o propósito de continuar a abordar esta temática, sem que para isso seja necessário ler novamente que mais uma mulher morreu, irei escrever um texto com uma blogger amiga que foi vítima de violência doméstica, na esperança que palavras levem a ações.

 

Este livro, será também passado de Mão em Mão, fiquem atentos ao Facebook

 

 

03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

31
Jan16

Número Zero, Umberto Eco (Spoiler Alert)


Leonardo Rodrigues

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Umberto Eco, semiólogo, filósofo e romancista italiano regressa às livrarias portuguesas com Número Zero, livro de ficção editado pela editora Gradiva.

 

O livro acaba por não ser apenas, como muito se escreveu, sobre o jornalismo nos dias de hoje e a sua doença - há muito diagnosticada como sensacionalismo - , mas também, sobre a sociedade - que adotou uma postura de passividade - e de que forma o jornalismo acaba por ser o seu espelho, vendendo-se tanto aos leitores como aos interesses dos poderosos que detêm os meios de comunicação.

 

Eco, para tais denúncias, leva-nos para o interior de uma redação piloto de um jornal que não saiu, que não é suposto sair e que, para não haver esperança, não sairá. O hipotético periódico teria como nome Amanhã. No Amanhã, como em qualquer outro jornal, falar-se-ia do ontem que já todos conhecemos pela televisão, mas, e aqui está o seu fator de diferenciação, ao invés de se fazer um retrato fiel do que foi, especula acerca daquilo que será amanhã, dali a uma semana ou até um mês, com tanta certeza que poderia ser um “oráculo”. O objetivo do jornal, ou melhor, os números zero deste jornal é o de intimidar os poderosos de tal maneira que deixe o seu financiador - o Comendador Vimercate - fazer parte do clube restrito. Se deixarem, não se publica o jornal, a missão é cumprida, mas publicar-se-á um livro igualmente duvidoso, assinado pelo diretor.

 

Este livro é a razão de ser do protagonista que, num livro de Eco, não poderia caber senão a um perdedor, o Dr. Communa, - um doutor que nem a licenciatura acabou porque, como sabemos, a culpa é sempre do outro. A sua função, enquanto doutor na arte de perder, é escrever um livro sobre todo o processo de gestação daquilo que que nunca irá nascer - omitindo este facto - para, a posteriori, ser assinado por outro, perdendo mais um pouco também aqui.

 

"Os perdedores, tal como os autodidatas, têm sempre um conhecimento mais vasto do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não podes perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deviam."

 

Como os outros que perdem, sonhava em escrever um livro que lhe desse fama e glória, mas parece que também não era uma grande escritor uma vez que para escrever tinha que citar em demasia e ninguém está para ler algo que necessite de enciclopédias para descortinar. A erudição e a cultura, tal como o diretor recorda a um redator, não vende: "temos de falar a linguagem do leitor, não a dos intelectuais [que estão em menor numero].”

 

À primeira vista, com apenas a sua versão das coisas, não conseguimos perceber se este é simplesmente paranóico, depois, com o andamento do livro, começamos a achar que a sua paranóia teve toda a razão de ser, até que acabamos por concordar que não há necessidade porque temos todos memória curta, somos cada vez mais uns vendidos e podemos descansar.

 

Voltando à redação, falemos do diretor, Simei, que desperta em Commona a seguinte descrição "No género x é um deus. X é o género em que x é merda." Os seus reparos, correções, exercícios e dicas assim o comprovam. Naquele jornal aprendia-se a desmentir o desmentido deturpando a realidade com a "realidade". Até quem escrevia os horóscopos, não tendo autorização para seguir os astros, seguia, a seguinte instrução, "vá ver as revistas e jornais que publiquem [...] e retire deles padrões recorrentes [...] otimistas, as pessoas não gostam de ouvir que vão morrer de cancro". Embora o prefácio não o adivinhe - porque enquanto capítulo seria o penúltimo -, o livro poderia ser intitulado d"O Grande Manual das Más Práticas Jornalísticas". Os  públicos dos jornais emitem muitos julgamentos acerca dos jornalistas, mas estes depois de formados, mesmo que saibam o que deve ser feito são reensinados pelos superiores a fazer um jornalismo que agrade a maioria, que não perturbe muito, que venda - mais do que para subsistir, para enriquecer.

 

Mas, enfim, de um jornal composto por fofoqueiros como Bragaddocio e Maia - únicos dos seis redatores que mereceram páginas para se apresentar no livro - , um diretor que conspira por ganância e um perdedor compulsivo, não se pode esperar muito.

 

No fim, por onde começou o início, e saltando a conspiração que Eco escreveu tendo como base factos que nos escandalizam enquanto leitor porque não sabíamos ou não nos lembrávamos, tudo acaba como o leitor eventualmente dá por si a querer. O herói, perdedor nato, pode não ficar com tanto dinheiro como era suposto, nem com a mais ínfima possibilidade de algum dia se ver publicado, mas, aos 50, ganha o amor, que é um outro tipo de reconhecimento, invertendo a sua sorte. Agora é esperar que os jornais também consigam inverter as suas sortes, embora os prognósticos de Eco, na voz de Maia e Commona, não sejam ótimistas.

 

Um livro a não perder, que irei oferecer num passatempo muito em breve. Fiquem atentos ao facebook!

 

24
Jan16

Bons livros


Leonardo Rodrigues

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Sei que hoje, para muitos, é apenas dia de eleições, mas ao ver as notas do meu telemóvel, lembrei-me do post que comecei há coisa de semana e meia, então hoje passou a ser também dia de acabar posts.

 

Queria partilhar convosco que li o meu primeiro livro de 2016. Confesso-vos que quando acabei, caiu-me tudo figuradamente e, fisicamente, umas lágrimas. O livro em questão é "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares. Não me apeteceu chorar com o final nem por ter acabado - embora tenha tido um susto quando ao virar a página 607 vi a Nota do Autor - , apeteceu-me chorar pelo livro ter sido tão bom e por todas as emoções que fez surgir em mim.

 

O que é que torna um romance bom? Em primeiro lugar lê-se sem esforço, e com isto não digo que não exija pensar, refletir, pesquisar até, mas fazemo-lo com naturalidade. Os livros, a literatura, toda a arte enquanto arte, têm de fazer sentir. Se um livro não for capaz de me sentar à mesa com as personagens e me permitir escutá-las, olhá-las nos olhos, sentir a dor que deveria ser só delas, não é nada. Um livro mede-se, para mim e agora, pelas emoções que desperta e pelos desejos que acorda.

 

O "Rio das Flores" faz isto tudo, mas não quero aqui despi-lo completamente porque acho que as páginas de um livro têm de ser percorridas com uma sensação de novidade, como se de um corpo de um novo amante, ao ser percorrido pela primeira vez, se tratasse - embora já haja suspeitas relativamente ao conteúdo.

 

Escrever isto, recorda-me de uma entrevista de António Lobo Antunes, que vi há uns anos, ele dizia não entender bem o porquê de se falar de livros, achava que isso simplesmente não se deveria fazer. Na altura acabei por concordar, final de contas, por mais que me desdobre em elogios ou críticas, aquele paralelepípedo de papel só será alguma coisa cada vez que for desbravado e cada leitor vai sentir algo de singular, de acordo com as suas vivências e ideias, que me transcende.

 

Mesmo me transcendendo, vou partilhar o que o Rio das Flores me reassegurou: para além das aparências, nada é sólido; ideias e pessoas mudam, sempre; algumas coisas acabam porque outras melhores, mais acertadas, estão para começar; e, principalmente, que os Homens, bem, são apenas homens.

 

Como o período de luto ou de ressaca literária já acabou, iniciei outro, "O Retrato de Dorian Grey" de Oscar Wilde. Talvez com esse escreva uma crítica a sério, talvez não escreva nada. Votem bem!

22
Jan16

A ver: Os despojos do dia


Leonardo Rodrigues

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Ontem foi dia, mais noite, de estar presente na inauguração da mais recente exposição de um grande amigo meu, o fotógrafo Rui Dias Monteiro, intitulada "Os despojos do dia".

 

Embora já conhecesse muito do trabalho do Rui e também já tivesse tido privilégio de caminhar e conversar com ele enquanto fotografava, só agora é que julgo ter entendido verdadeiramente o porquê de ele fotografar o que os outros deixam ficar, os despojos.

 

Ele vê e capta aquilo que nós muitas vezes já não somos capazes de ver, tanto que as coisas se repetem, tanto que as deixamos esquecidas. E, sem lhes dar valor, apelidamo-as de lixo. Isto aplica-se tanto à nossa capital, como ao local onde esta sequência foi capturada, Cabo Verde, como ao mundo.

 

O olhar meditativo do Rui só vem a provar novamente que menos é mais. Ele sabe-o e as suas fotos, na sua simplicidade, e "centralidade" como muito bem disseram, transmitem-no.

 

Enquanto muitos fotógrafos tendem a editar excessivamente os seus trabalhos, este limita-se a fazer pequenas correções de luz, nada mais. Tão simples quanto as coisas.

 

Neste trabalho é de salientar que nada é pousado, afinal de contas, para quê mexer no que tão perfeitamente ocorre por si, como que por vontade própria da natureza?

 

"Os despojos do dia" não pretende ser uma crítica à existência daqueles objetos esquecidos na natureza, é mais um convite a pensá-los doutra forma, a olhá-los com outros olhos: E se os despojos dos nossos dias não fossem apenas lixo, mas, com o passar do tempo houvesse uma fusão e se tonassem ornamentos, quiçá "jóias" da própria natureza?

 

É sem dúvida uma exposição a não perder. Aos interessados, podem visita-lá de terça a sábado, das 14 às 19, na Galeria Alecrim 50. Assim será até dia 5 de Março, pelo que certamente há de encaixar nas vossas agendas.

26
Dez15

Resolução para 2016


Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

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22
Dez15

É Natal, é Natal, Não Vai Nascer Jesus


Leonardo Rodrigues

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Em vésperas de Natal, por mais que já tenha sido feito, não se pode deixar de falar da festividade, é o passado a tornar-se novamente notícia, ciclicamente, não fosse assim toda a História.

 

Estamos habituados a celebrar o 25 de dezembro porque é tradição e é difícil resistir-lhe. A sorte é que esta é daquelas tradições que se demarcam pela positiva e que tem a capacidade particular - ainda que caridosamente cedida pelos governos - de, numa época em que ninguém tem tempo para nada, parar relógios, em Portugal e em todo o mundo

 

É certo que nem todos vão na canção de Natal e, cada vez mais, estamos a assistir a uma descrença na data, basta perguntar aos amigos e estar atento às conversas de café: "O natal deveria ser todos os dias"; "A vida corre mal e não se pode festejar por festejar"; "É símbolo máximo do capitalismo, só serve para gastar dinheiro"; "O Natal tem que ver com religião e ateu que se preze não pode compactuar com semelhante coisa".

 

Sim, pessimistas, o capitalismo não se chateia com o Natal e até agradece o empurrão, mas há que relembrar que poucos podem dar constantemente - uma ou outra data para dar (e receber) é a dose anual recomendada para os bolsos. Também, e segundo consta, o Natal nas suas origens não tinha nada que ver com a religião - monoteísta- , que o diga a História, e agora muito menos, que o digam as pessoas.

 

Ouvindo a História, se recuarmos a antes de Jesus Cristo nascer - e morrer -, já era celebrado a 25 de dezembro o nascimento - natalício - de um morto, Nimrode, considerado um messias, e filho do deus sol. A iniciativa de tal festividade veio da sua mãe-esposa, que também decidiu ser da vontade do filho que os presentes fossem colocados junto de uma árvore. Festejar o nascimento de algo, a árvore, e outros tantos elementos vem de costumes pagãos, de tempos em que se acreditava haver mais do que um deus.

 

Algumas pesquisas sugerem, tendo a Bíblia em consideração, que Cristo não poderia ter nascido a 25 de dezembro. Em Lucas 2:8 podemos ler "... havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho". Tal coisa nunca acontecia em dezembro, sendo que em meados de outubro já os rebanhos tinham sido retirados para ficarem protegidos do clima dos meses que se seguiam.

 

No segundo século do nosso tempo, de forma a unir cristãos e pagãos, as datas fundiram-se, prevalecendo, agora, apenas o 25 de dezembro dos cristãos católicos.

 

Quanto às pessoas, constata-se também um distanciamento, relativamente à religião católica. Ao questionar muitas pessoas as suas motivações para praticar o natal poucos responderam de forma elaborada, isto ou porque a pergunta foi lançada numa rede social e ninguém está para arranjar uma tendinite ao desenvolver o pensamento ou porque o Natal é assim tão simples. O que é certo é que ninguém respondeu “religião” - isso parece já só ser válido nas janelas que vemos ao andar pelas ruas de Lisboa doutros tempos em que o natal é sinónimo de menino Jesus.

 

Atualmente, mesmo perdendo a conotação religiosa continua a significar, para a maioria dos questionados, "amor", "alegria, "família", "união" e, sinceramente, “tudo o que quisermos que seja”.

 

O mundo está a encarar o natal como uma data que permite que uma família, aqueles com quem têm laços de sangue e outros com relações que ultrapassam questões de sangue, se sentem em torno de uma mesma mesa, talvez pela primeira vez no ano, para falar, rir e aproveitar o presente do presente.

 

Para alguns, não se trata apenas de reencontrar o irmão perdido, "por vezes é mesmo reconciliar".

 

Das melhores recordações que partilharam, há que salientar estas: "quando em pequena vi o Pai Natal pela primeira vez.”; “Beber cerveja a bordo de um tuk tuk em Changai”. Ninguém respondeu cruzar-se com Jesus, nem como adulto nem como recém nascido, embora em algumas casas se diga às crianças que o senhor está a visitar, ninguém o parece ter visto. Também ninguém relembrou a missa do parto - tradição religiosa de Natal da Ilha da Madeira e do Porto Santo - que lhe transformou a vida.

 

Dos que não mudam de temperatura com o Natal, há quem seja mais prático e vá mais longe: "embora o natal seja alegria, amor e gratidão nem é assim tão importante, o que importa, sim, é o ano novo e as oportunidades que poderão estar para surgir."

 

Por fim, que se faça uma menor correção na canção: É natal, é Natal/Não vai nascer Jesus.

 

E para vós, o que é o natal?

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