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LEONISMOS

LEONISMOS

26
Set16

Chronos do coração


Leonardo Rodrigues

Estou a escrever este post a acreditar que me vá fazer sorrir no futuro, como descobri que fazem os diários. É uma conclusão precoce para primeira linha, mas não vou reformular.
Este blog para mim ainda é novo, indisciplinado, tanto na forma como no conteúdo, especialmente na velocidade com que se escrevem os posts, que, por vontade minha, não podem ser apenas vomitado de rascunho. Ainda assim, já me deu algo que vale mais que dinheiro: pessoas. Escrevi apenas o suficiente para poder escrever hoje.
Graças a um post, comecei uma colaboração igualmente indisciplinada com o dezanove. O que, por sua vez, levou-me, no dia 18 de junho, à Marcha. Dei por mim a marchar lado a lado com o D. Não tinha bateria, e, ele, sempre pronto a ajudar toda a gente, gravou a entrevista que estava a fazer e até colocou questões. Aqui criou-se a desculpa para manter contacto, afinal precisava do áudio. Pouco tempo depois, não sei bem como, estávamos a fazer tudo juntos e fazia sentido. Quase cem dias depois, ainda faz.
Gostava de escrever que soube logo, que foi amor à primeira vista, mas na altura tudo que percebi foi que era fácil falar com ele, que havia substância, que a forma como ele se ria me deixava com vontade de rir com ele, mesmo que fosse só por dentro.
Recentemente, colocou-se a questão do dia oficial. Foi fácil dizer 18 de junho, criava segurança, não envolvia um exercício de memória. Embora ele me tenha convidado para substituir alguém na ópera após possivelmente uma hora de marcha, interrompida por música, purpurinas e conversas paralelas, não é correto. Ele tinha razão. 
Sugeriu-me o dia em que fomos para o Meco, longe do mundo. Confesso que soube que queria estar com ele nesse dia, entre o carro que ficou atolado  - e do qual tanto gosto de dizer mal  - e enquanto ele me lia Os Números que Venceram os Nomes, do Samuel Pimenta. Soube-me a um ingrediente que nem sempre consigo saborear: felicidade. Podia acabar tudo ali. Se no parágrafo anterior lhe dei razão, aqui retiro-a toda. Esse não pode ser o dia. Embora apetecesse, nenhuma fronteira foi trespassada.
Os dias na minha cabeça, por muito que custe a admitir, misturam-se bastante. Geralmente a minha memória está mais associada ao que senti. Não tenho um diário e o meu blog só o quer ser às vezes. Olhar para fotografias que faço permitem-me manter o rasto.
Foi através de uma fotografia que consegui chegar à data em que se ultrapassou a fronteira. Foi ultrapassada no dia 10 de julho. Nesse dia demos as mãos enquanto víamos televisão e que ele beijou-me. Depois Portugal ganhou, não querendo propriamente reclamar os louros, é demasiada coincidência.
Este mês, depois do meu trabalho de investigação, decidi dar-lhe algo inútil, mas que tivesse significado, para assinalar a data. Aconchegado num jornal da Cinemateca, ofereci um quadro com o elétrico 28. Expliquei-lhe o porquê da moldura, daquela pintura, mas ele só deve ter fixado metade da história. Para além de estar sempre atrasado como eu, temos uma memória aleatória. Por isso vou contar a história novamente.
Estando eu bem estabelecido em Lisboa, a passear na baixa, na minha companhia, deparei-me com um rapaz que desenhava com uma caneta e coloria com aguarelas. Não era nenhum Warhol, as peças eram únicas, não massificadas. Uma dessas peças retratava algo que, sem turistas, é mágico: o elétrico 28. Há uns anos, certo dia, entrei pela primeira vez no elétrico 28, no bairro da Graça. Nessa viagem, com a cabeça a querer sair da janela que se puxa para cima e permite tocar no que a mão alcançar, percebi, entre um turbilhão de sentimentos, que tudo estava bem, que estava no sítio certo. Estava em casa. Tive que comprar, mas nunca deixei o quadro à vista por muito tempo. Estava guardado para quando fosse necessário. 

Estar com alguém, especialmente com ele, acaba por ser uma viagem, como a daquele dia no elétrico, desperta um turbilhão de emoções contraditórias, mas sinto-me em casa e encontro-me nele.

Ontem tive outro aha moment, quando estavámos a jantar um prato simples que, sem modéstia nenhuma, estava divinal. Nunca mais tínhamos parado para jantar assim, até porque o tempo não pára. Ver a rotina concretizar-se, com ele, faz-me sentir em casa. Amor, para mim, aqui e agora, é isso: sentir-me em casa. Não conheço melhor sentimento do que pertencer. 

Antes perdia muito tempo com medo do Chronos, que, alegoricamente, engolia os filhos, para dar conta da fome que o tempo tem em devorar tudo. Hoje apetece-me ser feliz, independentemente do que tempo e os números acham, e socorrer-me de cronologias apenas para saber quando celebrar. Celebramos o nascimento, sem qualquer vontade de celebrar a morte. Logo acertamos contas. 

 

É interessante olhar para este post e perceber que em tempos falava melhor do que escrevia. Isso inverteu-se. Não consegui dizer tudo quando ofereci o presente. Acho que tenho medo das palavras ditas. Estão sempre mais calmas nos meus dedos do que na cabeça, lá gritam e atropelam-se.

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