Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

LEONISMOS

LEONISMOS

15
Ago15

Entrevista a Samuel Pimenta


Leonardo Rodrigues

image.jpg

Foto de José Lorvão 

 

Demorou, mas finalmente chegou a segunda entrevista de Conversas com Vista.

 

Hoje é a vez de dar voz a um escritor, Samuel Pimenta (25). É Alguém com quem gosto de conversar e que tenho o privilégio de considerar amigo. Nesta conversa temos o Samuel de todos os dias. Percebam, então, porque é que eu, em concordância com a Le Cool, considero-o alguém que têm de conhecer.

 

LR: Eu já te conheço, mais enquanto pessoa do que escritor. O que achas que te define enquanto pessoa, enquanto escritor e enquanto ambos?

SP: O espírito libertário. Penso que é para lá que caminho, para a liberdade, enquanto pessoa e enquanto escritor, que é estranho separar uma coisa e outra. A escrita é um exercício de aprimoramento da pessoa que sou. E escrevo para ser mais livre, para poder desvendar mais da vida, do Universo.

 

LR: Como é que te chegam as coisas que colocas no papel?

SP: Chegam-me através dos meus sentidos e da forma como se relacionam, da minha sensibilidade. É sempre complicado explicar o processo que antecede o momento da escrita, a inspiração. É um momento místico, espiritual, mas também físico, pois faz-se sentir no corpo. Quando tenho uma ideia, o meu coração acelera, tenho de caminhar para organizar a mente.

 

LR: Já tiveste de lidar com a famosa folha em branco? Que fazes quando isso te acontece?

SP: Sim, é por isso que ela é famosa, é comum cruzar-se connosco. Antes preocupava-me, agora não. Não me obrigo a escrever, bem pelo contrário. Quando estou no processo de escrita e tenho algum bloqueio, opto por parar. A criação literária também é física, sai-nos do corpo, é importante repousar, deixar a mente liberta. Costumo dizer que é importante deixar a mente respirar. Ela precisa de ir a outros sítios, ver outras coisas, para regressar com um outro olhar, um olhar que vença a folha em branco. Durante o processo de escrita, estou muito consciente do meu corpo e respeito os tempos que ele me exige. Penso que o facto de praticar meditação desde muito cedo ajuda neste caso.

 

LR: És daqueles que tentam demarcar-se das suas vivências pessoais enquanto escritor? Isso é possível? De que forma é que isso se vê ou não na tua escrita?

SP: A meu ver, isso é uma tarefa impossível, nem penso sobre isso. Toda a criação artística parte de uma vivência pessoal, nem que seja de uma ideia (pois as ideias são coisas muito íntimas, estão guardadas dentro da nossa cabeça, às vezes muito caladas).

 

LR: Há dias falávamos sobre o não haver coisas más, para aqueles que ainda olham esta ideia com estranheza, que nos podes dizer?

SP: Acredito que as coisas podem parecer más à primeira vista, de forma ilusória, mas como sou uma pessoa positiva, sei que, por trás dessa miragem negativa, existem sempre oportunidades, aprendizagens que nos ajudam a construir quem somos, que nos ajudam a evoluir. E como evoluir é bom, acredito que todas as coisas são boas, que têm um bom propósito.

 

LR: Estás bem contigo, tanto se vê como se sente. Embora nunca possa existir apenas um caminho, acho que importa saber qual foi o teu, como se chega ao Samuel de agora?

SP: Com trabalho, perseverança e consciência. Há que ser consciente para fazer escolhas.

 

LR: Qual o valor mais importante que te ensinaram ou que aprendeste?

SP: O Amor. Podemos ter liberdade, podemos ser honrados, podemos ser verdadeiros, podemos ter quase tudo, mas é o Amor que conecta todas as formas de vida e é através dele e da sua vivência que nos aperfeiçoamos enquanto seres.

 

LR: Quem é a tua maior inspiração?

SP: Todas as pessoas que sonham e sonharam viver num mundo melhor, fazendo a sua parte para o conseguir.

 

LR: Fala-me dos teus sonhos.

SP: Mudar o mundo, torná-lo num lugar melhor, desde sempre.

 

LR: O que estás a fazer para realizá-los?

SP: Escrevo. E procuro aperfeiçoar-me enquanto pessoa todos os dias.

 

LR: Somos ambos de terras pequenas, por vezes incutem-nos a ideia que nascemos para ser igualmente pequeninos, que tens a dizer sobre isso?

SP: Que isso é um engano. Não importa o lugar onde se nasce, mas sim as pessoas que vamos encontrando e as escolhas que fazemos. Tive sempre pessoas que me encorajaram a seguir os meus sonhos, assim como pessoas que quiseram fazer-me acreditar que jamais conseguiria. E encontrei essas pessoas tanto em Alcanhões (a vila de onde sou), Santarém (onde estudei) e em Lisboa (onde fiz a Faculdade e iniciei a minha vida activa). Fui eu que escolhi acreditar que seria capaz de realizar os meus sonhos. No fundo, depende sempre de nós.

 

LR: Falta-te alguma coisa?

SP: Tenho tudo o que preciso, trazemos tudo dentro de nós.

 

LR: Constróis coisas desde sempre, agora livros, mas já ajudaste a construir uma casa. Conta-nos a história toda.

SP: Referes-te à minha casa, em Alcanhões. O meu pai é pedreiro, seguiu o ofício do meu avô. A nossa casa, hoje uma casa grande, foi sendo construída ao longo dos anos. Quando eu nasci não tínhamos o que temos. E ajudei algumas vezes o meu pai, confesso que sempre contrariado; ou preferia ficar a ver televisão ou a escrever. Ahahah! Penso que herdei essa apetência construtora dos meus pais: o meu pai constrói casas, a minha mãe é cozinheira. Ambos moldam o mundo com as suas próprias mãos e é assim que se sentem realizados. Eu faço a mesma coisa, mas com palavras.

 

LR: Isso fez-te dar mais valor às coisas?

SP: Acredito que sim. Ter consciência de que um ovo não brota das prateleiras de um supermercado, já embalado, dá-nos maturidade e responsabiliza-nos. Para termos as coisas, há um custo associado (não necessariamente monetário, neste caso). É importante saber que custo é esse. E nos tempos que correm os custos das coisas que consumimos são, mais do que nunca, ocultados.

 

LR: Se tivesses tido logo tudo, serias quem és hoje?

SP: Talvez não valorizasse tanto as coisas simples, mas não sei, nunca saberei.

 

LR: Voltando uma última vez ao lado profissional, o que é que podemos esperar do Samuel-escritor num futuro próximo?

SP: Dois livros, um romance e um livro de poesia. O romance será publicado pela editora Marcador e o livro de poesia pela editora Livros de Ontem. Ambos tratam de assuntos actuais, têm um carácter fortemente interventivo e político, mas cada um com uma linguagem própria. Serão publicados ainda este ano.

 

O Samuel também tem um blog onde publica com regularidade alguns dos seus textos, podem consultar aqui

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Copyrighted.com Registered & Protected 
HMLF-E7YY-MGTC-ZU7E

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D