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LEONISMOS

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23
Set16

"Parabéns Carris, pelo serviço de m***a"


Leonardo Rodrigues

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Como não posso escrever uma reclamação por dia, vou escrever um post e deixá-lo cá para sempre. Os clientes da Carris sabem que a experiência, infelizmente, é intemporal, nunca melhora e só há sinais de que piore. Tenho visto os autocarros com "Parabéns Carris" e apercebi-me que é sentido de humor negro por parte dos senhores que não dependem do seu próprio serviço. Mas, como muitos não entenderão, eu explico o que eles querem realmente dizer: "Parabéns Carris, pelo serviço de merda -  já o prestamos há décadas".

 

Vivo em Lisboa há mais de 3 anos, mas só me queixo agora da empresa, o que se deve a diversos fatores: vivia ao lado da faculdade; andava fosse que distância fosse a pé e metia-me no metro quando estava cansado; utilizava pontualmente o autocarro. Nos últimos quatro meses, fruto do meu novo emprego, que fica nos subúrbios da cidade, entendi o mal de que todos se queixam: Carris, a merda da Carris. 

 

Dou por mim, metade da semana, a demorar mais de uma hora a chegar ao trabalho e, uns bons 90 minutos para regressar a casa. Se a Carris conseguisse cumprir com a publicidade enganosa, sob forma de horários de paragem, demoraria 30. Durante o verão, chegar a casa chegou a demorar-me 3 horas. Raros são os dias em que não me chateio.

 

Um part-time, com os tempos de espera, o sol das paragens, o ar parado irrespirável dos autocarros, torna-se num full-time.

 

Claro que já perguntei aos condutores o que se está a passar, eles não têm a certeza, mas também parecem cansados de conduzir com um sovaco na cara. Um respondeu-me: "eu saio quando eles me mandam sair".

 

É nesta frase que quero pegar para justificar a fotografia que vêem acima. São três autocarros da carreira 731 a chegar em simultâneo à paragem. Foram os três que falharam todos os horários daquela hora que estivemos à espera. Assim que o 1 º autocarro da frota parou, o motorista, em vez de tentar cumprir com 3º horário falhado, foi discutir com o que vinha em 2º lugar. Lá esperamos mais um pouco. Afinal, qual é o problema de todos os meses canalizar perto de 40 euros para treinar a paciência?

 

Foto explicada, falemos do famoso 750. Apanhar o 750 em Alvalade é desafiante, mais à frente, pode ser impossível. À hora que tenho de o apanhar, escreve-se na paragem que passa com a frequência de 11 minutos. Hoje esperei meia hora. Na semana passada esperei uma hora, tive que desistir de esperar e cheguei ao emprego 40 minutos atrasado. São menos 40 minutos no meu salário. Nem todos podem apanhar um táxi sempre que o serviço que pagam de várias formas não é cumprido.

 

Para os portugueses que vivem fora da nossa capital excecional, até vou dar mais contexto. A carreira do 750 passa, entre o Oriente e Algés, por muitas zonas onde o metro não chega e acaba por ser a melhor alternativa para um número considerável de passageiros, que trabalham longe da sua residência. É feita todos os dias por autocarros biarticulados velhos. Não me recordo de, nestes últimos meses, ter entrado num que tivesse o ar condicionado a funcionar, embora o vidro apregoe que tem - já nas paragens a informação não vale muito. Refiro-me a este autocarro como o autocarro do terror.

 

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Todos os dias este autocarro biarticulado vai cheio. As pessoas, desesperadas, porque estão dependentes para cumprir horários, entram pelas portas traseiras. Ficamos encostados uns nos outros e para sair há necessidade de empurrar. Respirar bem não é possível fruto da inexistência de ar condicionado. Durante uma hora, respiramos tão bem como numa ETAR.

 

Naqueles autocarros onde o ar condicionado funciona - existem -, é possível que o deixe a cheirar a mofo ou que fique demasiado frio, mesmo com os 30 graus no exterior. 

 

Há algo ainda mais curioso, acho que a Carris é uma nadinha elitista. A qualidade dos autocarros e frequência dos mesmos parece-me variar de acordo com as zonas. Um autocarro biarticulado que vá para as Amoreiras(783) é novo, o ar condicionado funciona sempre e até tem wi-fi. Enquanto espero por um 750 cheio, passam 783 - um cheio, os outros dois quase vazios. Coisas semelhantes acontecem com outras carreiras, mas o post vai longo e ainda não me queixei do 714.

 

O 714 é outra das 3 possíveis carreiras que posso apanhar junto do meu trabalho, sendo que no regresso é a única que faz sentido. Para além do elevado tempo de espera e de muitas vezes só passarem autocarros num sentido, o autocarro fica completamente cheio em Belém devido ao elevado número de turistas, à semelhança do elétrico 15E. Todos os dias o autocarro tem de saltar paragens porque já não cabe mais ninguém. Mais frequentemente do que queria, saio várias paragens antes porque é insuportável continuar a viagem que paguei naquelas condições.

 

Claro que se fosse para escrever sobre as pequenas infrações dos motoristas, por vezes má educação, não acabaria o post hoje e estaria a fazer generalizações injustas. O problema está lá em cima. Todos os dias, dou por mim a falar com estranhos na paragem, para desanuviarmos acerca do quanto a empresa mexe com as nossas vidas. Nem sei o que sugerir, não me pagam para isso. Acho que se a empresa conseguir cumprir com os autocarros previstos já é um bom principio e nós agradecemos.

 

 

09
Abr16

Ao Encontro do Sul, em Évora (com fotos)


Leonardo Rodrigues

Há quem queira encontrar o norte que perdeu, eu, como já tive muitos encontros com ele, quis ir ao encontro do sul. Em Portugal Continental, como vos disse em tempos de Meet the Blogger, nunca tinha ido além do Portinho da Arrábida. Então, lá fiz eu a minha tentativa até Évora. 

 

Eram 10 em ponto quando o comboio, muito cumpridor dos seus horários, deixou a estação de Entrecampos, começando assim a nossa procura - minha e do Rúben - pelo sul. Escolher lugares de comboio definitivamente é algo que não poderá constar no meu CV, a não ser que seja para remar contra a maré. Depois de ultrapassada a frustração com os lugares, passou a ser hora de desfrutar das vistas. Os livros de geografia estão certos, fica tudo mais plano e, de vez em quando, avista-se um monte. Acho que nunca tinha visto tantos quilómetros seguidos de terra plana, tanta que os meus olhos não conseguiam avistar o fim. Estas terras portuguesas, confirma-se, preenchem-se de oliveiras, vinhas, grandes e pequenas propriedades amorosas e caminhos, mais frequentemente do que se podia esperar, de terra batida. A minha infância, antes das construções desenfreadas de  A.J.J., também os tinha.

 

Sinto-me sempre uma criança curiosa quando vou para um sítio que desconheço, especialmente de comboio, que tem o seu quê de mágico. Como as crianças, dúvidas curiosas trespassam o pensamento: será que vamos encontrar alentejanos nas esquinas à espera que o vento lhes passe o jornal? E eram disparates deste género que me voltava para a direita para dizer e perturbar o meu companheiro de viagem, que lia atentamente o Expresso - já que o encontrou, parecia mal não ler o Jornal. 

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Uma hora e meia depois lá estávamos nós e, como a sorte nasceu para morrer connosco, chovia a potes. O percurso da estação ao interior da cidade medieval fez-se quase que por instinto e recheado de piadas macabras sobre Dianas, vai-se lá entender o porquê.

 

Como turistas experientes que somos, o primeiro passo foi pedir um mapa, depois, claro, tomar outro café.

 

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Na Praça do Giraldo, o café que nos chamou à atenção, talvez pelo nome familiar, foi o Café Arcada. De tão amplo e cheio, parecia albergar todas as pessoas em Évora que sabem que o dia só começa com um café bem tirado. Isso reassegurou-nos que era ali que deveríamos estar. Para acompanhar a bica pedimos algo de tradicional e recomendaram-nos duas coisas, só uma pareceu viável: a queijada. Pode até ficar mal dizer, mas esta foi a única queijada continental que gostei e que tive apetite de repetir. Escusado será dizer que o mapa e todo o dinheiro - não muito - na mesa ficou, não fosse eu ter colocado o tabuleiro do pequeno almoço em cima. 

  

 

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Embrance Évora foi o hostel escolhido para pernoitar. Era tudo o que queríamos. Em termos de localização não podíamos pedir mais central, fica numa rua entre a Capela dos Ossos e a Praça do Giraldo. A decoração era, também, absolutamente irrepreensível: moderna e acolhedora. Todos os quartos têm alcunhas, a do nosso assentava-nos que nem uma luva: viajantes. Entre as camas havia uma moldura com uma mensagem deveras inspiradora: "O mundo é um livro e aqueles que não viajam lêem apenas uma página."

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Do hostel, há ainda que realçar o pátio fabuloso que, infelizmente, devido ao estado do tempo, não conseguimos utilizar e o terraço donde fomos observar a noite eborense. Quanto ao preço, a noite custou-nos 30 euros - com um pequeno almoço que continha produtos da zona incluído

 

Próximo do hostel, como disse, estava localizada a conhecida Capela dos Ossos, o monumento pelo qual mais ansiávamos ver. Há alguma dificuldade em explicar os sentimentos que surgem quando se pisa um sítio daquela natureza. Acho que o nome e ler sobre o local em nada nos preparam para a visita. É arrepiante olhar em volta e ver os ossos de tanta gente, que nos parecem perseguir com o olhar, havendo à entrada o seguinte aviso: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. O objetivo dos frades franciscanos fica assim cumprido, sendo que a visita convida-nos a repensar a nossa condição, a fragilidade, a fugacidade e, digo eu, insignificância da vida.

 

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Próximo dos limites da cidade, acabando a sua estrutura por fazer parte da muralha, encontra-se o Palácio D. Manuel. Como tínhamos pouco tempo até o fecho decidimos tirar partido dos jardins, em vez do que estava exposto no interior. Escusado será dizer que os bancos vermelhos, que podem ver acima, acompanham toda a área verde e agradam os olhos. É também nos exteriores deste palácio que se encontram as tais "Ruínas Fingidas" que, antes de terem realçado serem construídas com materiais provenientes de outras construções, nos fizeram render à expressão "cidade museu" - algo que utilizamos para nos referir a basicamente a tudo o que o olho encontrava. Embora não tenhamos prestado muito atenção ao que estava exposto, o Rúben fez questão de utilizar as instalações e o pouco tempo que tínhamos para disseminar a sua ideologia de paz, sexo e amor....

 

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O Art Café, também localizado próximo do nosso hostel, foi outro verdadeiro achado. O que nos cativou primeiramente foi a música menos comum que se fazia ouvir da rua. Lá dentro, o ambiente distinto. Os objetos que decoravam o espaço não eram apenas obras de arte e, a um primeiro olhar, pareciam fazer parte da coleção de memórias de alguém. Depois, pareceram-me memórias que foram sendo deixadas ao longo dos tempos por todos os que lá passaram. O poema, no placard ao lado da mesa, assim o evidenciou. Quando regressámos, no dia seguinte, para beber um café de despedida, na impossibilidade de escrever poesia, deixámos os nossos pacotes de açúcar afixados. Afinal de contas, os contemporâneos só nos têm reassegurado que a arte pode ser qualquer coisa. A nossa celebra a hipocondria e, como tal, o consumo mínimo de açúcar possível, afinal a vida é mais doce sem diabetes.

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De volta aos monumentos, temos o Tempo de Diana. Foi aqui que o Rúben repreendeu uma turista espanhola, dizendo-lhe que não podia estar lá encostada, uma vez tratar-se do nosso património cultural. A senhora, super constrangida, pediu-nos desculpas aflita. Ri-me desalmadamente. 

 

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Houve muita dificuldade em fotografar toda a experiência, uma vez que o câmara do meu iPhone tem vontades próprias, chovia e a luz que tínhamos não era propícia à arte. Ainda assim, deixo-vos mais algumas fotos antes de concluir o post.

 

No Jardim dos Colegiais, que fica próximo da antiga sede da Universidade de Évora.

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O Aqueduto de Água de Prata fotografado do exterior da muralha, embora, a certo ponto, se unam. 

 

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Aproveitei a fotografia do Rúben para fazer a minha. Neste edifício, que fica ao lado da Fonte das Portas de Moura, localizam-se apenas serviços administrativos

 

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Nestes dois dias conseguimos ver imensa coisa, inclusive o Forúm Eugénio de Almeida, o Museu da Carruagem, o Arco Romano da Dona Isabel e tudo o que as várias voltas que demos permitiram. Confesso que a certo ponto não sabíamos que mais fazer, então continuámos a passear nos círculos inerentes ao planeamento de uma cidade medieval. 

 

Para a questão que me surgiu no comboio envolvendo jornais, vento e alentejanos a resposta é não. Contudo, a preguiça confirmou-se quando, ao pedirmos indicações para regressarmos à estação de comboios, nos disseram que era melhor ir de autocarro, porque ficava muito longe - 10m a pé.

 

E na estação ferroviária de Évora terminou o passeio, onde o começámos - não fosse tudo assim - , mas nem aqui se acabaram as aventuras. Tivemos um encontro a 3, fruto das dating apps, com alguém - não o escrevo assim por questões de confidencialidade, mas porque quando entramos no comboio já não nos lembrávamos do nome. Deste último episódio, só agradeço por sermos dois a tentar manter um ritmo socialmente aceitável de pergunta-resposta-pergunta-resposta até o comboio chegar. 

 

O Rúben, a única pessoa que consigo tolerar durante vários dias seguidos, refere-se a estes passeios como fugas e costuma perguntar-me "vamos fugir?". Garantidamente que sim, vamos fugir mais vezes para regressar e partilhar tudo convosco. 

 

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