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LEONISMOS

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22
Abr17

Entrevista a Rúben Santos: "tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena"


Leonardo Rodrigues

Conheci o Rúben pela primeira vez na Feira das Almas. Desde então, fomos por duas vezes colegas de casa. À custa disso, já rimos, choramos e criámos uma das amizades que mais valorizo. Podemos falar, partilhar e teorizar acerca de tudo. Não concordamos com muito, mas não nos censuramos e arranjamos sempre forma de chegar a um consenso. Espero que assim seja sempre. Esta entrevista esteve num ficheiro armazenado na nuvem durante demasiado tempo, porque achava que não saberia fazê-la, mas aqui está o Rúben a partilhar novamente comigo coisas que nem todos sabem, mas que fazem dele quem é. 

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Leonardo Rodrigues: O que respondes a um simples “quem és”?

Rúben Santos: Começa bem. Não terei tão cedo essa resposta. A minha educação moldou-me. Nasci e cresci em Chelas, num bairro social, ao lado havia um bairro de barracas perigoso. Vi muitas coisas e, ao mesmo tempo, tive uma educação bastante libertadora. Saía de casa e só voltava às tantas. Nos fins de semana, só passava as manhãs em casa, voltava para jantar e saía outra vez. Havia alguma supervisão por parte dos meus irmãos. Passava horas a andar de bicicleta, a construir casas em árvores ou em terrenos baldios. Na primária, tive a sorte do ministério da educação implementar um programa educacional experimental, com trabalhos criativos, visitas de estudo quase todas as semanas. Isto levou-me a ter contacto com filmes de Chaplin, por exemplo. Penso que seja daqui que vem a minha veia experimental, de querer ir além. Sou um experimentalista, adoro aprender e estou sempre à procura de algo diferente que me interesse. Acho que isso é procurar-me.

 

LR: Hoje dedicas-te à fotografia em full time, mas antes disso dedicaste 5 anos da tua vida a algo completamente diferente. O que te levou a mudar de rumo?

RS: Sim, antes de estudar e trabalhar em fotografia, estudei 5 anos no IST, de onde saí com um mestrado em Engenharia de Materiais. O sistema de ensino está ultrapassado e, pior que isso, conteve toda a criatividade que foi germinada durante os primeiros anos de vida. Somos obrigados a fazer escolhas com base em nada. Não há contacto com coisas práticas. Os alunos passam horas e horas fechados dentro de salas a consumir informação que alguém escolheu ser importante, quando deviam passar metade desse tempo a fazer algo prático: tirar fotografias, pintar quadros, plantar árvores, construir casas em madeira, um sem número de possibilidades. Ter que escolher uma área, quando se transita do 9º para o 10º não está certo. És muito novo e não fazes a menor ideia de quem és! Podes ser melhor aluno nalgumas disciplinas, mas isso não define quem vais ser. Eu tinha queda para a matemática e físico-química e, portanto, decidi seguir ciências, uma decisão que estava longe do que faço agora. Depois vais para a faculdade e tens que escolher outro curso, com base numa fantasia, porque tens média para o curso ou porque os pais disseram que aquele é o caminho.

 

LR: Porquê a fotografia?

RS: Lembro-me perfeitamente de estar trancado numa cave do IST a polir amostras e começar a chorar. Ainda estava a ultrapassar alguns obstáculos e, se estivesse a fazer alguma coisa que realmente estivesse a gostar, possivelmente isso não teria acontecido. Digo isto porque trabalhei e estudei fotografia ao mesmo tempo, ainda no meio de alguns problemas pessoais, morava praticamente sozinho, pagar o curso e todas as outras despesas e ficava sem dinheiro, mas era feliz, fotografava todos os dias. Ainda hoje não sei se a fotografia será para o resto da minha vida, mas foi uma escolha razoável ter mudado para uma área criativa. Eu pouco conhecia do Rúben criativo. Um dos motivos que me levou a escolher fotografia foi uma experiência de infância. Certa vez, quando o meu pai estava a trabalhar nos Açores, eu e a minha mãe fomos lá ter. Num dos passeios por São Jorge, os meus pais queriam uma fotografia e eu era o único ali. Tirei a minha primeira foto. Tinha uns 5 anos. Penso que essa fotografia ainda existe, tenho que a procurar. Brinquei mais umas vezes com essa máquina e, aos 12 anos, a empresa da minha mãe ofereceu-me a minha primeira máquina analógica! Já não a tenho, mas muito experimentei. Provavelmente foram estes os acontecimentos que me conduziram à fotografia.

 

LR: Muito embora a tua profissão implique que estejas muito tempo atrás da câmara, tu sentes-te igualmente bem do outro lado da lente, frequentemente sem roupa. O que te leva despir para a câmara?

RS: Risos É uma pergunta com a qual ainda me debato. Encontrei, através do facebook, um fotógrafo português que fazia fotografias lindíssimas e, mesmo nesse dia, enviei uma mensagem a pedir-lhe que me fotografasse. Tinha curiosidade. Queria perceber o que era estar sem roupa à frente de uma câmara, queria que o meu corpo se transformasse em algo belo. A primeira vez que realmente reflecti sobre o assunto e escrevi o que me pareceu verdade, foi para a revista Elska. O corpo é o primeiro grande obstáculo para a felicidade e para a liberdade. Ninguém acorda de um dia para o outro a achar que é feio. Alguém to repetiu enquanto crescias, um eco constante em diferentes vozes. Sou gordo. Sou feio. Sou peludo. Há alguém a pendurar adjectivos, como se fossem adereços, e tu aceita-los, talvez de tanto ouvir. O mais irónico é que quando nos referimos ao nosso corpo, usamos um termo possessivo: o meu corpo. Incrível como facilmente desprezamos algo que nos pertence e que conhecemos tão bem. A nudez é o expoente máximo da liberdade. Viver bem com o próprio corpo é o primeiro passo para se viver bem. Por vezes pergunto a amigos se me deixam fotográfa-los. A resposta é negativa e a justificação a mesma, "não me sinto à vontade com o meu corpo". Estar bem comigo, aliado ao meu lado experimental, leva-me a fazer esta série de fotografias.

 

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LR: E isso é sempre bem recebido?

RS: Dei conta de muita desaprovação. Há uns meses atrás senti que fui posto de parte nalgumas ocasiões familiares, um auténtico murro no estômago. Há também quem tenha comentado as fotografias com algo menos positivo e até denunciaram. 

 

LR: Certa vez perguntei-te o que era para ti a arte, e deste-me a resposta mais interessante que ouvi até hoje. Lembras-te?

RS: Sim, lembro-me e é algo que não irei esquecer. Foi num daqueles momentos raros de clarividência em que há um click e tudo faz sentido (a-ha moment). Estava a acabar o curso de fotografia, que foi leccionado por módulos, e aquele era o módulo de fotografia de autor. Foi um dos melhores professores que já tive, notava-se que gostava do que fazia e tinha a preocupação de nos dar bases sólidas para um conhecimento à séria da fotografia como forma de arte. No dia do click, o formador estava a falar de vários fotógrafos, explicando os seus trabalhos e, quando chegou ao artista Todd Hido, percebi tudo. Basicamente, este fotógrafo tinha um fascínio pela linha que separa o que é público do que é privado. É um dos meus fascínios desde miúdo. Recordo-me que todos os sábados à noite, durante o verão, quando regressávamos a pé da casa dos meus tios, às tantas da madrugada, eu olhar para os prédios e ver luzes acessas. Tentava imaginar o que poderia estar a acontecer naquelas casas. Estariam a jogar às cartas? A ver TV? A fazer Sexo? Teriam as luzes sido deixadas acesas sem querer? O fascínio do Todd Hido era o meu fascínio. Eu compreendo-o e não o conheço e tenho a certeza que ele me compreenderia, se me conhecesse.

 

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LR: A vida não tem apenas dessas sensações boas

RS: Infelizmente, não. Pensei que colocar as coisas más em papel fosse mais fácil. Não o é. Perder alguém que te é muito querido é perder uma parte de ti. Nunca se recupera, simplesmente se aprende a viver com menos. A minha mãe faleceu no final de 2007 com cancro. Os meus pais já não viviam juntos. Quando se separaram, eu fiquei com a minha mãe e os meus irmãos mais velhos com o meu pai. A minha vida mudou bastante. Durante três anos morei com a minha irmã, ao fim dos quais decidi ir morar com o meu pai. Morei com ele cerca de quatro meses. Uma noite, a minha madrasta acorda-me aos gritos. Quando cheguei ao quarto dele, ele já não estava. Telefonei ao 112. Não conseguia concentrar-me, chorava compulsivamente, não ouvia nada. A pessoa do outro lado perdeu a calma e gritou: Queres ajudar o teu pai ou não? Disse-me o que fazer para tentar reanimá-lo e desligou o telefone. Eu e o meu pai estávamos sozinhos no quarto, e eu não parava chorar, enquanto pressionava o peito. Não me lembro quando parei, se foi alguém que me parou, se foi à chegada do INEM. Não me lembro.

 

LR: Que perspetiva é que isso te deu da morte?

RS: Da morte não me deu outra perspectiva. Deu-me outra perspectiva da vida. Não sou a mesma pessoa, mudei tanto que já não reconheço a pessoa que fui. A minha mãe tinha um feitio difícil e eu lembro-me de pensar que não queria ser como ela. Era sociável não por querer, dizia o que sentia, sem pensar. Estou cada vez mais parecido com ela, acaba por ser assustador no que me transformei depois dela partir. Não me preocupo muito com o que os outros pensam, também não faço grande reflexão no que digo. Claro que por vezes chego à conclusão que não devia ter feito isto ou dito aquilo, mas afecta-me pouco. Não tenho muito a perder, talvez o meu emprego e algumas pessoas que quero manter perto de mim, mas mesmo isto que referi não posso controlar a 100%. Se perder o emprego, de certeza que haverá outro. Acabei por aceitar-me e viver bem com todas as escolhas que fiz e com todos os percalços do passado.



LR: Nas mudanças profissionais, nos relacionamentos, nas viagens estás sempre à “procura”de alguma coisa. Já sabes o que é isso que tanto procuras?

RS: É bem verdade, mas não sei o que procuro. Sinceramente, começo a compreender que esta busca leva a conhecer-me melhor. Separar aquilo que gosto daquilo que não gosto. Conseguir perceber o que quero fazer e o que não quero fazer. O que realmente faz sentido, do que não faz. Já separo as pessoas também. Felizmente posso escolher com quem me posso dar e estabelecer um relação mais profunda.

 

LR: Algo de que tu falas muito é voltar às origens. Que quer isso dizer?

RS: Acho esta história da cidade um pouco absurda. Cidades gigantes com densidades populacionais enormes não juntaram as pessoas, apenas as estão a afastar (não estou a dizer que o intuito das cidades é juntar as pessoas, mas na minha opinião, seria um benefício). As últimas vezes que tenho tirado férias tem sido para o mais longe e deserto possível. Normalmente, no meio de uma serra ou por aldeias pouco habitadas. Percebi que o contacto com a natureza deixa-me mais optimista, menos ansioso e menos stressado. As pessoas são mais simples, a vida é mais simples, não é preciso muito. Perdeu-se a simplicidade da vida, as pessoas só pensam em comprar uma casa, um carro, ter filhos, criá-los à sua face e mandá-los para a melhor faculdade, ter a casa de férias, trabalhar mais para ganhar mais dinheiro para poder comprar mais coisas. Eu gostava de ver alguém a conseguir colocar essas coisas todas dentro do seu próprio caixão.

 

LR: Fugir da cidade para te dedicares ao teu sonho de voltar às origens. Achas que vai passar de um sonho?

RS: É uma questão que me assombra de vez em quando. Sofro menos quando coloco a hipótese de não ter que ficar para sempre numa cidade. Já pesquisei e há várias formas de conseguir viver numa aldeia ou vila, mas neste momento vou manter-me em cidades.

 

LR: Não gostas de te sentir a envelhecer e só tens 30. Temes a morte?

RS: Sim, tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena.

 

LR: Achas que a fotografia é aquilo que te vai fazer viver, mesmo depois de já cá não estares?

RS: Bom, gostava de acreditar que sim. Deixar algo que faça sentido e que faça os outros crescer. É isso que me leva a continuar e a fazer coisas. Contudo, não sei se é a fotografia. Talvez faça outra mudança em breve, já estou a precisar.

 

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