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LEONISMOS

LEONISMOS

17
Out17

As árvores vivem de pé


Leonardo Rodrigues

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A vida real não é um espetáculo de grandes planos e de música cinematográfica. Sinto, vez após vez, que os cenários que se descrevem como dantescos se apresentam assim perante nós. 

Pior, as pessoas que elegemos, sucessivamente, fazem o mesmo. Querem pareceres, relatórios, análises e, se ainda houver dinheiro, um desenho. Depois do frenesim mediático, tudo morre, ano após ano. E com a morte mediática, vem a morte da floresta e das gentes. 

Não temos de ir muito longe nesta curta linha de tempo, a Câmara de Leiria sabia que o pinhal necessitava de limpeza. Creio que tinham deixado para 2018. Agora que sobrou um bocadinho de pinhal, talvez mandem fazer um museu em 2020 - desde que, claro, não disturbe o OE.

A culpa não é exclusivamente da inoperância de quem tem meios e autoridade para atuar. É também das empresas com sede de lucro, de quem não faz nem deixa fazer com os terrenos, de quem não limpa, de quem suja, de quem não quer saber, e de quem acha por bem queimar centenas de anos. Como a mãe de uma amiga diz, "quando a lei é branda o homem é mau".

O eucalipto não tinha de ser um inimigo a abater, se não fosse a espécie predominante. É muito bonito termos meio milhão de proprietários florestais, mas corre mal quando temos menos de 16% de floresta pública. Sabemos que o sobreiro - embora existam espécies melhores - serve de "tampão", por causa da cortiça, mas o pinheiro e eucalipto ganham a discussão económica. 

Não tenho dúvidas de que vamos conseguir replantar, que temos conhecimento que chegue para recuperar, mas tem de haver uma completa reestruturação deste sistema. Não chegam palavras de ação sem a ação. Tal como as doenças, a solução mais eficaz, e barata, é prevenir. Além de ser tempo de punir, é de dar o exemplo. Temos de ir para a rua mostrar descontentamento, é verdade, mas também de sair para cuidar.

E, embora a lei tenha de ser dura lex sed lex, serve apenas de relações públicas, se a consciência de um povo não a acompanhar. Precisamos de uma mudança de consciência, precisamos que Portugal perceba que não comemos graças ao dinheiro dos 2% que a floresta alimenta, mas que 100% respira graças às árvores que, vivendo em pé, sem dias de folga, tornam o nosso ar respirável. 

 

 

13
Set17

E se o seu filho quiser experimentar um vestido?


Leonardo Rodrigues

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A resposta mais simples de todas é: pode ser que, noutra vida, tenha sido escocês. 

Porquê é que eu me lembrei de escrever tal coisa? Ora, uns pais no Reino Unido retiraram o seu filho da escola porque outro aluno, com 6 anos, foi autorizado a usar vestido. Acham que a escola os deveria ter consultado, acerca da vida de alguém que não está a seu cargo.

Muitas crianças, por todo o mundo, sentem que nasceram num corpo errado. Isto não tem nada que ver com orientação sexual. Por exemplo, pode haver alguém no corpo de uma rapariga, que sinta que é um homem, e que goste de mulheres. Aqui, mesmo necessitado de uma mudança, é heterossexual. 

E, por muito que nos custe a perceber, pode não ter nada que ver com isso. Pode simplesmente preferir usar um vestido, sem isto carecer de psicanálise. Realmente, e não me acusem de politicamente correto, se uma mulher pode usar calças, porque não pode o homem usar um vestido ou saia, se assim entender?

Quando era mais novo, lembro-me de dois dias em que experimentei coisas de senhora. Vesti um vestido, calcei uns saltos e pintei-me, ou borrei-me, de maquilhagem. Noutro, depilei tudo, até as sobrancelhas. Não tinha esta referência da minha mãe, ela apenas tinha os sapatos de salto guardados, nunca usou a bendita maquilhagem, com muita pena minha. Eventualmente, começou a pedir-me que lhe tratasse da manicura e, isso sim, foi um tiro pela culatra. 

A verdade é que quando vi o resultado não gostei, continuava a identificar-me com as roupas de sempre. Se tivesse sido doutra forma, acho que não haveria ninguém capaz de lidar com isso à minha volta, o que teria tornado tudo ainda mais complicado. 

Será que temos mesmo de ensinar a complicar a vida dos outros? Quando digo complicar, não estou a colocar em pé de igualdade o sentido crítico. Devemos questionar o que nos rodeia, e procurar saber mais. Nunca escolher isolar-nos a nós, ou outros, de uma questão que merece ser compreendida. Desconstruir, desconstruir, desconstruir. 

Para responder, pelo menos hoje, a uma questão que coloco aos outros, se o seu filho quiser experimentar um vestido, tem que agir com a naturalidade com que o deixa brincar com um carro, ou permite que leve a camisola azul para a escola novamente. Ninguém fez nada errado, apenas vamos todos crescer para ser o que sempre fomos, e é mais fácil se houver sempre apoio.

 

Deixo-vos a entrevista com os pais, à BBC:

 

 

 

10
Ago16

A minha Ilha está a arder


Leonardo Rodrigues

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 Foto: Gregório Cunha/Lusa

 

Por uma panóplia de razões tenho estado ausente do blog, mas não há plataforma melhor para manifestar-me perante os eventos mais recentes.

 

Ontem, nas últimas horas do dia -  que decidi que terminava pelas duas da manhã de hoje - não conseguia tirar os olhos da televisão. Tinha companhia, mas também não me apetecia dizer nada. A minha ilha ardia e eu só queria ouvir: a situação está controlada, não existem moradias nem pessoas em risco. À medida que o tempo ia passando apercebi-me que não ia ouvir o que queria: mais moradias ameaçadas, cada vez mais pessoas a serem evacuadas, enquanto outras tantas casas eram galgadas pelo fogo. Até o impensável aconteceu, o fogo passou a estar dentro da cidade, em várias zonas, sem que houvesse meios suficientes para cobrir todos os novos casos.

 

A omnipresença só a deus compete, bem sei, mas não o vi por lá - problemas técnicos, quiçá. Cheirava e sentia-se o inferno, não se via o céu. Os jornalistas diziam e nós viamos: "cenário dantesco", o "fogo maldito".

 

Isto já aconteceu antes. Não com fogo, mas com o elemento oposto, a água, no dia 20 de fevereiro de 2010. Estava no Funchal nesse dia, num centro comercial que acabou por ficar inundado, e vi o desespero de frente. Não perdi nem a vida nem bens, só precisei aguardar pela noite para sair da cidade.

 

Nem todos foram tão afortunados e muitos madeirenses precisaram perder tudo para que finalmente os "senhores lá de cima" começassem a tomar medidas preventivas -  umas mais eficazes que outras, sejamos honestos. Precisámos dessa catástrofe para começar a olhar para as ribeiras de uma outra forma, para perceber que uma ilha com a nossa orografia é mais exigente.

 

Como ouvi a filha do José Saramago dizer ontem, o governo não fez a sua parte. Há muito que o governo e os seus tentáculos na Madeira não fazem a sua parte. Os fogos em 2013 foram um aviso ignorado. Agora, em pleno agosto de 2016, são mais de mil deslocados, dezenas de casas ardidas e três mortos. É esperar que os bombeiros façam o impossível e que, depois, tomem uma atitude preventiva em 2019. A prevenção tem de começar agora, hoje, em todas as zonas suscetíveis. Agosto nem a meio se vai!

 

O primeiro ministro diz, com razão, que os fogos não podem ser apenas combatidos quando já deflagraram, o combate tem de começar antes. Há muito que dizemos isto, mas temos uma ilha e um país a arder. A natureza tem o seu quê de responsabilidade, mas é um "quê" que quase não se ouve - 1%, abutres!

 

Hoje, na RTP, falava-se da condição humana, afinal 99% dos fogos não têm causas naturais - leia-se: há mão de homens, sim, com h minúsculo. No Funchal já foram detidas várias pessoas. Enquanto a cidade ardia, duas pessoas foram apanhadas pela polícia a atear fogo - informação avançada pelo presidente do governo regional na conferência de imprensa desta manhã. É verdade, algumas pessoas numa ação que dura minutos conseguem destruir o que demorou vidas a construir. Para além da prevenção, parece-me que a justiça não consegue impedir que estes seres voltem a cometer tamanha atrocidade.

 

Negativismo de parte, não se esqueçam que há muita solidariedade, entre madeirenses e portugueses no geral. Um exemplo que vi ontem que pode parecer banal para alguns, para mim teve uma força brutal. Enquanto um homem, em entrevista, explicava o que ardia, um jornalista perguntou-lhe se o animal que tinha debaixo do braço era dele, ele disse que não, que encontrou a arara na rua. Estamos unidos, com vontade de ajudar tudo e todos.

 

Sei que a maior parte das pessoas a quem este texto vai chegar sente-se impotente, mas todos podemos fazer alguma coisa, sem correr riscos. Se estão na Madeira, comecem por acolher amigos em necessidade e os animais que andam à solta. Se não podem fazer isto, talvez possam contribuir com bens essencias. Se sim, desloquem-se ao RG3, na Nazaré. Não precisam de criar pânico, só mostrar que estão lá. Aos que, como eu, não estão e querem ajudar, a Caritas reforçou ontem que podem contribuir para o seguinte IBAN: PT50 0035 0697 00597240130 28.

 

15
Jun16

Eu sou gay


Leonardo Rodrigues

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Estamos em 2016, isto deveria significar que progressos civilizacionais aconteceram. Li e reli notícias, escrevi uma, vi vídeos, li crónicas e comentários, mas ainda não sei bem o que penso do que aconteceu em Orlando, do que está a acontecer no mundo, connosco. Desta coisa de matar porque alguém é, age, pensa e sente diferente de nós. Não sei porque não percebo. Já tentei fazer o exercício de me colocar nos pés de um agressor, não fez sentido.

Hoje não me cruzei com ninguém igual a mim na rua, no autocarro nem no trabalho. Ouso arriscar que tínhamos todos pensamentos, tons de pele, roupas e, quem sabe, impressões digitais diferentes. Não senti que tinha de violar o espaço de ninguém, apontar um dedo, e dizer "essa cor de pele não serve, fica-te melhor o tom acima". Não me diz respeito. Não tive nada que ver com o facto ter olhos castanhos, quanto mais com os olhos do vizinho. A maior parte das nossas caraterísticas transcendem-nos. Sim, tomamos decisões aqui e ali, mas para nós, não temos de o fazer pelos outros. Quanto mais apontar uma arma! Puxar o gatilho! Tirar uma vida que não é nossa!

De tudo para o que olhei, há algo que me persegue continuamente, ver os SMS que alguém no clube Pulse trocou com a mãe, depois de lhe dizer que a amava, para lhe dizer que ia morrer. Nem teve a oportunidade de se despedir. A imagem que me vem à cabeça é poderosa, mais forte do que o miúdo que apareceu morto na costa de Kos. Arrepia-me. Neste lugar consigo colocar-me. Ver-me obrigado a abandonar a vida, o que amo e quem amo porque alguém prefere odiar, sem dizer adeus. Dos medos que me restam, esse é um.

Disse que era Charlie, mas não era, era apenas pela liberdade de expressão. Hoje escrevo que, para além de "ser" olhos castanhos, sou gay - sou mesmo. Ser gay, para alguns é algo de aberrante, mas é só gostar de pessoas mais parecidas comigo. Também demorei a aceitar a simplicidade disto. Para além do que prefiro, sou tantas mais coisas e quero sê-las todas, sem volta e meia sentir necessidade de dizer que as sou porque mataram alguém por ser. Não quero amanhã dizer que sou Lisboa. Quero que sejam e deixem ser tudo, desde que isso não interfira com o bem estar e a Vida de outros.

Não têm de dizer que são gays, não têm de ser nada para além do que são, mas a verdade é que, hoje, manter uma hashtag nos trending topics é manter um assunto a ser discutido. Já que o massacre não foi mais importante do que futebol nas capas dos jornais que, pelo menos, seja debatido. 

11
Mai16

Sergey Lazarev, és de que Rússia?


Leonardo Rodrigues

Bem. Sendo este um blog de uma índole mais pessoal, não costumo pronunciar-me muito relativamente ao que se está a passar na comunicação social. No entanto, qual não foi a minha surpresa quando, hoje, abro uma notícia que dá conta de declarações feitas por Sergey Lazarev, o participante russo na Eurovisão. No seguimento de questões relacionadas com a vida dos homossexuais na Rússia, ouve-se: "são rumores", "podem sentir-se seguros no nosso país". Mentira, o rapaz tem passado demasiado tempo no ginásio. Para além de na Rússia terem sido implementadas leis "anti-propaganda gay" - signifique isto o que significar - , temos, em Portugal, prova viva de que assim não é. Essa prova chama-se Margarita Sharapova, uma escritora russa que pediu asilo político ao nosso país em Janeiro de 2013. O motivo? "A liberdade começou a ser sufocada quando Putin chegou ao poder. A máquina do Estado, lenta mas determinadamente, começou a voltar para trás, a lembrar os tempos soviéticos. Todos os meus livros voltaram a ser proibidos. Qualquer um dos meus contos, histórias, novelas sobre qualquer assunto, passaram a ser rejeitados pelos editores. Nos créditos dos filmes onde eu era argumentista, retiraram o meu nome. Tive vários prémios literários, sou membro a União de Escritores, mas o meu nome já não é possível de encontrar. (...) Eu amei uma mulher. Conhecia-a há muitos anos, desde os meus tempos de juventude no circo. Ela era acrobata. Nós passámos a ter muitos problemas depois de sair uma lei sobre propaganda gay. Uma vez fui atacada junto a um clube gay por um grupo de neonazis que me partiu o nariz. Um dia, após um festival de cinema LGBT, a minha companheira foi espancada pela polícia e pouco depois morreu. (...) Agentes (...) aconselharam-me a sair rapidamente do país porque poderia ser presa por qualquer motivo." Nesta citação de uma entrevista dada ao Expresso fica tudo dito. A situação está tão má que se verifica uma segunda vaga de refugiados LGBT. Aproveito para dizer que a escritora aceitou o meu convite para participar numa entrevista, que deixarei brevemente aqui no blog. Confesso que sigo religiosamente o festival e que o russo estava nos meus favoritos. Contudo, não posso torcer por alguém que mente à imprensa internacional sobre uma temática tão sensível. Chamem-me anti propaganda russa. Em baixo deixo-vos o trailer de um documentário que deixa tudo preto no branco.

 

OLYA'S LOVE from Soleil Film on Vimeo.

01
Fev16

Passatempo De Mão em Mão: Número Zero, Umberto Eco


Leonardo Rodrigues

Mesmo com um budget quase inexistente, lembrei-me que também posso fazer um passatempo cá no blog. E que melhor do que livros para começar?

 

Ultimamente tenho-me sentido inspirado por tudo, em grande parte devido às minhas férias de quase dois meses.

 

Na semana passada foi altura de ser inspirado por um caixote que encontrei na rua mal saí de casa. Claro que não era um caixote qualquer, estava recheado de livros, acompanhado de um papel que indicava que os livros estavam ali porque já tinham cumprido o seu propósito e que era altura de os passar para outras mãos, dizendo "Free Books/Livros Grátis". Gostei de ver como um caixote com livros, àquela hora da manhã, fez interromper o passo apressado de muitos lisboetas e os colocou a trocar sorrisos e a falar uns com os outros.

 

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Aproveitei esta oportunidade para expandir a minha biblioteca ficando com uma edição de 2004 do livro "Burned Alive", partilhando a ocorrência na minha conta do instagram.

 

Muitos dos meus livros também já cumpriram o seu propósito, podendo ter sido isso ajudar a aquecer numa noite fria de inverno ou distrair-me da confusão que é o metro. Agora estão só a apanhar pó, humidade, e raramente os consigo reler, ora porque estou sempre a adquirir outros, ora porque a bibliografia da faculdade não me permite. Mas o meu maior problema não é ter livros que já só servem para enfeitar, é mesmo mudar-me de casa com eles, visto ter mais livros do que roupa.

 

Como não tenho coragem de os deixar na rua, ao sabor do vento e da chuva, a partir de hoje passo a ter este passatempo chamado De Mão em Mão, permitindo-os passar para outras mãos, na esperança que o novo dono perpetue a vida do livro, de mão em mão.  

 

O primeiro livro que quero partilhar já conta com um post, que podem ler aqui e é, como o título deixou claro, Número Zero, de Umberto Eco. 

 

Para ganharem o livro só têm de fazer isto:

  1. Colocar gosto na página do Blog no Facebook, aqui.
  2. Comentar a ligação do passatempo, no Facebook, com "Eu quero".
  3. Partilhá-la.

 

O vencedor(a) será escolhido aleatoriamente -  através de random.org - e anunciado na próxima segunda feira, dia 8-2-2016, na página do Facebook e, posteriormente, contactado por mensagem privada. Boas partilhas, boas leituras!

31
Jan16

Número Zero, Umberto Eco (Spoiler Alert)


Leonardo Rodrigues

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Umberto Eco, semiólogo, filósofo e romancista italiano regressa às livrarias portuguesas com Número Zero, livro de ficção editado pela editora Gradiva.

 

O livro acaba por não ser apenas, como muito se escreveu, sobre o jornalismo nos dias de hoje e a sua doença - há muito diagnosticada como sensacionalismo - , mas também, sobre a sociedade - que adotou uma postura de passividade - e de que forma o jornalismo acaba por ser o seu espelho, vendendo-se tanto aos leitores como aos interesses dos poderosos que detêm os meios de comunicação.

 

Eco, para tais denúncias, leva-nos para o interior de uma redação piloto de um jornal que não saiu, que não é suposto sair e que, para não haver esperança, não sairá. O hipotético periódico teria como nome Amanhã. No Amanhã, como em qualquer outro jornal, falar-se-ia do ontem que já todos conhecemos pela televisão, mas, e aqui está o seu fator de diferenciação, ao invés de se fazer um retrato fiel do que foi, especula acerca daquilo que será amanhã, dali a uma semana ou até um mês, com tanta certeza que poderia ser um “oráculo”. O objetivo do jornal, ou melhor, os números zero deste jornal é o de intimidar os poderosos de tal maneira que deixe o seu financiador - o Comendador Vimercate - fazer parte do clube restrito. Se deixarem, não se publica o jornal, a missão é cumprida, mas publicar-se-á um livro igualmente duvidoso, assinado pelo diretor.

 

Este livro é a razão de ser do protagonista que, num livro de Eco, não poderia caber senão a um perdedor, o Dr. Communa, - um doutor que nem a licenciatura acabou porque, como sabemos, a culpa é sempre do outro. A sua função, enquanto doutor na arte de perder, é escrever um livro sobre todo o processo de gestação daquilo que que nunca irá nascer - omitindo este facto - para, a posteriori, ser assinado por outro, perdendo mais um pouco também aqui.

 

"Os perdedores, tal como os autodidatas, têm sempre um conhecimento mais vasto do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não podes perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deviam."

 

Como os outros que perdem, sonhava em escrever um livro que lhe desse fama e glória, mas parece que também não era uma grande escritor uma vez que para escrever tinha que citar em demasia e ninguém está para ler algo que necessite de enciclopédias para descortinar. A erudição e a cultura, tal como o diretor recorda a um redator, não vende: "temos de falar a linguagem do leitor, não a dos intelectuais [que estão em menor numero].”

 

À primeira vista, com apenas a sua versão das coisas, não conseguimos perceber se este é simplesmente paranóico, depois, com o andamento do livro, começamos a achar que a sua paranóia teve toda a razão de ser, até que acabamos por concordar que não há necessidade porque temos todos memória curta, somos cada vez mais uns vendidos e podemos descansar.

 

Voltando à redação, falemos do diretor, Simei, que desperta em Commona a seguinte descrição "No género x é um deus. X é o género em que x é merda." Os seus reparos, correções, exercícios e dicas assim o comprovam. Naquele jornal aprendia-se a desmentir o desmentido deturpando a realidade com a "realidade". Até quem escrevia os horóscopos, não tendo autorização para seguir os astros, seguia, a seguinte instrução, "vá ver as revistas e jornais que publiquem [...] e retire deles padrões recorrentes [...] otimistas, as pessoas não gostam de ouvir que vão morrer de cancro". Embora o prefácio não o adivinhe - porque enquanto capítulo seria o penúltimo -, o livro poderia ser intitulado d"O Grande Manual das Más Práticas Jornalísticas". Os  públicos dos jornais emitem muitos julgamentos acerca dos jornalistas, mas estes depois de formados, mesmo que saibam o que deve ser feito são reensinados pelos superiores a fazer um jornalismo que agrade a maioria, que não perturbe muito, que venda - mais do que para subsistir, para enriquecer.

 

Mas, enfim, de um jornal composto por fofoqueiros como Bragaddocio e Maia - únicos dos seis redatores que mereceram páginas para se apresentar no livro - , um diretor que conspira por ganância e um perdedor compulsivo, não se pode esperar muito.

 

No fim, por onde começou o início, e saltando a conspiração que Eco escreveu tendo como base factos que nos escandalizam enquanto leitor porque não sabíamos ou não nos lembrávamos, tudo acaba como o leitor eventualmente dá por si a querer. O herói, perdedor nato, pode não ficar com tanto dinheiro como era suposto, nem com a mais ínfima possibilidade de algum dia se ver publicado, mas, aos 50, ganha o amor, que é um outro tipo de reconhecimento, invertendo a sua sorte. Agora é esperar que os jornais também consigam inverter as suas sortes, embora os prognósticos de Eco, na voz de Maia e Commona, não sejam ótimistas.

 

Um livro a não perder, que irei oferecer num passatempo muito em breve. Fiquem atentos ao facebook!

 

22
Dez15

É Natal, é Natal, Não Vai Nascer Jesus


Leonardo Rodrigues

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Em vésperas de Natal, por mais que já tenha sido feito, não se pode deixar de falar da festividade, é o passado a tornar-se novamente notícia, ciclicamente, não fosse assim toda a História.

 

Estamos habituados a celebrar o 25 de dezembro porque é tradição e é difícil resistir-lhe. A sorte é que esta é daquelas tradições que se demarcam pela positiva e que tem a capacidade particular - ainda que caridosamente cedida pelos governos - de, numa época em que ninguém tem tempo para nada, parar relógios, em Portugal e em todo o mundo

 

É certo que nem todos vão na canção de Natal e, cada vez mais, estamos a assistir a uma descrença na data, basta perguntar aos amigos e estar atento às conversas de café: "O natal deveria ser todos os dias"; "A vida corre mal e não se pode festejar por festejar"; "É símbolo máximo do capitalismo, só serve para gastar dinheiro"; "O Natal tem que ver com religião e ateu que se preze não pode compactuar com semelhante coisa".

 

Sim, pessimistas, o capitalismo não se chateia com o Natal e até agradece o empurrão, mas há que relembrar que poucos podem dar constantemente - uma ou outra data para dar (e receber) é a dose anual recomendada para os bolsos. Também, e segundo consta, o Natal nas suas origens não tinha nada que ver com a religião - monoteísta- , que o diga a História, e agora muito menos, que o digam as pessoas.

 

Ouvindo a História, se recuarmos a antes de Jesus Cristo nascer - e morrer -, já era celebrado a 25 de dezembro o nascimento - natalício - de um morto, Nimrode, considerado um messias, e filho do deus sol. A iniciativa de tal festividade veio da sua mãe-esposa, que também decidiu ser da vontade do filho que os presentes fossem colocados junto de uma árvore. Festejar o nascimento de algo, a árvore, e outros tantos elementos vem de costumes pagãos, de tempos em que se acreditava haver mais do que um deus.

 

Algumas pesquisas sugerem, tendo a Bíblia em consideração, que Cristo não poderia ter nascido a 25 de dezembro. Em Lucas 2:8 podemos ler "... havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho". Tal coisa nunca acontecia em dezembro, sendo que em meados de outubro já os rebanhos tinham sido retirados para ficarem protegidos do clima dos meses que se seguiam.

 

No segundo século do nosso tempo, de forma a unir cristãos e pagãos, as datas fundiram-se, prevalecendo, agora, apenas o 25 de dezembro dos cristãos católicos.

 

Quanto às pessoas, constata-se também um distanciamento, relativamente à religião católica. Ao questionar muitas pessoas as suas motivações para praticar o natal poucos responderam de forma elaborada, isto ou porque a pergunta foi lançada numa rede social e ninguém está para arranjar uma tendinite ao desenvolver o pensamento ou porque o Natal é assim tão simples. O que é certo é que ninguém respondeu “religião” - isso parece já só ser válido nas janelas que vemos ao andar pelas ruas de Lisboa doutros tempos em que o natal é sinónimo de menino Jesus.

 

Atualmente, mesmo perdendo a conotação religiosa continua a significar, para a maioria dos questionados, "amor", "alegria, "família", "união" e, sinceramente, “tudo o que quisermos que seja”.

 

O mundo está a encarar o natal como uma data que permite que uma família, aqueles com quem têm laços de sangue e outros com relações que ultrapassam questões de sangue, se sentem em torno de uma mesma mesa, talvez pela primeira vez no ano, para falar, rir e aproveitar o presente do presente.

 

Para alguns, não se trata apenas de reencontrar o irmão perdido, "por vezes é mesmo reconciliar".

 

Das melhores recordações que partilharam, há que salientar estas: "quando em pequena vi o Pai Natal pela primeira vez.”; “Beber cerveja a bordo de um tuk tuk em Changai”. Ninguém respondeu cruzar-se com Jesus, nem como adulto nem como recém nascido, embora em algumas casas se diga às crianças que o senhor está a visitar, ninguém o parece ter visto. Também ninguém relembrou a missa do parto - tradição religiosa de Natal da Ilha da Madeira e do Porto Santo - que lhe transformou a vida.

 

Dos que não mudam de temperatura com o Natal, há quem seja mais prático e vá mais longe: "embora o natal seja alegria, amor e gratidão nem é assim tão importante, o que importa, sim, é o ano novo e as oportunidades que poderão estar para surgir."

 

Por fim, que se faça uma menor correção na canção: É natal, é Natal/Não vai nascer Jesus.

 

E para vós, o que é o natal?

11
Out15

Entrevista a Saramago, das artes visuais


Leonardo Rodrigues

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Tal como recentemente prometido no Meet the blogger, cá está a entrevista que tive o gosto de fazer a João Saramago. 

 

O João, para além de ser quem desenhou a chávena de onde bebo café todos os dias, concebeu o logo do meu blog e é, para mim, outro Saramago, mas das artes visuais. Não me vou estender mais com uma introdução desnecessária quando há uma conversa que quer falar por si.

 

LR: Para quem não te conhece, qual a melhor descrição de quem és, enquanto pessoa e artista - se é que estes se separam?

JS: Um tipo calado, gosto de preservar o meu espaço e isolação e, ao mesmo tempo, atraem-me os contrastes, as multidões e o caos. Não sei sinceramente se existe alguma separação, penso essencialmente que somos ou estamos a ser qualquer coisa em qualquer momento em qualquer sítio, mutáveis.

  

LR: Abandonaste o ensino superior para seguir uma carreira. Ainda achas que essa foi uma boa decisão?

JS: Por vezes debato-me se tirasse um curso de ilustração ou pintura que o meu rumo seria diferente por estar dentro de um circuito e de ter mais oportunidades de carreira, porque conheces o amigo do amigo que te põe a ilustrar para um jornal. Mas pagar para ter atenção é uma acção desesperada. Enquanto a minha intenção não for aprender novas linguagens, meios e técnicas, prefiro não o fazer. É desonesto e uma perda de energia e também não me interessa decorar o currículo em prol de validação ou credibilidade. Tomei a decisão de abandonar a licenciatura por três motivos: dinheiro, desinteresse e tempo. Até hoje, a aprendizagem é constante, pois tens que ter disciplina e foco e fazer a manutenção dessas coisas, porque nem todos os dias te apetece desenhar. E quando tens um emprego, tens que "criar" tempo para trabalhar naquilo para que nasceste ser.

 

LR: A vida tem sido fácil com aquilo que te reservou?

JS: Não, tem sido desafiante. Não vivo da pintura nem da ilustração como gostaria. Trabalho num restaurante, pinto e desenho todos os dias. Contudo, estou feliz neste momento. Sei que as coisas levam o seu tempo e que só tenho que me manter focado e fazer. "Fazer" é importante.

 

LR: Qual o maior obstáculo que encontraste até hoje no percurso da tua carreira?

JS: Gostava de conseguir trabalhar mais rápido. Por vezes fico ansioso quando estou a pintar por olhar para o papel e ver que ainda falta bastante. Os meus trabalhos são demorados e reflexivos. Queria conseguir executar mais, mas é exaustivo. Creio ser um obstáculo diário fazer a gestão e manutenção de um estado produtivo e ainda encontrar a diversão nisso, pois nem sempre é divertido pintar, por vezes é extremamente exaustivo. Mas, quando o trabalho está terminado, não encontro sensação semelhante, é uma grande satisfação.

 

LR: Quando te contratam é fácil manteres a tua identidade num trabalho?

JS: Creio que sim, embora a identidade seja o eterno conflito. Dou por mim muitas vezes a pensar o que é que vou fazer, o que é que vou acrescentar de novo, e ao fazer pesquisa encontro trabalhos que por vezes me deixam frustrado mas, volto a mim e faço as perguntas de outra forma, o que é que me dá mais gozo fazer? Rapidamente apercebo-me do meu estilo e decido vou aperfeiçoar isto. Esta é a minha identidade. Gosto de trabalhar com esferográfica, depois de estar feita a pintura, de realçar os pormenores e criar formas elásticas e entrelaçadas, de encher a folha. Gosto do exagero e de encontrar beleza nisso. Ultimamente tenho estado obcecado por desenhar formas derretidas, vem-me sempre à cabeça as camadas de cera derretida, gosto disso.

 

LR: Parte do teu trabalho é duma natureza mais abstrata, do tal exagero que encontra a beleza. Mas há mais do que isto no teu trabalho, muitas das linhas assumem formas mais concretas, de rostos, figuras públicas e prédios, alguns parecem gritar. Que pretendes tu realmente gritar com o que produzes?

JS: Não sei. Não racionalizo enquanto pinto, nem tão pouco parto de algum conceito. Parto sempre da emoção. Quando tenho material suficiente para parar, gosto de ficar a pensar e é quando os conceitos brotam. E aí sim, posso desenvolver a coleção e a mensagem. Acho que todo o meu trabalho reunido é um ensaio para qualquer coisa senão uma coisa só.

 

LR: Os social media assumem cada vez mais um papel de relevo nas nossa vidas. Como é que estes se relevam para ti, enquanto freelancer?

JS: As redes sociais são um mais uma forma de divulgação. Por vezes pode ser um pouco intrusiva e perigosa até. Costumo ter uma postura muito clínica e fria no sentido em que não me deixo afectar pela relação de quantos mais likes, mais credível e aprovado estás. Elaboro estratégias e experimento fórmulas para comunicar e aproximar-me das pessoas. A intenção é mostrar o trabalho, não obter validação.

 

LR: Em que é que estás trabalhar neste momento?

JS: Recentemente, fiz alguns desenhos que nasceram de uma necessidade de disciplina e método e reuni-os numa coleção. Essas pinturas tornaram-se exercícios de meditação, cujo objectivo principal era o foco. Depois, calhou ser chamado pelo Gerador para participar na 2ª edição do Trampolim e pintar o tema "voar com os pés assentes no chão". Senti de imediato a ligação com o tema, pois fui apanhado numa fase em que estava - e continuo a estar - interessado nos significados de expansão e dispersão, que brotaram desses desenhos. Achei que tudo fazia sentido. Então, estou neste momento a finalizar a pintura de uma sala num palacete no príncipe real e, vai estar aberto ao público gratuitamente no dia 10 de outubro, este sábado.

 

O João já tem a sua loja online disponível, visitem aqui

 

Podem também ler as outras Conversas com Vista, clicando nos nomes abaixo:

 

Paulo Borges, Professor

Samuel Pimenta, Escritor 

 

 

04
Out15

A arte fez o seu coming out, em Lisboa


Leonardo Rodrigues

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@rubenandresantos 

 

A arte, depois de o fazer em Londres, fez o tão difícil coming out em Lisboa. 

 

Desde o dia 29 de outubro que 31 pinturas se espalharam por Lisboa. Devido ao nome da inciativa, pode importar esclarecer que não saíram de nenhum armário e muito menos saíram das paredes dos museus. Saíram, sim, as suas reproduções, para as ruas.

 

Sendo que a maioria de nós não percebe de pintura, nem vai muito a museus, é fácil confundir-se estas reproduções com as obra-primas originais devido à sua elevada qualidade - até já levaram uma para casa. Quando toquei num dos quadros - sim, português toca para ver - alguém escandalizado muito prontamente me informou que não se pode tocar em obras de arte. Ri-me, se não fosse o Facebook no dia anterior talvez tivesse a mesma reação.

 

Acho a iniciativa do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) fantástica, de louvar. Todos os coming out públicos são importantes e espero que este sirva para que o público dos museus seja cada vez maior e mais diverso. 

 

Se quiserem vê-las - e tocar, sem trazer para casa -, basta passarem pelas ruas do Chiado, Bairro Alto e Princípe Real. E, se não houver tempo nem disposição para grandes explorações, podem encontrar o mapa da exposição aqui.

 

Ah, e o Rúben também aprovou a iniciativa...

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 @leonismos

 

 

 

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