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LEONISMOS

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12
Out17

Pedi um crédito, e o computador said no


Leonardo Rodrigues

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Ontem foi um dia interessante, de me lembrar de histórias. 

Vou começar por contar uma das piores fases, que nunca encontrei forma de abordar no blog. A vida, com a faculdade, ficou diferente. Por isso, há cerca de dois anos e meio, vendi um computador que me tinha custado mais de mil euros e a máquina fotográfica. A alternativa seria ficar sem casa. Confesso que custou, o valor emocional que atribuía àqueles objetos e toda a situação frágil foi avassaladora. Mas, até ao dia de hoje, sei que fiz a escolha inteligente, ter um teto para me recompor. 

Ontem, vi um computador que queria. E, além de estar a um ótimo preço, imaginem só, havia uma campanha sem juros. Fiz o esforço de entrar num centro comercial para saber como se processava tal milagre, oferecido pela Santa Cetelem. Antes de conseguir chegar concretamente à campanha que queria, tive de recusar veemente dois cartões de crédito. 

Depois, tive de ouvi-la a explicar-me tudo  - por vezes com informação de uma campanha anterior - , como se fosse mesmo muito estúpido e não conseguisse fazer contas. Chegou mesmo a dizer-me, com um tom condescendente, "ainda bem que pergunta, faz muito bem em ler as letras pequeninas, eu também leio sempre", quase que tinha um AVC. Se tratarmos as pessoas como crianças, elas assinam coisas?

Tudo bem, aquilo era rápido, e a proposta de sair com um computador que não sobreaquece e precisa estar ligado à corrente, tornava tudo suportável. A decisão não seria tomada por ela, mas sim por um formulário que preenchi e me bebeu os dados do cartão de cidadão em segundos. No final, o formulário disse-me que não, e ela: "pelo menos o José tentou". Detesto que me tratem por José.

Além disto poder ser uma cena do Little Britan, que celebrizou a expressão, computer says no, por estar tão o perto, mas inacessível, lembrei-me de algo que vi este ano, à porta de um McDonald's em Istambul. 

Um menino sujo, enquanto espancava o vidro, chorava como nunca vi ninguém chorar, para pedir comida. Quase imediatamente a seguir, vinha uma empregada afasta-lo dali, como se fosse um pombo à procura de migalhas. Um contraste chocante, com as pessoas que comiam aquela comida apelativa, num espaço cheio de luz. Era apenas um vidro e uns trocos, mas ditava o que uns e outros podem ter. 

Aquela condescendência toda quase que me magoou, mas obriguei-me, minutos depois, porque há sempre, a ver o outro lado da moeda. 

Não me posso comparar a esse menino, em tão pouco tempo passei a ter uma família que me ama, emprego, férias marcadas, uma casa ótima, e uma dispensa que se compõe sempre. Vou continuar a ter um computador velhinho, é verdade, mas fico sempre com mais do que quando vendi o computador xpto. A felicidade não tem mensalidade. 

 

 
 
 
 

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