Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

LEONISMOS

LEONISMOS

10
Ago16

A minha Ilha está a arder


Leonardo Rodrigues

gc_incendios_madeira_207605d6cf.jpg

 Foto: Gregório Cunha/Lusa

 

Por uma panóplia de razões tenho estado ausente do blog, mas não há plataforma melhor para manifestar-me perante os eventos mais recentes.

 

Ontem, nas últimas horas do dia -  que decidi que terminava pelas duas da manhã de hoje - não conseguia tirar os olhos da televisão. Tinha companhia, mas também não me apetecia dizer nada. A minha ilha ardia e eu só queria ouvir: a situação está controlada, não existem moradias nem pessoas em risco. À medida que o tempo ia passando apercebi-me que não ia ouvir o que queria: mais moradias ameaçadas, cada vez mais pessoas a serem evacuadas, enquanto outras tantas casas eram galgadas pelo fogo. Até o impensável aconteceu, o fogo passou a estar dentro da cidade, em várias zonas, sem que houvesse meios suficientes para cobrir todos os novos casos.

 

A omnipresença só a deus compete, bem sei, mas não o vi por lá - problemas técnicos, quiçá. Cheirava e sentia-se o inferno, não se via o céu. Os jornalistas diziam e nós viamos: "cenário dantesco", o "fogo maldito".

 

Isto já aconteceu antes. Não com fogo, mas com o elemento oposto, a água, no dia 20 de fevereiro de 2010. Estava no Funchal nesse dia, num centro comercial que acabou por ficar inundado, e vi o desespero de frente. Não perdi nem a vida nem bens, só precisei aguardar pela noite para sair da cidade.

 

Nem todos foram tão afortunados e muitos madeirenses precisaram perder tudo para que finalmente os "senhores lá de cima" começassem a tomar medidas preventivas -  umas mais eficazes que outras, sejamos honestos. Precisámos dessa catástrofe para começar a olhar para as ribeiras de uma outra forma, para perceber que uma ilha com a nossa orografia é mais exigente.

 

Como ouvi a filha do José Saramago dizer ontem, o governo não fez a sua parte. Há muito que o governo e os seus tentáculos na Madeira não fazem a sua parte. Os fogos em 2013 foram um aviso ignorado. Agora, em pleno agosto de 2016, são mais de mil deslocados, dezenas de casas ardidas e três mortos. É esperar que os bombeiros façam o impossível e que, depois, tomem uma atitude preventiva em 2019. A prevenção tem de começar agora, hoje, em todas as zonas suscetíveis. Agosto nem a meio se vai!

 

O primeiro ministro diz, com razão, que os fogos não podem ser apenas combatidos quando já deflagraram, o combate tem de começar antes. Há muito que dizemos isto, mas temos uma ilha e um país a arder. A natureza tem o seu quê de responsabilidade, mas é um "quê" que quase não se ouve - 1%, abutres!

 

Hoje, na RTP, falava-se da condição humana, afinal 99% dos fogos não têm causas naturais - leia-se: há mão de homens, sim, com h minúsculo. No Funchal já foram detidas várias pessoas. Enquanto a cidade ardia, duas pessoas foram apanhadas pela polícia a atear fogo - informação avançada pelo presidente do governo regional na conferência de imprensa desta manhã. É verdade, algumas pessoas numa ação que dura minutos conseguem destruir o que demorou vidas a construir. Para além da prevenção, parece-me que a justiça não consegue impedir que estes seres voltem a cometer tamanha atrocidade.

 

Negativismo de parte, não se esqueçam que há muita solidariedade, entre madeirenses e portugueses no geral. Um exemplo que vi ontem que pode parecer banal para alguns, para mim teve uma força brutal. Enquanto um homem, em entrevista, explicava o que ardia, um jornalista perguntou-lhe se o animal que tinha debaixo do braço era dele, ele disse que não, que encontrou a arara na rua. Estamos unidos, com vontade de ajudar tudo e todos.

 

Sei que a maior parte das pessoas a quem este texto vai chegar sente-se impotente, mas todos podemos fazer alguma coisa, sem correr riscos. Se estão na Madeira, comecem por acolher amigos em necessidade e os animais que andam à solta. Se não podem fazer isto, talvez possam contribuir com bens essencias. Se sim, desloquem-se ao RG3, na Nazaré. Não precisam de criar pânico, só mostrar que estão lá. Aos que, como eu, não estão e querem ajudar, a Caritas reforçou ontem que podem contribuir para o seguinte IBAN: PT50 0035 0697 00597240130 28.

 

4 comentários

Comentar post

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Copyrighted.com Registered & Protected 
HMLF-E7YY-MGTC-ZU7E

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D