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LEONISMOS

LEONISMOS

11
Out15

Entrevista a Saramago, das artes visuais


Leonardo Rodrigues

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Tal como recentemente prometido no Meet the blogger, cá está a entrevista que tive o gosto de fazer a João Saramago. 

 

O João, para além de ser quem desenhou a chávena de onde bebo café todos os dias, concebeu o logo do meu blog e é, para mim, outro Saramago, mas das artes visuais. Não me vou estender mais com uma introdução desnecessária quando há uma conversa que quer falar por si.

 

LR: Para quem não te conhece, qual a melhor descrição de quem és, enquanto pessoa e artista - se é que estes se separam?

JS: Um tipo calado, gosto de preservar o meu espaço e isolação e, ao mesmo tempo, atraem-me os contrastes, as multidões e o caos. Não sei sinceramente se existe alguma separação, penso essencialmente que somos ou estamos a ser qualquer coisa em qualquer momento em qualquer sítio, mutáveis.

  

LR: Abandonaste o ensino superior para seguir uma carreira. Ainda achas que essa foi uma boa decisão?

JS: Por vezes debato-me se tirasse um curso de ilustração ou pintura que o meu rumo seria diferente por estar dentro de um circuito e de ter mais oportunidades de carreira, porque conheces o amigo do amigo que te põe a ilustrar para um jornal. Mas pagar para ter atenção é uma acção desesperada. Enquanto a minha intenção não for aprender novas linguagens, meios e técnicas, prefiro não o fazer. É desonesto e uma perda de energia e também não me interessa decorar o currículo em prol de validação ou credibilidade. Tomei a decisão de abandonar a licenciatura por três motivos: dinheiro, desinteresse e tempo. Até hoje, a aprendizagem é constante, pois tens que ter disciplina e foco e fazer a manutenção dessas coisas, porque nem todos os dias te apetece desenhar. E quando tens um emprego, tens que "criar" tempo para trabalhar naquilo para que nasceste ser.

 

LR: A vida tem sido fácil com aquilo que te reservou?

JS: Não, tem sido desafiante. Não vivo da pintura nem da ilustração como gostaria. Trabalho num restaurante, pinto e desenho todos os dias. Contudo, estou feliz neste momento. Sei que as coisas levam o seu tempo e que só tenho que me manter focado e fazer. "Fazer" é importante.

 

LR: Qual o maior obstáculo que encontraste até hoje no percurso da tua carreira?

JS: Gostava de conseguir trabalhar mais rápido. Por vezes fico ansioso quando estou a pintar por olhar para o papel e ver que ainda falta bastante. Os meus trabalhos são demorados e reflexivos. Queria conseguir executar mais, mas é exaustivo. Creio ser um obstáculo diário fazer a gestão e manutenção de um estado produtivo e ainda encontrar a diversão nisso, pois nem sempre é divertido pintar, por vezes é extremamente exaustivo. Mas, quando o trabalho está terminado, não encontro sensação semelhante, é uma grande satisfação.

 

LR: Quando te contratam é fácil manteres a tua identidade num trabalho?

JS: Creio que sim, embora a identidade seja o eterno conflito. Dou por mim muitas vezes a pensar o que é que vou fazer, o que é que vou acrescentar de novo, e ao fazer pesquisa encontro trabalhos que por vezes me deixam frustrado mas, volto a mim e faço as perguntas de outra forma, o que é que me dá mais gozo fazer? Rapidamente apercebo-me do meu estilo e decido vou aperfeiçoar isto. Esta é a minha identidade. Gosto de trabalhar com esferográfica, depois de estar feita a pintura, de realçar os pormenores e criar formas elásticas e entrelaçadas, de encher a folha. Gosto do exagero e de encontrar beleza nisso. Ultimamente tenho estado obcecado por desenhar formas derretidas, vem-me sempre à cabeça as camadas de cera derretida, gosto disso.

 

LR: Parte do teu trabalho é duma natureza mais abstrata, do tal exagero que encontra a beleza. Mas há mais do que isto no teu trabalho, muitas das linhas assumem formas mais concretas, de rostos, figuras públicas e prédios, alguns parecem gritar. Que pretendes tu realmente gritar com o que produzes?

JS: Não sei. Não racionalizo enquanto pinto, nem tão pouco parto de algum conceito. Parto sempre da emoção. Quando tenho material suficiente para parar, gosto de ficar a pensar e é quando os conceitos brotam. E aí sim, posso desenvolver a coleção e a mensagem. Acho que todo o meu trabalho reunido é um ensaio para qualquer coisa senão uma coisa só.

 

LR: Os social media assumem cada vez mais um papel de relevo nas nossa vidas. Como é que estes se relevam para ti, enquanto freelancer?

JS: As redes sociais são um mais uma forma de divulgação. Por vezes pode ser um pouco intrusiva e perigosa até. Costumo ter uma postura muito clínica e fria no sentido em que não me deixo afectar pela relação de quantos mais likes, mais credível e aprovado estás. Elaboro estratégias e experimento fórmulas para comunicar e aproximar-me das pessoas. A intenção é mostrar o trabalho, não obter validação.

 

LR: Em que é que estás trabalhar neste momento?

JS: Recentemente, fiz alguns desenhos que nasceram de uma necessidade de disciplina e método e reuni-os numa coleção. Essas pinturas tornaram-se exercícios de meditação, cujo objectivo principal era o foco. Depois, calhou ser chamado pelo Gerador para participar na 2ª edição do Trampolim e pintar o tema "voar com os pés assentes no chão". Senti de imediato a ligação com o tema, pois fui apanhado numa fase em que estava - e continuo a estar - interessado nos significados de expansão e dispersão, que brotaram desses desenhos. Achei que tudo fazia sentido. Então, estou neste momento a finalizar a pintura de uma sala num palacete no príncipe real e, vai estar aberto ao público gratuitamente no dia 10 de outubro, este sábado.

 

O João já tem a sua loja online disponível, visitem aqui

 

Podem também ler as outras Conversas com Vista, clicando nos nomes abaixo:

 

Paulo Borges, Professor

Samuel Pimenta, Escritor 

 

 

20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

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 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

08
Set15

Call Center, O Monstro


Leonardo Rodrigues

Inicialmente, acho que só tinha coisas negativas para escrever. Agora, numa balança em que de um lado se coloca positivo e do outro negativo, tenho mais para pesar.

 

Não sou muito bom naquilo que faço, nem sei se o quero ser, sê-lo parece-se com desistir. Contudo, sendo eu uma pessoa com azar no amor e sorte no jogo, lá vou vendendo e cumprindo objetivos.

 

No trabalho, de tanto ouvir, já não quero ouvir. Aquele interesse por ouvir e saber mais, que quem me conhece reconhece em mim, como que vai desaparecendo a cada chamada que recebo. Já não quero que me expliquem como é viver em certa localidade, passemos adiante homens e mulheres!

 

A desumanidade atribuída a um operador de call center por quem está do outro lado da linha verifica-se e, confesso, também passei a atribuí-la ao cliente. As vozes têm todas um nome, Cliente. De serem tantas, quase que parecem iguais, apenas umas se fazem ouvir mais alto que outras. As perguntas e as respostas tornam-se automáticas e têm um objetivo comum, a venda.

 

Este é um trabalho digno deste século e, embora preze e use muito do que agora se inventa, não me agrada que toda a interação num trabalho se baseie no contacto com máquinas que dão acesso a uma ficha que, por sua vez, se faz acompanhar de uma voz mais ou menos irritada, com mais ou menos vontade de comprar.

 

Posto estes pensamentos pensados em horas menos boas, o trabalho, por vezes, dá-me vontade de sorrir. Conseguir que um cliente que é também um paciente com cancro solte uma gargalhada, não sendo essa a minha função, faz-me bem. Do outro lado da balança, que se faz sempre pesar, lembra-me que as empresas fazem contratos que asseguram unicamente o seu bem estar, não abrangendo o mau estar do cliente que se faz verifica com cancros, mortes, desemprego, mudanças de casa e afins. Talvez não seja o meu trabalho temporário a não ser humano, as empresas é que cada vez o são menos.

 

É-me difícil fugir do lado negativo, mas vou, novamente, tentar escrever-vos sobre o outro ingrediente. No outro dia emocionei-me, estava a fechar uma venda, mas pelo meio, enquanto o computador decidia se havia de cooperar, fui conversando, mais ouvindo, uma senhora. Esta chamada vai ficar comigo por algum tempo. Ela tratava-me como uma pessoa, eu tratava-a como outra. Começamos a trocar experiências de vida, o porquê não sei. A verdade é que a mesma tecnologia que pode destruir também pode aproximar.

 

A senhora tinha sido abandonada grávida, tal como a minha mãe o foi há 21 anos. Ambas criaram os filhos da melhor forma que sabiam, como podiam, com o apoio da família e de amigos – que chegam a ser mais família que a família. (Confidencio-vos que a minha mãe, para subsistir, chegou a levar-me, ainda bebé, para o nosso terreno e deixava-me num cantinho, muito bem aconchegado em mantas, enquanto lavrava a terra.) A senhora, que não posso revelar o nome, disse-me que deveria dar muito valor à minha mãe, que esta era uma “mãe coragem/guerreira” – ouvir isto deixou-me com uma lágrima no canto do olho. Nunca a tinha pensado assim, com este apelido que me parece tão forte. E, embora na altura a minha mãe não tivesse consciência disso, foi preciso muita coragem disfarçada de instinto.

 

Ao longo desta chamada não estive preocupado em anotar corretamente tudo o que era número, embora também o tivesse feito, mas sim o que ela me ia dizendo, palavra por palavra.

 

A senhora, ao prosseguir com o seu discurso de pessoa que viveu e aprendeu, disse-me que agora é feliz, que agora é realizada, mesmo depois de ter perdido aquele que seria o seu segundo filho. No que à família diz respeito disse-me que, sim, é importante, que é o pai dela “na terra e deus no céu”, mas que esta sua realização maior vem de ter encontrado o amor, um companheiro que a preenche. Afinal de contas a família que criamos – ou que pensamos criar, no meu caso - tem sempre um valor diferente daquela que nos é oferecida quando nascemos. ”Precisamos sempre de alguém, embora estejamos sempre a negá-lo”.

 

Agradeci-lhe as suas tão sábias palavras e disse-lhe que me sentia com sorte de a ter em chamada porque nem todos os clientes são assim e porque por vezes dizem o que dizem, ela respondeu-me da forma mais simples, “Não vale a pena sermos maus nesta vida, temos de entender o outro”. Numa palavra, Respeito!

 

Confidenciou-me, ainda e por fim, que depois de ter dado a luz o filho morto foi criticada por uma mulher qualquer por não ir sempre ao cemitério, à qual respondeu “olhe, se eu quiser chorar choro em casa, chorar na rua não me vai trazer a filho de volta.” Confiro.

 

Ter a oportunidade de desenvolver uma empatia com pessoas que nunca vi e que nunca vou ouvir outra vez não é das únicas coisas boas. Estes primeiros trabalhos, que embora não sejam nada fáceis, têm-me servido para desenvolver um sentido de responsabilidade maior e deixam-me com um grande jogo de cintura noutras esferas da minha vida.

 

Nos dias que correm este é daqueles trabalhos da praxe que grande parte dos jovens se sujeitam à medida que se vão tornando responsáveis pela sua vida, renda, comida, roupa, propinas, livros e cada gota de café que nos perfuma a alma – sim, porque não poder comprar café é uma preocupação que se sobrepõe à minha próxima propina.

 

Ah, e não se preocupem que tenho deixado um belo registo escrito das várias formas que a loucura e estupidez que um cliente pode demonstrar, mas só o irei publicar no blog assim que esta minha experiência acabe. Não posso precisar uma data, até porque os contratos que se vão assinando têm uma duração de quinze dias.

 

Quando era mais novo vivia um monstro debaixo da minha cama, mas não tinha nome. Depois, à medida que fui ganhado segurança e conhecimento do mundo que me rodeava, foi-se embora. O Call Center é apenas mais um que, tal como todos os monstros todos antes deste, só existe em fases de transição e crescimento, que não se demoram muito a ser ultrapassadas. Haverão outros, e que venham eles!

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@gratisografy

 

 

03
Ago15

Drama!


Leonardo Rodrigues

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Quando não há, inventa-se.

 

Porquê e para quê, perguntam-se e pergunto-me.

 

Chego a uma conclusão, o drama serve para conferir sentido. É a forma que alguns escolhem para dar sentido à vida que, de si, tem pouco ou nenhum. O esforço é mínimo, a irritação do povo que percebe máxima. E isto, diga-se de passagem, é mórbido.

 

Mas, mórbido ou não, o entretenimento egoísta de um dos intervenientes é sempre garantido. Entretem-se reproduzindo uma telenovela que sempre teve e terá o mesmo enredo e onde apenas, com sorte, se varia o nome das personagens.

 

Pois bem, se há coisa que sei é: quando a telenovela começa é hora de mudar o canal.

 

22
Jul15

Entrevista a Paulo Borges


Leonardo Rodrigues

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Foto de Adama 

 

Hoje dou início a uma nova rubrica no blog, Conversas com Vista. Tenho dizer que não poderia ter escolhido melhor Pessoa do que Paulo Borges para começar. Houve aqui espaço para conversar um pouco sobre tudo: da meditação à família, do afastamento do PAN à candidatura a Presidente da República. Que a Conversa fale por si e alargue as Vistas de quem ler.

 

LR:  Quem é Paulo Borges?

 

PB: A designação que as convenções humanas dão a um fluxo de consciência e energia inseparável de todo o cosmos e sem princípio nem fim.

 

LR: “Nós pensamos sempre menos do que aquilo que somos”. Disse isto enquanto falava  acerca de budistas, no 5 Para a Meia Noite. Porque é que estamos constantemente a diminuirmo-nos? 

 

PB: Porque a consciência condicionada pelo pensamento e pela linguagem está sempre vários graus abaixo do nosso ser ou natureza ilimitados e profundos. Mas muitas vezes fazemos exactamente o contrário e vangloriamo-nos disso que em nós é mais estreito e pequenino, pois é com isso que nos identificamos, devido às nossas ilusões, incentivadas pela pressão familiar, educativa e social.

 

LR: Procuramos constantemente a felicidade no exterior, quer seja em coisas ou pessoas - a sociedade assim o ensina. Como é que o Paulo colocou o travão neste sistema de coisas?

 

PB: Eu estou apenas em processo de travagem e de reorientação desse impulso para a descoberta da paz e da felicidade nas coisas simples que nada nem ninguém nos pode dar ou tirar: a alegria de ser, o prazer de respirar, a volúpia de contemplar o mundo, o dom de amar e ser grato... A partir daqui podemos relacionar-nos com os outros e o mundo de outro modo: não centrados na carência e no desejo egocêntrico de ser felizes (que tantas vezes nos levam a instrumentalizar os outros), porque já o somos, mas na correspondência amorosa e compassiva às necessidades reais dos outros seres. Para mim a reflexão e a meditação têm sido o caminho fundamental, após o inevitável e precioso fracasso e dor da frustração da busca da felicidade no exterior.

 

LR: Parar de olhar para o exterior implica olhar para dentro. Contudo, isto por vezes dói, nem toda a gente gosta do que lá está. Há alguma forma simples de se chegar à auto aceitação?

 

PB: Creio que chegamos lá quando vemos que não há alternativa e que não adianta continuarmos a fugir para a frente, inventando histórias cinzentas ou cor-de-rosa acerca de quem somos, pois nunca escapamos à verdade nua e crua do que vamos sendo, tal qual.  No fundo a auto-aceitação não é difícil. Muito mais difícil é querermos ficar apenas com uma parte do que há em nós, suprimindo o resto, ou transformarmo-nos numa versão ideal de quem supostamente deveríamos ser, a nossos olhos ou de acordo com as expectativas alheias, o que só gera conflito, ansiedade e sofrimento. A verdadeira transformação acontece quando aceitamos trabalhar com a matéria-prima da nossa experiência, sensações, emoções e pensamentos, a cada instante. Se entrarmos a fundo na sua natureza poderemos ter a grata surpresa de descobrir que, por mais obscuros, limitadores e negativos que pareçam ser, há lá no íntimo um silêncio, uma paz e uma luz sempre presentes. A meditação é aqui uma vez mais fundamental.  

 

 

LR: Para além de Filosofia, ensina a meditar. Como é que a meditação funciona? De que modo é que esta prática nos possibilita uma mudança no relacionamento que temos connosco, com os outros e com o mundo?

 

PB: A meditação é o treino regular para reencontrar o estado natural da consciência, atenta ao aqui e agora, ao que se passa no corpo, na respiração, na mente e à nossa volta, de modo calmo, descontraído, claro e livre de juízos, apego, aversão, medos e expectativas. Com a mente serena e atenta, começamos a sentir e compreender que não estamos separados do mundo e de nenhum ser vivo. Entramos a pouco e pouco num estado menos dual de consciência onde a empatia amorosa e compassiva se estendem naturalmente a todas as formas de vida, sem discriminações. Claro que, enquanto estamos no caminho, como é o meu caso, não ficamos sempre neste estado, porque ressurgem os hábitos mentais e tendências emocionais dualistas que estão fortemente enraizados, mas temos vislumbres que não nos deixam dúvidas de que o aperfeiçoamento, o despertar e a libertação são possíveis. 

 

LR: Sei que medita duas vezes por dia, no entanto durante o correr do dia muitas são as distrações, muitos os pensamentos. Como é que se pode trazer a atenção para o aqui e agora, em qualquer situação?

 

PB: Treinando-nos a prestar a cada instante atenção ao que estamos a sentir e pensar e ao que está a acontecer. Se caminhamos trazemos a atenção para o contacto dos pés com o solo, se tomamos banho sentimos a água a correr pelo corpo, se comemos sentimos bem o sabor dos alimentos, se conversamos prestamos atenção ao som e ao sentido das palavras, se temos emoções observamo-las, se pensamos contemplamos os pensamentos em vez de nos perdermos neles, se vemos o mundo à nossa volta contemplamos o que vemos sem nos distrair com juízos e interpretações. Podemos usar estratégias como programar um sinal no telemóvel para, de 30 em 30 m ou em períodos mais estreitos, nos recordar para sairmos do piloto automático ou dos devaneios no passado e no futuro e prestarmos atenção ao momento presente. Se nos sentarmos uma, duas ou mais vezes por dia a treinar isto, torna-se mais fácil manter ou reencontrar a atenção plena em todas as situações. A isto chama-se meditação em acção, que não pode dispensar a sua base, a meditação formal sentada, numa almofada ou numa cadeira. Explico isto mais detalhadamente no meu último livro, O Coração da Vida, um guia prático de meditação. Considero a meditação, como alguém disse, a “grande Revolução Silenciosa do século XXI”, que está hoje no centro das atenções das neurociências e a entrar cada vez mais nas escolas, nas empresas, nos hospitais e nos projectos de transformação social e de sensibilização ambiental. 

 

LR: Quando é que se apercebeu que matar para comer não faz sentido?

 

PB: Desde criança que me vinha à mente o pensamento de que os animais que eu comia tiveram de ser mortos e que certamente não o desejaram e tinham sofrido terrivelmente com isso, mas como eram pensamentos incómodos e não via alternativas rejeitava-os e pensava noutra coisa. Até que a consciência despertou para isso ser eticamente inaceitável e haver alternativas muito acessíveis e bem mais saudáveis. Todos ganham com uma dieta vegetariana e de preferência vegana, os animais, os humanos e a Terra, pois o consumo de produtos de origem animal tem um imenso impacto ambiental. 

 

LR: Que lhe ocorre quando pensa a morte?

 

PB: Num sentido uma mudança um pouco mais profunda e imprevisível do que aquela que acontece a cada instante (pois sinto que morro e renasço a cada momento), uma vez que será acompanhada do fim do funcionamento do corpo e da percepção actual do mundo. Noutro sentido, uma transformação na continuidade, pois não me parece possível que o fluxo da consciência se interrompa. Devo dizer que desde criança, muito antes de me reconhecer na visão budista do mundo, sentia claramente que tinha existido antes do nascimento e que continuaria a existir depois.

 

LR: Muitas vezes ao lê-lo e ouvi-lo noto uma certa descrença face aos sistemas e aos partidos para dar resposta aos problemas do mundo. É esta descrença que o leva a abandonar o PAN?

 

PB: Sinto essa descrença desde a adolescência, apoiada em tudo o que vi durante e após o 25 de Abril de 1974 e na leitura que faço da história política da humanidade. Desde muito cedo que adquiri uma consciência libertária e me tornei convicto de que a luta pelo poder e a posse do poder corrompem o que há de melhor no ser humano. Fiz todavia um esforço por contrariar essa descrença ao ver surgir e abraçar um projecto como o do PAN, que me pareceu tão solidamente alicerçado em bases éticas e altruístas que poderia efectivamente ser um partido diferente, ou seja, como no slogan que propus e foi aceite, “um partido inteiro, pelo bem de tudo e de todos”. Infelizmente constatei a minha ingenuidade e confirmei, por tudo o que vi e acompanhei tão de perto, que um partido político atrai por natureza pessoas ávidas de protagonismo, carreirismo e poder e estimula o que há de pior no ser humano (não me excluo, de modo algum). Os partidos políticos e a democracia representativa a meu ver promovem inevitavelmente o carreirismo dos dirigentes e a desresponsabilização dos eleitores, que acham que a cidadania se cumpre com a participação num acto eleitoral de vez em quando. Por tudo isto saí do PAN para abraçar o novo projecto de que falo mais à frente.

 

LR: No seu website lê-se que à semelhança de outras grandes personalidades anseia pela “criação de uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, políticas e religiosas”. Estamos no caminho certo? Será tal coisa possível?

 

PB: Creio ser possível tudo aquilo que os seres humanos desejarem com suficiente energia e empenho. Tudo depende de acharmos ou não que isso seria o melhor para todos e para o planeta. Quando falo nessa comunidade ético-espiritual mundial que superasse as diferenças religiosas, culturais, nacionais e ideológicas, não quero dizer que as anulasse, mas que as integrasse numa harmonia superior, onde pudessem coexistir e conviver num diálogo pacífico, compreensivo e harmonioso. Creio que há cada vez mais seres humanos que se encaminham nesse sentido, embora haja também muitos movimentos e fenómenos de sinal contrário, como os fundamentalismos de todos os tipos. Acredito todavia que esse é o melhor caminho para a paz exterior e interior na Terra.

 

LR: Algo que sempre me incomodou, desde muito novo, é não ter a certeza se o conceito de verdade existe. O que é que o Professor Paulo Borges diria a um dos seus alunos perante tal inquietação?

 

PB: Bom, creio ser inegável que existem diversos conceitos acerca do que é a verdade, por sinal muito distintos entre si. O que podemos duvidar é se há realmente uma verdade para além dos distintos conceitos ou interpretações acerca do que é a verdade. Tendo a pensar, também baseado na experiência meditativa, que essa verdade existe, no sentido de uma natureza ou essência profunda do real, de todas as coisas e de todos os seres, infinita e ilimitada, mas que é por isso mesmo completamente impensável, inconceptualizável, indizível e inimaginável, pois transcende completamente os limites dos nossos conceitos, palavras e imagens, que por natureza só nos permitem expressar coisas e objectos definidos pelos sentidos e pela mente. Mas o facto de ser informulável e não poder ser jamais captada numa doutrina ou teoria – seja científica, filosófica ou religiosa – ou numa representação imagética, não significa que a ciência, a filosofia, a religião e a arte não nos possam dar vislumbres dela e que não se possa de todo experimentar de forma directa, por exemplo no silêncio ou em experiências de abertura da consciência, quando abandonamos tudo o que julgamos ser ou saber. Isso acontece, como dão conta inúmeros testemunhos desde há milénios até aos dias de hoje, em todo o tipo de estados diferenciados de consciência: na meditação e na contemplação, na oração, na dança, no yoga, na exacerbação do movimento físico, no arrebatamento erótico ou amoroso, na plenitude do acto sexual, na fruição estética, no êxtase criador, na comunhão com a natureza, etc., etc. 

 

LR: Do seu mais que vasto currículo e bibliografia, qual considera ser o maior feito?

 

PB: O que nunca fiz nem farei. O infinito que jamais se faz e antes nos desfaz, a nós e a tudo o que fazemos, dizemos e pensamos. É isso que me move e inspira em tudo o que penso, digo e faço. 

 

LR: Colocando de parte a vertente profissional, de que é que se orgulha? O que faz de si uma pessoa realizada?

 

PB: Nos meus melhores momentos, o não me orgulhar de nada e nem sequer sentir que existo como alguém ou algo, distinto dos outros e do mundo. 

 

LR: Em que pilares assenta a sua família?

 

PB: Sinto que herdei da minha mãe e da minha avó materna o amor pelos animais e do meu pai e avô paterno o amor pela justiça social. Do meu pai recebi também o gosto pela espiritualidade, pela filosofia e pela busca de conhecer as leis fundamentais da vida. Tenho a alegria de ter hoje uma família alargada, com a minha companheira, filhos, irmã, cunhado e sobrinhos onde o amor por todas as formas de vida e uma ética da não-violência são princípios e valores sólidos. 

 

LR: Tem alguma novidade para breve que queira partilhar? 

 

PB: Sim, que sou candidato à presidência da República em 2016 e que esta candidatura é simultaneamente o lançamento de um movimento cívico apartidário que visa criar um dinamismo social permanente para o Bem comum dos humanos, dos animais e da Terra fora da política convencional. A candidatura / movimento chama-se Outro Portugal Existe e pretende constituir uma plataforma de pensamento e acção que desenvolva e promova tudo o que já se faz em Portugal, em sintonia com iniciativas semelhantes em todo o mundo, de ético, saudável e sustentável, nos mais diversos domínios. Procuramos consciencializar esses diferentes grupos, iniciativas e pessoas de que já convergem para um paradigma cultural e civilizacional alternativo ao que hoje entra em crise e morre. Se todos nos unirmos, mais facilmente poderemos ser desde já a diferença que queremos ver no mundo e relativizar o Portugal institucional, do Estado, dos governos e dos partidos, a um papel marginal e cada vez mais insignificante na nossa vida colectiva. 

Para a candidatura seguir em frente necessitamos de 7500 assinaturas e se desejarem ajudar a recolhê-las podem escrever para amigos@outroportugalexiste.pt

 

LR: Ficou algo por ser dito?

 

PB: Tudo está sempre por ser dito, mas menos com palavras e mais com a Vida.

 

27
Jun15

O Facebook, o Arco Íris e os Monocromáticos do Restelo


Leonardo Rodrigues

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Ontem, assim que me apercebi que o Facebook estava a celebrar algo que me parece determinante para o curso da Humanidade, claro que decidi fazer parte. Afinal de contas estava a fazer um pequeno contributo para a comunidade LGBT, para a normalização do que sempre foi natural e a ganhar uma foto de perfil nova, cheia de vida e de cor. 

 

Minutos depois, fiz o upload da fotografia mais colorida que alguma vez tive no Instagram. Olhem, em 10 minutos perdi mais de 10 seguidores, acho que isto diz muito. Não me incomodou, se lhes é difícil percepcionar uma paleta de cores variadas prefiro que não me sigam. Não deve ser fácil viver num mundo monocromático, eu percebo-vos e têm todo o meu apoio - para procurar ajuda. 

 

Hoje, enquanto regressava do supermercado - espero mesmo que desta vez a comida dure a semana toda - observava toda a diversidade caraterística de Alcântara. Houve progressos sim senhores, já não se gritam insultos, não se muda para o outro lado da rua, nem se espanca ninguém só por ter uma cor diferente. Até sorrimos uns para os outros, vejam lá. E isto é o que me parece, mas também nunca fui dessas coisas, lembro-me, por exemplo, de me meter em confusões para defender um rapaz negro no secundário. Enfim, por outro lado, se alguém na rua for remotamente identificado como homossexual ainda há um insultosito que se tosse, um escarro que teve de tem de ser cuspido naquele preciso momento e que se acompanha de um olhar reprovador.

 

Vejam lá se as seguintes frases fazem sentido: Concordo com isso de se ser preto, mas se fosse na minha família já não achava muita piada;  Pretos, até podem ser, mas dentro de casa; Não me venham com essas pretalhisses; Preto com branco, onde é que já se viu?; Não percebo porque escolheram ser pretos, o branco não é mais bonito?

 

Não me ocorrem mais disparates. Quem estiver a ler isto pode considerar que não posso comparar o racismo com homofobia. Posso, e sabem porquê? Porque são ambas aversões ao que é natural, ao que não se escolhe. Vou dizer duas coisas básicas: a homossexualidade foi observada em mais de 300 espécies e, tendo em conta toda a descriminação que ainda há, acham mesmo que alguém iria fazer tal escolha? Acho que isto chega para meditar.

 

Sempre houve uma aversão perante que é desconhecido, estranho, diferente. Estas palavras costumam confundem-se com o errado. Quando as pessoas se familiarizam com os assuntos começam a ver as coisas com outros olhos. O Facebook fez a sua parte e eu estou a fazer a minha. 

 

Bom fim de semana!

 

P.S. Se quiserem uma foto mais colorida cliquem aqui.

05
Mai15

Dr. Mouco, amigo de Pessoa e compadre de Salazar


Leonardo Rodrigues

orpheu_img.jpeg

Se não sabem quem foi o Dr. Mouco, muito provavelmente também não sabem quem foi Albino Menezes, e são a mesma pessoa. Embora tenha estudado a maior parte da minha vida numa rua com este nome, por pouco não soube, mas por pouco sabíamos todos.


Digo isto porque este senhor, se não fossem as dificuldades financeiras dos que viriam a ser grandes a título póstumo – Fernando Pessoa, Almada-Negreiros, Mário Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor - , talvez também pudesse ter vindo a ser um conhecido do público português, através da publicação atempada do terceiro número da Revista que marca o início do Modernismo em Portugal e a rotura com o Realismo, Orpheu.


Não há grande informação sobre o Dr. Mouco, então, há dois anos, fui convidado a ir para a rua descobrir o que podia sobre o senhor. Na altura vivia no Faial, freguesia do concelho de Santana, naturalmente que poucos tinham algo a contar, e os que tinham eram os tão sábios mais velhos. Como devem calcular não descobri nada sobre a sua obra, mas sim o que anda de boca em boca numa terra em que os pontos acrescentados aos contos são mais do que muitos.


As pessoas com quem falei descreveram-no como boa pessoa, bom escritor, educado, alto, nem magro nem gordo. Devido a certas atitudes uma senhora disse-me que este era um “aloucado”. Esta fama ou má fama fica a dever-se às trocas que fazia do registo da população, no decorrer das suas funções enquanto conservador do Registo Civil de Santana. Não só trocou datas de nascimento, como trocou e adulterou nomes.


Estas trocas deviam-se à sua condição de mouco. A sua audição foi afetada aquando de um ferimento em tempos de guerra. Ainda assim, há quem conspire que o senhor tanto estudou para se tornar doutor que enlouqueceu, passou a ser um “aloucado”. Estas pequenas loucuras levaram a certos problemas. Uma das senhoras com quem falei teve dificuldades em casar uma vez que a data de nascimento que constava nos registos da igreja diferia da que estava no Registo Civil.


Outra fonte revelou-me que um dos seus tios ficou com o mesmo nome do seu respetivo pai,  em vez do originalmente desejado, António de Sousa Freitas, acabou como Manuel de Sousa Freitas, filho de Manuel de Sousa Freitas.


Grande parte daqueles com quem falei mencionaram o facto de o Doutor Mouco ter um “magote de filhos”, filhos estes “que o seguiam que nem cachorrinhos”, para onde quer que fosse. Segundo consta, quando isto acontecia, gritava-se “Olha! Olha! Lá vai o Doutor Mouco com os filhos atrás!”. Conta-se, ainda, que estes seus filhos eram de uma empregada de São Jorge. Não me sabiam dizer muito sobre a mesma, apenas que tinha cabelos longos, que era uma “brutalhoa”, uma “jangalheira”, expressão que dá conta do não saber andar, de andar com um “andar jogado”.

 

Algo que advinha da sua profissão eram as deslocações deste até à freguesia do Faial para deixar em casa de “Domingos da Venda” os registos, documentos oficiais. Contudo, esta visitas ao Faial não se resumiam a negócios. Negócios e prazer, ou tentativa de prazer, misturam-se - sempre. Embora este nutrisse uma grande estima pela empregada com quem estava “amigado”, o doutor aproveitava estas visitas para visitar uma viúva rica, a quem pediu em casamento, muitas vezes. A filha da dita senhora lembra-se de que o doutor se apresentava com uma toalha de cetim a cobrir os ombros e dizia: “Não se assuste com esta fileira de filhos, que são filhos de uma mulher vulgar”. A viúva que cumpriu luto fechado, durante 15 anos, usando um tule preto, uma espécie de chapéu que cobria a face -  destinguindo-a, assim, das pobres que se restringiam ao uso de um lenço – , luvas pretas e vestido a condizer, não aceitou. Limitava-se a ficar atrás do balcão da “venda” da qual era proprietária.


Para além destes mexericos ou "bilhardices", como se diz na minha terra, descobri algo de interessante, este "Doutor" não só estudou com António de Oliveira de Salazar – “Doutor Salazar” - , como veio a ser seu compadre.


Atualmente, no Faial, ainda vivem netos e bisnetos desta personalidade. No entanto, a forma como vivem talvez não faça jus a este grande homem, que foi, erradamente, considerado louco.

 

Louco ou não, de médico, poeta e louco todos nós temos um pouco.

 

(A primeira versão deste meu trabalho foi publicada na revista Pedras Vivas, por quem me reensinou a escrever e a pensar, a minha professora de português do secundário, Maria Vieira.)

24
Abr15

30


Leonardo Rodrigues

 

Fonte: U.S. Antarctic Program Photo Library

 

Trinta foram os minutos que disse que iria escrever por dia, não a mim, mas a quem perguntou.

Uma alma caridosa gravou-me um áudio que dizia "Escreve meia hora Leonardo", três vezes, e ouvia-se também um piano.

Esta noite voltei a ouvir o piano, mas em imagens.

Bastaram-me trinta segundos de um documentário sobre a Antártida (Antarctica: A Year on Ice) para saber que a dada altura da minha vida quero afastar-me de tudo, experimentar silêncio, solidão, paz de forma absoluta – mesmo que por um dia.

É pouco provável que me deixem experimentar estes clichés todos lá. Ainda assim, há algo a passar-se por aquelas terras geladas que não acontece em mais lado nenhum, que eu nem sabia que o homem é capaz de fazer: NÃO INTERFERIR.

Isto do não interferir não vem de uma passividade mórbida, mas de um respeito absoluto pela natureza e pelo que é. Lá deixam que as coisas tomem o seu curso. Uma das imagens que mais me chocou foi ver uma foca que se desviou do caminho morrer. Se não estivessem a observar, as coisas iriam processar-se exatamente da mesma maneira. A foca iria perder-se, morrer, congelar, descongelar e servir de alimento a uma ave qualquer.

Naquela morte vi uma certa beleza, sabia que não fazia mal, é o que é suposto acontecer e, garantidamente, vai acontecer com tudo e todos.

No mundinho em que vivemos interfere-se. Cortam-se milhões de árvores que estão ali porque sim e plantam-se algumas para ladear as avenidas que impermiabilizaram quilometros de terra. Pegam-se em animais inocentes, alimentamos com comida geneticamente modificada e depois matamos. Deus nos livre  de deixar uma cadeia de fast-food abrir falência.

Não me apetece dar mais exemplos, mas tal como me disse muitas vezes a minha mãe, "às vezes mais vale tar quiete".

Se têm mais de 30 ou não, não importa, estarão sempre em idade de se manterem quietos e observarem.

Podem, quiçá, só precisar de 30 segundos.

 

Fica aqui o trailer do documentário para quem quiser ver:

 

 

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