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LEONISMOS

LEONISMOS

27
Jun16

Surreal é a própria vida: próxima exposição de Thomas Mendonça


Leonardo Rodrigues

 

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As imagens têm um poder imediato que a palavra só pode ambicionar. Numa entrevista anterior, Thomas Mendonça falou-me da sua vida, de onde vem a sua estética, os porquês disto e daquilo, mas, só com o visionamento destas fotografias, que remontam ao início, nesta viagem pelas suas memórias, é que tudo fica claro e as peças do puzzle se unem: a mistura do pop com o “sério”, as brincadeiras de género e o surreal - que às tantas é bem real. Cuidadosamente retiradas de uma caixa de lata vermelha e dispostas sobre a sua cama, as fotografias de Thomas revelam uma infância onde se respirou surrealidade. Uma mãe que parece a Lady Di, um pai que só pode ter resultado dum cruzamento entre James Dean e Brad Pitt, o tio que decide ser apropriado vestir-se de mulher no final de ano. É notória uma forte presença de marcas que, já nos anos 90, estavam impregnadas nas nossas mentes como a Barbie, Mickey, Planet Hollywood e, ainda, pessoas vestidas de personagens do nosso imaginário coletivo como o Zorro e Bugs Bunny. É nestas fotografias que o Thomas pega para criar os desenhos da sua próxima exposição, “Surreal é a própria vida”, dando-lhes uma nova vida com contornos que realçam o surreal das mesmas, mantendo-se fiel à sua estética. Para além da visita guiada pelas suas memórias, o Thomas concedeu-me uma entrevista que já podem ler no dezanove, aqui.13530372_1872675279626485_663222540_n.jpg13553362_1872674996293180_446026029_n.jpg13552557_1872675269626486_360597231_n.jpg13553396_1872675276293152_904353251_n.jpg13552529_1872675249626488_1242439143_n.jpg

29
Mar16

A não perder: Poríferos Preciosos, de Thomas Mendonça


Leonardo Rodrigues

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O artista plástico Thomas Mendonça está de volta com uma nova exposição. Relembrem a entrevista que lhe fiz aqui.

 

A 19 de março foi dia do Thomas inaugurar, pela primeira vez, uma exposição de cerâmica, que intitulou de Poríferos Preciosos - e que preciosos, devo dizer!

 

A exposição irá estar aberta ao público até dia 31 de março no Museu Geológico - um museu fantástico que me parece um pouco esquecido pelos lisboetas e pouco visitado por quem só está de passagem.

 

Depois de percorrido um corredor ornamentado de fósseis naturais, entramos numa sala onde estão os dos nossos tempos, feitos por um artista - a natureza já não tem tempo para essas coisas.

 

Na inauguração, consegui trocar mais umas palavras com o artista e, claro, dizer-lhe que estava a ver y, para ele me dizer que era mesmo x, o que aprecio.

 

Estas peças delicadas que expõe têm o mar como musa, mais concretamente os seres esponjosos, pertencentes ao reino da porífera. Contudo, como sabem, o trabalho de cerâmica do Thomas não tem só fora, também tem dentro. No interior das mesmas toca sempre uma música, a música do dia - que pode ser algo da rádio, um estado de espírito ou apenas uma piada.

 

Como toca a música dentro das peças? Bem, não toca de forma literal, podemos simplesmente ter a certeza que tocou a dada altura e que lá está escrita, umas vezes é legível, outras não por estar completamente coberta. Isto é algo que não passou despercebido nem aos mais novos, que espreitavam curiosos o interior das peças, tentando ler o que lá estava e, tal como eu, ficando mais intrigados ainda com aquelas que estão completamente fechadas, sem nos deixar saber o que tocou naquele dia.

 

Não hesitem em por lá passar os olhos e deixem-se mergulhar na Porífera criada pelo Thomas!

 

Para verem e conhecerem mais do seu trabalho visitem o website e a página do evento.

02
Mar16

Entrevista a Thomas Mendonça, parte II


Leonardo Rodrigues

A conversa com Thomas Mendonça, que começou assim, seguiu-se desta forma. 

 

LR: No caso da cerâmica há sempre um esboço, não começas a trabalhá-la só porque sim.

TM: Seria impossível fazê-lo. O impulso de pagar na cerâmica parte do principio que há uma ideia. Preciso de ter algum conhecimento sobre a cerâmica em si para a poder trabalhar. Não poderia ser de qualquer forma. Quando pego na cerâmica sei que terei de ter cuidado com alguma coisa, seja por causa da cozedura, seja pelos tempos de secagem, o que condiciona muito o que vou fazer. Tal como o desenho, não é uma ideia de todo fechada.

 

LR: Na fase inicial de criação tens sempre em vista a final, aquela em que expões?

TM: Sim, sempre que começo qualquer coisa tenho consciência que ela será vista ou partilhada.

 

LR: De que forma é que te condiciona, se é que te condiciona?

TM: Condiciona-me na forma óbvia, sabendo que será exposta. Foi feita para ser mostrada, há sempre uma intenção. Tenho vontade de as mostrar, se não tivesse essa vontade de partilhar não as faria. Ou não as faria para os outros, faria só para mim. Há uma vontade de comunicar algo.

 

LR: Chegas a ter medo do que as pessoas vão pensar acerca do teu trabalho?

TM: Não tenho medo, por vezes algum receio das opiniões, mas não é algo em que fique a pensar. A história dos gregos e dos troianos é um bocado para justificar estas coisas. Irei ter amigos e inimigos de qualquer forma, portanto há que ser genuíno e sincero. É a única forma de termos amigos e inimigos sinceros, que também são necessários.

 

LR: Os trabalhos artísticos não contam sempre uma história ou fazem uma crítica.

TM: Pois não, às vezes têm um caráter mais reivindicalista, noutras simplesmente estou aqui. Mas há sempre uma vontade, um propósito, por vezes é mais digno ou necessário. Por vezes, acontece ser só uma piada que acho que pode ser giro alguém olhar para isso e pensar "que estupidez". Às vezes são coisas mais sérias.

 

LR: Tens por hábito incluir elementos menos sérios, mais populares no que fazes, mesmo que só uma frase.

TM: Não são menos sérios, são o que são. Têm uma conotação popular e há muitos preconceitos sobre a pop, que é vista como uma coisa básica, fácil, consumista. Não vejo problema. As pessoas querem muito ser intelectuais. Eu também quero, acho que sou uma pessoa intelectual e interesso-me por muitas coisas. Interesso-me por Chopin, mas também gosto de ouvir Miley Cyrus. Sinto-me uma pessoa mais rica, mais eclética por isso.

 

LR: Consideras que essas coisas se unem? 

TM: Sim, porque temos dum lado uma coisa classicista, mas alguma forma muito popular. É requintada e tem mais brio. As coisas clássicas são muito vulgarizadas. As representações religiosas são clássicas, mas também são coisas muito vulgares, pop na mesma, imagens muito banais.

 

LR: Numa outra entrevista disseste que a Barbie e a figura de Cristo eram muito semelhantes porque as temos tão enraizadas em nós.

TM: Na nossa cultura, na cultura ocidental, são duas imagens muito fortes e muito presentes.

 

LR: Tão presentes que se tornaram vulgares?

TM: Lá está, uma coisa cultural. Eu não sou religioso, mas digo "oh meu deus". Olho para as imagens de Jesus Cristo e são banais. Tenho coisas dessas em casa e adoro ter. Também tenho um Cristo vestido de Barbie. Os ícones têm uma singularidade que acho muito tocante, de uma beleza trágica. A sua singularidade é trágica. O que é que há de mais banal do que um Cristo vestido de Barbie? Não há.

 

LR: Não achas que isso pode ser ofensivo para algumas pessoas?

TM: Percebo que possa ser, mas não o faço com essa intenção. As pessoas gostam de se chatear. Se todos os cristãos - que se sentem ofendidos - fossem a pensar, que diferença é que isso lhes faz? Não faz.

 

LR: Já vimos que a tua espiritualidade nada tem que ver com a religião, mas existe alguma?

TM: Existem algumas coisas mais ocultas em que tenho bastante interesse. Coisas que não percebo muito bem, mas que gosto de brincar. Interesso-me muito por astrologia, tarô, mas sempre numa abordagem muito descomplexada.

 

LR: Isso vê-se no teu trabalho?

TM: No meu trabalho e na minha vida. Tenho sempre uma abordagem que pode parecer provocadora, mas não é. É uma forma de quebrar o gelo e de rir um bocado sobre as coisas. É tudo tão sério, tudo tão chato e há coisas igualmente sérias e importantes ao mesmo tempo. Falar das coisas com naturalidade!

 

LR: Que a arte faz tão bem...

TM: Há muita facilidade na arte, mais facilmente um quadro vem a quebrar padrões do que uma entrevista que saiu num jornal. Tolera-se mais facilmente coisas no mundo das artes plásticas e visuais. Porque não aproveitar isso?

 

LR: Ainda sobre o vulgar, não achas que tenha de ser feio, nem menos bom e acabas por incluir isso nas tuas peças...

TM: Vou buscar muitas referências visuais à cultura pop, mas não me considero preso a isso. Gosto do clichê de algo muito banalizado, de coisas pirosas. A minha tia tinha umas cortinas horrendas dos anos 80 que adorava, eram umas de veludo cor de rosa bebé, com montes de laços e dobras.

 

LR: Isso influencia as texturas? Como é que as encontras?

TM: Tem que se riscar a peça. É uma coisa que gostei muito de fazer e que agora vou experimentando. Um desses padrões, pensei eu, parecem ser lágrimas, e veio-me uma piada "cry me a river, cry me a mountain, cry me a calhau" - porque aquilo são pedras.

 

LR: E a exposição que está para acontecer no dia 19 de Março, no Museu Geológico, porque lhe chamaste Poríferos Preciosos?

TM: Não foi propriamente uma decisão. Comecei por trabalhar com cerâmica há dois anos e houve uma distinção muito grande entre o meu trabalho de cerâmica e o resto, por exemplo o desenho. São duas técnicas em que posso explorar coisas diferentes. A cerâmica foi sempre uma linguagem mais minimalista, mais limpa e abstrata. São formas. Dá para projetar mais coisas e estas formas são naturais. No geral, vou buscar ao mar muitas referências de campos de corais. Os poríferos são a parte do reino animal que se refere à esponja e a esses seres feitos de poros. Acho que muitas pessoas pensam que os corais são plantas, mas são animais que fazem parte deste ramo do reino animal a que se chama porífera.

 

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LR: Fazes algo que acho que torna o trabalho muito honesto, escreves dentro das peças e, por vezes, tapas tudo, tornando a mensagem impossível de ler.

TM: Foi algo que aconteceu, não sei se acidentalmente. Sei que uma vez escrevi dentro de uma peça e dava para ver. Às tantas tornou-se uma coisa quase sistemática, consciente. Algo com intuito de despertar um interesse que não seja só visual. O facto de as pessoas tomarem conhecimento desta questão pode criar alguma curiosidade em saber o que lá está. As pessoas vão, de facto, olhar lá para dentro.

 

LR: Mas fechaste algumas totalmente... Não querias que ninguém visse...

TM: Agora ficas a pensar no assunto... Se calhar dizem coisas mais pessoais, mais estranhas. Se as partirem podem ler.

 

E assim terminou uma hora de conversa. Visitem o evento da exposição, aqui, e fiquem atentos às próximas entrevistas na página do Blog Leonismos

 

 

24
Fev16

Entrevista a Thomas Mendonça, parte I


Leonardo Rodrigues

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Demoram, mas as entrevistas regressam sempre. Para o regresso, os eventos organizaram-se para que fosse Thomas Mendonça o convidado. É um artista plástico luso-francês que tive o gosto de conhecer antes desta conversa tomar lugar. O que mais me surpreendeu foi alguém tão talentoso e inteligente se apresentar tão humilde, sem se levar a si e à vida tão a sério - só o suficiente. 

 

Antes da conversa, e depois de quase entrar na rua errada, tive uma visita guiada pela sua residência e atelier. O quarto serve de atelier de cerâmica - foto - , aqui pude ver e tocar nas peças que iram estar brevemente em exposição. Na cozinha, pela luz fantástica, é onde desenha. Foi lá que, depois dos copos com água, começámos a gravar o que seria uma boa hora de conversa. Durante esta hora abordamos questões como a identidade e processo criativo, o ensino e a sua próxima exposição. Devido à extensão, e porque as respostas são demasiado pertinentes, vou publicá-la em duas partes. Boa conversa!

 

Leonardo RodriguesComeça por te apresentares.

Thomas Mendonça: Chamo-me Thomas, nasci em França, perto de Paris, e vivi lá até os meus 10 anos. O meu pai é português e a minha mãe é francesa, pelo que tenho dupla nacionalidade.

 

LRTens alguma rotina, como é o teu dia-a-dia?

TM: Depende da fase do meu trabalho. Há alturas em que tenho uma rotina que é uma ausência de rotina. Neste momento o que tenho é uma rotina de trabalho porque estou a preparar uma exposição, o que faz com que tenha coisas para fazer diariamente. Acordar cedo faz parte disso, gosto muito do dia e de aproveitar a luz. Ao final do dia apetece-me descontrair e, à noite, sair. Durmo pouco, é uma opção.

 

LR: Vieste para Portugal muito cedo, com 10 anos. Quase que viveste metade da vida lá e a outra metade cá. Confidenciaste-me que isso a dada altura gerou uma certa confusão, a de não saber aonde pertences.

TM: Sim, durante a adolescência esta foi uma questão pertinente, a da casa, também em termos de identidade. É muito importante saber de onde vimos. Foi um problema ter duas nacionalidades e não perceber bem em qual delas me enquadrava. Simplesmente tenho as duas, são ambas parte de mim e hoje em dia vivo bem com isso, embora durante muito tempo tenha sido estranho ser francês em Portugal e português em França. Às tantas não és coisa nenhuma em lado algum.

 

LR: Já encontraste esse sentido de pertença?

TM:Não me sinto apegado a nenhum dos dois.

 

LRE à cidade de Lisboa?

TM: À cidade de Lisboa sim, sinto-me muito apegado. Finalmente, lá está, depois desta fase chata de não saber onde quero estar nem de onde sou, simplesmente decidi assumir que sou de Lisboa porque é uma cidade que me acolhe bem. Eu gosto de estar aqui, é a minha casa. Sei que posso ir para onde quer que seja, mas aqui é onde regresso e estou bem, em casa.

 

LR: Também estiveste em Erasmus na Polónia, foi essa uma terceira casa?

TM: Não, de todo. Foi uma experiência relativamente dura. A Polónia é fria e não tem luz solar no inverno.

 

LR: E as pessoas são como o clima?

TM: As pessoas parecem simpáticas, mas são muito tímidas por não falarem muito bem outras línguas. Eu entendo de onde vêm estas coisas: o pós guerra, o pós comunismo, muitos pós. Eles naturalmente são um povo mais fechado sobre eles próprios.

 

LR: No trabalho que tens vindo a realizar, excluindo então a Polónia, como é que a dicotomia Portugal-França se reflete?

TM: Acho que algumas dúvidas em termos de identidade fazem parte do meu trabalho normalmente, mas não é algo de sério ou central. Acho que toda a gente tem as dúvidas existenciais e acerca de muita coisa.

 

LR: Quando é que descobres que tens uma aptidão especial para certo tipo de coisas? É ainda em França, quando frequentaste, por exemplo, o atelier de cerâmica aos seis?

TM: Acho que desde muito novo. Tal como acontece geralmente nas áreas criativas, as pessoas têm um à vontade para isto.

 

LR: Lembras-te de ter tido algum momento mais concreto, um aha moment, em que te apercebes gostar mesmo muito disto?

TM: Não, parece que é algo que antecede a consciência. Dizem-me as pessoas da minha família que com dois anos e pouco enrolava lã à volta da minha cama e dizia que era decoração. É algo de que não tenho memória, obviamente. Nem na altura deveria ter consciência do que estava a fazer... ou tinha, não sei.

 

LR: Consideras que estas aptidões têm uma base natural?

TM: Não acredito muito na questão natural ou biológica, mas de facto não consigo perceber em que momento surge. Portanto, talvez seja.

 

LR: Quando é que decides que é isto que vais explorar? Disso já deves ter memória...

TM: Lá está, esta também parece ter sido uma decisão que antecipou a minha consciência. Quando se entra no secundário é preciso tomar um rumo e eu sabia que iria para artes. Sempre foi uma coisa muito lógica para mim. As áreas criativas sempre estiveram presentes, nunca tive que ponderar muito. Parece natural, não é uma dúvida. Depois do secundário, a faculdade não foi uma decisão muito complexa.

 

LR: Escolheste Artes Plásticas. O que é que o ensino superior acrescentou?

TM: Eu terminei o secundário numa escola de artes, António Arroio.  Ali estudei o curso de Produção Artística em Têxteis. Nos últimos anos percebi que não seria de todo design de moda, então segui para artes plásticas. Na altura queria afastar-me de Lisboa, então decidi que Caldas da Rainha seria a primeira hipótese e em último Lisboa. Com a média que tinha entrei na primeira opção. O ensino superior, não sei se é em Portugal, se em todo o lado, se uma questão de agora ou de sempre, nestas áreas é de alguma forma dispensável. À partida estamos enquadrados por um conjunto de professores, uma academia, uma escola, onde é suposto acontecerem determinadas coisas que não acontecem. O que me falta do meu curso são as questões práticas de como aplico isto na minha vida profissional, para poder chegar e dizer faço isto, aqui e agora. É um absurdo terminamos 3 anos de licenciatura e gastarmos mais de 3000€. Conhecemos professores fantásticos, uns mais do que outros, e fazemos amigos para a vida. 

 

LR: Então a nível profissional não enriquece assim tanto...

TM: Pode, mas é mais um acaso, depende também das relações que sabemos estreitar de uma forma pessoal e não profissional.

 

LR: Pelo que me disseste, quando acabaste o curso sentiste uma necessidade de ser independente, o que te levou a tentar encontrar emprego.

TM: Sim, quando acabei a licenciatura regressei para Lisboa. Rapidamente percebi que não fazia sentido regressar para retornar à casa dos meus pais, que fica na margem sul - o que não é perto nem afastado. Tenho muito gosto em estar perto das coisas, mais perto ainda. Comecei a viver em Lisboa, pagando contas. Tive sorte que não pagava casa na altura, mas havia alguma necessidade de ter independência financeira. Então, procurei emprego, como se faz normalmente para obter dinheiro. Acho que não queria muito e por sorte não encontrei. Via-me sem emprego, mas a conseguir viver em Lisboa, então decidi apostar naquilo em que me formei.

 

LR: Qual o maior problema que vias em trabalhar para outros? Achas que isso te iria comprometer artisticamente?

TM: Seguramente. Parte desta produção é uma questão de tempo. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo e, naturalmente, se tiver um trabalho das 8 às 18 não tenho esse tempo para estar a produzir diretamente e objetivamente as coisas. O trabalho iria ser muito mais pequeno, mais complicado, mais atrasado e acho que seria uma pessoa mais frustrada.

 

LR: Como é que as coisas surgem, como é o processo criativo pelo qual passas?

TM: Por vezes são epifanias, de repente apetece-me fazer qualquer coisa dentro de uma família de assuntos que me são mais naturais. São abordagens que vou trabalhando ao longo do tempo. Isto aplica-se a tudo, aos materiais, às temáticas e às técnicas. Não é uma linha reta, é uma linha que vai sempre atrás pescar coisas. São raras as quebras significativas no meu trabalho, mas existem. Por vezes há mesmo vontade de fazer completamente o contrário. É uma forma de nos reinventarmos de alguma forma. Depois, com paciência, é voltar a ver o que é que deixámos para trás e recuperar muitas coisas.

 

LR: Tens por hábito retomar trabalhos antigos?

TM: Não é bem retomar porque estamos no futuro, no depois, não se volta, temos outra bagagem, outra vida que aconteceu entretanto. Acontece muitas vezes olhar para coisas que foram feitas há muito tempo e não perderam interesse. A certa altura há ali uma coisa em que eu reparo que agora estou a trabalhar muito e não fazia ideia ou me lembrava que já existia. Pode ser muitas vezes uma forma de fazer, uma textura visual ou até mesmo uma coisa muito objetiva como uma palmeira.

 

LR: Quando te acontece não querer continuar determinado trabalho chegas a mandá-lo fora ou guardas para a eventualidade de?

TM: Eu nunca cheguei ao ponto de mandar uma coisa fora por estar chateado com ela. Ponho-as de castigo. Tenho alguns trabalhos que estão guardados que para os quais dependem muito tempo, paciência e meios, mas não consigo por algum motivo. Sei que daqui a dois anos vou pegar neles.

 

LR: Chegas a expor peças que estiveram de castigo?

TM: Sim, algumas das peças que vou expor em março não foram feitas agora, mas fazem sentido agora. Antes não estavam como eu queria. Havia qualquer coisa que me chateava nelas e deixei-as num canto. Agora, repensei-as, algumas alterei, e fazem muito sentido. Vieram mais cedo, mas só agora estão preparadas para fazer parte deste grupo de peças.

 

LR: Essas peças são como na moda...

TM: ...uma coleção, seria impossível não sê-lo. São coisas feitas num período de tempo relativamente próximo. E mesmo que sejam feitas ao longo dos anos... há coisas que são como o croché, a linha vai atrás e segura na laçada anterior criando a próxima. Há um fio condutor que as une a todas. Há uma linha de pensamento que se foi construindo ao longo do tempo.

 

Ler parte II.

 

09
Fev16

De Mão em Mão II (Passatempo)


Leonardo Rodrigues

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Depois de achada a vencedora da primeira edição do passatempo De Mão em Mão, é altura de lançar a segunda com o livro que começou tudo, "Queimada Viva" de Souad.

 

Tal como fiz da primeira vez com o Número Zero de Eco,  também já vos deixei a review deste livro que podem ler aqui

 

É a sua edição de 2004, em inglês, que me compromento a passar para outras mãos, tal como o seu primeiro dono quis, ao deixar aquele livro numa rua muito movimentada de Lisboa. 

 

Para o livro passar para as vossas mãos, e para que mais pessoas possam participar, deixo-vos duas alternativas, uma com o Facebook e outra sob a forma de formulário. Peço que escolham uma e que só participem uma vez.

 

Facebook:

1 - Gostar da página, aqui.

2 - Comentar a ligação deste passatempo com "I want".

 

Formulário:

 

 

O vencedor será anunciado na próxima terça feira até às 21h.

04
Fev16

Para refletir: Queimada Viva, de Souad


Leonardo Rodrigues

 

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Quem leu o post do passatempo De Mão em Mão, para o qual ainda vão a tempo, sabe que resgatei o livro "Burned Alive" - "Queimada Viva", em português - daquele pequeno tesouro recheado de livros que encontrei na rua.

 

Li-o num ápice. Acho que este foi o primeiro livro que tive coragem de ler na totalidade em inglês, porque embora o fale com fluência, prefiro ler na minha própria língua. A escrita é acessível, o que é difícil é ler coisas que chocam na totalidade com tudo o que nós ocidentais, arrisco, civilizados, acreditamos.

 

"Queimada viva" é o relato arrepiante da vida de Souad, nome fictício, uma das muitas milhares de mulheres que vivem em regimes onde as leis são feitas de homens para homens. Na sua aldeia, algures na Cisjordânia, uma mulher não pode pensar por si, ter vontades próprias, curiosidade, olhar um homem nos olhos, nem sair à rua sozinha antes do casamento. O casamento, a maior liberdade pela qual uma mulher pode ansear, é apenas uma transferência de propriedade e só lhes libertará da escravatura do pai para que isso passe a ser feito pelo marido, o novo dono, que pagou com ouro para a ter.

 

Dentro destes casamentos, a violência não só se perpetua como a responsabilidade aumenta. Os motivos para a violência já não são só as lides domésticas, o chegar um minuto mais tarde ou apanhar um tomate verde. Passa a haver obrigatoriedade de ter filhos, as filhas são um fardo, têm de ser encaminhadas, distribuídas e, valendo menos que um animal, se começarem a ser muitas, as próprias mães chegam a matá-las, encarando elas próprias isto como natural. Não sabem melhor, não conhecem outra realidade, são vítimas de um sistema. Curiosamente, apercebemo-nos que os homens também o são.

 

Souad foi vítima dos tão falados crimes de honra. Tinha que morrer porque desonrou a família ao se apaixonar, ao ambicionar ser propriedade de alguém que não o seu pai, com uma gravidez fora do casamento. A única forma de ser restabelecida a honra da família era com a sua morte, então atearam-lhe fogo. As mulheres da sua aldeia só o apagaram. No hospital, onde deveria ter recebido cuidados imediatos, tendo em conta que Souad era uma charmuta, arábico para puta, só teve direito a um banho porque cheirava mal. Estava lá para morrer. Se viveu para contar a história foi porque "nós" intervimos. 

 

Já na Europa, dois meses depois, finalmente a receber tratamentos, Souad, ao olhar para as enfermeiras com saias curtas, maquilhagem, a sorrir a conversar com os médicos só pensava que no dia seguinte já não iam estar lá, sentindo um profundo alivio quando as via novamente. As pessoas deveriam poder pura e simplesmente ser.

 

Na simplicidade da obra, porque não precisamos de nos desdobrar em palavras pomposas para transmitir grandes ideias, há tanta força, acorda-nos, humaniza-nos. Leva-nos à reflexão! Pensei muito na minha mãe que me criou sozinha e nunca casou. Numa daquelas terras isso seria inconcebível porque não surgem heroínas, só nascem heróis. 

 

Cá, mesmo com muito pudismo e catolicismo, com toda a sinceridade, podemos fazer o que nos der na real gana, desde que isso não magoe o outro, amar quem amamos, tocar nessas pessoas, com ou sem papel. Começamos a poder explorar as nossas sexualidades cedo, de forma informada, segura, com consciência dos atos. 

 

As mulheres podem ainda não estar em mesmo número nos cargos de topo, na política nem receber tanto, mas têm os mesmos direitos de um homem. Isto constitucionalmente, culturalmente ainda existem certos estigmas que em Lisboa já não vejo, tanto, também porque faço por não me rodear de pessoas tacanhas. 

 

Dito isto, na minha terriola da Madeira, conheço de vista mulheres que sofrem de violência doméstica, mas que nada fazem por medo, por acharem que não há vida para além do marido de há 30 anos. Nem elas, nem quem lhes diz "bom dia, como vai?", levando com a mesma resposta "vai-se andando", como já é tudo tão automático, só respondem "enquanto for assim está bom", e seguem para o café para falar da vida dos outros. Enquanto for assim está bom, mas e quando estas mulheres já não andarem?

 

Ainda estou a ter os primeiros vislumbres daquilo que um blog pode fazer. Não sei bem, mas não custa nada falar destas coisas, apelar à atenção, à prevenção, à denúncia e a uma nova emancipação que está, sobretudo, por acontecer nos meios mais pequenos.

 

Futuramente, e com o propósito de continuar a abordar esta temática, sem que para isso seja necessário ler novamente que mais uma mulher morreu, irei escrever um texto com uma blogger amiga que foi vítima de violência doméstica, na esperança que palavras levem a ações.

 

Este livro, será também passado de Mão em Mão, fiquem atentos ao Facebook

 

 

01
Fev16

Passatempo De Mão em Mão: Número Zero, Umberto Eco


Leonardo Rodrigues

Mesmo com um budget quase inexistente, lembrei-me que também posso fazer um passatempo cá no blog. E que melhor do que livros para começar?

 

Ultimamente tenho-me sentido inspirado por tudo, em grande parte devido às minhas férias de quase dois meses.

 

Na semana passada foi altura de ser inspirado por um caixote que encontrei na rua mal saí de casa. Claro que não era um caixote qualquer, estava recheado de livros, acompanhado de um papel que indicava que os livros estavam ali porque já tinham cumprido o seu propósito e que era altura de os passar para outras mãos, dizendo "Free Books/Livros Grátis". Gostei de ver como um caixote com livros, àquela hora da manhã, fez interromper o passo apressado de muitos lisboetas e os colocou a trocar sorrisos e a falar uns com os outros.

 

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Aproveitei esta oportunidade para expandir a minha biblioteca ficando com uma edição de 2004 do livro "Burned Alive", partilhando a ocorrência na minha conta do instagram.

 

Muitos dos meus livros também já cumpriram o seu propósito, podendo ter sido isso ajudar a aquecer numa noite fria de inverno ou distrair-me da confusão que é o metro. Agora estão só a apanhar pó, humidade, e raramente os consigo reler, ora porque estou sempre a adquirir outros, ora porque a bibliografia da faculdade não me permite. Mas o meu maior problema não é ter livros que já só servem para enfeitar, é mesmo mudar-me de casa com eles, visto ter mais livros do que roupa.

 

Como não tenho coragem de os deixar na rua, ao sabor do vento e da chuva, a partir de hoje passo a ter este passatempo chamado De Mão em Mão, permitindo-os passar para outras mãos, na esperança que o novo dono perpetue a vida do livro, de mão em mão.  

 

O primeiro livro que quero partilhar já conta com um post, que podem ler aqui e é, como o título deixou claro, Número Zero, de Umberto Eco. 

 

Para ganharem o livro só têm de fazer isto:

  1. Colocar gosto na página do Blog no Facebook, aqui.
  2. Comentar a ligação do passatempo, no Facebook, com "Eu quero".
  3. Partilhá-la.

 

O vencedor(a) será escolhido aleatoriamente -  através de random.org - e anunciado na próxima segunda feira, dia 8-2-2016, na página do Facebook e, posteriormente, contactado por mensagem privada. Boas partilhas, boas leituras!

31
Jan16

Número Zero, Umberto Eco (Spoiler Alert)


Leonardo Rodrigues

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Umberto Eco, semiólogo, filósofo e romancista italiano regressa às livrarias portuguesas com Número Zero, livro de ficção editado pela editora Gradiva.

 

O livro acaba por não ser apenas, como muito se escreveu, sobre o jornalismo nos dias de hoje e a sua doença - há muito diagnosticada como sensacionalismo - , mas também, sobre a sociedade - que adotou uma postura de passividade - e de que forma o jornalismo acaba por ser o seu espelho, vendendo-se tanto aos leitores como aos interesses dos poderosos que detêm os meios de comunicação.

 

Eco, para tais denúncias, leva-nos para o interior de uma redação piloto de um jornal que não saiu, que não é suposto sair e que, para não haver esperança, não sairá. O hipotético periódico teria como nome Amanhã. No Amanhã, como em qualquer outro jornal, falar-se-ia do ontem que já todos conhecemos pela televisão, mas, e aqui está o seu fator de diferenciação, ao invés de se fazer um retrato fiel do que foi, especula acerca daquilo que será amanhã, dali a uma semana ou até um mês, com tanta certeza que poderia ser um “oráculo”. O objetivo do jornal, ou melhor, os números zero deste jornal é o de intimidar os poderosos de tal maneira que deixe o seu financiador - o Comendador Vimercate - fazer parte do clube restrito. Se deixarem, não se publica o jornal, a missão é cumprida, mas publicar-se-á um livro igualmente duvidoso, assinado pelo diretor.

 

Este livro é a razão de ser do protagonista que, num livro de Eco, não poderia caber senão a um perdedor, o Dr. Communa, - um doutor que nem a licenciatura acabou porque, como sabemos, a culpa é sempre do outro. A sua função, enquanto doutor na arte de perder, é escrever um livro sobre todo o processo de gestação daquilo que que nunca irá nascer - omitindo este facto - para, a posteriori, ser assinado por outro, perdendo mais um pouco também aqui.

 

"Os perdedores, tal como os autodidatas, têm sempre um conhecimento mais vasto do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não podes perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deviam."

 

Como os outros que perdem, sonhava em escrever um livro que lhe desse fama e glória, mas parece que também não era uma grande escritor uma vez que para escrever tinha que citar em demasia e ninguém está para ler algo que necessite de enciclopédias para descortinar. A erudição e a cultura, tal como o diretor recorda a um redator, não vende: "temos de falar a linguagem do leitor, não a dos intelectuais [que estão em menor numero].”

 

À primeira vista, com apenas a sua versão das coisas, não conseguimos perceber se este é simplesmente paranóico, depois, com o andamento do livro, começamos a achar que a sua paranóia teve toda a razão de ser, até que acabamos por concordar que não há necessidade porque temos todos memória curta, somos cada vez mais uns vendidos e podemos descansar.

 

Voltando à redação, falemos do diretor, Simei, que desperta em Commona a seguinte descrição "No género x é um deus. X é o género em que x é merda." Os seus reparos, correções, exercícios e dicas assim o comprovam. Naquele jornal aprendia-se a desmentir o desmentido deturpando a realidade com a "realidade". Até quem escrevia os horóscopos, não tendo autorização para seguir os astros, seguia, a seguinte instrução, "vá ver as revistas e jornais que publiquem [...] e retire deles padrões recorrentes [...] otimistas, as pessoas não gostam de ouvir que vão morrer de cancro". Embora o prefácio não o adivinhe - porque enquanto capítulo seria o penúltimo -, o livro poderia ser intitulado d"O Grande Manual das Más Práticas Jornalísticas". Os  públicos dos jornais emitem muitos julgamentos acerca dos jornalistas, mas estes depois de formados, mesmo que saibam o que deve ser feito são reensinados pelos superiores a fazer um jornalismo que agrade a maioria, que não perturbe muito, que venda - mais do que para subsistir, para enriquecer.

 

Mas, enfim, de um jornal composto por fofoqueiros como Bragaddocio e Maia - únicos dos seis redatores que mereceram páginas para se apresentar no livro - , um diretor que conspira por ganância e um perdedor compulsivo, não se pode esperar muito.

 

No fim, por onde começou o início, e saltando a conspiração que Eco escreveu tendo como base factos que nos escandalizam enquanto leitor porque não sabíamos ou não nos lembrávamos, tudo acaba como o leitor eventualmente dá por si a querer. O herói, perdedor nato, pode não ficar com tanto dinheiro como era suposto, nem com a mais ínfima possibilidade de algum dia se ver publicado, mas, aos 50, ganha o amor, que é um outro tipo de reconhecimento, invertendo a sua sorte. Agora é esperar que os jornais também consigam inverter as suas sortes, embora os prognósticos de Eco, na voz de Maia e Commona, não sejam ótimistas.

 

Um livro a não perder, que irei oferecer num passatempo muito em breve. Fiquem atentos ao facebook!

 

24
Jan16

Bons livros


Leonardo Rodrigues

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Sei que hoje, para muitos, é apenas dia de eleições, mas ao ver as notas do meu telemóvel, lembrei-me do post que comecei há coisa de semana e meia, então hoje passou a ser também dia de acabar posts.

 

Queria partilhar convosco que li o meu primeiro livro de 2016. Confesso-vos que quando acabei, caiu-me tudo figuradamente e, fisicamente, umas lágrimas. O livro em questão é "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares. Não me apeteceu chorar com o final nem por ter acabado - embora tenha tido um susto quando ao virar a página 607 vi a Nota do Autor - , apeteceu-me chorar pelo livro ter sido tão bom e por todas as emoções que fez surgir em mim.

 

O que é que torna um romance bom? Em primeiro lugar lê-se sem esforço, e com isto não digo que não exija pensar, refletir, pesquisar até, mas fazemo-lo com naturalidade. Os livros, a literatura, toda a arte enquanto arte, têm de fazer sentir. Se um livro não for capaz de me sentar à mesa com as personagens e me permitir escutá-las, olhá-las nos olhos, sentir a dor que deveria ser só delas, não é nada. Um livro mede-se, para mim e agora, pelas emoções que desperta e pelos desejos que acorda.

 

O "Rio das Flores" faz isto tudo, mas não quero aqui despi-lo completamente porque acho que as páginas de um livro têm de ser percorridas com uma sensação de novidade, como se de um corpo de um novo amante, ao ser percorrido pela primeira vez, se tratasse - embora já haja suspeitas relativamente ao conteúdo.

 

Escrever isto, recorda-me de uma entrevista de António Lobo Antunes, que vi há uns anos, ele dizia não entender bem o porquê de se falar de livros, achava que isso simplesmente não se deveria fazer. Na altura acabei por concordar, final de contas, por mais que me desdobre em elogios ou críticas, aquele paralelepípedo de papel só será alguma coisa cada vez que for desbravado e cada leitor vai sentir algo de singular, de acordo com as suas vivências e ideias, que me transcende.

 

Mesmo me transcendendo, vou partilhar o que o Rio das Flores me reassegurou: para além das aparências, nada é sólido; ideias e pessoas mudam, sempre; algumas coisas acabam porque outras melhores, mais acertadas, estão para começar; e, principalmente, que os Homens, bem, são apenas homens.

 

Como o período de luto ou de ressaca literária já acabou, iniciei outro, "O Retrato de Dorian Grey" de Oscar Wilde. Talvez com esse escreva uma crítica a sério, talvez não escreva nada. Votem bem!

22
Jan16

A ver: Os despojos do dia


Leonardo Rodrigues

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Ontem foi dia, mais noite, de estar presente na inauguração da mais recente exposição de um grande amigo meu, o fotógrafo Rui Dias Monteiro, intitulada "Os despojos do dia".

 

Embora já conhecesse muito do trabalho do Rui e também já tivesse tido privilégio de caminhar e conversar com ele enquanto fotografava, só agora é que julgo ter entendido verdadeiramente o porquê de ele fotografar o que os outros deixam ficar, os despojos.

 

Ele vê e capta aquilo que nós muitas vezes já não somos capazes de ver, tanto que as coisas se repetem, tanto que as deixamos esquecidas. E, sem lhes dar valor, apelidamo-as de lixo. Isto aplica-se tanto à nossa capital, como ao local onde esta sequência foi capturada, Cabo Verde, como ao mundo.

 

O olhar meditativo do Rui só vem a provar novamente que menos é mais. Ele sabe-o e as suas fotos, na sua simplicidade, e "centralidade" como muito bem disseram, transmitem-no.

 

Enquanto muitos fotógrafos tendem a editar excessivamente os seus trabalhos, este limita-se a fazer pequenas correções de luz, nada mais. Tão simples quanto as coisas.

 

Neste trabalho é de salientar que nada é pousado, afinal de contas, para quê mexer no que tão perfeitamente ocorre por si, como que por vontade própria da natureza?

 

"Os despojos do dia" não pretende ser uma crítica à existência daqueles objetos esquecidos na natureza, é mais um convite a pensá-los doutra forma, a olhá-los com outros olhos: E se os despojos dos nossos dias não fossem apenas lixo, mas, com o passar do tempo houvesse uma fusão e se tonassem ornamentos, quiçá "jóias" da própria natureza?

 

É sem dúvida uma exposição a não perder. Aos interessados, podem visita-lá de terça a sábado, das 14 às 19, na Galeria Alecrim 50. Assim será até dia 5 de Março, pelo que certamente há de encaixar nas vossas agendas.

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