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LEONISMOS

LEONISMOS

25
Abr16

Obrigado, 25 de abril!


Leonardo Rodrigues

A Revolução dos Cravos, como prefiro que se chame, não se processou tal e qual como se escreve nos livros de história. Não podia, é demasiado perfeita. Não quero saber! Escolho deliberadamente ignorar parte da Revolução. Importo-me com o que esta nos trouxe, onde estamos e para onde podemos caminhar porque este dia, há exatamente 42 anos, aconteceu. Porque alguns foram corajosos por si e por aqueles que nada podiam fazer. Todos os anos olho para trás e, em jeito de oração que não sei fazer muito bem, agradeço. Há 42 anos censurava-se com um "lápis azul", ups fazia-se um Exame Prévio, prendia-se e torturava-se por suspeitas de "diz que disse". Hoje posso escrever os meus "Isto e Aquilo" num blog, posso ousar ter uma opinião diferente e expô-la. Vou poder exercer a minha profissão de jornalista sem medo. Não se esqueçam que existem outras liberdades a conquistar e que, todos os dias, atentados às já consolidadas ganham nova força. Não basta plantar um cravo, há que cuidar. O trabalho só acaba quando cá já não estivermos. Rebelem-se quando para isso houver necessidade. Por agora, obrigado aos corajosos do passado, que conseguiram ver o futuro. 

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 Fotografia de Samuel Pimenta

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

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Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

25
Abr15

E um 25 de abril pelos touros?


Leonardo Rodrigues

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Nos últimos dias, como muitos de vós devem ter visto, um vídeo feito pelo Nuno Markl e pelo Ricardo Araújo Pereira gerou uma certa polémica nas redes sociais, e com polémica quero dizer ameaças de morte e afins.

 

Não, nenhum deles ameaçou nada, nem ninguém. Pelo contrário, apelavam a que duas petições fossem assinadas, uma para que se parasse de canalizar dinheiros públicos para as touradas - "é capaz de haver duas ou três prioridades" - e outra para que crianças não assistam nem participem nas touradas, "é capaz de ser cedo", diz-nos Ricardo. Parece-me razóavel. 

Tradicionalmente isto é uma heresia. 

Tradicionalmente também já se separou negros dos brancos, já se escravizou e já se queimou com vida muito boa gente. Tradicionalmente ainda se apedreja até a morte - mais mulheres do que homens - quase porque simplesmente apetece, ainda se mata porque existem pessoas com ideias e preferências diferentes, ainda se olha de lado.

Se o que escrevi acima não parecer nada de muito civilizado é porque não é. Matar pouco tem de civilizado. 

Não há muito tempo uma veterinária nos Estados Unidos meteu um espeto num gato e foi despedida, em Portugal talvez ganhasse um reality show. Ou talvez não porque um gato é diferente dum touro. Deus fez o touro para espetar e o gato para animal doméstico. Às vezes esqueço-me disto, tantos são os ensinamentos da sociedade.

Deixo-vos um touro num registo diferente:

Nem tudo o que está enraizado na cultura é bom. Se algo envolve violência, raiva, dor, sangue, talvez seja dispensável, por mais apelativo que possa parecer a alguém. Só se evolui quando se rompe com o estabelecido. 

Hoje celebra-se isso mesmo, a rotura com o Antigo Regime. Se podemos dizer e fazer o que nos apetece, desde, claro, que respeitemos a liberdade do outro, devemos a esta rotura, aos corajosos que foram contra a barbaridade estabelecida. Tal como os mais que muitos portugueses que foram forçados a combater no Ultramar, o touro, se tivesse liberdade, com certeza que sairia "a salto". É preciso que hajam ainda mais corajosos por eles e não contra eles.

E um 25 de abril pelos touros? Talvez não, porque feriados também já quase não temos, mas podem assinar o que está em baixo: 

http://www.enterrartouradas.org (petição em causa no vídeo) 

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=010basta

 

 

 

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